Violência argumentativa

Consistentemente sente necessidade de afirmar sua “honestidade intelectual”. Faz isso com a mesma frequência com que acusa seus interlocutores discordantes de “desonestidade intelectual”. Desconhece o debate. Prolifera na agressividade e na violência, onde acredita triunfar devido aos aplausos de uma claque adestrada. Composta por personalidades dependentes e ansiosas por agradar aqueles que identificam como detentores de status e poder, a claque se caracteriza pela disposição à submissão. Não desistem da esperança de um dia receber  qualquer migalha lançada do Olimpo inventado, onde habitam os deuses raquíticos que elas mesmas criaram.

Como é típico aos covardes, quando confrontado, nosso herói às avessas procura esconder sua fragilidade sob o manto vil da virilidade, ingrediente essencial de toda forma de opressão. Se um interlocutor aponta um caminho distinto do seu credo, que assume infalível e inquestionável, responde com a desqualificação do mesmo. Outra estratégia frequente é o argumento de autoridade e a ameaça pessoal. Em sua defesa diz que só trabalha com dados e acusa o interlocutor discordante de miopia ideológica. Para ele, esse tipo de interlocutor é “um merda”, adjetivo carinhoso que distribui sem economia.

Como bom crente, deposita toda a sua fé em um deus: o mercado, que parece visitá-lo com sua mão invisível em noites frias e solitárias. Com fé inabalável e devota, insiste na certeza de que o mercado, como entidade sobrenatural, tudo salva, tudo regula e tudo protege, pairando acima do bem e do mal; e o mal, é claro, é o Estado. É como se fosse um bebê ainda, e tivesse nascido depois de 2008.

Evidentemente, para tudo a melhor solução que oferece é sempre privatizar. Tudo. Sempre.

Nem sempre.

“Em países onde os mecanismos de governança estão consolidados, e as instituições são fortes o bastante para inibir e coibir a corrupção, estatais até podem funcionar. Mas no Brasil…” Então a ordem é privatizar. Vender tudo. Não importa para quem. Não importa como. “A solução tem que ser agora!”. É taxativo.

Se você acredita que ele tira essas informações do meio das axilas, bem, talvez você não se engane. O especialista se defende com fatos. As ideias que defende são todas baseadas em pesquisas que ele mesmo fez. Onde publicou? Não, não foi em uma revista científica relevante, sequer passou por revisão de pares. Mas ele desafia: “Eu trouxe dados. E você? Mostre seus dados!”.

Citando a si mesmo como fonte, toda a sua argumentação é inquestionável. Lembra? Se você discordar dele, é por pura “desonestidade intelectual”. Ele não. Tem até a própria claque deslumbrada, ostentando uma inveja mal disfarçada de  admiração.

É que nosso intelectual é um cara que venceu. Com uma história dura de superação de homem branco, hoje afirma seu bom gosto e sofisticação oferecendo generosos banquetes. As garrafas de álcool que enfeitam a mesa, rendem longas conversas despretensiosas sobre o poder aquisitivo que compra e esbanja. O poder é evidente no dinheiro liquefeito em malte que os bêbados seguem entornando goela abaixo.  É o poder de compra que pode ser queimado em cinzas de charutos repousando entre lábios satisfeitos. Tudo liberado. Sem mesquinhez. E, sem mesquinhez, voluntaria o preço disso e daquilo, o que parece atiçar a sede de álcool, a fome de embutidos importados ou a ansiedade por sugar fumaça de tabaco. A claque delira.

Mas, divertido mesmo é ver o autoproclamado liberal de esquerda jogando seu canto de sereia pra quem é surdo à melodia.

— Whisky? — Não bebo álcool. Obrigado. Tem água?

— Um cubano? — Não fumo… Abre a janela? A fumaça tá incomodando.

Como dominar quem não se submete às normas do imaginário que você habita? Não domina. A solução? Hostilizar. Desacreditar. Se tudo falhar, eliminar.

E o liberal de esquerda, convicto da baixeza moral e viciada do Estado, sentencia: “prefiro botar dinheiro na mão do pobre do que pagar salário pra funcionário de estatal”. Continua: “você sabe, o funcionário da estatal ganha acima do valor do mesmo cargo no mercado privado”. Evidências? Não precisa. Ele disse. Ele sabe. Ele sempre sabe.

Alguém arrisca: “mas as responsabilidades são as mesmas? As competências são as mesmas? Os salários que o mercado pratica são justos? Se há discrepância, o correto seria mesmo jogar todos os salários para para baixo, supostamente para o patamar do mercado?”

A besta fera da economia salta: “não importa! O mercado não é justo e nem injusto. O mercado regula! O mercado pune! Você tem que ser competente. O que não pode é sustentar vagabundo”.

É isso. Está dito. Privatiza. Mediocriza o salário de todo mundo. Não trabalha pra fortalecer instituições, democracia, governança. “Não dá tempo”, é o que ele diagnostica. Além do mais, o papel do Brasil é servir. Esqueceu? Somos o celeiro do mundo. O estábulo. O galinheiro. O puteiro. O cercado dos porcos.

A claque? Curtindo, aplaudindo, repetindo, amplificando. “Ain, professor…”. É que a besta fera é professor de instituição privada. E afaga o pupilo obediente: bom padawan, vem aqui, pega mais álcool engarrafado que eu trouxe da Ásia, é caro.

Ah, … como ele é bom.