Cidade é pra gente ou Parem de culpar pedestres por um planejamento pobre

Logo cedo, uma matéria do Bom Dia Rio se estendeu por mais de 3 minutos na culpabilização de pedestres pelo alto número de atropelamentos em vias urbanas. As tomadas e entrevistas com pedestres foram realizadas em pontos próximos a passarelas em ruas e avenidas como Brasil, Ayrton Sena e Américas.

Se existe passarela, por quê o pedestre se arrisca? Queriam saber. Deram voz apenas aos pedestres em passarelas. Os argumentos postos por estes: falta de cultura, falta de educação, irresponsabilidade, falta de apreço à própria vida.

Para atravessar uma passarela, o pedestre, que faz uso da própria energia para se movimentar, precisa subir e descer de um patamar que pode variar de 3 a 6 metros de altura. O pedestre jovem, adulto, saudável e sem restrição na mobilidade já é penalizado. Imagine como fica o pedestre idoso, a criança ou pessoas com mobilidade reduzida? Enquanto isso, a pessoa que se desloca de modo sedentário, dentro de um veículo motorizado, segue livre e sem obstáculos sempre no nível do chão. Faz sentido?

Nem entro no mérito de que nem sempre as passarelas tem rampas, obrigando que pedestres escalem degraus do chão à passagem. Também não vou comentar sobre o desconforto da ausência de cobertura que expõe o pedestre aos ventos, chuvas ou sol quente. Deixo apenas uma provocação. Qual é a racionalidade capaz de conciliar o discurso carregado do desejo de reduzir índices de poluição nas cidades e estimular práticas saudáveis no combate ao sedentarismo com o desestímulo ao transporte ativo?

Talvez a racionalidade esteja aqui: hipocrisia. Talvez, na verdade, as cidades não devam mesmo ser para pessoas. Talvez as pessoas sejam apenas um inconveniente necessário para produzir e gastar, mas que não devem atrapalhar que a cidade aconteça.

Sem gente? É. Parece.

A passarela de pedestres seria, portanto, uma solução genial. Ela subtrai o problema gente. Fica aquela estrutura feiosa pendurada sobre o asfalto quente e atrapalhando a visão do maciço montanhoso pela janela do carro, mas, ao menos, elimina o inconveniente pessoas do trânsito. Aí é bom. Dá pra correr. Meter, o quê, uns 90km/h, mais? Maravilha. Saio do meu caixote cedo. Entro na minha caixinha motorizada, fecho o vidro, ligo o ar, amanso as crianças com uma telinha de LED nas costas do banco. Deposito as crianças na penitenciária, digo escola. Acelero pro trabalho. Estaciono minha caixinha motorizada. Entro na caixinha elevador. Vou pra minha caixinha escritório. Depois é só inverter a rota. Todo dia.

Agora sim. Isso é vida. As passarelas higienizam o trânsito ao retirar as pessoas da equação. Com isso, as vias ficam livres para motorizados realizarem velocidades altas e incompatíveis com a vida. Ué. Mas então não é isso o que causa atropelamentos e mortes? O reporter ignorou.

De todos os exemplos de travessia por passarela da reportagem apenas um era passagem subterrânea. Fica sobre a Avenida das Américas. As passagens subterrâneas exigem menos dos pedestres. O desnível em relação à rua não passa de 3 metros. Além disso, elas são cobertas. Que bom. Assim deu para eliminar o problema gente da cidade e deixar a vida fácil para os ciborgues sem sacrificar tanto esses frágeis humanos.

Porém, nem o número de passagens subterrâneas é tão expressivo quanto o de passarelas suspensas e nem aquelas são sempre exatamente seguras ou higiênicas. Deixa ver, vou pelo buraco escuro, deserto e mal cheiroso ou tento a humanidade de um motorista que desacelere ao me ver correndo na avenida? Escolha difícil, né?

Para provar a tese da matéria, de que pedestres são imprudentes, irracionais e sem educação, o repórter faz a travessia pela passagem subterrânea. Calcula o tempo. Chega a, segundo ele, meros 3 minutos. Menos tempo que a duração da reportagem. Desconsidera, entretanto, que é um homem jovem, saudável, adulto e com uma altura de aproximadamente 1,80 metros. Talvez esse tempo não seja o mesmo para uma criança, para um idoso ou para alguém com mobilidade reduzida. Diante de sua alta performance na travessia, conclui com uma pergunta: por quê arriscar? Será mesmo imprudência, irracionalidade e falta de educação?

Certa vez conversei com uma família “encurralada” às margens do rio de aço. Queriam chegar ao outro lado. Eram mulheres e crianças. Estavam bem perto dessa passagem subterrânea, mas optaram por não usá-la. Me explicaram o porquê. Para ler, clique aqui: https://derivanavegante.com/2017/10/19/foi-feito-pra-quem/

Mas, olha que bacana: um planejamento urbano e suburbano que tivesse como referência gente desenharia vias que privilegiassem o trânsito de pedestres e ciclistas ao nível do chão. Para isso, os automotores precisariam se desviar, claro. Mas esse desvio, além de fisicamente não sacrificante para motoristas, não seria muito superior a 2 metros. Então, por quê o pedestre precisa escalar até 6 metros ou descer até 3 metros por um túnel muito provavelmente inseguro ou insalubre?

Calma, gente. Esta não é uma revolta contra as passarelas. Passarelas ou passagens subterrâneas são soluções de acessibilidade e segurança para pedestres e ciclistas. Mas passarela e passagem subterrânea não é confete no carnaval. Por isso, na hora de separar o trânsito de carros, pessoas e bicicletas, elas devem ser o último recurso. Antes delas, existem outras estratégias possíveis e mais desejáveis.

Repare, se a área é urbana e se o fluxo de pedestres e ciclistas é alto, a prioridade é de quem usa meios ativos para transitar na cidade.

Deixa eu repetir: se a área é urbana e se o fluxo de pedestres e ciclistas é alto, a prioridade é de quem usa meios ativos para transitar na cidade.

Quer dizer, antes das passarelas e passagens subterrâneas, que se reduzam as velocidades dos automóveis. Que sejam instaladas travessias seguras e acessíveis no nível da rua. Que sejam feitos desvios para os carros e não o contrário.

Para o reporter fazer uma matéria melhor da próxima vez, deixo uma dica. Por quê o pedestre se arrisca entre os carros? Porque aquele projeto não contempla pedestres e ciclistas.

Link para a matéria – Bom Dia Rio (22/10/2019): https://globoplay.globo.com/v/8023222/programa/

A humilhação do pedestre

Os shoppings centers na Barra da Tijuca são uma presença vulgar, e parte importante da paisagem monótona e hostil de muros e edificações sem personalidade. No bairro, os shoppings são referência de localização e demarcação de território, ganhando status de acidente geográfico, tal qual um rio, um lago ou um morro.

Contra toda a dinâmica proposta para o bairro, eu costumo circular a pé ou de bicicleta por ruas e lugares feitos exclusivamente para serem vistos de longe e de relance através da velocidade impessoal de quem vai de carro. Não é bonito. Não é agradável.

Seguia pela avenida da Américas, no sentido zona sul. O domingo estava perfeito e a rua vazia de gente, a não ser por aquele grupo à minha frente. Eram 4 mulheres acompanhadas de 4 crianças. Uma das mulheres, a mais velha, gesticulava muito. Olhava ao redor e parecia bastante insatisfeita. Me aproximando, pude conhecer o motivo do seu (justificado) descontentamento.

O grupo havia chegado de ônibus. Desceram no ponto em frente ao destino final, mas uma cicatriz imensa as separava do seu objetivo: chegar ao Barra Shopping. Eram 12 pistas de alta velocidade dedicadas ao trânsito de automóveis particulares e coletivos, mais duas pistas exclusivas de BRT – sigla do inglês para transporte rápido por ônibus.

Considerando o BRT, precisariam vencer 14 faixas para ir de um lado ao outro da avenida. Isso corresponde a 92 metros de travessia, conforme o desenho proposto pelos especialistas. Se o pedestre optar pelo caminho mais curto, que é uma reta, são 80 metros de travessia.

Mas não era a extensão da travessia a pé o que causava consternação. Diminuindo meu passo, ouvi a mulher mais velha questionar o planejamento que colocava um ponto de ônibus tão distante de um ponto seguro de travessia. Para ir de onde saltaram até a faixa de pedestres, o grupo precisaria andar aproximadamente 100 metros em uma calçada desabitada. Aí, poderiam esperar o sinal fechar para os carros e atravessar para a outra calçada – o que certamente não seria feito em apenas um tempo de sinal. Quando, finalmente, chegassem ao outro lado, precisariam voltar os mesmos quase 100 metros, até a entrada do shopping.

A mulher desabafou: “é por isso que eu não gosto de vir aqui! Olha isso! Quem planejou isso? Parece que quer dizer assim pra gente: você não é bem-vindo. Não venha aqui a não ser que tenha carro”.

Me solidarizei. Parei ao seu lado para conversar. Concordei com todas as colocações e argumentos e perguntei se ela sabia que um pouco mais perto do ponto de ônibus havia uma travessia subterrânea. Tinha que andar, mas era bem menos.

Ela disse que já trabalhou ali perto e que conhecia a travessia subterrânea, mas que preferia não usar. “Já fui assaltada ali duas vezes. E tive amigas assaltadas também. Não tem segurança. Você não sabe o que pode encontrar lá embaixo. É ruim, mas prefiro andar tudo isso a atravessar naquele ‘buraco’. A gente se sente tão insegura que, se estiver cansada mesmo, ou se estiver chovendo, acaba se arriscando entre os carros, só pra não ter que andar tudo isso ou enfrentar a passagem subterrânea. Imagina, eu estou com 4 crianças…”

Ela tinha razão. Assenti. Entendi.

Nesse momento, já estávamos bem perto da travessia de pedestres. Eu ia me despedindo, quando ela falou: “agora é a outra parte da humilhação do pedestre. Tem que correr isso tudo aqui”. E ela riu.  “Se não correr não chega de uma vez, tem que esperar mais um ou dois sinais, dependendo da sua velocidade. E isso, ue eu quero ir ali naquele shopping pra gastar dinheiro. Eu quero ir lá gastar, e preciso passar por isso tudo. É por isso que não gosto de vir aqui.”

“Vai com Deus”, disse ela. Nos despedimos.

 

Ser pedestre na Barra da Tijuca

O dia em que fui de BRT até o Bosque da Barra

Para quem não conhece o bairro, o Bosque da Barra fica sobre as avenidas Américas e Ayrton Senna. Está quase em frente ao Terminal Rodoviário Alvorada, um ponto nodal para quem vem da Linha Amarela, da praia, da Zona Sul ou do Recreio.

Perto e longe, o Bosque está isolado do acesso por transporte coletivo por um vasto rio de aço correndo ameaçador, barulhento e em alta velocidade, em todas as direções.

Embora irônico, usando o BRT existem alguns caminhos possíveis. Irônico, porque o que a experiência mostrou foi a impossibilidade dos percursos a pé.

Hipótese 1 – saltar na estação Terminal Alvorada e brincar de equilibrista

Já do lado de fora do terminal, o pedestre vai costear a fachada gradeada e sem calçada, espremido entre o trânsito e o terminal rodoviário.

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Caminho usado por pedestres sem segurança alguma. Fonte: googlemaps

Em seguida, passando por baixo de um elevado, chegará a uma agulha que separa o fluxo de motorizados que vem da avenida Ayrton Senna em direção à Barra em dois destinos: praia e Recreio. Evidentemente o pedestre está do lado direito. Sem qualquer ponto de travessia, irá aguardar aquele momento especial para correr até o gramado que forma a agulha.

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Caminho usado por pedestres próximo à Cidade das Artes e Bosque da Barra: googlemaps

Quase lá. Agora só falta esperar mais um pouco e correr para uma última travessia sem segurança. Já na calçada do Bosque, o pedestre irá caminhar até a entrada do mesmo, acompanhando uma grade verde, que ‘brinca’ com dentro-fora.

Hipótese 2 – saltar na estação Terminal Alvorada e escalar uma passarela que não leva até o parque

Não quer passar por isso? Não tem problema. Saia do Terminal Alvorada e suba as escadas de acesso à passarela para atravessar a avenida. Você não vai chegar no Bosque ainda. Na verdade, andou mais e ainda se afastou do seu objetivo. Persevere.

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Passarela no Terminal Alvorada. Fonte: googlemaps

Já na calçada em frente ao terminal rodoviário, siga em diração à avenida das Américas e vire à esquerda, sobre a calçada. É bonito? Não, mas continue.

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Calçada em frente ao Terminal Alvorada. Fonte: googlemaps

Continue até não chegar a nenhum lugar adequado para a sua travessia segura. Aguarde a hora de correr e corra! No canteiro central, aguarde novamente e corra! Ainda não acabou. Repita essa operação, espere e corre mais duas vezes. Parabéns. Caso tenha sobrevivido, você vai poder desfrutar de um dia lindo com a família no bosque bucólico de vegetação e fauna característicos.

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Travessia informal usada pelos pedestres em Avenida das Américas. Fonte: googlemaps

Ah, mas não tem outro jeito? Tem. É o caminho da hipótese 3.

Hipótese 3 – saltar na estação Bosque da Barra

Gente, mas se tem uma estação de BRT com o mesmo nome do lugar que eu quero ir, é claro que é nessa estação que eu tenho que descer. Blogueira desgraçada, me fez ler tudo isso pra que?

Eu sei, e eu também pensei assim. E foi exatamente nesta estação que eu desci: Bosque da Barra. Mas aí…

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Percurso a pé entre BRT Bosque da Barra e o Parque. Fonte: googlemaps

Aí, acontece que o sinal fica do lado oposto ao que você quer ir, então, você vai sair da estação e andar em direção ao Recreio. Atravesse por uma espécia de retorno, sem faixa de pedestre, nem nada, e aguarde o sinal fechar para atravessar na faixa. Olha a vantagem. E ainda tem sombra.

Só que como aí não tem nada, não é raro que você se veja ilhado entre pistas de automóveis para os dois lados, e a mercê de algum tipo de assédio na rua. Neste ponto, por causa do congestionamento constante, e da ausência de vida, é comum encontrar grupos de adolescentes trabalhando-pedindo-assaltando no sinal.

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Vista da faixa de pedestre na estação BRT Bosque da Barra. Fonte: googlemaps

Mas agora você atravessou. Está na calçada certa. É só caminhar até o bosque. Não. Você não está em lugar nenhum. Você está sobre mais um canteiro, que desta vez, separa a avenida movimentada da “rua residencial”, em frente ao conjunto de condomínios fechados.

Pode seguir pela calçada dos prédios? Pode, mas não vai longe. Então, o melhor é seguir pelo canteiro gramado. Imagina na chuva.

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Canteiro em frente à estação BRT Bosque da Barra. Fonte: googlemaps

Você vai andar por aproximadamente 10 minutos pelo chão de grama e terra, até chegar a um posto da Guarda Municipal. Não desista. Está quase lá. Atravesse como puder, porque não tem sinal de trânsito e nem faixa de pedestre, e vá até o muro horroroso do outro lado.

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Calçada em frente ao posto da GM. Fonte: googlemaps

Acompanhe esse muro. Olha aí. Vagas para idoso pintadas no chão. Calçadinha pra você andar. Tá bonito. Mais um pouco e já começa a grade do parque.

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Calçada e vagas de idoso junto ao muro do parque. Fonte: googlemaps

Agora não tem erro. Você está seguro. A grade verde e vazada quase que aproxima o parque de você e da rua. Em breve, vai ver uma movimentação humana. É a entrada do parque. Divirta-se e nem pense em como vai sair daí depois do passeio. Viva uma coisa de cada vez. Esse é o segredo da felicidade.

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A grade do parque. Fonte: googlemaps