Cidade é pra gente ou Parem de culpar pedestres por um planejamento pobre

Logo cedo, uma matéria do Bom Dia Rio se estendeu por mais de 3 minutos na culpabilização de pedestres pelo alto número de atropelamentos em vias urbanas. As tomadas e entrevistas com pedestres foram realizadas em pontos próximos a passarelas em ruas e avenidas como Brasil, Ayrton Sena e Américas.

Se existe passarela, por quê o pedestre se arrisca? Queriam saber. Deram voz apenas aos pedestres em passarelas. Os argumentos postos por estes: falta de cultura, falta de educação, irresponsabilidade, falta de apreço à própria vida.

Para atravessar uma passarela, o pedestre, que faz uso da própria energia para se movimentar, precisa subir e descer de um patamar que pode variar de 3 a 6 metros de altura. O pedestre jovem, adulto, saudável e sem restrição na mobilidade já é penalizado. Imagine como fica o pedestre idoso, a criança ou pessoas com mobilidade reduzida? Enquanto isso, a pessoa que se desloca de modo sedentário, dentro de um veículo motorizado, segue livre e sem obstáculos sempre no nível do chão. Faz sentido?

Nem entro no mérito de que nem sempre as passarelas tem rampas, obrigando que pedestres escalem degraus do chão à passagem. Também não vou comentar sobre o desconforto da ausência de cobertura que expõe o pedestre aos ventos, chuvas ou sol quente. Deixo apenas uma provocação. Qual é a racionalidade capaz de conciliar o discurso carregado do desejo de reduzir índices de poluição nas cidades e estimular práticas saudáveis no combate ao sedentarismo com o desestímulo ao transporte ativo?

Talvez a racionalidade esteja aqui: hipocrisia. Talvez, na verdade, as cidades não devam mesmo ser para pessoas. Talvez as pessoas sejam apenas um inconveniente necessário para produzir e gastar, mas que não devem atrapalhar que a cidade aconteça.

Sem gente? É. Parece.

A passarela de pedestres seria, portanto, uma solução genial. Ela subtrai o problema gente. Fica aquela estrutura feiosa pendurada sobre o asfalto quente e atrapalhando a visão do maciço montanhoso pela janela do carro, mas, ao menos, elimina o inconveniente pessoas do trânsito. Aí é bom. Dá pra correr. Meter, o quê, uns 90km/h, mais? Maravilha. Saio do meu caixote cedo. Entro na minha caixinha motorizada, fecho o vidro, ligo o ar, amanso as crianças com uma telinha de LED nas costas do banco. Deposito as crianças na penitenciária, digo escola. Acelero pro trabalho. Estaciono minha caixinha motorizada. Entro na caixinha elevador. Vou pra minha caixinha escritório. Depois é só inverter a rota. Todo dia.

Agora sim. Isso é vida. As passarelas higienizam o trânsito ao retirar as pessoas da equação. Com isso, as vias ficam livres para motorizados realizarem velocidades altas e incompatíveis com a vida. Ué. Mas então não é isso o que causa atropelamentos e mortes? O reporter ignorou.

De todos os exemplos de travessia por passarela da reportagem apenas um era passagem subterrânea. Fica sobre a Avenida das Américas. As passagens subterrâneas exigem menos dos pedestres. O desnível em relação à rua não passa de 3 metros. Além disso, elas são cobertas. Que bom. Assim deu para eliminar o problema gente da cidade e deixar a vida fácil para os ciborgues sem sacrificar tanto esses frágeis humanos.

Porém, nem o número de passagens subterrâneas é tão expressivo quanto o de passarelas suspensas e nem aquelas são sempre exatamente seguras ou higiênicas. Deixa ver, vou pelo buraco escuro, deserto e mal cheiroso ou tento a humanidade de um motorista que desacelere ao me ver correndo na avenida? Escolha difícil, né?

Para provar a tese da matéria, de que pedestres são imprudentes, irracionais e sem educação, o repórter faz a travessia pela passagem subterrânea. Calcula o tempo. Chega a, segundo ele, meros 3 minutos. Menos tempo que a duração da reportagem. Desconsidera, entretanto, que é um homem jovem, saudável, adulto e com uma altura de aproximadamente 1,80 metros. Talvez esse tempo não seja o mesmo para uma criança, para um idoso ou para alguém com mobilidade reduzida. Diante de sua alta performance na travessia, conclui com uma pergunta: por quê arriscar? Será mesmo imprudência, irracionalidade e falta de educação?

Certa vez conversei com uma família “encurralada” às margens do rio de aço. Queriam chegar ao outro lado. Eram mulheres e crianças. Estavam bem perto dessa passagem subterrânea, mas optaram por não usá-la. Me explicaram o porquê. Para ler, clique aqui: https://derivanavegante.com/2017/10/19/foi-feito-pra-quem/

Mas, olha que bacana: um planejamento urbano e suburbano que tivesse como referência gente desenharia vias que privilegiassem o trânsito de pedestres e ciclistas ao nível do chão. Para isso, os automotores precisariam se desviar, claro. Mas esse desvio, além de fisicamente não sacrificante para motoristas, não seria muito superior a 2 metros. Então, por quê o pedestre precisa escalar até 6 metros ou descer até 3 metros por um túnel muito provavelmente inseguro ou insalubre?

Calma, gente. Esta não é uma revolta contra as passarelas. Passarelas ou passagens subterrâneas são soluções de acessibilidade e segurança para pedestres e ciclistas. Mas passarela e passagem subterrânea não é confete no carnaval. Por isso, na hora de separar o trânsito de carros, pessoas e bicicletas, elas devem ser o último recurso. Antes delas, existem outras estratégias possíveis e mais desejáveis.

Repare, se a área é urbana e se o fluxo de pedestres e ciclistas é alto, a prioridade é de quem usa meios ativos para transitar na cidade.

Deixa eu repetir: se a área é urbana e se o fluxo de pedestres e ciclistas é alto, a prioridade é de quem usa meios ativos para transitar na cidade.

Quer dizer, antes das passarelas e passagens subterrâneas, que se reduzam as velocidades dos automóveis. Que sejam instaladas travessias seguras e acessíveis no nível da rua. Que sejam feitos desvios para os carros e não o contrário.

Para o reporter fazer uma matéria melhor da próxima vez, deixo uma dica. Por quê o pedestre se arrisca entre os carros? Porque aquele projeto não contempla pedestres e ciclistas.

Link para a matéria – Bom Dia Rio (22/10/2019): https://globoplay.globo.com/v/8023222/programa/

Pequenos cuidados

Recentemente ouvi que o debate sobre os ciclo-entregadores não deveria passar por questões de segurança pessoal e orientações para o transito seguro. Argumentava-se que “a presença desses garotos”, normalmente das periferias, nas ruas era uma “forma revolucionária de ocupação das cidades” e que “querer regular essa ocupação e determinar como devem se movimentar é tampar os ouvidos para o que podemos aprender e devemos mudar para tornar as cidades mais humanas”.

Entendo que o ponto que se desejava explorar dizia respeito à violência de um planejamento que privilegia um determinado modo de transporte ao ponto de praticamente inviabilizar todos os demais. No entanto, escutando com mais cuidado, me pareceu irresponsável e romântico ao mesmo tempo.

A irresponsabilidade: minimizar, senão retirar da equação, o fato de que a disputa (como ela se dá) por esse espaço (como ele se apresenta) está matando justamente esses que já são os que nossa sociedade mais mata: os rapazes jovens das periferias.

Disseminar e discutir questões ligadas à segurança pessoal e práticas para um transito seguro não me parece tampar os ouvidos para nada. Ao contrário, me parece um oportunidade de escuta, atualização e sensibilização de um maior número de pessoas para os fatores que fazem do nosso trânsito brasileiro um dos mais violentos do mundo, ajudando a democratizar e qualificar o debate para mais camadas da sociedade.

O romantismo: assumir que os tais garotos de periferia estão ocupando as ruas de bicicleta porque para eles essa é uma causa.

Ao afirmar isso, está-se fazendo uso, em causa própria, de uma parcela da população que não necessariamente é sensível ou familiar ao debate sobre a mobilidade ativa. Desconsidera-se que, se esses corpos estão na luta/na rua disputando espaço em um ambiente hostil, e muitas vezes pagando com a vida, eles aí se encontram não por identificação à causa, mas por necessidade de trabalho em um contexto de crise econômica, desemprego e precarização laboral. É apenas mais uma expressão de desamparo.

Na reportagem de Leandro Machado para a BBC Brasil isso aparece com bastante clareza. A bicicleta como opção é uma expressão da ausência de opção. Seria, portanto, o primeiro passo possível para gerar alguma renda, até que se tornasse viável conseguir algo percebido como mais conveniente e desejável: um transporte-meio de trabalho motorizado: a motocicleta.

Dos fatores apresentados na reportagem para que a moto seja cobiçada em detrimento da bicicleta, destaco este: o rendimento gerado pelos ciclo-entregadores corresponde à metade daquele gerado pelos entregadores de moto. Mesmo que os ciclistas trabalhem mais horas e gastem mais energia (talvez até correndo mais riscos), o resultado financeiro fica aquém daquele que seus parem em motocicleta são capazes de fazer. O tipo de relação com a bicicleta e o desejo de mudança de transporte fica bem expresso por essa frase dita por um dos entrevistados: “Agora que já tenho as manhas do trabalho, que já conheço as ruas, só me falta um motor.”

Ainda que possamos identificar um ponto em comum entre o cicloativismo e a realidade dos ciclo-entregadores circunstanciais, a dizer, desejo de sobreviver à barbárie, não devemos confundir a causa de um com a causa de outro. Para os primeiros, a pauta se adere à luta por um trânsito mais seguro, de paz e limpo. Já, para os outros, a luta parece mais imediatamente ligada à necessidade de gerar meios para pagar um teto e a comida.

Ao sonhar com a troca da bicicleta pela moto, o ciclo-entregador espera melhores ganhos. E isso não configura traição à uma causa que jamais foi dele. No entanto, acredito que aqueles que estão conduzindo ações em prol da agenda da bicicleta como transporte podem conquistar mais atores para a sua causa por meio de debates sobre segurança pessoal e práticas para um transito seguro junto aos ciclo-entregadores, mesmo que sua condição seja meramente circunstancial.

Pense que se esse trabalhador que usa a bicicleta desconhece as condutas seguras ou, se conhece, escolhe ignorá-las, quando mudar de transporte, assumirá as mesmas condutas pobres e perigosas. No entanto, agora, seu grau de letalidade cresceu com a capacidade aumentada de velocidade do novo veículo e com o porte do mesmo. Perdem todos. A necessidade de apaziguar o trânsito, investir no compartilhamento e diminuir as velocidades dos motorizados não concorre com a necessidade de que as normas de trânsito sejam conhecidas, praticadas e fiscalizadas.

A questão, porém, não começa e acaba nos trabalhadores de entrega, seja por moto ou por bicicleta. Ao invés disso, ela se estende ao Estado, aos empresários/comerciantes e aos consumidores que fazem uso da conveniência da entrega em domicílio.

Clientes consumidores

Parece bastante fácil para os clientes consumidores, no conforto de suas casas ou escritórios, deixar de avaliar qualquer outra variável que não seja a rapidez das entregas, no que diz respeito ao seu grau de satisfação com o serviço. Não seria o caso de promover alguma campanha que sensibilize esse cliente para a ampliação dessa percepção de qualidade, envolvendo-o como corresponsável por um trânsito mais seguro? E se houvesse alguma certificação ou selo de empresa responsável com a vida no trânsito, que ajudasse o cliente consumidor a identificar e escolher aquelas prestadoras de serviço que estão mais de acordo com seus princípios morais e valores? Já pensou nisso? Talvez, de quebra, ainda viesse o bônus de, quem sabe, sensibilizar esse público também para questões relativas à segurança e dignidade do trabalho dos profissionais de entrega.

Empresários e comerciantes

Imagine se as empresas que atuam como prestadoras de serviço de entregas por moto ou bicicleta, não importa, fossem avaliadas quanto a sua responsabilidade pela promoção de um trânsito seguro. Será que assim haveria o cuidado de orientar os trabalhadores para condutas seguras no trânsito? Será que isso refletiria na diminuição do número de infrações? E o que aconteceria com o número de acidentes?

Houvesse um selo que certificasse a responsabilidade social da empresa prestadora de serviço, os comerciantes poderiam escolher a empresa que iriam contratar conforme sue afinidade ética. Do mesmo modo, os consumidores finais, o cliente que solicitou a entrega em domicílio, poderia mapear tanto os comércios quanto as prestadoras de serviço mais afinadas com o que considera justo, desejável e correto.

É possível que se assim fosse, todos cuidando juntos pela segurança de todos e do trânsito, metas de agilidade e rapidez que colocam vidas em risco não fossem mais impostas, considerando tempos impossíveis de serem cumpridos sem que infrações de trânsito estejam no repertório das atitudes esperadas, conhecidas mas, convenientemente, ignoradas por todos.

Talvez, nesse dia, não tenhamos mais que ouvir mais justificativas como esta que recebi de um gerente de uma rede de pizzas na zona sul do Rio de Janeiro: “o pior que pode acontecer em um acidente com algum de nossos motoboys é a gente perder o pedido”.

Estado

Ao Estado, evidentemente, cabe ações de sensibilização e educação para o trânsito, além de oferecer as condições adequadas de segurança e conduta e incentivar as melhores práticas, por exemplo, por meio de uma certificação ou selo que ateste a responsabilidade do prestador de serviço e do motorista.

Todos fazem parte de um sistema, e o sistema tem regras sim. Caso não estejamos dispostos a lidar com isso, com ou sem motor, o certo é que vamos continuar impondo para parcelas importantes da sociedade uma relação de trabalho desequilibrada, insegura e indigna. Mais que isso, vamos continuar impondo um ‘ambiente de trabalho’ que tem a característica de ser violento e que aparece como um dos que mais matam pessoas no mundo: o trânsito brasileiro.

Já que o Maio é Amarelo e o sentido é a vida

Registro de uma intervenção em espaço público sem que tenha havido qualquer consulta ou mesmo comunicação junto à comunidade.

Desenho atual: uma curva em S, sem calçada, sem acessibilidade, sem sinalização de velocidade e sem pontos de travessia para pedestre ou redutores de velocidade

Avenida Afonso Arinos, sentido praia – Avenida das Américas

O traçado atual da via está destacado em vermelho. Todo o resto era área verde, hoje derrubada para dar lugar ao novo traçado de via.

Entre a praia e a Avenida das Américas não há nenhum sinal de trânsito, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. A via de velocidades elevadas é testemunha de frequentes acidentes de trânsito provocados pelo excesso de velocidade. Pedestres se arriscam em calçadas exíguas, esburacadas e travessias inexistentes. Ciclistas se arriscam em um trânsito hostil.

Mas a prefeitura está prestes a entregar uma obra de redesenho dessa via. Acompanhe a seguir o projeto.

Trecho de rua segregado e privatizado por cancela

O traçado amarelo, destaca uma rua privatizada por cancela. Separada da curva em S por uma ilha, seu uso era essencialmente dedicado a oferecer acesso praticamente exclusivo para o prédio da esquina, tornando-se uma espécie de extensão do estacionamento de visitantes do mesmo condomínio. Em dias de praia era comum ver banhistas fazerem uso da rua para deixar seus carros. Também era frequente o abandono de veículos danificados nessa área.

Retirada da ilha e ampliação do número de pistas

A ilha que separava essa rua privatizada por cancela da curva em S foi retirada. Também foi retirada a cancela. Deste modo, o número de pistas que vem do sentido da praia em direção ao Canal de Marapendi – Avenida das Américas foi ampliado de duas para quatro pistas. Não foi prevista nenhuma faixa de pedestre, redutor de velocidade ou sinalização indicando passagem de pessoas a pé ou de bicicleta.

Com a derrubada das árvores no terreno imediatamente à frente, a via “morta” ganha uma continuidade que dará acesso de carros, em uma linha praticamente reta, ao canal de Marapendi.

Neste trecho também não há indícios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. Do mesmo modo, ciclistas também não foram contemplados. Acessibilidade é algo que passou longe.

Um contorno antes inexistente

Essa em azul vê-se uma nova via, antes inexistente. De algum modo, parece prevista a circulação de carros no sentido do Canal para a praia, tendo sido abertas duas possibilidades de direção. Para a esquerda do desenho, voltaria em direção ao Canal, passando por de baixo da ponte. Para a direita, haveria um acesso para a rua que segue por sobre a ponte.

Mais uma vez, não há indícios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. Ao contrário do que seria de se esperar, já que há uma ciclovia desenhada no projeto apresentado pelo engenheiro responsável depois de muita insistência, não vemos os ciclistas sendo contemplados. Acessibilidade, novamente, é algo que passou longe.

A antiga curva em S cedeu lugar a uma longa reta

Por fim, o retão da alegria. O longo retão culmina em uma curva pouco suave, seguindo-se de outro longo e desimpedido retão imediatamente à frente.

Vou repetir o mantra: não há indícios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade, o trânsito de ciclistas não foi contemplados, acessibilidade não foi uma preocupação.

Logo da campanha Maio Amarelo de 2019: no trânsito, o sentido é a vida

Campanhas de conscientização no trânsito são maravilhosas, demonstram resultado e, portanto, são necessárias. Que legal. Mas, o que justifica essa desarticulação entre o plano de mobilidade urbana e a publicidade em torno do cuidado com a vida?

Vamos pensar juntos. Se um motorista olha para frente e não vê nenhum obstáculo, se, ao contrário disso, ele se depara com uma via larga, reta, lisa e desimpedida, qual o comportamento que será estimulado? Se você respondeu velocidade alta e convite à imprudência, você acertou.

Velocidades altas e embriaguez são as principais causas de acidentes com morte no trânsito. Então, porque, em uma área urbana, próxima à áreas de lazer e no caminho de um fluxo importante de pedestres (na verdade, o único acessível para pedestres e ciclistas nesse trecho), foi autorizada uma obra dessas, impondo, mais uma vez, um desenho 100% orientado para o transporte individual motorizado?

Cabe destacar que:

1. A obra tem previsão de entrega para esse mesmo maio, o Maio Amarelo.

2. O projeto apresentado pelo engenheiro responsável da obra não previa os vários novos sentidos e acessos possíveis para automóveis.

3. O projeto mostrava uma ciclovia segregada inexistente na obra realizada e prestes a ser entregue.

4. O projeto indicava redutores de velocidade e elevações da via para o nível da calçada. Estes não constam da obra próxima de ser finalizada.

5. No projeto apresentado, haveria um trabalho de calçamento da rua que vai da ponte para a praia, em destaque abaixo. Esse, de acordo com o mesmo engenheiro, era um terreno indevidamente apropriado pelo condomínio Atlântico Sul, e que, portanto, seria reintegrado ao uso público, justamente para dar lugar a uma calçada de pedestres. Esse trecho não recebeu qualquer beneficiamento e continua de posse e uso particular do condomínio Atlântico Sul.

Trecho correspondente a área indevidamente incorporada ao condomínio Atlântico Sul

6. De acordo com o engenheiro responsável pela obra, o restinho de área arborizada, receberia um tratamento paisagístico, recuperação de vegetação local e criação de parque público. Não está acontecendo.

7. Todo o trecho entre a praia e a Avenida das Américas tem 1,1km. Esse percurso carece de calçadas, e muitas das que existem são estreitas, acidentadas e inadequadas (inviáveis mesmo) para o trânsito seguro de pedestres, carrinhos de bebê ou pessoas com mobilidade reduzida. O trecho também é recheado de ameaças aos pedestres e ciclistas: contém muitos cruzamentos e acessos para carros vindo de diferentes vias, e não apresenta nenhum sinal de trânsito, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. Se há alguma placa de limite de velocidade, essa não é respeitada e nem tão pouco fiscalizada.

Conclusão

Uma cidade que ainda se permite tomar área verde para ampliar número de pistas para carros, sem pensar em mobilidade ativa; uma cidade que ainda privatiza espaços (há muitas formas de privatizar) sem pensar no publico; uma cidade que investe em velocidade e abre mão da segurança; essa é uma cidade atrasada, essa é uma cidade destinada a continuar matando no trânsito.

Mas, lembre-se, o sentido é a vida.

Abaixo, uma matéria de 2018 com orientações da OMS para um trânsito orientado à vida.

https://g1.globo.com/carros/noticia/2018/12/07/oms-divulga-relatorio-sobre-mortes-no-transito-e-sugere-reducao-de-velocidade-em-areas-urbanas.ghtml

Cativeiro e ferocidade são as únicas possibilidades?

Esse texto é um comentário à coluna de Joaquim Ferreira dos Santos para O Globo em 18/06/2018.

O título é ruim. “Perigo! Bicicleta!” aponta para uma série de lugares comuns que povoam a fantasia das pessoas. O título infeliz alimenta o antagonismo entre indivíduos ao invés de tratar do problema real e indicar quem pode e deve agir para resolvê-lo.

O problema real: quase um século de investimento em infraestrutura segundo a lógica da velocidade e centrada na conveniência do motorizado.

O principal responsável e agente de mudança: poder público local, o qual não direi que é omisso para não ser redundante. Droga! Já foi…

A linha fina denuncia a miopia do autor. Nela lemos que “A bicicleta no Rio é o bicho solto. Para ela não existe limite de velocidade, lugar apropriado de transitar ou essas coisinhas miúdas de obedecer mão e contramão”.

Sua visão comprometida faz com que atribua como exclusividade da bicicleta (vamos ler ciclista) aquilo que é, de fato, observado em carros ou motos ou ônibus (vamos ler motoristas).

Faça o exercício. Substitua a palavra bicicleta, na linha fina, por carro, ou moto, ou ônibus, ou van, use a imaginação. Veja se funciona. Funcionou, né?

O colunista acerta, no entanto, quando diz que “A coitada não tem culpa. Caiu numa cidade que já tinha escolhido o carro como objeto de simpatia, principalmente por ser um dos pagadores de suas contas. A bicicleta foi chegando de mansinho num lugar onde não cabia mais nada”. Foi chegando, de mansinho. Invisível e invisibilizada, chegou, como quem chega a uma festa para a qual não foi convidada. Tão logo é percebida, os leões de chácara são acionados para se livrarem dela, como se não fosse nada.

Imagine que a cidade é um bioma complexo. No nosso caso, esse bioma sofreu, e sofre, uma interferência que gerou desequilíbrio entre cada um dos seus elementos essenciais. Como o organismo é vivo, houve adaptação, mas o preço dessa adaptação foi alto. A referência deixou de ser humana. A consequência? Ruas vazias de gente e repletas de motos, carros, ônibus, caminhões; poucas árvores, muito asfalto e concreto; poucas passagens e acessos; longas distâncias e muitas interdições. As interdições aparecem como muros e grades, superfícies espelhadas e repelentes, cancelas e barricadas. Elas também se manifestam como balas perdidas na troca de gentilezas entre traficantes, assaltantes, policiais e milicianos. O risco luminoso de projéteis atravessando o ar desenha limites e impossibilidades para a livre manifestação da vida no espaço público, e essa interdição não pode ser ignorada. Ao  mesmo tempo, se você for mulher, as interdições são tantas que as paredes de concreto, as grades pontudas e afiadas e até as armas de fogo, em alguns lugares tão naturalizadas, não parecem ser mesmo é nada.

O passeio e o estar virou passagem e trânsito de carros. Este, cada vez mais veloz, mais agressivo e mais violento, em pouco tempo virou congestionamento. A infraestrutura para motorizados ocupa quase todo o espaço público e, ainda assim, esse privilégio não lhe é suficiente. Por isso, reivindica mais e mais. Reivindica e toma. O preço é alto, já sabemos. Paga-se com a vida. A vida sensível e delicada, rara e ordinária, matéria fina que se esgarça e morre. Morre no trânsito, vítima das altas velocidades, da pouca qualidade de vida e do descaso dos nossos governantes.

Nesse contexto, andar a pé é um ato de resistência. Andar de bicicleta é um ato de resistência. No contexto da violência no trânsito motorizado, da invisibilidade e da opressão à tudo o que não for rápido e veloz, a estratégia para seguir resistindo é a guerrilha.

Eu gosto disso? Não. Nem um pouco. Mas, se o trânsito não é pacificado, se as infraestruturas não passam de maquiagem ou engodo para alimentar estatísticas superdimensionadas, se o poder público ignora, descuida, abandona, o que fazer? Se submeter a lógica dominante do carro? Ficar em casa deprimido sonhando como é linda a Amsterdã ou Afuá ou Paquetá? Sair kamikaze entre carros que trafegam acima de 70km, ou mais? Se expor à “fina educativa” dos motoristas, que seguem impunes e potentes, certos de sua supremacia e invencibilidade? Afinal, você sabe, a culpa sempre é do pedestre ou do ciclista que não estava no sofá, certo?

Ir para a calçada é a resposta possível de muitos para seguir pedalando, uma vez que estão abandonados à própria sorte.

“Ah, mas a pessoa deve pedalar com prudência, quando na calçada”. Óbvio! Ninguém discorda disso. Diria mais. Deve pedalar com prudência na calçada e fora dela. Pedalar, andar, dirigir, beber, comer, … tudo, né?

A cidade em equilíbrio é espaço de convívio. Não se engane, porém, pensando que isso significa a supressão de todo tipo de conflito. Não. Vai ter conflito sim. Faz parte. Mas eles vão se resolver com negociação e não com imposição de vitória pelo uso da violência do mais forte sobre o mais fraco.

O texto do autor erra dolorosamente ao colocar toda a responsabilidade sobre o indivíduo. É responsabilidade do poder público garantir políticas e investimentos que harmonizem a cidade e a devolvam para as pessoas.

Isso significa acabar com os carros? Não! Significa que todos agora andarão apenas de bicicleta ou a pé? Não!

Significa, apenas, que um modal motorizado será mais um modal entre tantos outros que também tem direito de ocupar as vias. Significa que escolhendo o motorizado, motoristas deverão estar cientes de que estão sujeitos a limitações sim, inclusive de ocupação das vias e de velocidade. Significa que andar de transporte coletivo, que a gente chama de público sem ser, a pé ou de bicicleta, patins, patinete, ou o que for, vai ser uma opção e não um ato de resistência com o qual pode-se pagar com a vida. Significa que as pessoas estarão no centro das decisões políticas e realizações urbanísticas. Significa que as cidades serão humanas.

Mas, mesmo em seus equívocos, a coluna tem seu valor. Vejo muito ganho em ler com atenção a forma caricata com que o autor pinta “o ciclista”. Parece misturar tudo em uma coisa só, como quando a gente viaja pra um país muito diferente do nosso, e tudo parece exatamente igual pela simples ausência de repertório e referência.

E é aqui, que eu volto o olhar para dentro, não enquanto ciclista, mas enquanto cicloativista. O que nós, em nosso ativismo, estamos fazendo ou deixando de fazer para não sermos vistos em nossa diversidade e humanidade? Nós, que também moramos na cidade. Nós, que também somos pedestres, que também usamos o transporte público, que também usamos carro ou motocicleta. Antes de perguntar se o outro nos percebe em nossa diversidade, devolveria a pergunta para dentro: será que nós mesmos somos realmente capazes de nos perceber na nossa diversidade, ou apenas reconhecemos a imagem do espelho e pintamos caricaturas do que não reflete o que esperamos ver?

Para quem dirigimos o nosso discurso, e qual a qualidade do que é dito? Será que estamos nos comunicando? Se sim, essa comunicação fura a nossa bolha, ou reverbera apenas dentro dela? Lembrando que a bolha, de fato, são muitas e variadas bolhas, todas elas são afetadas?

Eu não descarto que tem muito da cultura do motorizado impregnada na percepção e na capacidade de interpretação do autor do texto sobre o papel da bicicleta como transporte na cidade. Mas tem muito de nossa in(habilidade) de comunicação aí. Você não acha?

Entre outras coisas, o que temos feito para alimentar um olhar caricato e reducionista sobre nós, ciclistas ativistas? Isso é responsabilidade nossa. Olhar para os eventos de junho dedicados à bicicleta e que tiveram sede no Rio de Janeiro pode dar uma pista. Olhar para a forma com que o ativismo se percebe e organiza também pode dar uma boa pista. Pensar como essas duas coisas juntas fizeram o nosso junho da bicicleta acontecer como aconteceu também pode ser um bom exercício. Sei que serei antipática por trazer isso, mas acho necessário. Teve alegria, sucesso e superação de adversidade? Teve. Mas, também tem muito material para autorreflexão. Sempre é possível melhorar.

Voltando ao autor, a confusão dele em imputar ao ciclista a responsabilidade por um caos e uma truculência que são típicos da cultura que privilegia o motorizado, não é culpa dele. Arrisco dizer que ele é apenas mais uma vítima. A cultura do motorizado deixa muitas vítimas, de tipos diferentes. Algumas vítimas ficarão esmagadas em poças de sangue no asfalto quente. Quantos já perdemos assim? Outras vítimas serão estas, que como o colunista, repetem felizes que desejam a prisão, acreditando piamente que, de fato, estão defendendo a liberdade.

Enfim. Se você soltar um animal silvestre que passou gerações em cativeiro de volta na natureza, ele vai morrer. A alternativa é se tornar feral. Cativeiro ou ferocidade são os únicos caminhos verdadeiramente possíveis quando o assunto é reintegrar a bicicleta como transporte no contexto da cidade?

Nem uma coisa (cativeiro), nem outra (ferocidade).

Nos soltaram entre hienas famintas, sem nenhum tipo de amparo. Para não sermos predados, predamos. O “novo” modal, que não tem nada de novo, pode até estar sendo incorporado à rotina urbana, mas, diante da omissão e descompromisso do poder público com políticas de incentivo à mobilidade ativa, a lógica da violência nos coloca reproduzindo o mesmo comportamento equivocado da supremacia da velocidade sobre a vida. É salve-se quem puder. A responsabilidade por um novo comportamento, mais humano, pode até ser minha e sua, mas antes, é do poder público, é dos gestores e políticos dessa cidade que tem o dever de criar as condições necessárias para o convívio em detrimento do combate.

Um detalhe cor de laranja

O texto deveria acabar aqui, mas quero compartilhar uma reflexão sobre as estações de bicicletas compartilhadas.

É inegável a contribuição das bicicletas compartilhadas para o redesenho dos hábitos de deslocamento na cidade. A conveniência, a praticidade e a possibilidade de combinar o modal com outros meios de transporte desse tipo de serviço ajudaram a mudar a paisagem urbana, tornando mais comum a presença de ciclistas aos olhos de todos.

No entanto, não basta conceder a licença de operação para a empresa privada explorar comercialmente essa fatia do mercado de transportes.

Sem o diálogo e a comunicação com a sociedade, sem o investimento em campanhas de educação, sem a coragem para desacelerar o trânsito e ceder parte da via de rolamento para a ocupação de bicicletas, o que se vê é a presença de totens com propaganda de banco subtraindo espaço de calçada dos pedestres, muitas vezes já exíguos e precários. Tal escolha, que segue privilegiando o transporte motorizado individual, o que faz é servir a um banco privado ao mesmo tempo em que abandona ciclistas e pedestres à disputa pelo espaço escasseado.

O poder público, sem a coragem de desacelerar o trânsito, quando autoriza ao banco salpicar as calçadas da cidade com estações de compartilhamento de bicicleta, praticamente faz um convite ao usuário do serviço para pedalar sobre as calçadas, por simples falta de alternativa. Qual é o ciclista inexperiente que vai escolher transitar ao lado de máquinas pesadas em alta velocidade?

Sobre a escolha dos locais de instalação, a empresa que mantém o serviço alega que a prefeitura determina o local. A prefeitura… bem, fale com a prefeitura, se tiver sucesso, me avise. No jogo de empurra, motoristas, ciclistas e pedestres, mais uma vez, estão lançados no ambiente hostil do salve-se quem puder, vence o mais forte.

Antes de atacar as vítimas, moradores de uma cidade abandonada à própria sorte pelo poder público, e explorada pela parceria deste com a iniciativa privada, vale ampliar o olhar e reavaliar aonde se encontra a raiz do problema e da solução que quer brotar. O que não dá é para podar a árvore errada.

A luz e a bigorna

Associar iluminação e segurança parece ser solução inquestionável e eficiente para que mulheres se sintam menos ameaçadas no espaço público da rua.

Mas será mesmo que o sentimento de vulnerabilidade que as mulheres carregam como bigornas desaparece com a presença de um poste luminoso?

Se sim, o que é percebido como ameaça não seria real. Não passando de uma sombra mal interpretada, a sensação de insegurança compartilhada por mulheres que insistem ocupar as ruas da cidade seria apenas uma projeção deformada de claros e escuros que a incidência correta de luz teria o poder quase mágico de apagar. Em outras palavras, a experiência de interdição ao espaço público que as mulheres sofrem não passaria de uma fantasia de criança que, tão logo a luz se acende, deixa de ver monstros se deslocando pelo quarto.

Eu suspeito que isso não seja verdade. A sensação de vulnerabilidade, o medo, a interdição, tudo isso é real, porque a ameaça é real e mata. Suspeito, ainda, de que não é a luz que vai afastar esse peso. Pelo menos, não a luz do poste.

Compartilho três experiências que afastam de mim a certeza na crença de que a iluminação pública é o que elimina a ameaça (concreta) de violência contra a mulher.

Em uma das situações, chegava em uma cidade desconhecida, era noite e eu estava próxima a um porto. Sendo carioca, a referência porto não é sinônimo de segurança. Noite tampouco. As ruas próximas de onde eu estava não eram exatamente iluminadas. Já vinha cruzando fronteiras de carro. Chegando no hotel, a primeira medida foi esquecer que o carro existia. Queria explorar a cidade a pé. Apesar do receio (medo mesmo) fui andando pelo caminho indicado na recepção, beirando o cais do porto. Poucos metros à frente, de uma viela ainda mais escura do que a rua aonde eu estava, surgiu uma senhora com um schnauzer na coleira. Perguntei se o meu destino ficava longe. Sorridente e tranquila, indicou que seriam apenas 3 km, talvez um pouco mais, e apontou para uma ladeira. Eu estava no caminho certo. Olhando a ladeira, o escuro e o silêncio à minha volta, perguntei ainda se era seguro. Ela riu, entre surpresa e divertida, com a pergunta. Curiosa, perguntou de onde eu era, para, então, concluir que sim, claro que era seguro. Não muito convencida, segui o caminho ladeira acima. Procurava me distrair com o mar que ondulava lá embaixo, perto o bastante para se fazer ouvir. Vez ou outra, alguém surgia passeando um cão. Grupos de adolescentes falando alto também cruzavam meu caminho. Todas, presenças efêmeras. Nem bem surgiam, já desapareciam.

A certa altura, cheguei em uma praça. Luz? Certamente alguma luz teria. Bem iluminada? Não. Não mesmo. Eu diria até que era uma praça escura, cheia de arbustos e árvores frondosas, o que deixava o lugar ainda mais assustador para os meus olhos. Ali, no meio da praça quase escura e praticamente deserta, uns bancos de cimento e uma mesa, sobre a qual uma adolescente entre 16 ou 17 anos estava sentada. Cabelos longos. Jovem. Mulher. Linda. Sozinha. Eu sentia frio. Ela parecia nem notar. Usava uma microssaia e estava atenta à tela do seu celular: um iPhone que não se preocupava em esconder. Distraída com o aparelho, usava ainda fones nos ouvidos.

Em um outro canto mais afastado da praça uns rapazes ocupavam outra mesa. Caras passaram pela moça. Ninguém olhou para ela. Ninguém falou nada. Ela também não levantou os olhos do celular. Estava relaxada. Nesse instante, me convenci: ah, sim, acho que é seguro.

Será que foi a luz que suspendeu o peso da bigorna de cima da menina? Não. Até porque luz era o que não havia. Então, o que seria? Duas suspeitas:

(1) Talvez aquela sociedade fosse menos desigual economicamente: apesar do escuro quase deserto da praça, a moça se sentia segura com seu iPhone última geração à mostra e fones nos ouvidos.

(2) Talvez aquela sociedade fosse menos desigual com relação ao tratamento de gênero: ser mulher não fazia dela uma vítima; ela estava no lugar certo (praça mal iluminada), com a roupa certa (microssaia) e com a pessoa certa (ela mesma).

Algo assim, aparentemente tão banal, me impressionou tanto que guardei como se fosse uma fotografia na memória.

Alguns anos mais tarde, em uma outra ocasião, eu seguia com uma urbanista que me mostrava a cidade viva e alegre em que morava. Era um verão, quase não fazia frio, e cada canto estava repleto de ciclistas e pedestres ocupando calçadas e ruas que haviam sido devolvidas às pessoas. Ela me falava do processo de requalificação do espaço público pelo qual a cidade vinha passando. Por algum motivo repeti aquilo que nem acredito: uma rua mais iluminada traz mais segurança para mulheres. Ela parou séria: Que bobagem! Se um lugar é seguro, pode estar deserto e escuro, você não terá medo. O que faz ser seguro para as mulheres é os homens não terem comportamento predador. Lembrei do episódio da menina na praça escura e briguei comigo mesma por repetir como verdade crenças perpetuadas em mantras.

Mais recentemente, participei da produção de um documentário tratando sobre mobilidade. O filme acompanhou as histórias de quatro mulheres e suas rotinas de deslocamento entre a casa e o trabalho, usando o trem como modal. Uma das locações era uma estação, cuja linha férrea dividia o bairro em dois. Sem acesso direto da plataforma para a rua, era preciso subir escadas de metal até uma passarela de pedestres. Todo esse percurso estava exposto à ação dos ventos, das chuvas ou do sol, e não contava com alternativas para pessoas com mobilidade reduzida. Do alto da passarela, era possível acessar os dois lados do bairro segmentado pelos trilhos. De um lado, o acesso às residências e comércios era mais direto, até simples, dependendo do clima e das condições físicas do pedestre. Pelo outro lado, porém, para acessar as casas e comércios, era necessário atravessar um longo e claustrofóbico corredor. Sem iluminação ou cobertura, o que formava o corredor eram os altos muros que delimitavam as fronteiras de dois cemitérios. Alguns grafites coloridos humanizavam o ambiente hostil com mensagens religiosas ou críticas sociais. Uma das entrevistadas explicou que “para evitar essa passagem estreita, comprida, deserta e mal iluminada”, as mulheres que queriam chegar à esse lado do bairro desciam pelo lado oposto e tomavam um ônibus para dar a volta por outro bairro. Apenas então poderiam chegar em suas casas. Demorava mais, mas, dependendo do horário de volta do trabalho ou da faculdade, era o mais acertado, disse a moça.

Iluminar esse corredor estreito e deserto mudaria essa sensação de insegurança? Você percorreria erre caminho limitado pela linha do trem e os muros de um cemitério com segurança e confiança, ou apertaria o passo e recorreria a todas as rezas que talvez até desconheça?

A humilhação do pedestre

Os shoppings centers na Barra da Tijuca são uma presença vulgar, e parte importante da paisagem monótona e hostil de muros e edificações sem personalidade. No bairro, os shoppings são referência de localização e demarcação de território, ganhando status de acidente geográfico, tal qual um rio, um lago ou um morro.

Contra toda a dinâmica proposta para o bairro, eu costumo circular a pé ou de bicicleta por ruas e lugares feitos exclusivamente para serem vistos de longe e de relance através da velocidade impessoal de quem vai de carro. Não é bonito. Não é agradável.

Seguia pela avenida da Américas, no sentido zona sul. O domingo estava perfeito e a rua vazia de gente, a não ser por aquele grupo à minha frente. Eram 4 mulheres acompanhadas de 4 crianças. Uma das mulheres, a mais velha, gesticulava muito. Olhava ao redor e parecia bastante insatisfeita. Me aproximando, pude conhecer o motivo do seu (justificado) descontentamento.

O grupo havia chegado de ônibus. Desceram no ponto em frente ao destino final, mas uma cicatriz imensa as separava do seu objetivo: chegar ao Barra Shopping. Eram 12 pistas de alta velocidade dedicadas ao trânsito de automóveis particulares e coletivos, mais duas pistas exclusivas de BRT – sigla do inglês para transporte rápido por ônibus.

Considerando o BRT, precisariam vencer 14 faixas para ir de um lado ao outro da avenida. Isso corresponde a 92 metros de travessia, conforme o desenho proposto pelos especialistas. Se o pedestre optar pelo caminho mais curto, que é uma reta, são 80 metros de travessia.

Mas não era a extensão da travessia a pé o que causava consternação. Diminuindo meu passo, ouvi a mulher mais velha questionar o planejamento que colocava um ponto de ônibus tão distante de um ponto seguro de travessia. Para ir de onde saltaram até a faixa de pedestres, o grupo precisaria andar aproximadamente 100 metros em uma calçada desabitada. Aí, poderiam esperar o sinal fechar para os carros e atravessar para a outra calçada – o que certamente não seria feito em apenas um tempo de sinal. Quando, finalmente, chegassem ao outro lado, precisariam voltar os mesmos quase 100 metros, até a entrada do shopping.

A mulher desabafou: “é por isso que eu não gosto de vir aqui! Olha isso! Quem planejou isso? Parece que quer dizer assim pra gente: você não é bem-vindo. Não venha aqui a não ser que tenha carro”.

Me solidarizei. Parei ao seu lado para conversar. Concordei com todas as colocações e argumentos e perguntei se ela sabia que um pouco mais perto do ponto de ônibus havia uma travessia subterrânea. Tinha que andar, mas era bem menos.

Ela disse que já trabalhou ali perto e que conhecia a travessia subterrânea, mas que preferia não usar. “Já fui assaltada ali duas vezes. E tive amigas assaltadas também. Não tem segurança. Você não sabe o que pode encontrar lá embaixo. É ruim, mas prefiro andar tudo isso a atravessar naquele ‘buraco’. A gente se sente tão insegura que, se estiver cansada mesmo, ou se estiver chovendo, acaba se arriscando entre os carros, só pra não ter que andar tudo isso ou enfrentar a passagem subterrânea. Imagina, eu estou com 4 crianças…”

Ela tinha razão. Assenti. Entendi.

Nesse momento, já estávamos bem perto da travessia de pedestres. Eu ia me despedindo, quando ela falou: “agora é a outra parte da humilhação do pedestre. Tem que correr isso tudo aqui”. E ela riu.  “Se não correr não chega de uma vez, tem que esperar mais um ou dois sinais, dependendo da sua velocidade. E isso, ue eu quero ir ali naquele shopping pra gastar dinheiro. Eu quero ir lá gastar, e preciso passar por isso tudo. É por isso que não gosto de vir aqui.”

“Vai com Deus”, disse ela. Nos despedimos.

 

Ser pedestre na Barra da Tijuca

O dia em que fui de BRT até o Bosque da Barra

Para quem não conhece o bairro, o Bosque da Barra fica sobre as avenidas Américas e Ayrton Senna. Está quase em frente ao Terminal Rodoviário Alvorada, um ponto nodal para quem vem da Linha Amarela, da praia, da Zona Sul ou do Recreio.

Perto e longe, o Bosque está isolado do acesso por transporte coletivo por um vasto rio de aço correndo ameaçador, barulhento e em alta velocidade, em todas as direções.

Embora irônico, usando o BRT existem alguns caminhos possíveis. Irônico, porque o que a experiência mostrou foi a impossibilidade dos percursos a pé.

Hipótese 1 – saltar na estação Terminal Alvorada e brincar de equilibrista

Já do lado de fora do terminal, o pedestre vai costear a fachada gradeada e sem calçada, espremido entre o trânsito e o terminal rodoviário.

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Caminho usado por pedestres sem segurança alguma. Fonte: googlemaps

Em seguida, passando por baixo de um elevado, chegará a uma agulha que separa o fluxo de motorizados que vem da avenida Ayrton Senna em direção à Barra em dois destinos: praia e Recreio. Evidentemente o pedestre está do lado direito. Sem qualquer ponto de travessia, irá aguardar aquele momento especial para correr até o gramado que forma a agulha.

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Caminho usado por pedestres próximo à Cidade das Artes e Bosque da Barra: googlemaps

Quase lá. Agora só falta esperar mais um pouco e correr para uma última travessia sem segurança. Já na calçada do Bosque, o pedestre irá caminhar até a entrada do mesmo, acompanhando uma grade verde, que ‘brinca’ com dentro-fora.

Hipótese 2 – saltar na estação Terminal Alvorada e escalar uma passarela que não leva até o parque

Não quer passar por isso? Não tem problema. Saia do Terminal Alvorada e suba as escadas de acesso à passarela para atravessar a avenida. Você não vai chegar no Bosque ainda. Na verdade, andou mais e ainda se afastou do seu objetivo. Persevere.

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Passarela no Terminal Alvorada. Fonte: googlemaps

Já na calçada em frente ao terminal rodoviário, siga em diração à avenida das Américas e vire à esquerda, sobre a calçada. É bonito? Não, mas continue.

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Calçada em frente ao Terminal Alvorada. Fonte: googlemaps

Continue até não chegar a nenhum lugar adequado para a sua travessia segura. Aguarde a hora de correr e corra! No canteiro central, aguarde novamente e corra! Ainda não acabou. Repita essa operação, espere e corre mais duas vezes. Parabéns. Caso tenha sobrevivido, você vai poder desfrutar de um dia lindo com a família no bosque bucólico de vegetação e fauna característicos.

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Travessia informal usada pelos pedestres em Avenida das Américas. Fonte: googlemaps

Ah, mas não tem outro jeito? Tem. É o caminho da hipótese 3.

Hipótese 3 – saltar na estação Bosque da Barra

Gente, mas se tem uma estação de BRT com o mesmo nome do lugar que eu quero ir, é claro que é nessa estação que eu tenho que descer. Blogueira desgraçada, me fez ler tudo isso pra que?

Eu sei, e eu também pensei assim. E foi exatamente nesta estação que eu desci: Bosque da Barra. Mas aí…

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Percurso a pé entre BRT Bosque da Barra e o Parque. Fonte: googlemaps

Aí, acontece que o sinal fica do lado oposto ao que você quer ir, então, você vai sair da estação e andar em direção ao Recreio. Atravesse por uma espécia de retorno, sem faixa de pedestre, nem nada, e aguarde o sinal fechar para atravessar na faixa. Olha a vantagem. E ainda tem sombra.

Só que como aí não tem nada, não é raro que você se veja ilhado entre pistas de automóveis para os dois lados, e a mercê de algum tipo de assédio na rua. Neste ponto, por causa do congestionamento constante, e da ausência de vida, é comum encontrar grupos de adolescentes trabalhando-pedindo-assaltando no sinal.

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Vista da faixa de pedestre na estação BRT Bosque da Barra. Fonte: googlemaps

Mas agora você atravessou. Está na calçada certa. É só caminhar até o bosque. Não. Você não está em lugar nenhum. Você está sobre mais um canteiro, que desta vez, separa a avenida movimentada da “rua residencial”, em frente ao conjunto de condomínios fechados.

Pode seguir pela calçada dos prédios? Pode, mas não vai longe. Então, o melhor é seguir pelo canteiro gramado. Imagina na chuva.

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Canteiro em frente à estação BRT Bosque da Barra. Fonte: googlemaps

Você vai andar por aproximadamente 10 minutos pelo chão de grama e terra, até chegar a um posto da Guarda Municipal. Não desista. Está quase lá. Atravesse como puder, porque não tem sinal de trânsito e nem faixa de pedestre, e vá até o muro horroroso do outro lado.

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Calçada em frente ao posto da GM. Fonte: googlemaps

Acompanhe esse muro. Olha aí. Vagas para idoso pintadas no chão. Calçadinha pra você andar. Tá bonito. Mais um pouco e já começa a grade do parque.

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Calçada e vagas de idoso junto ao muro do parque. Fonte: googlemaps

Agora não tem erro. Você está seguro. A grade verde e vazada quase que aproxima o parque de você e da rua. Em breve, vai ver uma movimentação humana. É a entrada do parque. Divirta-se e nem pense em como vai sair daí depois do passeio. Viva uma coisa de cada vez. Esse é o segredo da felicidade.

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A grade do parque. Fonte: googlemaps