Não vale o que pula pulga.

1964 Foi golpe.

2013 Onda protofascista captura o movimento Passe Livre banindo bandeiras, partidos, sindicatos e batendo continência pra símbolo de opressão. Seu lema, vestidos de verdeamarelo: minha bandeira jamais será vermelha. 🤦🏽‍♀️

2016 Foi golpe. Foi também a misoginia e o machismo sem pudores.

2018 Desdobramento do golpe. Pela urna. Urna. Susbstantivo feminino. (1) receptáculo para recolher votos, etc. (2) recipiente com tampa onde se depositam as cinzas dos mortos. 🤷🏻‍♀️ Agora já são 333 mil mortos. 🤷🏻‍♀️

2021 Auto-golpe em articulação. “Quem poderia imaginar?” 🧐

É fácil (e justo) responsabilizar uma imprensa manipuladora, politicos, setores rentistas pouco escrupulosos, e por aí vai. Mas cada ser humano é dotado da fascinante capacidade de pensar, questionar, refletir, dialogar, projetar futuros, avaliar riscos.

Foi uma escolha. Sempre é uma escolha.

Bolsonaro é um. É insignificante. É inexpressivo. 99,2M é muita gente. 99,2M foram os que deram poder a quem não tem. O poder é seu. Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Aprendi nos quadrinhos. Use seu poder com responsabilidade.

Human Race – uma corrida contra quem?

Em inglês, “race” significa raça, mas também significa corrida. A expressão “human race” pode ser lida como raça humana ou corrida humana. Se é uma corrida, é uma corrida contra quem ou o quê? O que marca a chegada?

Tomando por referência o desprezo aos alertas de pesquisadores e pesquisadoras de diferentes áreas do conhecimento, bem como da vida agonizante do planeta, a corrida é contra a própria humanidade. A linha de chegada é a destruição de toda natureza. Nesse caso, é preciso que nos perguntemos: é possível existir humanidade sem natureza?

Parece que uma parte de nós está convencida que sim. Desses, aqueles com mais poder exploram toda expressão de vida reduzida à dimensão de recurso. Fauna? Recurso. Flora? Recurso. Minerais? Recursos. Energia? Recurso. Tudo é recurso.

Cientes da raridade da vida, se apressam no processo de apropriação e exaustão de tudo o que possa ser dominado e transformado em moeda. Talvez essa seja a corrida: Ser o primeiro a erguer a cerca pelo direito de exploração. Parecem apostar que a moeda acumulada ao investir na morte será suficiente para garantir-lhes uma existência descolada da vida.

Sob essa perspectiva, gente também é recurso. Recurso humano. Enquanto recurso, o humano é valorado pela sua utilidade ao sistema.

Convencido de que seu valor corresponde à essa utilidade cada humano vive ameaçado por sua anunciada obsolescência e descartabilidade. Desamparado diante do que parece inevitável, assume a responsabilidade e a obrigação individual de manter-se sempre o mais útil possível para o próprio sistema que o devora.

Conforme uma escala de mérito, o sistema premia os recursos humanos com mais ou menos riqueza. Essa distribuição quase nunca é proporcional ao volume de riqueza gerada para outrem ou para o coletivo. A distribuição desigual das migalhas mantém a competitividade sempre acesa.

Como qualquer outro recurso, quando a energia de um recurso humano se exaure, ele deixa de ter utilidade. Para o pensamento neoliberal, aquilo que não converte riqueza (vida) em moeda (morte), gera custo, e o que gera custo, deve ser descartado. Porém, assim como o lixo que acreditamos “jogar fora” não desaparece, essas pessoas também não deixam de existir. Agora elas são apenas um problema. O recurso humano passa à condição de refugo.

O refugo humano não é apenas inútil. Ele disputa os recursos finitos com os humanos que ainda são úteis e com aqueles que nunca perdem a validade. (A validade de um humano é extendida não pela sua suposta utilidade permamente na produção de riqueza, mas pela capacidade de acumular moeda pela exploração de tudo o que há).

Em outras palavras, o refugo humano atrapalha o sistema na acumulação. Agora não passa de obstáculo dependente de programas sociais dedicados a “sustentar vagabundo” – dizem eles.

Dentro dessa lógica, o ideal seria que o refugo humano morresse o mais breve possível. É o princípio que orienta a gestão dos leitos privados de hospital. O contratante dos serviços de saúde complementar somente é útil se saudável e pagante. Em caso de doença, havendo necessidade de internação, que seja breve, do contrário representará prejuízo. Nem que saia morto, é preciso que saia, e rápido. Afinal, saúde privada é um negócio, e ele deve enriquecer o empresário.

Acredito que uma parcela significativa de nós, humanos reduzidos a recurso, viva muito esmagada sob o horror ser tornado refugo. Talvez esperar força para uma reação seja fantasioso.

Penso que haja uma parte importante de nós assistindo passiva, conivente até, o relógio da bomba armada contra a vida correr. Sem criatividade aceita esse modelo de existência como o único possível. É provável que essa parte se acredite relativamente triunfante na medida em que se é esmagado, também esmaga e no computo final sente o jogo sem vencedores quase favorável a si. Faz parte da atitude conivente a aposta em estratégias conciliatórias.

Por quanto tempo ainda é possível sustentar a conciliação com o que é inconciliável? Em troca de que ainda se fazem concessões, quando já se está além do limite? Agir assim, não é operar segundo os mesmos mecanismos de negação do colapso ecológico que movimenta aqueles que ativamente erguem cercas, privatizam, controlam e destroem o que enxergam como bem de direito privado?

O mais irônico é que uma das ferramentas mais comuns utilizadas para sustentar esse tipo de negacionismo “racional” é a fé nos milagres da ciência e da tecnologia. Poderosos, ativistas e pessoas comuns ocupadas com o cotidiano de seus trabalhos e famílias, parecem compartilhar da crença otimista de que alguma fórmula matemática, alguma lei da física, algum processo de sintetização da vida será suficiente para manter a saúde de nossos corpos e mentes. É possível até que se almeje prescindir dos corpos, essa estrutura frágil e perecível que ainda ocupa lugar no espaço. Talvez possamos traduzir tudo em informação a ser armazenada em uma nuvem digital. Viveremos eternamente, como fragmentos de um todo indistinto. Seremos todos Deus.

Uma horta de bairro ou Nas cidades tem gente

As tristezas se acumulam com o lixo que a chuva fez correr, como se quisesse despertar nas gentes, por meio do espanto, uma reflexão mais séria, uma ação mais comprometida, uma consciência mais viva. Ocupada do assombro, deixei de lado um breve encontro que gostaria de compartilhar, e que considero especialmente necessário diante de todo o caos e abandono que recebemos de cada uma das três esferas de poder.

Domingo fui papear com uma amiga lá na horta comunitária do bairro. Entre um assunto e outro, fomos regando as mudinhas de hortaliças, temperos, frutíferas e nativas que vizinhos e amigos começaram a semear. Antes mesmo das sementes da terra produzirem frutos e frutas, raízes e folhas, outras sementes já começaram a brotar. Sementes de ideias vindas de diferentes lugares. Ideias que já seguem livre o seu caminho de fazer voar outras ideias que vão chegando longe.

Mais do que o privilégio de ter um pequeno sistema agroflorestal bem no coração da cidade, iniciativas como a Horta do Vinil tem o encatamento de recuperar o sentido de espaço público. Existem muitas formas de revitalizar áreas urbanas. Os movimentos de agricultura comunitária em espaços públicos da cidade é uma delas.

A Horta do Vinil fica em terreno ladeado por uma igreja e uma escola pública. Durante muito tempo a área, que dispõe de alguns aparelhos de ginásica, uma pequena arena circular e dois campos de futebol, esteve subutilizada. Quase esquecida. Diante da ameaça de que a área pública fosse vendida para a iniciativa privada, um grupo organizado da sociedade civil se mobilizou para preservar a área pública. Passaram a ocupá-la com a horta.

É lindo ver a pequena floresta ganhando forma. Mas, muito mais do que isso, ao revitalizar o espaço público, a ação oferece a oportunidade de revitalizar também o sentido de comunidade. Ao promover a convivência, são criadas e fortalecidas redes sociais, sentimento de pertença e vizinhança. Isso favorece a saúde mental, a percepção de segurança e pode ser fundamental no processo de restabelecimento dos diálogos saudáveis, em uma sociedade tão sofrida por polarizaçôes e intolerância.

Mais do que semente na terra e ideia em movimento, a iniciativa ajuda a criar vínculo e afeto entre as pessoas e destas com o lugar. Duradouros ou efêmeros, cada vínculo traz a possibilidade do olhar, do sorriso e de histórias que podem ensinar.

Foto: Cris Portella

Uma das dificuldades que enfrentamos na horta é o acesso à água: para rega e para nossa higiene. No momento, a igreja ao lado da horta tem permitido que busquemos água com eles. Levamos baldes vazios e voltamos com eles cheios. Pesam!

Foi em uma dessas idas e vindas de balde cheio que vi a amiga voltar acompanhada de um rapaz. Enquanto fazíamos a rega, ele passou a mão sobre uma das folhas, dizendo do contentamento que sente quando vê o verde brotar. “É como se elas estivessem agradecendo pelo carinho da gente.”

Contou que começou a gostar de planta quando ajudava a avó a cuidar do quintal de casa. Lembranças boas de infância. Suas plantas preferidas são a planta da felicidade e a bougainvillea, porque uma parece renda e a outra é cheia de cor.

Nos conta que está contente de ver a horta acontecer. Avalia que antes estava abandonado e agora já não.

Passamos parte da manhã ali, conversando e compartilhando nosso cuidado com o espaço, que é público, e nosso gosto comum pelo verde.

Esse encontro me fez pensar sobre a potência de ações singelas capazes de dar vida a espaços que são tão nossos, mas que tão fácil a gente esquece.

No seu bairro também tem uma praça? Como é a convivência nesse espaço? Como pode melhorar?