Somos bichos escrotos

Dizemos que queremos saúde, mas escolhemos o caminho da doença. Vivemos rotinas sedentárias, comemos pela gula e não para nos alimentar, nos expomos a todo tipo de substância tóxica em excesso: do cigarro de nicotina ao monóxido de carbono. Nos separamos da natureza. Ignorantes, degradamos a natureza da qual julgamos não pertencer.

Ontem, distraidamente, fiz a tolice de ir pedalar pela orla do Rio. O lixo! Sem exagero. O lixo era surpreendente. Papel, plástico, garrafas, restos de comida e cigarro, máscara sem gente e gente sem máscara escarrando no chão, mijando no chão. No mesmo chão onde andavam descalços, onde os filhos brincavam.

Vi um homem trôpego, talvez alcoolizado, catando tampinhas de garrafa plástica. Vi quando levantou uma garrafa tampada do chão. Destampou. Recolheu a tampa. Descartou a garrafa novamente no chão.

Olhei pros prédios. Muitas varandas com a bandeira do Brasil pendurada. Já implico. Já desprezo. Olhei pra turba aglomerada desfilando sobre o lixo do calçadão. Não foram raros os que avistei enrolados em cangas representando a bandeira nacional. De um lado e do outro, miséria. O rico e o pobre, miséria.

Patriotas, talvez. É provável que as bandeiras estivessem lá em comemoração ao 7 de setembro. Independência proclamada às margens de um Ipiranga que há muito não passa de um esgoto a céu aberto. Diz muito.

Uma horta de bairro ou Nas cidades tem gente

As tristezas se acumulam com o lixo que a chuva fez correr, como se quisesse despertar nas gentes, por meio do espanto, uma reflexão mais séria, uma ação mais comprometida, uma consciência mais viva. Ocupada do assombro, deixei de lado um breve encontro que gostaria de compartilhar, e que considero especialmente necessário diante de todo o caos e abandono que recebemos de cada uma das três esferas de poder.

Domingo fui papear com uma amiga lá na horta comunitária do bairro. Entre um assunto e outro, fomos regando as mudinhas de hortaliças, temperos, frutíferas e nativas que vizinhos e amigos começaram a semear. Antes mesmo das sementes da terra produzirem frutos e frutas, raízes e folhas, outras sementes já começaram a brotar. Sementes de ideias vindas de diferentes lugares. Ideias que já seguem livre o seu caminho de fazer voar outras ideias que vão chegando longe.

Mais do que o privilégio de ter um pequeno sistema agroflorestal bem no coração da cidade, iniciativas como a Horta do Vinil tem o encatamento de recuperar o sentido de espaço público. Existem muitas formas de revitalizar áreas urbanas. Os movimentos de agricultura comunitária em espaços públicos da cidade é uma delas.

A Horta do Vinil fica em terreno ladeado por uma igreja e uma escola pública. Durante muito tempo a área, que dispõe de alguns aparelhos de ginásica, uma pequena arena circular e dois campos de futebol, esteve subutilizada. Quase esquecida. Diante da ameaça de que a área pública fosse vendida para a iniciativa privada, um grupo organizado da sociedade civil se mobilizou para preservar a área pública. Passaram a ocupá-la com a horta.

É lindo ver a pequena floresta ganhando forma. Mas, muito mais do que isso, ao revitalizar o espaço público, a ação oferece a oportunidade de revitalizar também o sentido de comunidade. Ao promover a convivência, são criadas e fortalecidas redes sociais, sentimento de pertença e vizinhança. Isso favorece a saúde mental, a percepção de segurança e pode ser fundamental no processo de restabelecimento dos diálogos saudáveis, em uma sociedade tão sofrida por polarizaçôes e intolerância.

Mais do que semente na terra e ideia em movimento, a iniciativa ajuda a criar vínculo e afeto entre as pessoas e destas com o lugar. Duradouros ou efêmeros, cada vínculo traz a possibilidade do olhar, do sorriso e de histórias que podem ensinar.

Foto: Cris Portella

Uma das dificuldades que enfrentamos na horta é o acesso à água: para rega e para nossa higiene. No momento, a igreja ao lado da horta tem permitido que busquemos água com eles. Levamos baldes vazios e voltamos com eles cheios. Pesam!

Foi em uma dessas idas e vindas de balde cheio que vi a amiga voltar acompanhada de um rapaz. Enquanto fazíamos a rega, ele passou a mão sobre uma das folhas, dizendo do contentamento que sente quando vê o verde brotar. “É como se elas estivessem agradecendo pelo carinho da gente.”

Contou que começou a gostar de planta quando ajudava a avó a cuidar do quintal de casa. Lembranças boas de infância. Suas plantas preferidas são a planta da felicidade e a bougainvillea, porque uma parece renda e a outra é cheia de cor.

Nos conta que está contente de ver a horta acontecer. Avalia que antes estava abandonado e agora já não.

Passamos parte da manhã ali, conversando e compartilhando nosso cuidado com o espaço, que é público, e nosso gosto comum pelo verde.

Esse encontro me fez pensar sobre a potência de ações singelas capazes de dar vida a espaços que são tão nossos, mas que tão fácil a gente esquece.

No seu bairro também tem uma praça? Como é a convivência nesse espaço? Como pode melhorar?

Consciência e atuação política é imprescindível. Reavaliar o modelo econômico é urgente.

Não é “só” o mau cheiro. Além de prejudicar a sobrevivência da fauna e da flora, e mesmo o sustento de comunidades de pescadores, o lixo lançado diariamente na rede hídrica também prejudica a saúde das pessoas.

E não é pouco lixo.

Para você ter uma dimensão da coisa, em menos de duas horas de mutirão 17 voluntários recolheram 6 mil litros de lixo de um pequeno trecho à margem do Canal de Marapendi. A variedade do que foi encontrado você vê nas fotos.

Esse mutirão não é o único. São muitas iniciativas que acontecem de modo articulado ou independente. Ainda assim, o lixo parece não ter fim. Todo dia ele volta, arrastado pelas correntes das águas ou simplesmente abandonado ali.

Já pensou como isso prejudica a sua vida? Você percebe o prejuízo para a economia, o turismo, ou mesmo o valor do seu imóvel? O que você pode fazer para evitar a degradação desse ecossistema e o empobrecimento da sua cidade tão aninhada nessa natureza?

Conheça seu lixo. Consuma menos. Reaproveite e reutilize. Questione “conveniências”. Mas, exija e lute por políticas que multipliquem o seu esforço, para que as iniciativas individuais não se percam.

Consumismo – alegria efêmera, danos duradouros

Após romper sua carapaça, a cigarra experimenta um período de vulnerabilidade até formar uma nova estrutura que a proteja e sustente. Esse processo de transformação chamado de ecdise é o que permite o crescimento da cigarra.

Mudar nossos hábitos, certezas e verdades também pode nos deixar vulneráveis. Por isso é tão comum resistir ao não conhecido e até brigar para manter tudo exatamente como é, afinal, dizem que em time que tá ganhando não se mexe. Mas será que o time tá mesmo ganhando?

Quando a gente pensa no impacto dos nossos hábitos sobre o meio ambiente parece que não é bem assim. De fato, nem o nosso time e nem nenhum outro está ganhando.

Já parou para fazer essa reflexão? Reflita sobre seus hábitos de consumo e descarte. O que você pode mudar? Com quais certezas deve romper para crescer em consciência e cidadania para uma vida sustentável?