Deformação condicionada e condicionante: basta!

Quem sou eu na fila do pão? Se algo, sou uma pessoa que está desconfortável, tentando avaliar esse manifesto cheio de assinaturas, identificado como frente ampla pela democracia e contra o fascismo. Sou uma pessoa relativamente aliviada em saber que somos 70% — de quê, porém?

É certo que quando o rolo compressor vem ameaçando nossa existência, é urgente uma ação pela sobrevivência. Mas, quando vamos sair desse modo tão primitivo: agir pelo instinto de sobrevivência, um instinto basal, nem sempre provido de raciocínio? Pra ilustrar o absurdo disso, vi circulando, em um canal obscuro no Youtube, uma webserie no modo “survivalist”. De padrão norte americano boçal, o canal é atribuído a uma empresa que leva o nome de uma pessoa e se pretende algo como um coach que vai te ensinar a atravessar crises. Claro, a protagonista é um gringo fantasiado de soldadinho, porta armas pesadas e faz referência à guerra e a uma suppsta bravura e heroísmo. Essa caricatura de oportunismo barato é a face do que aceitamos nos tornar.

Pra que serve a história? Estaremos condenados a repetir os mesmos erros de sempre, às custas da covardia e do medo? Não aprendemos nada com slogans vazios de conteúdo?

É preciso união, mas tendo a coragem de construir uma pauta concreta e coerente, capaz de mobilizar transformação. O debate para essa construção já é transformador. Ainda que lá na frente os rentistas usurpadores de sempre nos passem a perna, teremos uma plataforma sobre a qual ficar de pé. O preço dessas frentes amplas sem forma é a deformação de tudo. O grito vazio de “é contra a corrupção” de 2013 vira o grito esvaziado de “é contra o fascismo”. De grito em grito não dizemos e não ouvimos nada. Precisamos de um projeto. É urgente.

(Texto originalmente publicado no meu perfil do facebook, hoje cedo, e adaptado pra cá).

Atualização para processos seletivos

Procurando recolocação no mercado?
Siga as dicas quentíssimas para a entrevista. Não falha!

Qualificação: não precisa. Admita que não tem qualquer competência e jogue nas mãos de Deus. Seja firme e declare: “tenho certeza de que não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos” (Bolsonaro, Jair apud Deus. Bíblia).

Honestidade e coerência: isso é coisa do passado. Palavra não vale nada. Diga o que for preciso, ainda que não tenha como provar. Se pegar mal, diga o contrário imediatamente depois. Repita essa ação até que o interlocutor fique satisfeito.

Titulação: que bobagem. Você tem WhatsApp?

Princípios éticos: não caia nessa. “Ninguém é bonzinho”. Admita que é inescrupuloso. Diga que pra você negros devem morrer após atingirem 7 arrobas, quando já “não servem mais nem pra procriar”. Diga que mulheres são inferiores e que jamais estupraria uma que não merecesse. Diga que indígenas são o atraso da nação. Diga que seus concorrentes devem ser “varridos”, “destruídos”. (Bolsonaro, Jair)

Direitos trabalhistas: diga que isso é coisa de encostado. Diga que abre mão de suas horas de descanso, hora extra, CLT, 13o ou férias. Diga que gosta do desafio. Que vc quer ser um ‘colaborador’ da empresa, sem participação nos lucros, sem perspectivas, sem nada, afinal você quer trabalhar, você não quer direitos.

Dica final: infalível! Todo empreendedor de si mesmo deve ter um ídolo. Seja criativo. Ustra está em alta. Mas você pode mais. Veja algumas sugestões: Pol Pot, Pinochet, Mussolini, Hitler, Stalin, Erdogan, Duterte, Bashar Al-Assad, Franco, Salazar. Escolha o seu.