Human Race – uma corrida contra quem?

 

Em inglês, “race” significa raça, mas também significa corrida. A expressão “human race” pode ser lida como raça humana ou corrida humana. Se é uma corrida, é uma corrida contra quem ou o quê? O que marca a chegada?

Tomando por referência o desprezo aos alertas de pesquisadores e pesquisadoras de diferentes áreas do conhecimento, a corrida é contra a própria humanidade. A linha de chegada é a destruição de toda natureza. Nesse caso, é preciso que nos perguntemos: é possível existir humanidade sem natureza?

Parece que uma parte de nós está convencida de que sim. Desses, aqueles com mais poder exploram toda expressão de vida reduzida à dimensão de recurso. Fauna? Recurso. Flora? Recurso. Minerais? Recursos. Energia? Recurso. Tudo é recurso.

Cientes da raridade da vida, se apressam no processo de apropriação e exaustão de tudo o que possa ser dominado e transformado em riqueza privada. Talvez essa seja a corrida: Ser o primeiro a erguer a cerca pelo direito de exploração. Parecem apostar que a moeda acumulada ao investir na morte será suficiente para garantir-lhes a existência descolada da vida.

Sob essa perspectiva, gente também é recurso. Recurso humano. Enquanto recurso, o humano é valorado pela sua utilidade ao sistema. A utilidade é medida pela capacidade que um recurso tem de gerar riqueza para alguém. Eficiente, o sistema convence cada humano que é sua responsabilidade e obrigação individual investir (moeda) em si mesmo, de modo a se tornar o mais útil possível para o próprio sistema.

Conforme uma escala de mérito, nem sempre proporcional ao volume de riqueza que cada recurso humano gera para outrem, o sistema premia os recursos com mais ou menos riqueza, agora distribuída na forma de migalhas, mantendo a competitividade sempre acesa.

Como qualquer outro recurso, quando a energia de um recurso humano se exaure, ele deixa de ter utilidade. Para o pensamento neoliberal, aquilo que não gera riqueza, gera custo, e o que gera custo, deve ser descartado. Porém, assim como o lixo que acreditamos “jogar fora” não desaparece, essas pessoas também não deixam de existir. Agora elas são apenas um problema. O recurso humano passa a condição de refugo humano.

O refugo humano não é apenas improdutivo e inútil. Ele disputa os recursos finitos com os humanos que ainda são úteis. Além disso, atrapalha o sistema na acumulação da moeda com obstáculos como programas sociais dedicados a “sustentar vagabundo” – dizem eles.

Dentro dessa lógica, o ideal seria que o refugo humano morresse o mais breve possível. É o princípio que orienta a gestão dos leitos privados de hospital. O contratante dos serviços de saúde complementar somente é útil se saudável e pagante. Em caso de doença, havendo necessidade de internação, que seja breve, do contrário representará apenas prejuízo. Nem que saia morto, é preciso que saia e rápido. Afinal, saúde privada é um negócio, e ele deve enriquecer o empresário.

Acredito que uma parcela significativa de nós, humanos reduzidos a recurso, viva tão esmagada sob a pressão de lutar para apenas sobreviver, que esperar força para uma reação revoltada possa ser fantasioso. Porém, há uma parte importante de nós que assiste passiva, conivente até, o relógio da bomba armada correr. Faz parte da atitude conivente a aposta em estratégias conciliatórias.

Por quanto tempo ainda é possível sustentar a conciliação com o que é inconciliável? Em troca de que ainda se fazem concessões, quando já se está além do limite? Agir assim, não é operar segundo os mesmos mecanismos de negação do colapso ecológico que movimenta aqueles que ativamente erguem cercas, privatizam, controlam e destroem o que enxergam como bem de direito privado?

O mais irônico é que uma das ferramentas mais comuns utilizadas para sustentar esse tipo de negacionismo “racional” é a fé nos milagres da ciência e da tecnologia. Poderosos, ativistas e pessoas comuns ocupadas com o cotidiano de seus trabalhos e famílias, parecem compartilhar da crença otimista de que alguma fórmula matemática, alguma lei da física, algum processo de sintetização da vida será suficiente para manter a saúde de nossos corpos e mentes. É possível até que se almeje prescindir dos corpos, essa estrutura frágil e perecível que ainda ocupa lugar no espaço. Talvez possamos traduzir tudo em informação a ser armazenada em uma nuvem digital. Viveremos eternamente, como fragmentos de um todo indistinto. Seremos Deus.