Já que o Maio é Amarelo e o sentido é a vida

Registro de uma intervenção em espaço público sem que tenha havido qualquer consulta ou mesmo comunicação junto à comunidade.

Desenho atual: uma curva em S, sem calçada, sem acessibilidade, sem sinalização de velocidade e sem pontos de travessia para pedestre ou redutores de velocidade

Avenida Afonso Arinos, sentido praia – Avenida das Américas

O traçado atual da via está destacado em vermelho. Todo o resto era área verde, hoje derrubada para dar lugar ao novo traçado de via.

Entre a praia e a Avenida das Américas não há nenhum sinal de trânsito, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. A via de velocidades elevadas é testemunha de frequentes acidentes de trânsito provocados pelo excesso de velocidade. Pedestres se arriscam em calçadas exíguas, esburacadas e travessias inexistentes. Ciclistas se arriscam em um trânsito hostil.

Mas a prefeitura está prestes a entregar uma obra de redesenho dessa via. Acompanhe a seguir o projeto.

Trecho de rua segregado e privatizado por cancela

O traçado amarelo, destaca uma rua privatizada por cancela. Separada da curva em S por uma ilha, seu uso era essencialmente dedicado a oferecer acesso praticamente exclusivo para o prédio da esquina, tornando-se uma espécie de extensão do estacionamento de visitantes do mesmo condomínio. Em dias de praia era comum ver banhistas fazerem uso da rua para deixar seus carros. Também era frequente o abandono de veículos danificados nessa área.

Retirada da ilha e ampliação do número de pistas

A ilha que separava essa rua privatizada por cancela da curva em S foi retirada. Também foi retirada a cancela. Deste modo, o número de pistas que vem do sentido da praia em direção ao Canal de Marapendi – Avenida das Américas foi ampliado de duas para quatro pistas. Não foi prevista nenhuma faixa de pedestre, redutor de velocidade ou sinalização indicando passagem de pessoas a pé ou de bicicleta.

Com a derrubada das árvores no terreno imediatamente à frente, a via “morta” ganha uma continuidade que dará acesso de carros, em uma linha praticamente reta, ao canal de Marapendi.

Neste trecho também não há indícios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. Do mesmo modo, ciclistas também não foram contemplados. Acessibilidade é algo que passou longe.

Um contorno antes inexistente

Essa em azul vê-se uma nova via, antes inexistente. De algum modo, parece prevista a circulação de carros no sentido do Canal para a praia, tendo sido abertas duas possibilidades de direção. Para a esquerda do desenho, voltaria em direção ao Canal, passando por de baixo da ponte. Para a direita, haveria um acesso para a rua que segue por sobre a ponte.

Mais uma vez, não há indícios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. Ao contrário do que seria de se esperar, já que há uma ciclovia desenhada no projeto apresentado pelo engenheiro responsável depois de muita insistência, não vemos os ciclistas sendo contemplados. Acessibilidade, novamente, é algo que passou longe.

A antiga curva em S cedeu lugar a uma longa reta

Por fim, o retão da alegria. O longo retão culmina em uma curva pouco suave, seguindo-se de outro longo e desimpedido retão imediatamente à frente.

Vou repetir o mantra: não há indícios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade, o trânsito de ciclistas não foi contemplados, acessibilidade não foi uma preocupação.

Logo da campanha Maio Amarelo de 2019: no trânsito, o sentido é a vida

Campanhas de conscientização no trânsito são maravilhosas, demonstram resultado e, portanto, são necessárias. Que legal. Mas, o que justifica essa desarticulação entre o plano de mobilidade urbana e a publicidade em torno do cuidado com a vida?

Vamos pensar juntos. Se um motorista olha para frente e não vê nenhum obstáculo, se, ao contrário disso, ele se depara com uma via larga, reta, lisa e desimpedida, qual o comportamento que será estimulado? Se você respondeu velocidade alta e convite à imprudência, você acertou.

Velocidades altas e embriaguez são as principais causas de acidentes com morte no trânsito. Então, porque, em uma área urbana, próxima à áreas de lazer e no caminho de um fluxo importante de pedestres (na verdade, o único acessível para pedestres e ciclistas nesse trecho), foi autorizada uma obra dessas, impondo, mais uma vez, um desenho 100% orientado para o transporte individual motorizado?

Cabe destacar que:

1. A obra tem previsão de entrega para esse mesmo maio, o Maio Amarelo.

2. O projeto apresentado pelo engenheiro responsável da obra não previa os vários novos sentidos e acessos possíveis para automóveis.

3. O projeto mostrava uma ciclovia segregada inexistente na obra realizada e prestes a ser entregue.

4. O projeto indicava redutores de velocidade e elevações da via para o nível da calçada. Estes não constam da obra próxima de ser finalizada.

5. No projeto apresentado, haveria um trabalho de calçamento da rua que vai da ponte para a praia, em destaque abaixo. Esse, de acordo com o mesmo engenheiro, era um terreno indevidamente apropriado pelo condomínio Atlântico Sul, e que, portanto, seria reintegrado ao uso público, justamente para dar lugar a uma calçada de pedestres. Esse trecho não recebeu qualquer beneficiamento e continua de posse e uso particular do condomínio Atlântico Sul.

Trecho correspondente a área indevidamente incorporada ao condomínio Atlântico Sul

6. De acordo com o engenheiro responsável pela obra, o restinho de área arborizada, receberia um tratamento paisagístico, recuperação de vegetação local e criação de parque público. Não está acontecendo.

7. Todo o trecho entre a praia e a Avenida das Américas tem 1,1km. Esse percurso carece de calçadas, e muitas das que existem são estreitas, acidentadas e inadequadas (inviáveis mesmo) para o trânsito seguro de pedestres, carrinhos de bebê ou pessoas com mobilidade reduzida. O trecho também é recheado de ameaças aos pedestres e ciclistas: contém muitos cruzamentos e acessos para carros vindo de diferentes vias, e não apresenta nenhum sinal de trânsito, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. Se há alguma placa de limite de velocidade, essa não é respeitada e nem tão pouco fiscalizada.

Conclusão

Uma cidade que ainda se permite tomar área verde para ampliar número de pistas para carros, sem pensar em mobilidade ativa; uma cidade que ainda privatiza espaços (há muitas formas de privatizar) sem pensar no publico; uma cidade que investe em velocidade e abre mão da segurança; essa é uma cidade atrasada, essa é uma cidade destinada a continuar matando no trânsito.

Mas, lembre-se, o sentido é a vida.

Abaixo, uma matéria de 2018 com orientações da OMS para um trânsito orientado à vida.

https://g1.globo.com/carros/noticia/2018/12/07/oms-divulga-relatorio-sobre-mortes-no-transito-e-sugere-reducao-de-velocidade-em-areas-urbanas.ghtml

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Uma horta de bairro ou Nas cidades tem gente

As tristezas se acumulam com o lixo e a lama que a chuva fez correr como se quisesse despertar nas gentes, por meio do espanto, uma reflexão mais séria, uma ação mais comprometida, uma consciência mais viva. Ocupada da tragédia, mais uma, acabei deixando de lado um breve encontro que gostaria de compartilhar, e que considero especialmente necessário diante de todo o caos e abandono e descaso que estamos continuamente e crescentemente recebendo de cada uma das três esferas de poder.

Domingo fui papear com uma amiga lá na horta do bairro. Entre um assunto e outro, fomos regando as mudinhas de hortaliças, temperos e árvores frutíferas que os vizinhos e amigos começaram a semear. Antes mesmo das sementes da terra produzirem frutos e frutas e raízes e folhas, outras sementes já começaram a brotar. Sementes de ideias vindas de diferentes lugares. Ideias que já seguem livre o seu caminho de fazer voar outras ideias que vão chegando longe.

Mas não foi só semente da terra, não foi só ideia, foram vínculos com o lugar e com as pessoas. Duradouros ou efêmeros, cada vínculo traz a possibilidade do olhar, do sorriso e de histórias que podem ensinar.

Foto: Cris Portella

Vejo a amiga voltar com a água. Junto dela, um rapaz ajudava a carregar um galão cheio. Jorge Luiz vem sorrindo. Enquanto fazíamos a rega, ele passou a mão sobre uma das folhas, dizendo do contentamento que sente quando vê o verde brotar. “É como se elas estivessem agradecendo pelo carinho da gente.”

Contou que começou a gostar de planta quando ajudava a avó a cuidar do quintal de casa. Lembranças boas de infância. Suas plantas preferidas são a planta da felicidade e a bougainvillea. “Uma parece renda, a outra é cheia de cor”.

Falou que agora está morando na rua e que há muito tempo não passava ali. Voltou recentemente e se encheu de alegria porque ali “onde o mal se enraizava, agora está nascendo o bem”.

Sobre o mal, nos contou dos “playboy” que ocupavam aquele “lugar abandonado antes da horta”. Fez questão de explicar o que queria dizer com playboy, “porque a pessoa não tem culpa de nascer rica, mas ela é responsável pelo que escolhe fazer disso. O playboy é aquele que acha que é melhor, que passa arrogante, que acredita que pode mais e pode tudo, que pensa você não é nada, que nem olha no olho, que bota fogo em morador de rua”.

Passamos parte da manhã ali, conversando e compartilhando nosso cuidado com o espaço, que é público, e nosso gosto comum pelo verde.

Esse encontro me fez pensar sobre a potência de ações singelas capazes de dar vida a espaços que são tão nossos e que tão fácil a gente esquece.

No seu bairro também tem uma praça? Como é a convivência nesse espaço? Como pode melhorar?

Ser normal

É uma pessoa muito boa. No Natal faz caridade. Leva cesta básica pra uns pobres.

É uma pessoa muito engajada. Distribui cobertores pra morador de rua. Dá até prato de comida. Às vezes, nem é resto.

É uma pessoa muito consciente. Não come carne vermelha, evita plástico, faz até mutirão de limpeza do lixo.

É uma pessoa muito ajustada. Joga o jogo, não faz marola. Mas o jogo mata. Até o cidadão de bem sabe disso. Só que quem morre é o outro. “É ele ou eu. Que seja ele”.

De boa vontade em boa vontade, quando dá, o cidadão de bem se exime de pensar nos privilégios que detém. Livre de pensar, não questiona a engrenagem que mata e mata e mata. Finge, assim, que nem percebe que essas mortes garantem seus pequenos (ou grandes) luxos. Iludido (nem sempre), ignora que também está morrendo em nome desses mesmos privilégios. Uma morte diferente, talvez. Ainda assim, não menos morte.

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Tateia na cômoda, buscando suas bolinhas. Vasculha a geladeira atrás de doces. Se acaba na noite. Vira todas no carnaval. Ah, o carnaval. Vamos sair de laranjal, fazer marchinha contra o racismo, a homofobia, o Capetão. Somos muito críticos, cultos, amamos cinema, andamos de bicicleta. Já falei que não comemos carne?

——

Por temer e evitar a morte, a sua e a dos seus, o cidadão de bem, que sabe o que tem valor, cria seus filhos na escola cara. Na escola cara tem um programa incrível voltado pro desenvolvimento socioemocional da criança rica, essencial pra formar um cidadão de bem, bem ajustado. Afinal, “ninguém quer ser ponta de lança”. Nossas inovações tem essa característica de inovar pra não sair do lugar. É um primor.

A educação inovadora do século 21 precisa pensar, portanto, muito além dos conteúdos tradicionais – esses que Damares, com seus diplomas falsos, diz que os pais “podem aplicar mais” em casa.

A educação do século 21 precisa educar o ser integral, capaz de reconhecer, nomear e fazer bom uso de suas emoções. Não serve só juntar letras e fazer as operações básicas. Isso é claro.

É claro, se você é cidadão de bem.

E, assim, nomeando suas raivas, tristezas e medos, a criança que recebeu sua educação integral se tornará também um cidadão de bem.

Com sorte, porém, não será assim. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que esse jogo não joga mais. Talvez lhe cresça a coragem de não se ajustar à norma de privilégios aprofundados em misérias de toda sorte a serem exploradas. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que é o capitalismo que mata e mata e mata pra que uns possam ir pra escola cara enquanto outros sequer tem o de comer e o de morar. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que o capitalismo não é resposta adequada, sem se esconder em desculpas. Se nem isso e nem aquilo serviu, talvez lhe cresça a coragem de ousar outro caminho ainda não percorrido. Talvez. Talvez, até, seja ouvida. Talvez nem a matem. (Marielle Presente, diz a hashtag adesivada no peito).

Deixo o link com matéria (2016) sobre o livro Despejados (Evicted), de Matthew Desmond. Trata-se de um estudo etnográfico sobre inquilinos de baixa renda em uma cidade desindustrializada de médio porte. O estudo, mais uma vez, e ainda, parte dos sempre mesmos questionamentos óbvios.

“E se o discurso dominante sobre a pobreza estiver errado? E se o problema não for a suposta carência moral das pessoas pobres — que elas são preguiçosas, impulsivas e não tem valores familiares — ou ainda sua falta de habilidade e inteligência necessárias para serem bem adaptados à gloriosa economia do século 21? E se o problema da pobreza é que ela gera lucro?”

Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as mulheres. Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as pessoas não brancas. Como sempre no capitalismo, o privilégio se concentra nas mãos do macho branco da espécie. É a norma. É normal.

Dizia o maluco, “deus me livre de ser normal”.

https://www.theguardian.com/books/2016/apr/07/evicted-poverty-and-profit-in-the-american-city-matthew-desmond-review

Consciência e atuação política é imprescindível. Reavaliar o modelo econômico é urgente.

Não é “só” o mau cheiro. Além de prejudicar a sobrevivência da fauna e da flora, e mesmo o sustento de comunidades de pescadores, o lixo lançado diariamente na rede hídrica também prejudica a saúde das pessoas.

E não é pouco lixo.

Para você ter uma dimensão da coisa, em menos de duas horas de mutirão 17 voluntários recolheram 6 mil litros de lixo de um pequeno trecho à margem do Canal de Marapendi. A variedade do que foi encontrado você vê nas fotos.

Esse mutirão não é o único. São muitas iniciativas que acontecem de modo articulado ou independente. Ainda assim, o lixo parece não ter fim. Todo dia ele volta, arrastado pelas correntes das águas ou simplesmente abandonado ali.

Já pensou como isso prejudica a sua vida? Você percebe o prejuízo para a economia, o turismo, ou mesmo o valor do seu imóvel? O que você pode fazer para evitar a degradação desse ecossistema e o empobrecimento da sua cidade tão aninhada nessa natureza?

Conheça seu lixo. Consuma menos. Reaproveite e reutilize. Questione “conveniências”. Mas, exija e lute por políticas que multipliquem o seu esforço, para que as iniciativas individuais não se percam.

Cativeiro e ferocidade são as únicas possibilidades?

Esse texto é um comentário à coluna de Joaquim Ferreira dos Santos para O Globo em 18/06/2018.

O título é ruim. “Perigo! Bicicleta!” aponta para uma série de lugares comuns que povoam a fantasia das pessoas. O título infeliz alimenta o antagonismo entre indivíduos ao invés de tratar do problema real e indicar quem pode e deve agir para resolvê-lo.

O problema real: quase um século de investimento em infraestrutura segundo a lógica da velocidade e centrada na conveniência do motorizado.

O principal responsável e agente de mudança: poder público local, o qual não direi que é omisso para não ser redundante. Droga! Já foi…

A linha fina denuncia a miopia do autor. Nela lemos que “A bicicleta no Rio é o bicho solto. Para ela não existe limite de velocidade, lugar apropriado de transitar ou essas coisinhas miúdas de obedecer mão e contramão”.

Sua visão comprometida faz com que atribua como exclusividade da bicicleta (vamos ler ciclista) aquilo que é, de fato, observado em carros ou motos ou ônibus (vamos ler motoristas).

Faça o exercício. Substitua a palavra bicicleta, na linha fina, por carro, ou moto, ou ônibus, ou van, use a imaginação. Veja se funciona. Funcionou, né?

O colunista acerta, no entanto, quando diz que “A coitada não tem culpa. Caiu numa cidade que já tinha escolhido o carro como objeto de simpatia, principalmente por ser um dos pagadores de suas contas. A bicicleta foi chegando de mansinho num lugar onde não cabia mais nada”. Foi chegando, de mansinho. Invisível e invisibilizada, chegou, como quem chega a uma festa para a qual não foi convidada. Tão logo é percebida, os leões de chácara são acionados para se livrarem dela, como se não fosse nada.

Imagine que a cidade é um bioma complexo. No nosso caso, esse bioma sofreu, e sofre, uma interferência que gerou desequilíbrio entre cada um dos seus elementos essenciais. Como o organismo é vivo, houve adaptação, mas o preço dessa adaptação foi alto. A referência deixou de ser humana. A consequência? Ruas vazias de gente e repletas de motos, carros, ônibus, caminhões; poucas árvores, muito asfalto e concreto; poucas passagens e acessos; longas distâncias e muitas interdições. As interdições aparecem como muros e grades, superfícies espelhadas e repelentes, cancelas e barricadas. Elas também se manifestam como balas perdidas na troca de gentilezas entre traficantes, assaltantes, policiais e milicianos. O risco luminoso de projéteis atravessando o ar desenha limites e impossibilidades para a livre manifestação da vida no espaço público, e essa interdição não pode ser ignorada. Ao  mesmo tempo, se você for mulher, as interdições são tantas que as paredes de concreto, as grades pontudas e afiadas e até as armas de fogo, em alguns lugares tão naturalizadas, não parecem ser mesmo é nada.

O passeio e o estar virou passagem e trânsito de carros. Este, cada vez mais veloz, mais agressivo e mais violento, em pouco tempo virou congestionamento. A infraestrutura para motorizados ocupa quase todo o espaço público e, ainda assim, esse privilégio não lhe é suficiente. Por isso, reivindica mais e mais. Reivindica e toma. O preço é alto, já sabemos. Paga-se com a vida. A vida sensível e delicada, rara e ordinária, matéria fina que se esgarça e morre. Morre no trânsito, vítima das altas velocidades, da pouca qualidade de vida e do descaso dos nossos governantes.

Nesse contexto, andar a pé é um ato de resistência. Andar de bicicleta é um ato de resistência. No contexto da violência no trânsito motorizado, da invisibilidade e da opressão à tudo o que não for rápido e veloz, a estratégia para seguir resistindo é a guerrilha.

Eu gosto disso? Não. Nem um pouco. Mas, se o trânsito não é pacificado, se as infraestruturas não passam de maquiagem ou engodo para alimentar estatísticas superdimensionadas, se o poder público ignora, descuida, abandona, o que fazer? Se submeter a lógica dominante do carro? Ficar em casa deprimido sonhando como é linda a Amsterdã ou Afuá ou Paquetá? Sair kamikaze entre carros que trafegam acima de 70km, ou mais? Se expor à “fina educativa” dos motoristas, que seguem impunes e potentes, certos de sua supremacia e invencibilidade? Afinal, você sabe, a culpa sempre é do pedestre ou do ciclista que não estava no sofá, certo?

Ir para a calçada é a resposta possível de muitos para seguir pedalando, uma vez que estão abandonados à própria sorte.

“Ah, mas a pessoa deve pedalar com prudência, quando na calçada”. Óbvio! Ninguém discorda disso. Diria mais. Deve pedalar com prudência na calçada e fora dela. Pedalar, andar, dirigir, beber, comer, … tudo, né?

A cidade em equilíbrio é espaço de convívio. Não se engane, porém, pensando que isso significa a supressão de todo tipo de conflito. Não. Vai ter conflito sim. Faz parte. Mas eles vão se resolver com negociação e não com imposição de vitória pelo uso da violência do mais forte sobre o mais fraco.

O texto do autor erra dolorosamente ao colocar toda a responsabilidade sobre o indivíduo. É responsabilidade do poder público garantir políticas e investimentos que harmonizem a cidade e a devolvam para as pessoas.

Isso significa acabar com os carros? Não! Significa que todos agora andarão apenas de bicicleta ou a pé? Não!

Significa, apenas, que um modal motorizado será mais um modal entre tantos outros que também tem direito de ocupar as vias. Significa que escolhendo o motorizado, motoristas deverão estar cientes de que estão sujeitos a limitações sim, inclusive de ocupação das vias e de velocidade. Significa que andar de transporte coletivo, que a gente chama de público sem ser, a pé ou de bicicleta, patins, patinete, ou o que for, vai ser uma opção e não um ato de resistência com o qual pode-se pagar com a vida. Significa que as pessoas estarão no centro das decisões políticas e realizações urbanísticas. Significa que as cidades serão humanas.

Mas, mesmo em seus equívocos, a coluna tem seu valor. Vejo muito ganho em ler com atenção a forma caricata com que o autor pinta “o ciclista”. Parece misturar tudo em uma coisa só, como quando a gente viaja pra um país muito diferente do nosso, e tudo parece exatamente igual pela simples ausência de repertório e referência.

E é aqui, que eu volto o olhar para dentro, não enquanto ciclista, mas enquanto cicloativista. O que nós, em nosso ativismo, estamos fazendo ou deixando de fazer para não sermos vistos em nossa diversidade e humanidade? Nós, que também moramos na cidade. Nós, que também somos pedestres, que também usamos o transporte público, que também usamos carro ou motocicleta. Antes de perguntar se o outro nos percebe em nossa diversidade, devolveria a pergunta para dentro: será que nós mesmos somos realmente capazes de nos perceber na nossa diversidade, ou apenas reconhecemos a imagem do espelho e pintamos caricaturas do que não reflete o que esperamos ver?

Para quem dirigimos o nosso discurso, e qual a qualidade do que é dito? Será que estamos nos comunicando? Se sim, essa comunicação fura a nossa bolha, ou reverbera apenas dentro dela? Lembrando que a bolha, de fato, são muitas e variadas bolhas, todas elas são afetadas?

Eu não descarto que tem muito da cultura do motorizado impregnada na percepção e na capacidade de interpretação do autor do texto sobre o papel da bicicleta como transporte na cidade. Mas tem muito de nossa in(habilidade) de comunicação aí. Você não acha?

Entre outras coisas, o que temos feito para alimentar um olhar caricato e reducionista sobre nós, ciclistas ativistas? Isso é responsabilidade nossa. Olhar para os eventos de junho dedicados à bicicleta e que tiveram sede no Rio de Janeiro pode dar uma pista. Olhar para a forma com que o ativismo se percebe e organiza também pode dar uma boa pista. Pensar como essas duas coisas juntas fizeram o nosso junho da bicicleta acontecer como aconteceu também pode ser um bom exercício. Sei que serei antipática por trazer isso, mas acho necessário. Teve alegria, sucesso e superação de adversidade? Teve. Mas, também tem muito material para autorreflexão. Sempre é possível melhorar.

Voltando ao autor, a confusão dele em imputar ao ciclista a responsabilidade por um caos e uma truculência que são típicos da cultura que privilegia o motorizado, não é culpa dele. Arrisco dizer que ele é apenas mais uma vítima. A cultura do motorizado deixa muitas vítimas, de tipos diferentes. Algumas vítimas ficarão esmagadas em poças de sangue no asfalto quente. Quantos já perdemos assim? Outras vítimas serão estas, que como o colunista, repetem felizes que desejam a prisão, acreditando piamente que, de fato, estão defendendo a liberdade.

Enfim. Se você soltar um animal silvestre que passou gerações em cativeiro de volta na natureza, ele vai morrer. A alternativa é se tornar feral. Cativeiro ou ferocidade são os únicos caminhos verdadeiramente possíveis quando o assunto é reintegrar a bicicleta como transporte no contexto da cidade?

Nem uma coisa (cativeiro), nem outra (ferocidade).

Nos soltaram entre hienas famintas, sem nenhum tipo de amparo. Para não sermos predados, predamos. O “novo” modal, que não tem nada de novo, pode até estar sendo incorporado à rotina urbana, mas, diante da omissão e descompromisso do poder público com políticas de incentivo à mobilidade ativa, a lógica da violência nos coloca reproduzindo o mesmo comportamento equivocado da supremacia da velocidade sobre a vida. É salve-se quem puder. A responsabilidade por um novo comportamento, mais humano, pode até ser minha e sua, mas antes, é do poder público, é dos gestores e políticos dessa cidade que tem o dever de criar as condições necessárias para o convívio em detrimento do combate.

Um detalhe cor de laranja

O texto deveria acabar aqui, mas quero compartilhar uma reflexão sobre as estações de bicicletas compartilhadas.

É inegável a contribuição das bicicletas compartilhadas para o redesenho dos hábitos de deslocamento na cidade. A conveniência, a praticidade e a possibilidade de combinar o modal com outros meios de transporte desse tipo de serviço ajudaram a mudar a paisagem urbana, tornando mais comum a presença de ciclistas aos olhos de todos.

No entanto, não basta conceder a licença de operação para a empresa privada explorar comercialmente essa fatia do mercado de transportes.

Sem o diálogo e a comunicação com a sociedade, sem o investimento em campanhas de educação, sem a coragem para desacelerar o trânsito e ceder parte da via de rolamento para a ocupação de bicicletas, o que se vê é a presença de totens com propaganda de banco subtraindo espaço de calçada dos pedestres, muitas vezes já exíguos e precários. Tal escolha, que segue privilegiando o transporte motorizado individual, o que faz é servir a um banco privado ao mesmo tempo em que abandona ciclistas e pedestres à disputa pelo espaço escasseado.

O poder público, sem a coragem de desacelerar o trânsito, quando autoriza ao banco salpicar as calçadas da cidade com estações de compartilhamento de bicicleta, praticamente faz um convite ao usuário do serviço para pedalar sobre as calçadas, por simples falta de alternativa. Qual é o ciclista inexperiente que vai escolher transitar ao lado de máquinas pesadas em alta velocidade?

Sobre a escolha dos locais de instalação, a empresa que mantém o serviço alega que a prefeitura determina o local. A prefeitura… bem, fale com a prefeitura, se tiver sucesso, me avise. No jogo de empurra, motoristas, ciclistas e pedestres, mais uma vez, estão lançados no ambiente hostil do salve-se quem puder, vence o mais forte.

Antes de atacar as vítimas, moradores de uma cidade abandonada à própria sorte pelo poder público, e explorada pela parceria deste com a iniciativa privada, vale ampliar o olhar e reavaliar aonde se encontra a raiz do problema e da solução que quer brotar. O que não dá é para podar a árvore errada.