A luz e a bigorna

Associar iluminação e segurança parece ser solução inquestionável e eficiente para que mulheres se sintam menos ameaçadas no espaço público da rua.

Mas será mesmo que o sentimento de vulnerabilidade que as mulheres carregam como bigornas desaparece com a presença de um poste luminoso?

Se sim, o que é percebido como ameaça não seria real. Não passando de uma sombra mal interpretada, a sensação de insegurança compartilhada por mulheres que insistem ocupar as ruas da cidade seria apenas uma projeção deformada de claros e escuros que a incidência correta de luz teria o poder quase mágico de apagar. Em outras palavras, a experiência de interdição ao espaço público que as mulheres sofrem não passaria de uma fantasia de criança que, tão logo a luz se acende, deixa de ver monstros se deslocando pelo quarto.

Eu suspeito que isso não seja verdade. A sensação de vulnerabilidade, o medo, a interdição, tudo isso é real, porque a ameaça é real e mata. Suspeito, ainda, de que não é a luz que vai afastar esse peso. Pelo menos, não a luz do poste.

Compartilho três experiências que afastam de mim a certeza na crença de que a iluminação pública é o que elimina a ameaça (concreta) de violência contra a mulher.

Em uma das situações, chegava em uma cidade desconhecida, era noite e eu estava próxima a um porto. Sendo carioca, a referência porto não é sinônimo de segurança. Noite tampouco. As ruas próximas de onde eu estava não eram exatamente iluminadas. Já vinha cruzando fronteiras de carro. Chegando no hotel, a primeira medida foi esquecer que o carro existia. Queria explorar a cidade a pé. Apesar do receio (medo mesmo) fui andando pelo caminho indicado na recepção, beirando o cais do porto. Poucos metros à frente, de uma viela ainda mais escura do que a rua aonde eu estava, surgiu uma senhora com um schnauzer na coleira. Perguntei se o meu destino ficava longe. Sorridente e tranquila, indicou que seriam apenas 3 km, talvez um pouco mais, e apontou para uma ladeira. Eu estava no caminho certo. Olhando a ladeira, o escuro e o silêncio à minha volta, perguntei ainda se era seguro. Ela riu, entre surpresa e divertida, com a pergunta. Curiosa, perguntou de onde eu era, para, então, concluir que sim, claro que era seguro. Não muito convencida, segui o caminho ladeira acima. Procurava me distrair com o mar que ondulava lá embaixo, perto o bastante para se fazer ouvir. Vez ou outra, alguém surgia passeando um cão. Grupos de adolescentes falando alto também cruzavam meu caminho. Todas, presenças efêmeras. Nem bem surgiam, já desapareciam.

A certa altura, cheguei em uma praça. Luz? Certamente alguma luz teria. Bem iluminada? Não. Não mesmo. Eu diria até que era uma praça escura, cheia de arbustos e árvores frondosas, o que deixava o lugar ainda mais assustador para os meus olhos. Ali, no meio da praça quase escura e praticamente deserta, uns bancos de cimento e uma mesa, sobre a qual uma adolescente entre 16 ou 17 anos estava sentada. Cabelos longos. Jovem. Mulher. Linda. Sozinha. Eu sentia frio. Ela parecia nem notar. Usava uma microssaia e estava atenta à tela do seu celular: um iPhone que não se preocupava em esconder. Distraída com o aparelho, usava ainda fones nos ouvidos.

Em um outro canto mais afastado da praça uns rapazes ocupavam outra mesa. Caras passaram pela moça. Ninguém olhou para ela. Ninguém falou nada. Ela também não levantou os olhos do celular. Estava relaxada. Nesse instante, me convenci: ah, sim, acho que é seguro.

Será que foi a luz que suspendeu o peso da bigorna de cima da menina? Não. Até porque luz era o que não havia. Então, o que seria? Duas suspeitas:

(1) Talvez aquela sociedade fosse menos desigual economicamente: apesar do escuro quase deserto da praça, a moça se sentia segura com seu iPhone última geração à mostra e fones nos ouvidos.

(2) Talvez aquela sociedade fosse menos desigual com relação ao tratamento de gênero: ser mulher não fazia dela uma vítima; ela estava no lugar certo (praça mal iluminada), com a roupa certa (microssaia) e com a pessoa certa (ela mesma).

Algo assim, aparentemente tão banal, me impressionou tanto que guardei como se fosse uma fotografia na memória.

Alguns anos mais tarde, em uma outra ocasião, eu seguia com uma urbanista que me mostrava a cidade viva e alegre em que morava. Era um verão, quase não fazia frio, e cada canto estava repleto de ciclistas e pedestres ocupando calçadas e ruas que haviam sido devolvidas às pessoas. Ela me falava do processo de requalificação do espaço público pelo qual a cidade vinha passando. Por algum motivo repeti aquilo que nem acredito: uma rua mais iluminada traz mais segurança para mulheres. Ela parou séria: Que bobagem! Se um lugar é seguro, pode estar deserto e escuro, você não terá medo. O que faz ser seguro para as mulheres é os homens não terem comportamento predador. Lembrei do episódio da menina na praça escura e briguei comigo mesma por repetir como verdade crenças perpetuadas em mantras.

Mais recentemente, participei da produção de um documentário tratando sobre mobilidade. O filme acompanhou as histórias de quatro mulheres e suas rotinas de deslocamento entre a casa e o trabalho, usando o trem como modal. Uma das locações era uma estação, cuja linha férrea dividia o bairro em dois. Sem acesso direto da plataforma para a rua, era preciso subir escadas de metal até uma passarela de pedestres. Todo esse percurso estava exposto à ação dos ventos, das chuvas ou do sol, e não contava com alternativas para pessoas com mobilidade reduzida. Do alto da passarela, era possível acessar os dois lados do bairro segmentado pelos trilhos. De um lado, o acesso às residências e comércios era mais direto, até simples, dependendo do clima e das condições físicas do pedestre. Pelo outro lado, porém, para acessar as casas e comércios, era necessário atravessar um longo e claustrofóbico corredor. Sem iluminação ou cobertura, o que formava o corredor eram os altos muros que delimitavam as fronteiras de dois cemitérios. Alguns grafites coloridos humanizavam o ambiente hostil com mensagens religiosas ou críticas sociais. Uma das entrevistadas explicou que “para evitar essa passagem estreita, comprida, deserta e mal iluminada”, as mulheres que queriam chegar à esse lado do bairro desciam pelo lado oposto e tomavam um ônibus para dar a volta por outro bairro. Apenas então poderiam chegar em suas casas. Demorava mais, mas, dependendo do horário de volta do trabalho ou da faculdade, era o mais acertado, disse a moça.

Iluminar esse corredor estreito e deserto mudaria essa sensação de insegurança? Você percorreria erre caminho limitado pela linha do trem e os muros de um cemitério com segurança e confiança, ou apertaria o passo e recorreria a todas as rezas que talvez até desconheça?

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A humilhação do pedestre

Os shoppings centers na Barra da Tijuca são uma presença vulgar, e parte importante da paisagem monótona e hostil de muros e edificações sem personalidade. No bairro, os shoppings são referência de localização e demarcação de território, ganhando status de acidente geográfico, tal qual um rio, um lago ou um morro.

Contra toda a dinâmica proposta para o bairro, eu costumo circular a pé ou de bicicleta por ruas e lugares feitos exclusivamente para serem vistos de longe e de relance através da velocidade impessoal de quem vai de carro. Não é bonito. Não é agradável.

Seguia pela avenida da Américas, no sentido zona sul. O domingo estava perfeito e a rua vazia de gente, a não ser por aquele grupo à minha frente. Eram 4 mulheres acompanhadas de 4 crianças. Uma das mulheres, a mais velha, gesticulava muito. Olhava ao redor e parecia bastante insatisfeita. Me aproximando, pude conhecer o motivo do seu (justificado) descontentamento.

O grupo havia chegado de ônibus. Desceram no ponto em frente ao destino final, mas uma cicatriz imensa as separava do seu objetivo: chegar ao Barra Shopping. Eram 12 pistas de alta velocidade dedicadas ao trânsito de automóveis particulares e coletivos, mais duas pistas exclusivas de BRT – sigla do inglês para transporte rápido por ônibus.

Considerando o BRT, precisariam vencer 14 faixas para ir de um lado ao outro da avenida. Isso corresponde a 92 metros de travessia, conforme o desenho proposto pelos especialistas. Se o pedestre optar pelo caminho mais curto, que é uma reta, são 80 metros de travessia.

Mas não era a extensão da travessia a pé o que causava consternação. Diminuindo meu passo, ouvi a mulher mais velha questionar o planejamento que colocava um ponto de ônibus tão distante de um ponto seguro de travessia. Para ir de onde saltaram até a faixa de pedestres, o grupo precisaria andar aproximadamente 100 metros em uma calçada desabitada. Aí, poderiam esperar o sinal fechar para os carros e atravessar para a outra calçada – o que certamente não seria feito em apenas um tempo de sinal. Quando, finalmente, chegassem ao outro lado, precisariam voltar os mesmos quase 100 metros, até a entrada do shopping.

A mulher desabafou: “é por isso que eu não gosto de vir aqui! Olha isso! Quem planejou isso? Parece que quer dizer assim pra gente: você não é bem-vindo. Não venha aqui a não ser que tenha carro”.

Me solidarizei. Parei ao seu lado para conversar. Concordei com todas as colocações e argumentos e perguntei se ela sabia que um pouco mais perto do ponto de ônibus havia uma travessia subterrânea. Tinha que andar, mas era bem menos.

Ela disse que já trabalhou ali perto e que conhecia a travessia subterrânea, mas que preferia não usar. “Já fui assaltada ali duas vezes. E tive amigas assaltadas também. Não tem segurança. Você não sabe o que pode encontrar lá embaixo. É ruim, mas prefiro andar tudo isso a atravessar naquele ‘buraco’. A gente se sente tão insegura que, se estiver cansada mesmo, ou se estiver chovendo, acaba se arriscando entre os carros, só pra não ter que andar tudo isso ou enfrentar a passagem subterrânea. Imagina, eu estou com 4 crianças…”

Ela tinha razão. Assenti. Entendi.

Nesse momento, já estávamos bem perto da travessia de pedestres. Eu ia me despedindo, quando ela falou: “agora é a outra parte da humilhação do pedestre. Tem que correr isso tudo aqui”. E ela riu.  “Se não correr não chega de uma vez, tem que esperar mais um ou dois sinais, dependendo da sua velocidade. E isso, ue eu quero ir ali naquele shopping pra gastar dinheiro. Eu quero ir lá gastar, e preciso passar por isso tudo. É por isso que não gosto de vir aqui.”

“Vai com Deus”, disse ela. Nos despedimos.

 

Ser pedestre na Barra da Tijuca

O dia em que fui de BRT até o Bosque da Barra

Para quem não conhece o bairro, o Bosque da Barra fica sobre as avenidas Américas e Ayrton Senna. Está quase em frente ao Terminal Rodoviário Alvorada, um ponto nodal para quem vem da Linha Amarela, da praia, da Zona Sul ou do Recreio.

Perto e longe, o Bosque está isolado do acesso por transporte coletivo por um vasto rio de aço correndo ameaçador, barulhento e em alta velocidade, em todas as direções.

Embora irônico, usando o BRT existem alguns caminhos possíveis. Irônico, porque o que a experiência mostrou foi a impossibilidade dos percursos a pé.

Hipótese 1 – saltar na estação Terminal Alvorada e brincar de equilibrista

Já do lado de fora do terminal, o pedestre vai costear a fachada gradeada e sem calçada, espremido entre o trânsito e o terminal rodoviário.

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Caminho usado por pedestres sem segurança alguma. Fonte: googlemaps

Em seguida, passando por baixo de um elevado, chegará a uma agulha que separa o fluxo de motorizados que vem da avenida Ayrton Senna em direção à Barra em dois destinos: praia e Recreio. Evidentemente o pedestre está do lado direito. Sem qualquer ponto de travessia, irá aguardar aquele momento especial para correr até o gramado que forma a agulha.

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Caminho usado por pedestres próximo à Cidade das Artes e Bosque da Barra: googlemaps

Quase lá. Agora só falta esperar mais um pouco e correr para uma última travessia sem segurança. Já na calçada do Bosque, o pedestre irá caminhar até a entrada do mesmo, acompanhando uma grade verde, que ‘brinca’ com dentro-fora.

Hipótese 2 – saltar na estação Terminal Alvorada e escalar uma passarela que não leva até o parque

Não quer passar por isso? Não tem problema. Saia do Terminal Alvorada e suba as escadas de acesso à passarela para atravessar a avenida. Você não vai chegar no Bosque ainda. Na verdade, andou mais e ainda se afastou do seu objetivo. Persevere.

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Passarela no Terminal Alvorada. Fonte: googlemaps

Já na calçada em frente ao terminal rodoviário, siga em diração à avenida das Américas e vire à esquerda, sobre a calçada. É bonito? Não, mas continue.

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Calçada em frente ao Terminal Alvorada. Fonte: googlemaps

Continue até não chegar a nenhum lugar adequado para a sua travessia segura. Aguarde a hora de correr e corra! No canteiro central, aguarde novamente e corra! Ainda não acabou. Repita essa operação, espere e corre mais duas vezes. Parabéns. Caso tenha sobrevivido, você vai poder desfrutar de um dia lindo com a família no bosque bucólico de vegetação e fauna característicos.

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Travessia informal usada pelos pedestres em Avenida das Américas. Fonte: googlemaps

Ah, mas não tem outro jeito? Tem. É o caminho da hipótese 3.

Hipótese 3 – saltar na estação Bosque da Barra

Gente, mas se tem uma estação de BRT com o mesmo nome do lugar que eu quero ir, é claro que é nessa estação que eu tenho que descer. Blogueira desgraçada, me fez ler tudo isso pra que?

Eu sei, e eu também pensei assim. E foi exatamente nesta estação que eu desci: Bosque da Barra. Mas aí…

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Percurso a pé entre BRT Bosque da Barra e o Parque. Fonte: googlemaps

Aí, acontece que o sinal fica do lado oposto ao que você quer ir, então, você vai sair da estação e andar em direção ao Recreio. Atravesse por uma espécia de retorno, sem faixa de pedestre, nem nada, e aguarde o sinal fechar para atravessar na faixa. Olha a vantagem. E ainda tem sombra.

Só que como aí não tem nada, não é raro que você se veja ilhado entre pistas de automóveis para os dois lados, e a mercê de algum tipo de assédio na rua. Neste ponto, por causa do congestionamento constante, e da ausência de vida, é comum encontrar grupos de adolescentes trabalhando-pedindo-assaltando no sinal.

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Vista da faixa de pedestre na estação BRT Bosque da Barra. Fonte: googlemaps

Mas agora você atravessou. Está na calçada certa. É só caminhar até o bosque. Não. Você não está em lugar nenhum. Você está sobre mais um canteiro, que desta vez, separa a avenida movimentada da “rua residencial”, em frente ao conjunto de condomínios fechados.

Pode seguir pela calçada dos prédios? Pode, mas não vai longe. Então, o melhor é seguir pelo canteiro gramado. Imagina na chuva.

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Canteiro em frente à estação BRT Bosque da Barra. Fonte: googlemaps

Você vai andar por aproximadamente 10 minutos pelo chão de grama e terra, até chegar a um posto da Guarda Municipal. Não desista. Está quase lá. Atravesse como puder, porque não tem sinal de trânsito e nem faixa de pedestre, e vá até o muro horroroso do outro lado.

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Calçada em frente ao posto da GM. Fonte: googlemaps

Acompanhe esse muro. Olha aí. Vagas para idoso pintadas no chão. Calçadinha pra você andar. Tá bonito. Mais um pouco e já começa a grade do parque.

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Calçada e vagas de idoso junto ao muro do parque. Fonte: googlemaps

Agora não tem erro. Você está seguro. A grade verde e vazada quase que aproxima o parque de você e da rua. Em breve, vai ver uma movimentação humana. É a entrada do parque. Divirta-se e nem pense em como vai sair daí depois do passeio. Viva uma coisa de cada vez. Esse é o segredo da felicidade.

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A grade do parque. Fonte: googlemaps