Consumismo – alegria efêmera, danos duradouros

Após romper sua carapaça, a cigarra experimenta um período de vulnerabilidade até formar uma nova estrutura que a proteja e sustente. Esse processo de transformação, chamado de ecdise, é o que permite o crescimento da cigarra.

Mudar nossos hábitos, certezas e verdades também pode nos deixar vulneráveis. Por isso é tão comum resistir ao não conhecido e até brigar para manter tudo exatamente como é, afinal, dizem que em time que tá ganhando não se mexe. Mas será que o time tá mesmo ganhando?

Quando a gente pensa no impacto dos nossos hábitos sobre o meio ambiente parece que não é bem assim. De fato, nem o nosso time e nem nenhum outro está ganhando.

Já parou para fazer essa reflexão? Reflita sobre seus hábitos de consumo e descarte. O que você pode mudar? Com quais certezas deve romper para crescer em consciência e cidadania para uma vida sustentável?

Impressões

Em delírio messiânico, diz que Deus não escolhe os preparados, mas prepara quem escolhe. No discurso de posse, a mensagem é que foi eleito por esse Deus. À mesa, uma Bíblia, a Constituição Federal, uma referência à Churchill e outra à Olavo de Carvalho.

Fez mais de um pronunciamento. Cada um dirigido a um público. Cada um veiculado por um meio diferente. Privilegiou o espaço informal das redes sociais que o elegeram.

A imprensa precisaria se adequar. Fez imposições e mesmo ameaças. Tem recebido as coletivas em casa. Seleciona quem irá receber. Oferece sempre a parte externa que parece um alpendre, varanda ou mesmo uma garagem. O lugar é decorado de entulhos aparentemente esquecidos naquele espaço sempre descuidado, como se o anfitrião não desse muita importância para o que pensam dele.

A um só tempo, a cena mostra uma figura arrogante e despretensiosa, autoritária e humilde, poderosa e ordinária.

Na coleção de objetos vemos símbolos que reforçam a narrativa: militar, intimista, mundana, violenta, familiar, religiosa, nacionalista. Os olhos do eleitor (adorador?) podem escolher o objeto que preferirem para adornar seu mito. A personagem é fugidia e pode assumir a forma de quem a idealiza. Os figurinos ajudam a compor a cena, comunicando as mesmas ideias que os objetos aparentemente esquecidos e desimportantes que constituem o cenário.

No teatro, a expressão corporal não passa sem ser notada. Sempre rígida em um misto de desconforto, tensão e inadequação, a um passo do descompasso, da manifestação violenta de quem ataca pra se defender. Rígidos são os músculos da face, a moldura torta e murcha dos lábios e a ausência do olhar que parece ver nada e nem ninguém.

É assim que o novo presidente faz suas primeiras aparições após os resultados das urnas, antes da posse. A locação ‘improvisada’ mostra que será a regra não prestigiar a imprensa, não respeitar esse trabalhador, não cuidar da imagem que chega nas casas de cada brasileiro e de cada brasileira em cada canto do Brasil. Hostilidade, desprezo, pequenas demonstrações de poder e força, e amadorismo são a tônica.

Todo quadro tem aquilo que transborda. Nesse quadro presidencial transborda o trânsito de homens mal encarados, entre eles, os próprios filhos. Não há leveza. Não há sorriso. As roupas ostentam um padrão escuro ou camuflado. Em cada detalhe, brutalidade, a ameaça, a demonstração de força.

Na rua da praia, em frente ao condomínio que serve de locação, com a mesma estética, com o mesmo espírito, uma turba de contentes faz arma com as mãos. A massa elogia assassinos e torturadores, faz ameaças a tudo o que não cabe na sua pobre imaginação e dança uma micareta ao som de mito.

Atualização para processos seletivos

Procurando recolocação no mercado?
Siga as dicas quentíssimas para a entrevista. Não falha!

Qualificação: não precisa. Admita que não tem qualquer competência e jogue nas mãos de Deus. Seja firme e declare: “tenho certeza de que não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos”.

Honestidade e coerência: isso é coisa do passado. Palavra não vale nada. Diga o que for preciso, ainda que não tenha como provar. Se pegar mal, diga o contrário imediatamente depois. Repita essa ação até que o interlocutor fique satisfeito.

Titulação: que bobagem. Você tem WhatsApp?

Princípios éticos: não caia nessa. “Ninguém é bonzinho”. Admita que é inescrupuloso. Diga que pra você negros devem morrer após atingirem 7 arrobas, quando já “não servem mais nem pra procriar”. Diga que mulheres são inferiores e que jamais estupraria uma que não merecesse. Diga que indígenas são o atraso da nação. Diga que seus concorrentes devem ser “varridos”, “destruídos”.

Direitos trabalhistas: diga que isso é coisa de encostado. Diga que abre mão de suas horas de descanso, hora extra, CLT, 13o ou férias. Diga que gosta do desafio. Que vc quer ser um ‘colaborador’ da empresa, sem participação nos lucros, sem perspectivas, sem nada, afinal você quer trabalhar, você não quer direitos.

Dica final: infalível! Todo empreendedor de si mesmo deve ter um ídolo. Seja criativo. Ustra está em alta. Mas você pode mais. Veja algumas sugestões: Pol Pot, Pinochet, Mussolini, Hitler, Stalin, Erdogan, Duterte, Bashar Al-Assad, Franco, Salazar. Escolha o seu.

Eles gritam “Mito”, sofrem porque o peteeeeeee

“Toupeiras são pequenos mamíferos adaptados a um estilo de vida subterrâneo. Eles têm olhos e ouvidos muito pequenos e imperceptíveis”.

Não enxergam e não ouvem nada.

Prisioneiros voluntários do auto-engano, desbotaram as cores da bandeira gritando indignação contra a corrupção. Agora batem no peito com orgulho: somos todos caixa 2.

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Bom dia, Rio de Janeiro.

Imagem: Fernanda Garrafiel/G1 (8.10.18)

Paes sai eleito no Jardim Botânico. Tarcísio, em Laranjeiras. Witzel vence em todas as demais áreas. O quanto de milícia e igreja elegeu esse homem é algo que me pergunto. Mas não foi só isso, embora isso seja relevante.

Já eleito, com a arrogância inflacionada pela estrondosa vitória nas urnas, Witzel confirma o que prometeu em campanha: o abate de quem estiver portando fuzil está liberado, snipers serão disponibilizados. O excludente de ilicitude estará aí pra amparar qualquer ação da polícia.

Pra quem acha que é “só” bandido armado que vai morrer, lembre do homem que levava um guarda chuva e foi alvejado e assassinado. Entenda que não precisa nem mais da desculpa do guarda chuva. Mas você já entende isso.

Pra quem acha que a morte de inocentes é o preço a ser pago pra “limpar” a cidade, não se iluda. A arma é pretexto. O que se caça é gente de pele preta. Mas você já sabe disso.

Se você acha que está tudo bem, porque a cor da sua pele te salva, porque você mora no asfalto, na outra parte da cidade, lembra que o Rio de Janeiro é um estado cercado de favelas por todos os lados. O asfalto é exceção. A janela do quarto do seu filho olha pra favela. E a favela olha pra ela. O seu caminho pro trabalho, pra escola, pra casa de praia e até pro aeroporto, tudo isso olha pra favela. E a favela olha de volta. Se a polícia tem sniper liberado pra matar dentro da favela, não pense que a criminalidade que se esconde na favela vai pensar duas vezes antes de atirar. E você, no seu caminho pro trabalho, o seu filho na volta da escola, a sua filha no sono de princesa, sua família na fuga pra Portugal, cada um de vocês também pode ser também alvo. Só que agora, não mais acidental. Mas você vai rezar pra tudo dar certo.

Se a polícia já morria muito em confrontos contra o crime, agora que o abate está liberado, como você pensa que os bandidos armados vão responder? Com mais ou com menos violência? Se na sua família tem policial, ele também vai morrer, provavelmente mais e de forma ainda mais violenta. E não precisa ser só no serviço de combate ao crime armado. Se já era sentença de morte um policial ser surpreendido em um assalto durante um passeio com a família, agora talvez você nem precise apresentar a insígnia nos seus documentos pra virar vítima. Basta que o bandido apenas “ache” que você é PM, assim como bastará a polícia apenas “achar” que você parece bandido, porque você tem a cor da pele “errada”, porque seu guarda-chuva parecia um fuzil. Mas era só um trabalhador. Mas era só um guarda-chuva. Mas era só uma vida. Só isso. Uma vida. E 2018 ensinou pra gente que uma vida não importa. Que o brasileiro gente boa quer mesmo é morte. Afinal, o presidente foi eleito dizendo que o erro da ditadura (que nunca existiu, ele diz) foi torturar sem matar tanto quanto podia, tanto quanto deveria. “Uns 30 mil”. Lembra desse número, por que ele vai ficar curto. Mas é isso o que você quer. É?