Human Race – uma corrida contra quem?

 

Em inglês, “race” significa raça, mas também significa corrida. A expressão “human race” pode ser lida como raça humana ou corrida humana. Se é uma corrida, é uma corrida contra quem ou o quê? O que marca a chegada?

Tomando por referência o desprezo aos alertas de pesquisadores e pesquisadoras de diferentes áreas do conhecimento, a corrida é contra a própria humanidade. A linha de chegada é a destruição de toda natureza. Nesse caso, é preciso que nos perguntemos: é possível existir humanidade sem natureza?

Parece que uma parte de nós está convencida de que sim. Desses, aqueles com mais poder exploram toda expressão de vida reduzida à dimensão de recurso. Fauna? Recurso. Flora? Recurso. Minerais? Recursos. Energia? Recurso. Tudo é recurso.

Cientes da raridade da vida, se apressam no processo de apropriação e exaustão de tudo o que possa ser dominado e transformado em riqueza privada. Talvez essa seja a corrida: Ser o primeiro a erguer a cerca pelo direito de exploração. Parecem apostar que a moeda acumulada ao investir na morte será suficiente para garantir-lhes a existência descolada da vida.

Sob essa perspectiva, gente também é recurso. Recurso humano. Enquanto recurso, o humano é valorado pela sua utilidade ao sistema. A utilidade é medida pela capacidade que um recurso tem de gerar riqueza para alguém. Eficiente, o sistema convence cada humano que é sua responsabilidade e obrigação individual investir (moeda) em si mesmo, de modo a se tornar o mais útil possível para o próprio sistema.

Conforme uma escala de mérito, nem sempre proporcional ao volume de riqueza que cada recurso humano gera para outrem, o sistema premia os recursos com mais ou menos riqueza, agora distribuída na forma de migalhas, mantendo a competitividade sempre acesa.

Como qualquer outro recurso, quando a energia de um recurso humano se exaure, ele deixa de ter utilidade. Para o pensamento neoliberal, aquilo que não gera riqueza, gera custo, e o que gera custo, deve ser descartado. Porém, assim como o lixo que acreditamos “jogar fora” não desaparece, essas pessoas também não deixam de existir. Agora elas são apenas um problema. O recurso humano passa a condição de refugo humano.

O refugo humano não é apenas improdutivo e inútil. Ele disputa os recursos finitos com os humanos que ainda são úteis. Além disso, atrapalha o sistema na acumulação da moeda com obstáculos como programas sociais dedicados a “sustentar vagabundo” – dizem eles.

Dentro dessa lógica, o ideal seria que o refugo humano morresse o mais breve possível. É o princípio que orienta a gestão dos leitos privados de hospital. O contratante dos serviços de saúde complementar somente é útil se saudável e pagante. Em caso de doença, havendo necessidade de internação, que seja breve, do contrário representará apenas prejuízo. Nem que saia morto, é preciso que saia e rápido. Afinal, saúde privada é um negócio, e ele deve enriquecer o empresário.

Acredito que uma parcela significativa de nós, humanos reduzidos a recurso, viva tão esmagada sob a pressão de lutar para apenas sobreviver, que esperar força para uma reação revoltada possa ser fantasioso. Porém, há uma parte importante de nós que assiste passiva, conivente até, o relógio da bomba armada correr. Faz parte da atitude conivente a aposta em estratégias conciliatórias.

Por quanto tempo ainda é possível sustentar a conciliação com o que é inconciliável? Em troca de que ainda se fazem concessões, quando já se está além do limite? Agir assim, não é operar segundo os mesmos mecanismos de negação do colapso ecológico que movimenta aqueles que ativamente erguem cercas, privatizam, controlam e destroem o que enxergam como bem de direito privado?

O mais irônico é que uma das ferramentas mais comuns utilizadas para sustentar esse tipo de negacionismo “racional” é a fé nos milagres da ciência e da tecnologia. Poderosos, ativistas e pessoas comuns ocupadas com o cotidiano de seus trabalhos e famílias, parecem compartilhar da crença otimista de que alguma fórmula matemática, alguma lei da física, algum processo de sintetização da vida será suficiente para manter a saúde de nossos corpos e mentes. É possível até que se almeje prescindir dos corpos, essa estrutura frágil e perecível que ainda ocupa lugar no espaço. Talvez possamos traduzir tudo em informação a ser armazenada em uma nuvem digital. Viveremos eternamente, como fragmentos de um todo indistinto. Seremos Deus.

Somos bichos escrotos

Dizemos que queremos saúde, mas escolhemos o caminho da doença. Vivemos rotinas sedentárias, comemos pela gula e não para nos alimentar, nos expomos a todo tipo de substância tóxica em excesso: do cigarro de nicotina ao monóxido de carbono. Nos separamos da natureza. Ignorantes, degradamos a natureza da qual julgamos não pertencer.

Ontem, distraidamente, fiz a tolice de ir pedalar pela orla do Rio. O lixo! Sem exagero. O lixo era surpreendente. Papel, plástico, garrafas, restos de comida e cigarro, máscara sem gente e gente sem máscara escarrando no chão, mijando no chão. No mesmo chão onde andavam descalços, onde os filhos brincavam.

Vi um homem trôpego, talvez alcoolizado, catando tampinhas de garrafa plástica. Vi quando levantou uma garrafa tampada do chão. Destampou. Recolheu a tampa. Descartou a garrafa novamente no chão.

Olhei pros prédios. Muitas varandas com a bandeira do Brasil pendurada. Já implico. Já desprezo. Olhei pra turba aglomerada desfilando sobre o lixo do calçadão. Não foram raros os que avistei enrolados em cangas representando a bandeira nacional. De um lado e do outro, miséria. O rico e o pobre, miséria.

Patriotas, talvez. É provável que as bandeiras estivessem lá em comemoração ao 7 de setembro. Independência proclamada às margens de um Ipiranga que há muito não passa de um esgoto a céu aberto. Diz muito.

Ao que serve o arrependimento?

Lya Luft e a banalidade do mal no voto entediado, leio no DCM em junho de 2020. Diz que se arrependeu do voto em Bolsonaro. Que não sabia bem o que fazia, porque não o conhecia, apenas precisava liberar o país do… Adivinha? Isso. Precisava liberar o Brasil do PT. (O ser patético não precisa ser inventado. Ele existe e repete coisas como essa daí).

Me causa repulsa a recusa de alguns em reconhecer a própria autoria no capítulo trágico da história democrática desse país. Era sabido que em algum momento o apoio a um sujeito desqualificado e violento seria uma mancha suja demais para seguir ostentando atrás da maquiagem verde amarela, desfigurada de tanto ódio. Em nome desse ódio mal disfarçado, entregaram o Brasil nas garras de quem nunca escondeu o gozo perverso com o sofrimento e até a aniquilação do outro. Agiram de forma consciente, conivente e desejosa do horror que se descortina sem surpresas. Agiram confiantes de que, se necessário, alegariam a mesma ignorância que tantos homens e mulheres “de bem” alegaram por terem apoiado os crimes contra a humanidade durante o nazismo.

Não existe absolutamente nenhuma justificativa que isente de responsabilidade aquele que votou em Bolsonaro. Também não há como isentar de responsabilidade aquele que, ao abrir mão do voto, deixou este governo (fascistoide ou fascista?) se estabelecer no poder.

Não há pedido de desculpas que baste. A escolha foi consciente. Não é possível alegar ignorância. Não é possível alegar desconhecimento. Não há arrependimento. Não venha pedir desculpas tentando salvar sua biografia.

O que eu respeitaria seria se cada um, ou ao menos alguns destes que usaram o título de eleitor como arma para desferir seu ódio, viesse a público admitir sua responsabilidade concreta e motivação real para o quadro atual. Não aceito e não respeito e não acredito em pedidos de desculpas levianos, de quem quer tirar o corpo fora alegando ignorância, desconhecimento ou mesmo boa fé. Que carreguem em si o peso, a dor e o sangue que sua escolha (inclusive a escolha de anular voto em uma eleição atípica como a de 2018) já causou e seguirá causando por muito tempo.

Por que insisto na responsabilização de si mesmo, quer dizer, por que insisto que a pessoa precisa parar de se justificar e de posar arrependinento?

Porque é a única possibilidade de que, talvez, essa pessoa seja capaz de não repetir o mesmo erro. Mais, e talvez isso seja o mais importante, é a única forma de a pessoa se desvencilhar da arrogância, do medo e do fanatismo que a impede de estabelecer qualquer diálogo.

Pra você, que ainda está tentando dialogar com quem não está aberto, segue meu pensamento.

O fanático não dialoga. É terra arrasada. Pisar nela vai te exaurir, te arrasar também. Nada floresce ali. A boa notícia é que esse universo de pessoas propensa ao fanatismo é relativamente baixo. Não havendo tecnologia, por hora, para semear diálogo nesses campos áridos, a forma é desnutrir retirando qualquer oportunidade de plataforma que alimente essa gente.

O que vem se chamando de bolsonarismo é a expressão caoticamente aglutinada da escória de ressentidos quando ganha olofote e ribalta. Não significa que não estivessem lá antes. Apenas, antes, eram os paspalhos do churraso de família, os chucros do bar ou da empresa. Ainda não sabemos como recuperar essas pessoas. Talvez não seja possíve recuperá-las. É que não é falta de instrução o que as define. Também não é uma doença mental, como pode parecer ao serem chamadas, genericamente, de loucas. Se há uma doença, ela é moral e eu não sei como isso se corrige. Então, apenas deixe que definhem e rastejem nas sombras, como sempre fizeram.

Amanheci hashtag

Quem sou eu na fila do pão? Sou uma pessoa comum que está tentando avaliar esse manifesto cheio de assinaturas, identificado como frente ampla pela democracia e contra o fascismo. Me sinto relativamente aliviada em saber que somos 70% — mas somos 70% de quê?

É certo que quando o rolo compressor vem ameaçando nossa existência, é urgente uma ação pela sobrevivência. Mas, quando vamos sair desse modo tão primitivo: agir pelo instinto de sobrevivência, um instinto basal, nem sempre provido de raciocínio? Pra ilustrar o absurdo disso, vi circulando, em um canal obscuro no YouTube, uma web-serie no modo “survivalist“. O canal é atribuído a uma empresa que leva o nome de uma pessoa que se pretende algo como um coach que vai te ensinar a atravessar crises. Claro, a protagonista é um gringo fantasiado de soldadinho. Faz referência à sua experiência como combatente nas tantas guerras que seu país inventa pelo mundo com o pretexto de promover democracia. Compõe a caracterização a ostentação de armamento pesado. Essa caricatura de oportunismo barato é a face do que aceitamos nos tornar.

Pra que serve a história? Estaremos condenados a repetir os mesmos erros de sempre, às custas da covardia e do medo? Não aprendemos nada com slogans vazios de conteúdo?

É preciso união, mas tendo a coragem de construir uma pauta concreta e coerente, capaz de mobilizar transformação. O debate para essa construção já é transformador. Ainda que lá na frente os rentistas usurpadores de sempre nos passem a perna, teremos uma plataforma sobre a qual ficar de pé. O preço dessas frentes amplas sem forma é a deformação de tudo. O grito vazio de “é contra a corrupção” de 2013 vira o grito esvaziado de “é contra o fascismo”. De grito em grito não dizemos e não ouvimos nada. Precisamos de um projeto. É urgente.

 

Estar presente é um presente

Na parte da cidade onde moro tem cobertura de mangue ❤ Agora estamos cumprindo o distanciamento social, evitando a rua, então é tudo paisagem na memória. Mas quando posso estar na rua, gosto de caminhar ou de pedalar para os meus compromissos — depende da distância. Prefiro isso ao carro, porque é um jeito de estar no lugar, e não apenas passar, com pressa e automatismo. Então eu olho pra tudo. E é sempre novo. Um reflexo na água. Um ninho de passarinho. Peixes nadando. Pessoas que passam. Flores ou frutos que não estavam antes. Galhos pelados, galhos esverdeados, galhos amarelados, galhos avermelhados, galhos de muitas cores. De tardinha, as capivaras. De noite, os morcegos. Então, quando vejo o mangue cuidado, as águas limpas, fico feliz. Dói quando está machucado.

E se a cidade pudesse privilegiar a natureza que tem em cada bairro?

E se o seu dia incluísse o olhar e o estar presente nesses espaços, que são públicos, coletivos?

Que mudanças isso traria pro seu dia e pro dia da cidade? Pra sua vida e pra vida na cidade?

Mangue

Imaginar: a coragem de ser livre

“I can’t breathe!”. Eu não posso respirar! Repetiu George Floyd, assassinado por asfixia pelas forças racistas do Estado, em maio de 2020.

Até a manhã de 31 de maio do mesmo ano, o mundo contabilizava 369.529 mortes humanas por asfixia em complicações associadas ao Covid-19.

Ailton Krenak, em muitas de suas falas, tem chamado a atenção para o descolamento do homem branco de tudo o que diz respeito à vida. Destaca o absurdo da sua fantasia de superioridade à outras raças, outras espécias, o planeta, e, até, fora dele.

Não é exagero. Ontem, em meio ao caos na terra, uma nave tripulada deixou o planeta com destino a uma estação espacial. Parece um grande feito. Muita gente animada. Os EUA, aparentemente recuperariam sua liderança na exploração do espaço — não fosse suficiente a bagunça que vai-se acumulando aqui embaixo. E, apostam os senhores do capital, voos comerciais tripulados serão rotineiros. Uau, hein…

“I can’t breathe!”, repetiu George Floyd antes de desacordar, sob as botas de um policial branco, até, finalmente, morrer.

“Alguma coisa está fora da ordem”. Te parece?

Uma mudança radical precisa acontecer. Essa mudança precisa ser voluntária e consciente. Krenak alerta não ser adequado pensar nessa suspensão da vida, provocada pela pandemia, como algo temporário, que apenas adia nossos planos, para que retomemos tudo de onde parou. É necessário que se reflita como se chegou até aqui, e o que deve ser feito para que não se repita.

Achille Mbembe faz a mesma prolação em seu artigo ‘O direito universal à respiração’. Reproduzo um trecho.

“Presa em um cerco de injustiça e desigualdade, grande parte da humanidade está ameaçada pela asfixia, e a sensação de que nosso mundo está em suspenso não para de se espalhar.

“Se, nessas condições, ainda houver um dia seguinte, ele não poderá ocorrer às custas de alguns, sempre os mesmos, como na Antiga Economia. Ele dependerá, necessariamente, de todos os habitantes da terra, sem distinção de espécie, raça, gênero, cidadania, religião ou qualquer outro marcador de diferenciação. Em outras palavras, ele só poderá acontecer ao custo de uma ruptura gigantesca, produto de uma imaginação radical.

“Um mero remendo não será suficiente”.

Não é de agora a denúncia sobre essa falta de imaginação humana, que insiste em velhas fórmulas falidas, ou, como diz Mbembe, meros remendos.

A boa notícia é que podemos fazer mais do que remendar. Somos dotados da capacidade de imaginar. E somos em maior número do que aqueles que se encontram embotados dessa capacidade.

Ontem o Brasil foi dormir com a esperança de que sua porção não necrosada, viva, capaz de imaginar, é a maioria. #Somos70%. Talvez sejamos mais. Não só no Brasil. No mundo. O que falta pra ativar a coragem de imaginar outro jeito de estar no mundo, e de ser com o mundo?

Em nome desses outros jeitos de estar no mundo, compartilho a determinação e a coragem dessa mulher nigeriana, Sophie Oluwole. Desafiando a narrativa dominante que silencia e apaga outros olhares, seres e pensares, ela teve a coragem de se imaginar em um lugar diverso daquele imposto pelo colozinador. Pela força transformadora de sua coragem de imaginar, resgatou um novo fio narrativo pra história da África no mundo e para história do mundo como um todo. Também compartilho a força inventiva e criadora de mundos de Frida Khalo, reproduzindo sua obra de 1943: Myself, Diego and señor Xolotol.

Para uma ruptura gigantesca, para a imaginação radical, vamos precisar de todo mundo.

The Love Embrace of the Universe, the Earth (Mexico), Myself, Diego and Señor Xolotl. Frida Khalo, 1943.

Notas sobre a pandemia (1)

Em três dias completo um mês de isolamento social. Nesse tempo, apenas saí de casa por duas vezes. A primeira foi logo no início da crise no Brasil. Meu destino: o mercado de verduras e frutas. A segunda vez foi hoje. Precisei ir ao banco. Entre a primeira e a segunda saída, pelo menos no bairro onde moro, a diferença no fluxo de pessoas nas ruas chamou a atenção.

Há quase um mês atrás, as ruas estavam praticamente desertas de carros, e as calçadas vazias de gente. No mercado, evidentemente, havia pessoas. Mas todos pareciam cuidadosos em manter distância saudável de outro vivente. Hoje foi bem diferente. O fluxo de carros estava alto. Atravessar as ruas foi trabalhoso. Envolveu alguma espera para que os muitos carros pudessem desfilar acelerados, ignorantes de tudo que não fosse o asfalto livre. Senti gastura. O trânsito de pedestres também chamou a atenção. Era muita gente circulando, despreocupada em guardar alguma distância de qualquer outra pessoa.

O bairro onde moro é marcado pela ausência de vida nas ruas. É mesmo só um ir e vir de gente. Ninguém para, até porque não tem onde parar. Não tem uma esquina, não tem um bar, não tem uma praça viva. Tem a praia. Tem os condomínios. Tem os shoppings. Em dias comuns, as pessoas que a gente vê circulando pelas ruas são, em sua maioria, trabalhadores e trabalhadoras destes shoppings e condomínios. Eram essas as pessoas circulando a pé, 4 semanas depois do início do isolamento social. Não eram essas, entretanto, as mesmas que circulavam de carro. Pensei pelo aspecto otimista: quanta gente nessa minha cidade é serviço essencial! Quase bati palmas, mas estava ocupada tentando manter alguma distância dos outros corpos. Senti ansiedade e irritação.

No banco, avistei um atendente, três seguranças e uma cliente. Enquanto esperava minha vez, o que foi rápido, percebi os seguranças conversando entre si. Pareciam contrariados. A mulher dizia que a linha de ônibus que usou para chegar ao trabalho estava amontoada de gente: “um falando dentro da cara do outro”! Um dos homens reclamou do que avaliou como insensibilidade dos que insistem em estar nas ruas sem necessidade: “parece que não estão lendo as notícias, não estão levando a sério, um desrespeito com a gente”. O terceiro disse que não tinha jeito, era confiar no papai. Eu não entendi. Acho que ninguém entendeu, porque ele precisou explicar: “papai! O pai do céu. Só a providência”.

No caminho pra casa parei em uma farmácia. Chorei ao me afastar do caixa. Estranhei as marcações no chão, as fitas criando distância entre as gôndolas e os balcões. O caixa estendendo o braço, com a sacola pendurada na pontinha dos dedos, a embalagem de álcool ao lado da registradora.

Apesar de as lojas estarem fechadas, à exceção das farmácias, bancos e lojas de chocolate, tinha bastante gente circulando dentro do shopping. Também havia uma padaria aberta, com pessoas sentadas às mesas, sem qualquer distância entre si. Não estava proibido consumir dentro dos locais?

Chegando em casa, teve início o ritual de desinfecção, ainda na porta do apartamento. Fui direto pro banho. Achei que um homem tinha espirrado perto demais de mim. Meus cabelos estavam soltos. Lavei os cabelos que estão longos, longuíssimos.

Sentada no sofá, senti um tipo de alívio. Olhei pela varanda. O mar ainda em ressaca. Acostumei a olhar o mar pela janela. Só passou um mês e parece que a vida sempre foi assim.

Brasil: 422 dias sem dignidade

Em pouco mais de um ano atuando como presidente desse país o legado de Bolsonaro é mais negativo do que análises econômicas otimistas fazem parecer. Sem disfarçar, o presidente usa o poder conferido pelas urnas para favorecer o clientelismo, a família, a corrupção e garantir sua permanência como soberano autoritário da nação.

Os escândalos incrementados de muita cafonice e deselegância, não pararam depois de empossado. Muito pelo contrário. Parece haver um ministério oculto dedicado a produzir espetáculo a fim de desviar atenção dos escândalos intermináveis. O lastro da proximidade com milicianos e o esforço em tumultuar, até impedir, a investigação do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes é desconcertante. Mais desconcertante ainda é o aparelhamento explícito que visa blindar Flávio Bolsonaro de qualquer investigação no esquema de corrupção, docemente apelidado de esquema das rachadinhas.

Em que pese a política internacional e as relações diplomáticas, não parece haver qualquer preocupação em manter a reputação de um Estado laico, democrático, republicano e de direito. Muito pelo contrário, além de acumular incidentes diplomáticos, o governo, através da pessoa do próprio presidente, busca ativamente a aliança com regimes teocráticos autoritários. Além disso, se oferece como pinico sempre disponível para as necessidades dos EUA de Trump, sem nunca negociar nada em troca de tanta gentileza.

Isso, e o descompromisso com acordos de cooperação entre as nações para conter o avanço da crise climática comprometem a credibilidade do país perante a comunidade internacional séria e a confiança de investidores. Perdemos capital político. Perdemos dinheiro. Perdemos dignidade.

Em 422 dias de governo, o que temos de concreto é também o ataque à liberdade de imprensa, ao direito de informação e à liberdade de expressão. Instituições de ensino e pesquisa, bem como agências de regulação estão sendo persistentemente atacadas e enfraquecidas. O funcionalismo público de carreira está sendo desidratado a pretexto de onerarem o Estado, ao passo que os cargos de confiança incham.

Como estratégia dupla de manter o exército ao seu lado, seja para ajudar a reelegê-lo, seja para apoiá-lo em uma eventual aventura golpista, ao longo desses 422 dias o presidente Jair Bolsonaro tem se dedicado a fazer rir as forças armadas. Como apoio a essa força, pretende armar a população sob o argumento de que o povo precisa se defender de uma investida golpista dos comunistas. A essa frente, se soma o incentivo à formação de um Estado miliciano neopentecostal.

Nesses 422 dias de governo, Bolsonaro acumula em sua lista de conquistas o aumento do desemprego, a fragilização da soberania econômica, intelectual, cultura e alimentar do país, o incentivo ao genocídio dos povos indígenas e à grilagem, a perda de patrimônio ambiental e genético pela negligência planejada com os biomas da Amazônia e do Cerrado.

Isso tudo, e mais, acontece ainda com o presidente da república incitando a parcela ignóbil da população em favor do fechamento do Congresso e tomada militar do poder.

E mesmo diante de tudo isso, o mais aterrorizante é o silêncio.

Atualização de referências pra gente asquerosa

Witzel não é bobo. Tudo pra ele é palanque.

Em agosto de 2019, um rapaz fez de reféns os passageiros de um ônibus. A operação durou cerca de 4 horas e terminou com o sequestrador sendo baleado e morto por um sniper. Houve controvérsia quanto ao, assim definido, sucesso da operação. Não vou entrar nesse mérito. O ponto aqui é destacar a inadequação e a inadmissibilidade do comportamento do governador do estado do Rio de Janeiro.

Eleito na sombra das afinidades de prateleira com o teocrata ultradireitista Bolsonaro, o até então desconhecido Witzel se oferece como servo dos interesses conservadores (retrógrados?) de falsos moralistas e liberais de mercado. Meteórico, ganha relevância defendendo a violência justiceira dos homens de bem, esses marcadamente covardes.

Uma das primeiras informações que o estado conheceu a seu respeito chegou através de um vídeo onde, ainda juiz, ensinava a torcer a lei a fim de se obter vantagens financeiras. Malandro, o fluminense deve ter ficado bem impressionado, porque o elegeu.

Confesso que não enxergava esse Witzel. Quando tomei conhecimento de sua presença, ele já era praticamente eleito. Defendia impiedade no combate ao crime. Desfazendo dos princípios que norteiam os direitos humanos universais e a própria legislação brasileira, repetia que a polícia teria liberdade de atirar antes e perguntar depois. Talvez nem perguntar. E, ao atirar, que fosse ja cabecinha.

Daí em diante, fica difícil elencar quais das suas manifestações públicas são mais desprezíveis. A certeza é a expressão grotesca do quadro.

Uma das atuações públicas de Witzel que mais asco me causou aconteceu em campanha, uma semana antes das eleições. Ao lado dos truculentos Daniel Silveira e Rodrigo Amorim, eleitos deputado federal e estadual pelo Rio, ostenta orgulhoso o vandalismo com a memória de Marielle Franco, cujo assassinato ainda segue sem respostas.

Os três covardes, em busca desesperada por relevância, procuram associar sua imagem à imagem não menos repulsiva de Jair Bolsonaro. O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes também parece bastante associado à Jair Bolsonaro.

Exibindo a placa partida, os três delinquentes entregam mais um discurso de ódio e intolerância incitando a violência. Contentes em sua mediocridade insignificante, os três posam para a foto. Witzel aparece com o braço erguido e o punho cerrado, como quem celebra uma grande vitória. No rosto suado, estúpido sorriso.

Também é de causar asco a coletiva onde Witzel comunica sua política de segurança pública. Sempre expressando violência, preconceito e desprezo pela vida, declara que a polícia militar, em sua gestão, terá carta branca para matar, atirando primeiro e perguntando depois, porque ele “não tem bandido de estimação”. Em uma linha, sua política se resume à seguinte ordem: “é para atirar na cabecinha”. O alvo é claro: negros, pobres, favelados.

Desse modo, operações desastradas e irresponsáveis, construídas para serem espetaculares, entregaram ao mundo o caso isolado do dia. Todo dia.

Foi o caso isolado o assassinato de Agatha. A menina de 8 anos morreu nos braços do avô, baleada nas costas pela PM do Rio, de Witzel.

Foi o caso isolado o assassinato de Rodrigo Alexandre Serrano. O jovem de 26 anos foi alvejado pela PM do Rio por que portava um guarda-chuva para proteger a esposa e o filho da chuva. A desculpa: a polícia confundiu o guarda-chuva com um fuzil.

Foi o caso isolado do assassinato de Marcos Vinícius da Silva. O adolescente de 14 anos foi baleado enquanto ia para a escola, uniformizado com a camisa da rede pública de ensino. Ensanguentado, peito furado por projéteis do Estado, aninhado nos braços da mãe, ainda teve tempo de perguntar: “mãe, ele não viu que eu estava indo para a escola?”.

Esses casos isolados não se resumem aqui. Compõem uma longa ficha corrida de crimses de racismo e injustiça social cometidos pelo Estado com a chancela da população.

Witzel não apenas é asqueroso. Ele eleva a definição do termo para outro patamar. E é consistente.

Foi sendo consistente que no dia 20 de agosto de 2019 ele chegou de helicóptero, saltitante e celebrativo, para comemorar o assassinato de um rapaz que havia feito de reféns os passageiros de um ônibus sobre a ponte Rio-Niterói. Feliz, não cabia em si, o herói.

Questionado, negou a comemoração. Não estava comemorando uma morte, estava comemorando as vidas salvas, declarou.

Comemoração asquerosa de Witzel

Sem limite para espetáculo e o ridículo, Witzel fez de palanque a Libertadores. O sujo usando o mal lavado. Witzel que usa Bolsonaro, que usa o Witzel que usam o Flamengo, que usa Bolsonaro, que usa Witzel e que usam todo mundo.

A taça Libertadores é mais um acontecimento com garantida cobertura da imprensa e atenção popular. Patético, Witzel fez da vitória rubro-negra um evento para jogar holofotes sobre si. O picadeiro? A capital do estado que o elegeu governador.

Fantasiado no seu caricato sorriso de homem bobo, paletó cinza sobre a camisa do Flamengo e um manto da “nação” sobre o pescoço, pisou o gramado e se ajoelhou aos pés do atacante Gabigol. (Por extensāo, se ajoelhou aos pés do clube que pouco antes fora palco da morte de 10 jovens atletas por negligência deliberada, sem que, até o momento a diretoria ainda tenha sido responsabilizada.)

Witzel se ajoelhou em campo, em uma atitude asquerosa e populista.

Vi a cena e logo imaginei o toma lá dá cá que se negociou entre o governador, o clube e o jogador para a produção de triste espetáculo.

— Ah, mas que mal-humorada. O cara não se ajoelhou para o clube e nem para a diretoria, ele se ajoelhou para o Gabigol, o craque, o jogador. A festa não pode ser punida pelos erros dos cartolas. Não pode politizar o entretenimento.

É sério que você desconsidera a possibilidade de uma conversa, um faz-me-rir entre governador, diretoria e atleta?

Nem tive tempo de terminar meu pensamento. O assunto já era TT. O ângulo e o instante capturado, faziam o jogador parecer desconfortável em ter o Mr. Potato ajoelhado aos seus pés. Aparentemente, o atacante teria se afastado constrangido ou, talvez, enojado com a cena. E nem duvido que tenha sentido nojo e desprezo. Não duvido mesmo. As imagens em vídeo deixam mais evidentes o constrangimento.

Populismo asqueroso de um invertebrado

No Twitter, a chuva de histeria reproduzia a imagem ridícula acompanhada de frases como: Gabigol lacrou. Gabigol humilhou. Gabigol desprezou. Gabigol herói.

Fiquei aguardando quanto tempo até o herói dos tolos desmoronar. Não demorou nada. Poucas horas depois, vestindo medalha e o manto rubro-negro, a imagem asquerosa de Witzel e de Gabigol silenciando os arroubos de heroísmo inexistente na suposta recusa do atleta em receber a deferência do invertebrado que nos governa o estado.

Print da tela da conta oficial de Witzel agarradinho com Gabigol

Os passadores de pano, de todos os matizes sociais, econômicos, políticos e ideológicos, se apressaram para: passar pano! — Ah, mas a pressão da imprensa. — Ah, mas a pressão da diretoria.

— Ah, mas a pressão…dos privilégios e vantagens que posso acumular disso — deve ter pensado Gabigol. E a diretoria. E o governador.

Gabigol pode até ter sido forçado a posar de troféu pro tolete humano que o povo fluminense, com seu dedo de Midas invertido, colocou no poder. Mas, precisava posar assim cheio de dente e convicção?