Por quê o bolsonarista age como age?

Muito se questiona sobre a razão que leva bolsonaristas a continuarem apoiando Bolsonaro. Ricardo Rangel publicou uma reflexão sobre isso com o título “O coração tem razões que a própria razão desconhece” (Veja. 30.06.20). Ele conclui que é fácil entender porque Bolsonaro age como age, mas que é difícil entender porque os bolsonaristas continuam o apoiando depois de serem, segundo seu entendimento, traídos de maneira tão acachapante.

Não me é tão fácil entender porque Bolsonaro age como age. Enxergo sua motivação – cuja ética e moral são questionáveis – para desidratar a Lava Jato e garantir o foro privilegiado à Flávio Bolsonaro. Visa proteger o filho implicado em crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, por exemplo. Quanto à traição que retiraria de Bolsonaro o apoio de bolsonaristas, me parece haver um erro de leitura. Bolsonaro não traiu nada e nem ninguém. Para fazê-lo, seria necessário que tivesse assumido algum compromisso com esse algo ou alguém. Jamais o fez.

Veja, Bolsonaro nunca se comprometeu sequer com o que fala e fica registrado. Sua lealdade, se é que há alguma, é restrita aos seus filhos. Seu descompromisso é tal que fugiu aos debates. Privou o país do direito de ouvir suas propostas e dialogar sobre elas. Bombardeou, e segue bombardeando, a população de dentro e de fora do país com mentiras e distorções da realidade, as chamadas fake news. O descuido proposital com o conteúdo e a forma do material apresentado como plano de governo foi mais uma declaração explícita da sua falta de zelo com a nação, com a democracia e com cada cidadão e cada cidadã, inclusive aquele que era o seu eleitor convicto.

Não faltam evidências muito objetivas que caracterizem o desleixo e a falta de compromisso de Bolsonaro com qualquer pensamento, ação, instituição ou pessoa. Não me detenho nisso que é público e notório. Meu objetivo, foi apenas demonstrar que não se pode acusar Bolsonaro de traição.

Se Bolsonaro não traiu, logicamente ninguém foi traído, nem mesmo o núcleo duro de seu eleitorado – vulgarmente tratado por bolsonaristas. Tampouco creio que se sintam traídos. Do mesmo modo que Bolsonaro, seu eleitor não demonstra compromisso com o país e seu povo. Concordando que bolsonaristas não foram “traídos de maneira tão acachapante”, permanece o problema: por que o bolsonarista age como age? Tenho uma hipótese. Para desenvolvê-la é preciso que se defina o que é um bolsonarista.

O que é um bolsonarista: primeira aproximação

Num primeiro momento, pode parecer simples: um bolsonarista é um seguidor de Bolsonaro. No entanto, essa definição parte de um pressuposto falso: o de que para existir a categoria bolsonarista é preciso que exista Bolsonaro. Defendo que bolsonaristas existem antes e para além de Bolsonaro.

Para essa hipótese, é preciso assumir que Bolsonaro é apenas mais um bolsonarista, não merecendo que se lhe atribua qualquer autoria na construção desse modo de existir. Isso seria lhe conferir uma importância que não possui. Enquanto o tipo de bolsonarista que é, Bolsonaro é insignificante.

Se o modo de existir bolsonarista independe de Bolsonaro, por que o adjetivo nasce de seu nome?

Personalidade como função

A personalidade Bolsonaro ganha função na medida em que ativa o que passarei a chamar de bolsonarista existencial. É necessário e estratégico distinguir entre os dois tipos de bolsonarista que identifico: o existencial e o circunstancial.

A categoria bolsonarista existencial corresponde ao grupo de indivíduos sem disposição ao pensamento reflexivo. Os indivíduos da categoria bolsonarista circunstancial são aqueles que, por alguma circunstância específica, estão com a capacidade de pensar temporariamente embotada. O primeiro é caso perdido. O segundo é possível recuperar.

Esse é o trabalho necessário. Identificar, dentro do que comumente se designa por bolsonarista, quem é caso perdido e quem ainda pode ser resgatado. Não pretendo explicar porque a não disposição para o pensamento reflexivo ocorre. A proposta é distinguir entre os tipos existencial e circunstancial com o fim de dirigir o trabalho para aquilo que pode e deve ser feito: recuperar o bolsonarista circunstancial.

Sob a função Bolsonaro, os tipos bolsonarista existencial e circunstancial passam a orbitar o que parece um movimento organizado: o bolsonarismo. No entanto, ainda que se reconheça um bolsonarismo, e que ele possa ser caracterizado como um movimento, a realidade mostra que não é organizado. Ao contrário, sua expressão é caótica, violenta e perturbada.

O bolsonarista existencial

Esse grupo é caracterizado pelo fanatismo e pela ausência de pensamento reflexivo, sendo a faculdade do pensar o elemento-chave. O pensar de modo reflexivo é próprio do humano. Abrir mão desse pensar genuinamente curioso, que reflete sobre si mesmo e sobre o que está fora de si, é o mesmo que abrir mão da própria humanidade. Isso é muito perigoso e pode ter consequências desastrosas, deixando marcas profundas, duradouras e terríveis não apenas para toda a humanidade, mas também para toda forma de vida existente no planeta.

Partindo da pergunta retirada do texto de Ricardo Rangel, é preciso identificar o que motiva o agir do bolsonarista existencial uma vez que o pensamento está ausente. Se não é instada pelo pensamento, sua ação é pura reação dirigida à sobrevivência do organismo. Diante de uma ameaça, seu repertório de respostas irrefletidas se restringe à fuga, luta ou paralisação (fingir de morto). Sem disposição ou competência para o pensamento, toda complexidade é uma ameaça e, portanto, fonte de sofrimento a ser evitada.

Ao repudiar tudo o que lhe é estranho, o bolsonarista existencial substitui o convite ao diálogo pelo esforço de enquadrar o que lhe escapa dentro dos limites de certezas com as quais está familiarizado. O que foge disso é inimigo a ser subjugado e controlado. No limite, deverá ser eliminado.

Para esse perfil, ansioso pela necessidade de controle, não surpreende a recorrência ao passado como tempo idealizado, livre de complexidades, onde cada pessoa sabia exatamente o seu lugar e, por isso, era feliz. Nesse sentido, muito mais do que conservador, um bolsonarista existencial é retrógrado. Saudoso de um passado inventado, trabalha pela supressão de direitos conquistados no longo percurso da construção de uma sociedade menos desigual.

Em síntese, para o bolsonarista existencial não há razão. Há reação. Não há curiosidade e encantamento. Diante do abismo há apenas medo, talvez pavor. Não há transformação possível, há o esforço violento de conservar e controlar aquilo que, em essência, não é possível conservar estagnado nem controlar: a vida. Talvez, por isso, o ódio seja um afeto tão presente. E, talvez precisamente por isso, a bolsonarista existencial constitua risco potencial de aniquilação da própria vida que deseja conservar livre de mudança.

O bolsonarista circunstancial

Nem todo bolsonaristaé um deserto de sal. Ao contrário do primeiro tipo, o bolsonarista circunstancial não abriu mão de sua humanidade. A disposição para o pensar reflexivo existe, porém está temporariamente embotada. Embora haja o espaço para o diálogo, este perfil se acredita carente dos recursos que permitiriam o relacionamento criativo com uma complexidade transbordante.

Essa crença pode promover o sentimento de desamparo que favorece a adesão a um modelo de mundo simplificado, sem nuances, de fronteiras bem marcadas e impermeáveis. Nesse mundo, o pensamento reflexivo é substituído pelo conforto do discurso pronto, ainda que autoritário. Para esse tipo, empobrecido pelas circunstâncias, podemos nos oferecer como um outro que dialoga e ajuda a recuperar o acesso aos recursos próprios de interação criativa e resiliente com a realidade.

Nosso papel é identificar o bolsonarista circunstancial perdido no que parece ser a massa indiferenciada do bolsonarismo vulgar. Então, devemos nos oferecer como facilitadores da recuperação da potencia do pensar nessas pessoas. É possível que, em resposta ao espetáculo tosco das mentiras, descuidos e desprezo por tudo que não sejam seus próprios interesses, Bolsonaro já tenha mobilizado esse grupo a despertar para o equívoco de apostar no ódio como resposta aos desafios de nossa sociedade.

É junto a essas pessoas que devemos nos posicionar. Não importa, agora, saber porque o bolsonarista existencial age como age. Ele mesmo não sabe, e nem demonstra interesse em saber. O importante é identificar esse que, se percebendo desamparado, aderiu ao discurso pronto, violento e autoritário que tem Bolsonaro como porta voz. Identificar e ajudar a recuperar a coragem de pensar desses sujeitos de diálogo circunstancialmente embotados é fundamental para enfraquecer o projeto de poder da ultradireita neste país.

Esse texto foi escrito em junho de 2020.

Human Race – uma corrida contra quem?

Em inglês, “race” significa raça, mas também significa corrida. A expressão “human race” pode ser lida como raça humana ou corrida humana. Se é uma corrida, é uma corrida contra quem ou o quê? O que marca a chegada?

Tomando por referência o desprezo aos alertas de pesquisadores e pesquisadoras de diferentes áreas do conhecimento, bem como da vida agonizante do planeta, a corrida é contra a própria humanidade. A linha de chegada é a destruição de toda natureza. Nesse caso, é preciso que nos perguntemos: é possível existir humanidade sem natureza?

Parece que uma parte de nós está convencida que sim. Desses, aqueles com mais poder exploram toda expressão de vida reduzida à dimensão de recurso. Fauna? Recurso. Flora? Recurso. Minerais? Recursos. Energia? Recurso. Tudo é recurso.

Cientes da raridade da vida, se apressam no processo de apropriação e exaustão de tudo o que possa ser dominado e transformado em moeda. Talvez essa seja a corrida: Ser o primeiro a erguer a cerca pelo direito de exploração. Parecem apostar que a moeda acumulada ao investir na morte será suficiente para garantir-lhes uma existência descolada da vida.

Sob essa perspectiva, gente também é recurso. Recurso humano. Enquanto recurso, o humano é valorado pela sua utilidade ao sistema.

Convencido de que seu valor corresponde à essa utilidade cada humano vive ameaçado por sua anunciada obsolescência e descartabilidade. Desamparado diante do que parece inevitável, assume a responsabilidade e a obrigação individual de manter-se sempre o mais útil possível para o próprio sistema que o devora.

Conforme uma escala de mérito, o sistema premia os recursos humanos com mais ou menos riqueza. Essa distribuição quase nunca é proporcional ao volume de riqueza gerada para outrem ou para o coletivo. A distribuição desigual das migalhas mantém a competitividade sempre acesa.

Como qualquer outro recurso, quando a energia de um recurso humano se exaure, ele deixa de ter utilidade. Para o pensamento neoliberal, aquilo que não converte riqueza (vida) em moeda (morte), gera custo, e o que gera custo, deve ser descartado. Porém, assim como o lixo que acreditamos “jogar fora” não desaparece, essas pessoas também não deixam de existir. Agora elas são apenas um problema. O recurso humano passa à condição de refugo.

O refugo humano não é apenas inútil. Ele disputa os recursos finitos com os humanos que ainda são úteis e com aqueles que nunca perdem a validade. (A validade de um humano é extendida não pela sua suposta utilidade permamente na produção de riqueza, mas pela capacidade de acumular moeda pela exploração de tudo o que há).

Em outras palavras, o refugo humano atrapalha o sistema na acumulação. Agora não passa de obstáculo dependente de programas sociais dedicados a “sustentar vagabundo” – dizem eles.

Dentro dessa lógica, o ideal seria que o refugo humano morresse o mais breve possível. É o princípio que orienta a gestão dos leitos privados de hospital. O contratante dos serviços de saúde complementar somente é útil se saudável e pagante. Em caso de doença, havendo necessidade de internação, que seja breve, do contrário representará prejuízo. Nem que saia morto, é preciso que saia, e rápido. Afinal, saúde privada é um negócio, e ele deve enriquecer o empresário.

Acredito que uma parcela significativa de nós, humanos reduzidos a recurso, viva muito esmagada sob o horror ser tornado refugo. Talvez esperar força para uma reação seja fantasioso.

Penso que haja uma parte importante de nós assistindo passiva, conivente até, o relógio da bomba armada contra a vida correr. Sem criatividade aceita esse modelo de existência como o único possível. É provável que essa parte se acredite relativamente triunfante na medida em que se é esmagado, também esmaga e no computo final sente o jogo sem vencedores quase favorável a si. Faz parte da atitude conivente a aposta em estratégias conciliatórias.

Por quanto tempo ainda é possível sustentar a conciliação com o que é inconciliável? Em troca de que ainda se fazem concessões, quando já se está além do limite? Agir assim, não é operar segundo os mesmos mecanismos de negação do colapso ecológico que movimenta aqueles que ativamente erguem cercas, privatizam, controlam e destroem o que enxergam como bem de direito privado?

O mais irônico é que uma das ferramentas mais comuns utilizadas para sustentar esse tipo de negacionismo “racional” é a fé nos milagres da ciência e da tecnologia. Poderosos, ativistas e pessoas comuns ocupadas com o cotidiano de seus trabalhos e famílias, parecem compartilhar da crença otimista de que alguma fórmula matemática, alguma lei da física, algum processo de sintetização da vida será suficiente para manter a saúde de nossos corpos e mentes. É possível até que se almeje prescindir dos corpos, essa estrutura frágil e perecível que ainda ocupa lugar no espaço. Talvez possamos traduzir tudo em informação a ser armazenada em uma nuvem digital. Viveremos eternamente, como fragmentos de um todo indistinto. Seremos todos Deus.

Somos bichos escrotos

Dizemos que queremos saúde, mas escolhemos o caminho da doença. Vivemos rotinas sedentárias, comemos pela gula e não para nos alimentar, nos expomos a todo tipo de substância tóxica em excesso: do cigarro de nicotina ao monóxido de carbono. Nos separamos da natureza. Ignorantes, degradamos a natureza da qual julgamos não pertencer.

Ontem, distraidamente, fiz a tolice de ir pedalar pela orla do Rio. O lixo! Sem exagero. O lixo era surpreendente. Papel, plástico, garrafas, restos de comida e cigarro, máscara sem gente e gente sem máscara escarrando no chão, mijando no chão. No mesmo chão onde andavam descalços, onde os filhos brincavam.

Vi um homem trôpego, talvez alcoolizado, catando tampinhas de garrafa plástica. Vi quando levantou uma garrafa tampada do chão. Destampou. Recolheu a tampa. Descartou a garrafa novamente no chão.

Olhei pros prédios. Muitas varandas com a bandeira do Brasil pendurada. Já implico. Já desprezo. Olhei pra turba aglomerada desfilando sobre o lixo do calçadão. Não foram raros os que avistei enrolados em cangas representando a bandeira nacional. De um lado e do outro, miséria. O rico e o pobre, miséria.

Patriotas, talvez. É provável que as bandeiras estivessem lá em comemoração ao 7 de setembro. Independência proclamada às margens de um Ipiranga que há muito não passa de um esgoto a céu aberto. Diz muito.

Ao que serve o arrependimento?

Lya Luft e a banalidade do mal no voto entediado, leio no DCM em junho de 2020. Diz que se arrependeu do voto em Bolsonaro. Que não sabia bem o que fazia, porque não o conhecia, apenas precisava liberar o país do… Adivinha? Isso. Precisava liberar o Brasil do PT. (O ser patético não precisa ser inventado. Ele existe e repete coisas como essa daí).

Me causa repulsa a recusa de alguns em reconhecer a própria autoria no capítulo trágico da história democrática desse país. Era sabido que em algum momento o apoio a um sujeito desqualificado e violento seria uma mancha suja demais para seguir ostentando atrás da maquiagem verde amarela, desfigurada de tanto ódio. Em nome desse ódio mal disfarçado, entregaram o Brasil nas garras de quem nunca escondeu o gozo perverso com o sofrimento e até a aniquilação do outro. Agiram de forma consciente, conivente e desejosa do horror que se descortina sem surpresas. Agiram confiantes de que, se necessário, alegariam a mesma ignorância que tantos homens e mulheres “de bem” alegaram por terem apoiado os crimes contra a humanidade durante o nazismo.

Não existe absolutamente nenhuma justificativa que isente de responsabilidade aquele que votou em Bolsonaro. Também não há como isentar de responsabilidade aquele que, ao abrir mão do voto, deixou este governo (fascistoide ou fascista?) se estabelecer no poder.

Não há pedido de desculpas que baste. A escolha foi consciente. Não é possível alegar ignorância. Não é possível alegar desconhecimento. Não há arrependimento. Não venha pedir desculpas tentando salvar sua biografia.

O que eu respeitaria seria se cada um, ou ao menos alguns destes que usaram o título de eleitor como arma para desferir seu ódio, viesse a público admitir sua responsabilidade concreta e motivação real para o quadro atual. Não aceito e não respeito e não acredito em pedidos de desculpas levianos, de quem quer tirar o corpo fora alegando ignorância, desconhecimento ou mesmo boa fé. Que carreguem em si o peso, a dor e o sangue que sua escolha (inclusive a escolha de anular voto em uma eleição atípica como a de 2018) já causou e seguirá causando por muito tempo.

Por que insisto na responsabilização de si mesmo, quer dizer, por que insisto que a pessoa precisa parar de se justificar e de posar arrependinento?

Porque é a única possibilidade de que, talvez, essa pessoa seja capaz de não repetir o mesmo erro. Mais, e talvez isso seja o mais importante, é a única forma de a pessoa se desvencilhar da arrogância, do medo e do fanatismo que a impede de estabelecer qualquer diálogo.

Pra você, que ainda está tentando dialogar com quem não está aberto, segue meu pensamento.

O fanático não dialoga. É terra arrasada. Pisar nela vai te exaurir, te arrasar também. Nada floresce ali. A boa notícia é que esse universo de pessoas propensa ao fanatismo é relativamente baixo. Não havendo tecnologia, por hora, para semear diálogo nesses campos áridos, a forma é desnutrir retirando qualquer oportunidade de plataforma que alimente essa gente.

O que vem se chamando de bolsonarismo é a expressão caoticamente aglutinada da escória de ressentidos quando ganha olofote e ribalta. Não significa que não estivessem lá antes. Apenas, antes, eram os paspalhos do churraso de família, os chucros do bar ou da empresa. Ainda não sabemos como recuperar essas pessoas. Talvez não seja possíve recuperá-las. É que não é falta de instrução o que as define. Também não é uma doença mental, como pode parecer ao serem chamadas, genericamente, de loucas. Se há uma doença, ela é moral e eu não sei como isso se corrige. Então, apenas deixe que definhem e rastejem nas sombras, como sempre fizeram.

Amanheci hashtag

Quem sou eu na fila do pão? Sou uma pessoa comum que está tentando avaliar esse manifesto cheio de assinaturas, identificado como frente ampla pela democracia e contra o fascismo. Me sinto relativamente aliviada em saber que somos 70% — mas somos 70% de quê?

É certo que quando o rolo compressor vem ameaçando nossa existência, é urgente uma ação pela sobrevivência. Mas, quando vamos sair desse modo tão primitivo: agir pelo instinto de sobrevivência, um instinto basal, nem sempre provido de raciocínio? Pra ilustrar o absurdo disso, vi circulando, em um canal obscuro no YouTube, uma web-serie no modo “survivalist“. O canal é atribuído a uma empresa que leva o nome de uma pessoa que se pretende algo como um coach que vai te ensinar a atravessar crises. Claro, a protagonista é um gringo fantasiado de soldadinho. Faz referência à sua experiência como combatente nas tantas guerras que seu país inventa pelo mundo com o pretexto de promover democracia. Compõe a caracterização a ostentação de armamento pesado. Essa caricatura de oportunismo barato é a face do que aceitamos nos tornar.

Pra que serve a história? Estaremos condenados a repetir os mesmos erros de sempre, às custas da covardia e do medo? Não aprendemos nada com slogans vazios de conteúdo?

É preciso união, mas tendo a coragem de construir uma pauta concreta e coerente, capaz de mobilizar transformação. O debate para essa construção já é transformador. Ainda que lá na frente os rentistas usurpadores de sempre nos passem a perna, teremos uma plataforma sobre a qual ficar de pé. O preço dessas frentes amplas sem forma é a deformação de tudo. O grito vazio de “é contra a corrupção” de 2013 vira o grito esvaziado de “é contra o fascismo”. De grito em grito não dizemos e não ouvimos nada. Precisamos de um projeto. É urgente.

 

Estar presente é um presente

Na parte da cidade onde moro tem cobertura de mangue ❤ Agora estamos cumprindo o distanciamento social, evitando a rua, então é tudo paisagem na memória. Mas quando posso estar na rua, gosto de caminhar ou de pedalar para os meus compromissos — depende da distância. Prefiro isso ao carro, porque é um jeito de estar no lugar, e não apenas passar, com pressa e automatismo. Então eu olho pra tudo. E é sempre novo. Um reflexo na água. Um ninho de passarinho. Peixes nadando. Pessoas que passam. Flores ou frutos que não estavam antes. Galhos pelados, galhos esverdeados, galhos amarelados, galhos avermelhados, galhos de muitas cores. De tardinha, as capivaras. De noite, os morcegos. Então, quando vejo o mangue cuidado, as águas limpas, fico feliz. Dói quando está machucado.

E se a cidade pudesse privilegiar a natureza que tem em cada bairro?

E se o seu dia incluísse o olhar e o estar presente nesses espaços, que são públicos, coletivos?

Que mudanças isso traria pro seu dia e pro dia da cidade? Pra sua vida e pra vida na cidade?

Mangue

Imaginar: a coragem de ser livre

“I can’t breathe!”. Eu não posso respirar! Repetiu George Floyd, assassinado por asfixia pelas forças racistas do Estado, em maio de 2020.

Até a manhã de 31 de maio do mesmo ano, o mundo contabilizava 369.529 mortes humanas por asfixia em complicações associadas ao Covid-19.

Ailton Krenak, em muitas de suas falas, tem chamado a atenção para o descolamento do homem branco de tudo o que diz respeito à vida. Destaca o absurdo da sua fantasia de superioridade à outras raças, outras espécias, o planeta, e, até, fora dele.

Não é exagero. Ontem, em meio ao caos na terra, uma nave tripulada deixou o planeta com destino a uma estação espacial. Parece um grande feito. Muita gente animada. Os EUA, aparentemente recuperariam sua liderança na exploração do espaço — não fosse suficiente a bagunça que vai-se acumulando aqui embaixo. E, apostam os senhores do capital, voos comerciais tripulados serão rotineiros. Uau, hein…

“I can’t breathe!”, repetiu George Floyd antes de desacordar, sob as botas de um policial branco, até, finalmente, morrer.

“Alguma coisa está fora da ordem”. Te parece?

Uma mudança radical precisa acontecer. Essa mudança precisa ser voluntária e consciente. Krenak alerta não ser adequado pensar nessa suspensão da vida, provocada pela pandemia, como algo temporário, que apenas adia nossos planos, para que retomemos tudo de onde parou. É necessário que se reflita como se chegou até aqui, e o que deve ser feito para que não se repita.

Achille Mbembe faz a mesma prolação em seu artigo ‘O direito universal à respiração’. Reproduzo um trecho.

“Presa em um cerco de injustiça e desigualdade, grande parte da humanidade está ameaçada pela asfixia, e a sensação de que nosso mundo está em suspenso não para de se espalhar.

“Se, nessas condições, ainda houver um dia seguinte, ele não poderá ocorrer às custas de alguns, sempre os mesmos, como na Antiga Economia. Ele dependerá, necessariamente, de todos os habitantes da terra, sem distinção de espécie, raça, gênero, cidadania, religião ou qualquer outro marcador de diferenciação. Em outras palavras, ele só poderá acontecer ao custo de uma ruptura gigantesca, produto de uma imaginação radical.

“Um mero remendo não será suficiente”.

Não é de agora a denúncia sobre essa falta de imaginação humana, que insiste em velhas fórmulas falidas, ou, como diz Mbembe, meros remendos.

A boa notícia é que podemos fazer mais do que remendar. Somos dotados da capacidade de imaginar. E somos em maior número do que aqueles que se encontram embotados dessa capacidade.

Ontem o Brasil foi dormir com a esperança de que sua porção não necrosada, viva, capaz de imaginar, é a maioria. #Somos70%. Talvez sejamos mais. Não só no Brasil. No mundo. O que falta pra ativar a coragem de imaginar outro jeito de estar no mundo, e de ser com o mundo?

Em nome desses outros jeitos de estar no mundo, compartilho a determinação e a coragem dessa mulher nigeriana, Sophie Oluwole. Desafiando a narrativa dominante que silencia e apaga outros olhares, seres e pensares, ela teve a coragem de se imaginar em um lugar diverso daquele imposto pelo colozinador. Pela força transformadora de sua coragem de imaginar, resgatou um novo fio narrativo pra história da África no mundo e para história do mundo como um todo. Também compartilho a força inventiva e criadora de mundos de Frida Khalo, reproduzindo sua obra de 1943: Myself, Diego and señor Xolotol.

Para uma ruptura gigantesca, para a imaginação radical, vamos precisar de todo mundo.

The Love Embrace of the Universe, the Earth (Mexico), Myself, Diego and Señor Xolotl. Frida Khalo, 1943.

Notas sobre a pandemia (1)

Em três dias completo um mês de isolamento social. Nesse tempo, apenas saí de casa por duas vezes. A primeira foi logo no início da crise no Brasil. Meu destino: o mercado de verduras e frutas. A segunda vez foi hoje. Precisei ir ao banco. Entre a primeira e a segunda saída, pelo menos no bairro onde moro, a diferença no fluxo de pessoas nas ruas chamou a atenção.

Há quase um mês atrás, as ruas estavam praticamente desertas de carros, e as calçadas vazias de gente. No mercado, evidentemente, havia pessoas. Mas todos pareciam cuidadosos em manter distância saudável de outro vivente. Hoje foi bem diferente. O fluxo de carros estava alto. Atravessar as ruas foi trabalhoso. Envolveu alguma espera para que os muitos carros pudessem desfilar acelerados, ignorantes de tudo que não fosse o asfalto livre. Senti gastura. O trânsito de pedestres também chamou a atenção. Era muita gente circulando, despreocupada em guardar alguma distância de qualquer outra pessoa.

O bairro onde moro é marcado pela ausência de vida nas ruas. É mesmo só um ir e vir de gente. Ninguém para, até porque não tem onde parar. Não tem uma esquina, não tem um bar, não tem uma praça viva. Tem a praia. Tem os condomínios. Tem os shoppings. Em dias comuns, as pessoas que a gente vê circulando pelas ruas são, em sua maioria, trabalhadores e trabalhadoras destes shoppings e condomínios. Eram essas as pessoas circulando a pé, 4 semanas depois do início do isolamento social. Não eram essas, entretanto, as mesmas que circulavam de carro. Pensei pelo aspecto otimista: quanta gente nessa minha cidade é serviço essencial! Quase bati palmas, mas estava ocupada tentando manter alguma distância dos outros corpos. Senti ansiedade e irritação.

No banco, avistei um atendente, três seguranças e uma cliente. Enquanto esperava minha vez, o que foi rápido, percebi os seguranças conversando entre si. Pareciam contrariados. A mulher dizia que a linha de ônibus que usou para chegar ao trabalho estava amontoada de gente: “um falando dentro da cara do outro”! Um dos homens reclamou do que avaliou como insensibilidade dos que insistem em estar nas ruas sem necessidade: “parece que não estão lendo as notícias, não estão levando a sério, um desrespeito com a gente”. O terceiro disse que não tinha jeito, era confiar no papai. Eu não entendi. Acho que ninguém entendeu, porque ele precisou explicar: “papai! O pai do céu. Só a providência”.

No caminho pra casa parei em uma farmácia. Chorei ao me afastar do caixa. Estranhei as marcações no chão, as fitas criando distância entre as gôndolas e os balcões. O caixa estendendo o braço, com a sacola pendurada na pontinha dos dedos, a embalagem de álcool ao lado da registradora.

Apesar de as lojas estarem fechadas, à exceção das farmácias, bancos e lojas de chocolate, tinha bastante gente circulando dentro do shopping. Também havia uma padaria aberta, com pessoas sentadas às mesas, sem qualquer distância entre si. Não estava proibido consumir dentro dos locais?

Chegando em casa, teve início o ritual de desinfecção, ainda na porta do apartamento. Fui direto pro banho. Achei que um homem tinha espirrado perto demais de mim. Meus cabelos estavam soltos. Lavei os cabelos que estão longos, longuíssimos.

Sentada no sofá, senti um tipo de alívio. Olhei pela varanda. O mar ainda em ressaca. Acostumei a olhar o mar pela janela. Só passou um mês e parece que a vida sempre foi assim.

Brasil: 422 dias sem dignidade

Em pouco mais de um ano atuando como presidente desse país o legado de Bolsonaro é mais negativo do que análises econômicas otimistas fazem parecer. Sem disfarçar, o presidente usa o poder conferido pelas urnas para favorecer o clientelismo, a família, a corrupção e garantir sua permanência como soberano autoritário da nação.

Os escândalos incrementados de muita cafonice e deselegância, não pararam depois de empossado. Muito pelo contrário. Parece haver um ministério oculto dedicado a produzir espetáculo a fim de desviar atenção dos escândalos intermináveis. O lastro da proximidade com milicianos e o esforço em tumultuar, até impedir, a investigação do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes é desconcertante. Mais desconcertante ainda é o aparelhamento explícito que visa blindar Flávio Bolsonaro de qualquer investigação no esquema de corrupção, docemente apelidado de esquema das rachadinhas.

Em que pese a política internacional e as relações diplomáticas, não parece haver qualquer preocupação em manter a reputação de um Estado laico, democrático, republicano e de direito. Muito pelo contrário, além de acumular incidentes diplomáticos, o governo, através da pessoa do próprio presidente, busca ativamente a aliança com regimes teocráticos autoritários. Além disso, se oferece como pinico sempre disponível para as necessidades dos EUA de Trump, sem nunca negociar nada em troca de tanta gentileza.

Isso, e o descompromisso com acordos de cooperação entre as nações para conter o avanço da crise climática comprometem a credibilidade do país perante a comunidade internacional séria e a confiança de investidores. Perdemos capital político. Perdemos dinheiro. Perdemos dignidade.

Em 422 dias de governo, o que temos de concreto é também o ataque à liberdade de imprensa, ao direito de informação e à liberdade de expressão. Instituições de ensino e pesquisa, bem como agências de regulação estão sendo persistentemente atacadas e enfraquecidas. O funcionalismo público de carreira está sendo desidratado a pretexto de onerarem o Estado, ao passo que os cargos de confiança incham.

Como estratégia dupla de manter o exército ao seu lado, seja para ajudar a reelegê-lo, seja para apoiá-lo em uma eventual aventura golpista, ao longo desses 422 dias o presidente Jair Bolsonaro tem se dedicado a fazer rir as forças armadas. Como apoio a essa força, pretende armar a população sob o argumento de que o povo precisa se defender de uma investida golpista dos comunistas. A essa frente, se soma o incentivo à formação de um Estado miliciano neopentecostal.

Nesses 422 dias de governo, Bolsonaro acumula em sua lista de conquistas o aumento do desemprego, a fragilização da soberania econômica, intelectual, cultura e alimentar do país, o incentivo ao genocídio dos povos indígenas e à grilagem, a perda de patrimônio ambiental e genético pela negligência planejada com os biomas da Amazônia e do Cerrado.

Isso tudo, e mais, acontece ainda com o presidente da república incitando a parcela ignóbil da população em favor do fechamento do Congresso e tomada militar do poder.

E mesmo diante de tudo isso, o mais aterrorizante é o silêncio.