Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa

Estranha. Questiona. Não naturaliza a barbárie.

Você não precisa ter certeza. Não precisa ter a resposta pra tudo. Não precisa ter razão. Não precisa ganhar a discussão. E se estiver desconfortável, tudo bem. Você não estará só. Pelo contrário. Provavelmente estará muito bem acompanhado/a.

Há três décadas, o poema dizia assim: estou perdido, não quero encontrar o caminho, mas outros que também estejam perdidos para, juntos, criar um caminho.

Pelamorrrrr de Dadá. Não tô aqui falando pra você seguir o obscurantismo canalha do astrólogo escatológico do terraplanismo, antivacina ou coisa semelhante. Presta atenção!

Apenas, abre os olhos e vê. Sintoniza os ouvidos e escuta. E respira. Respira pra valer. Desafoga os teus pulmões desse excesso de ar congestionado que te sufoca.

Inspira. Expira. E, depois, expira mais.

Percebe o vazio.

Só então inspira de novo.

Muito provavelmente quase ninguém sabe bem o que tá fazendo e nem porquê. Eu desconfio muito de quem diz que sabe.

Vai. Vai na sua. Vai no seu tempo. Acha a sua turma. Ela existe. Ou, antes, acha as suas turmas. Você pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Ou uma de cada vez. E nenhuma delas precisa estar a serviço do enriquecimento financeiro de outro, em uma troca que nunca é justa, até que sobre nada de você.

Disseram que o mundo tinha que funcionar assim. E o mundo se convenceu. Mas, não. O seu trabalho é seu. O seu trabalho, a sua criatividade, a sua inteligência, o seu tempo, a sua vida, a sua saúde, tudo isso é seu e não precisa ser cativo da exploração de um senhor; de um sistema de moer gente e acumular riqueza que te descarta como se nada: “ele não era nada não”, disse a mãe do menino assassinado pela PM do Rio. Tem uma realidade aí fora que te disseram ser a única possivel. Não é.

Isso não é verdade.

Assim como também não é verdade que alguém é nada não. Não! Ninguém não é nada não.

Ama. Conversa. Escuta.

Escuta.

Escuta.

Abraça. Planta uma semente. Rega. Vê brotar.

Escuta. Vê. Ama.

Tenta. Erra. Acerta. Erra de novo. Tudo bem.

Ama.

Faz algo por alguém. Só por fazer. Só pra ver um sorriso. Se o sorriso não vier do outro, tá tudo certo, tá bom também. Tenho certeza que você estará sorrido.

Ama.

Lê um livro. Escreve. Qualquer coisa. Do jeito que der.

Desenha. Pra você. Pra ninguém. Pra quem for. Só pra desenhar.

Borda. Faz música. Ouve música. Dança.

Dorme. Dormir é bom. Dormir é ótimo. Dorme bem.

Não faz nada.

Nada. Vê o céu, o sol, o mar, o verde, a vida.

Ama. Se ame. Pra você. Não pro aplicativo. Não pra competir. Só pra sentir. Só pra ser.

Ama.

Dica amiga: vai lá e escuta Dê um rolê, Os Novos Baianos 😊

Pequenos cuidados

Recentemente em um debate público sobre ciclo-entregadores, serviços de entregas por aplicativos e segurança viária uma liderança social desencorajava discussões e ações de estímulo à segurança pessoal e orientações para o trânsito seguro junto a esse público, que vem crescendo como reflexo da crise econômica e do aumento do desemprego formal. A liderança em questão é a jornalista e cicloativista Renata Falzoni. Ela argumentava que “a presença desses garotos”, normalmente das periferias, “nas ruas era uma forma revolucionária de ocupação das cidades” e que “querer regular essa ocupação e determinar como devem se movimentar é tampar os ouvidos para o que podemos aprender e devemos mudar para tornar as cidades mais humanas”.

Procurei entender a fala como uma tentativa de tirar o foco do aspecto disciplinador dos agentes de trânsito (pedestres, ciclistas, motoristas …) para privilegiar o questionamento sobre a violência de um modelo de planejamento que favorece um determinado modo de transporte ao ponto de praticamente inviabilizar todos os demais. No entanto, escutando com mais cuidado, a colocação me pareceu irresponsável e romântica, ao mesmo tempo.

A irresponsabilidade: minimizar, senão retirar da equação, o fato de que a disputa (como ela se dá) por esse espaço (como ele se apresenta) está matando justamente esses que já são os que nossa sociedade mais mata: rapazes jovens das periferias.

Disseminar e discutir questões ligadas à segurança pessoal e práticas para um transito seguro não me parece tampar os ouvidos para nada. Ao contrário, me parece um oportunidade de escuta, atualização e sensibilização de um maior número de pessoas para os fatores que fazem do nosso trânsito brasileiro um dos mais violentos do mundo, ajudando a democratizar e qualificar o debate para mais camadas da sociedade.

O alcance das pautas que o cicloativismo propõe é restrito a um determinado segumento da sociedade, que sem medo de errar eu diria que é justamente a parcela que marca uma ou mais caixinhas de privilégios. Ter a oportunidade de chegar a públicos com os quais sempre desejamos dialogar não pode ser desperdiçado. E note, é dialogar. Dialogar não significa chegar com verdades, mas chegar com escuta.

As pessoas que hoje compõem o trânsito do Rio de Janeiro como ciclistas entregadores, em sua maioria, não possuem vínculo formal de trabalho nem com a empresa de aplicativo, nem com a empresa que fornece o produto da entrega e nem com o consumidor final. Portanto, sua segurança não é uma questão para ninguém a não ser elas mesmas. Enquanto ciclistas e trabalhadores precarizados, sua segurança também não é uma questão para o poder público. O que não faz sentido nem do ponto de vista humano e nem econômico, porque desconsidera perdas econômicas para o país tanto por morte, invalidez permanente ou temporária de pessoas econômicamente ativas, quanto por e sobrecarga ao sistema público de saúde. Assim, nesse lugar de abandono, descaso e descuido, se aproximar desse público para construir diálogo e estratégia de enfrentamento, sobrevivência e segurança no ambiente hostil, não é apenas uma oportunidade para o cicloativismo ampliar sua base crítica, mas é a atitude ética e humana a se tomar.

Ao defender a não ação e a não responsablização tanto do movimento cicloativista quanto dos trabalhadores precarizados, a liderança não apenas faz eco ao coro dos que abandonam à própria sorte aqueles que já acumulam um lastro de abandonos. Ela também assume uma posição confortável (e fantasiosa) de capitalizar ganhos para sua agenda a partir de um supostamente natural rearranjo da cidade para uma condição menos violenta, ironicamente construída a partir de um lugar de exploração e predação de despossuídos ou desesperados.

O romantismo: assumir que os tais garotos de periferia estão ocupando as ruas de bicicleta porque para eles essa é uma causa, e que a presença (inconveniente) de seus corpos (descartáveis) explorados em uma economia falida por meio de um trabalho inseguro, insalubre e mal remunerado nas ruas irá sensibilizar a sociedade brasileira que elegeu o fascismo ou os governos fascistas por ela eleitos.

Ao afirmar isso, está-se fazendo uso, em causa própria, de uma parcela da população que não necessariamente é sensível ou familiar ao debate sobre a mobilidade ativa. Desconsidera-se que, se esses corpos estão na luta e na rua disputando espaço em um ambiente hostil, e muitas vezes pagando com a vida, eles aí se encontram não por identificação à causa, mas por necessidade de trabalho em um contexto de crise econômica, desemprego e precarização laboral. É apenas mais uma expressão de desamparo.

Na reportagem de Leandro Machado para a BBC Brasil isso aparece com bastante clareza. A bicicleta como opção é uma expressão da ausência de opção. Seria, portanto, o primeiro passo possível para gerar alguma renda, até que se tornasse viável conseguir algo percebido como mais conveniente e desejável: um transporte-meio de trabalho motorizado: a motocicleta.

Dos fatores apresentados na reportagem para que a moto seja cobiçada em detrimento da bicicleta, destaco este: o rendimento gerado pelos ciclo-entregadores corresponde à metade daquele gerado pelos entregadores de moto. Mesmo que os ciclistas trabalhem mais horas e gastem mais energia (talvez até correndo mais riscos), o resultado financeiro fica aquém daquele que seus parem em motocicleta são capazes de fazer. O tipo de relação com a bicicleta e o desejo de mudança de transporte fica bem expresso por essa frase dita por um dos entrevistados: “Agora que já tenho as manhas do trabalho, que já conheço as ruas, só me falta um motor.”

Ainda que possamos identificar um ponto em comum entre o cicloativismo e a realidade dos ciclo-entregadores circunstanciais, a dizer, desejo de sobreviver à barbárie, não devemos confundir a causa de um com a causa de outro. Para os primeiros, a pauta se adere à luta por um trânsito mais seguro, de paz e limpo. Já, para os outros, a luta parece mais imediatamente ligada à necessidade de gerar meios para pagar um teto e a comida.

Ao sonhar com a troca da bicicleta pela moto, o ciclo-entregador espera melhores ganhos. E isso não configura traição à uma causa que jamais foi dele. No entanto, acredito que aqueles que estão conduzindo ações em prol da agenda da bicicleta como transporte podem conquistar mais atores para a sua causa por meio de debates sobre segurança pessoal e práticas para um transito seguro junto aos ciclo-entregadores, mesmo que sua condição seja meramente circunstancial.

Pense que se esse trabalhador que usa a bicicleta desconhece as condutas seguras ou, se conhece, escolhe ignorá-las, quando mudar de transporte, assumirá as mesmas condutas pobres e perigosas. No entanto, agora, seu grau de letalidade cresceu com a capacidade aumentada de velocidade do novo veículo e com o porte do mesmo. Perdem todos. A necessidade de apaziguar o trânsito, investir no compartilhamento e diminuir as velocidades dos motorizados não concorre com a necessidade de que as normas de trânsito sejam conhecidas, praticadas e fiscalizadas. Disciplina é importante sim.

A questão, porém, não começa e acaba nos trabalhadores de entrega, seja por moto ou por bicicleta. Ao invés disso, ela se estende ao Estado, aos empresários/comerciantes e aos consumidores que fazem uso da conveniência da entrega em domicílio.

Clientes consumidores

Parece bastante fácil para os clientes consumidores, no conforto de suas casas ou escritórios, deixar de avaliar qualquer outra variável que não seja a rapidez das entregas no que diz respeito ao seu grau de satisfação com o serviço. Seria o caso de promover alguma campanha que sensibilize esse cliente para a ampliação dessa percepção de qualidade, envolvendo-o como corresponsável por um trânsito mais seguro? E se houvesse alguma certificação ou selo de empresa responsável com a vida no trânsito, que ajudasse o cliente consumidor a identificar e escolher aquelas prestadoras de serviço que estão mais de acordo com seus princípios morais e valores? Já pensou nisso? Talvez, de quebra, ainda viesse o bônus de, quem sabe, sensibilizar esse público também para questões relativas à segurança e dignidade do trabalho dos profissionais de entrega.

Empresários e comerciantes

Imagine se as empresas que atuam como prestadoras de serviço de entregas por moto ou bicicleta, não importa, fossem avaliadas quanto a sua responsabilidade pela promoção de um trânsito seguro. Será que assim haveria o cuidado de orientar os trabalhadores para condutas seguras no trânsito? Será que isso refletiria na diminuição do número de infrações? E o que aconteceria com o número de acidentes?

Houvesse um selo que certificasse a responsabilidade social da empresa prestadora de serviço, os comerciantes poderiam escolher a empresa que iriam contratar conforme sue afinidade ética. Do mesmo modo, os consumidores finais, o cliente que solicitou a entrega em domicílio, poderia mapear tanto os comércios quanto as prestadoras de serviço mais afinadas com o que considera justo, desejável e correto.

É possível que se assim fosse, todos cuidando juntos pela segurança de todos e do trânsito, metas de agilidade e rapidez que colocam vidas em risco não fossem mais impostas, considerando tempos impossíveis de serem cumpridos sem que infrações de trânsito estejam no repertório das atitudes esperadas, conhecidas mas, convenientemente, ignoradas por todos.

Talvez, nesse dia, não tenhamos mais que ouvir mais justificativas como esta que recebi de um gerente de uma rede de pizzas na zona sul do Rio de Janeiro, a Vezpa: “o pior que pode acontecer em um acidente com algum de nossos motoboys é a gente perder o pedido”. Entende? O pior não era o acidente machucar ou matar uma pessoa, ou muitas. O problema era perder o pedido.

Estado

Ao Estado, evidentemente, cabe ações de sensibilização e educação para o trânsito, além de oferecer as condições adequadas de segurança e conduta e incentivar as melhores práticas, por exemplo, por meio de uma certificação ou selo que ateste a responsabilidade do prestador de serviço e do motorista.

Todos fazem parte de um sistema, e o sistema tem regras sim. Caso não estejamos dispostos a lidar com isso, com ou sem motor, o certo é que vamos continuar impondo para parcelas importantes da sociedade uma relação de trabalho desequilibrada, insegura e indigna. Mais que isso, vamos continuar impondo um ‘ambiente de trabalho’ que tem a característica de ser violento e que aparece como um dos que mais matam pessoas no mundo: o trânsito brasileiro.

Uma horta de bairro ou Nas cidades tem gente

As tristezas se acumulam com o lixo e a lama que a chuva fez correr como se quisesse despertar nas gentes, por meio do espanto, uma reflexão mais séria, uma ação mais comprometida, uma consciência mais viva. Ocupada da tragédia, mais uma, acabei deixando de lado um breve encontro que gostaria de compartilhar, e que considero especialmente necessário diante de todo o caos e abandono e descaso que estamos continuamente e crescentemente recebendo de cada uma das três esferas de poder.

Domingo fui papear com uma amiga lá na horta do bairro. Entre um assunto e outro, fomos regando as mudinhas de hortaliças, temperos e árvores frutíferas que os vizinhos e amigos começaram a semear. Antes mesmo das sementes da terra produzirem frutos e frutas e raízes e folhas, outras sementes já começaram a brotar. Sementes de ideias vindas de diferentes lugares. Ideias que já seguem livre o seu caminho de fazer voar outras ideias que vão chegando longe.

Mas não foi só semente da terra, não foi só ideia, foram vínculos com o lugar e com as pessoas. Duradouros ou efêmeros, cada vínculo traz a possibilidade do olhar, do sorriso e de histórias que podem ensinar.

Foto: Cris Portella

Vejo a amiga voltar com a água. Junto dela, um rapaz ajudava a carregar um galão cheio. Jorge Luiz vem sorrindo. Enquanto fazíamos a rega, ele passou a mão sobre uma das folhas, dizendo do contentamento que sente quando vê o verde brotar. “É como se elas estivessem agradecendo pelo carinho da gente.”

Contou que começou a gostar de planta quando ajudava a avó a cuidar do quintal de casa. Lembranças boas de infância. Suas plantas preferidas são a planta da felicidade e a bougainvillea. “Uma parece renda, a outra é cheia de cor”.

Falou que agora está morando na rua e que há muito tempo não passava ali. Voltou recentemente e se encheu de alegria porque ali “onde o mal se enraizava, agora está nascendo o bem”.

Sobre o mal, nos contou dos “playboy” que ocupavam aquele “lugar abandonado antes da horta”. Fez questão de explicar o que queria dizer com playboy, “porque a pessoa não tem culpa de nascer rica, mas ela é responsável pelo que escolhe fazer disso. O playboy é aquele que acha que é melhor, que passa arrogante, que acredita que pode mais e pode tudo, que pensa que você não é nada, que nem olha no olho, que bota fogo em morador de rua”.

Passamos parte da manhã ali, conversando e compartilhando nosso cuidado com o espaço, que é público, e nosso gosto comum pelo verde.

Esse encontro me fez pensar sobre a potência de ações singelas capazes de dar vida a espaços que são tão nossos, mas que tão fácil a gente esquece.

No seu bairro também tem uma praça? Como é a convivência nesse espaço? Como pode melhorar?

Mais uma morte no trânsito. Até quando?

O desequilíbrio das forças é absurdo. Embora nossa presença mobilizada e coletiva nas ruas tenha força, como mulher, pedestre e ciclista me questiono sobre a honestidade da mensagem quando experimento a inviabilidade planejada do meu corpo desarmado na cidade.

Desarmado sim. Ir a pé, ir de bicicleta, é ir sem armadura e sem arma. Os governantes dessa cidade investem em políticas públicas que fazem dela uma cidade que mata. Os governantes dessa cidade, desse estado, desse país, nos matam em todo lugar. Em toda esquina. De muitas formas. Por nenhum motivo. Mesmo porque, nenhum motivo justifica qualquer morte.

Existem muitos tipos de ciclistas na cidade. Um deles é o atleta. É linda a conquista de Áreas de Proteção ao Ciclista. Que venham mais. Mas, e quando não se está nela, como faz? E quem não é atleta, e quem apenas quer se deslocar pela cidade de forma saudável, eficiente, divertida, humana e barata, como faz?

Domingo, indo de carro para a zona sul, vi dois ciclistas de passeio, uma moça e um rapaz. Eu saia do túnel. Eles precisavam entrar, pois o acesso pela calcada compartilhada foi interditado em face aos desmoronamentos e mortes causados por uma obra superfaturada. Saí do túnel no sentido zona sul. Eles entraram no sentido oposto, em direção à zona oeste.

Loucura? Imprudência? Resistência?

Cada um especule o que quiser.

A mobilidade, a liberdade de ir e vir, é um direito. O Estado tem o dever de ofertar opções diversas, sustentáveis e seguras de deslocamento.

No mesmo domingo, voltando para casa já de noite, vi mais um ciclista no mesmo túnel. Um homem sozinho.

Não era atleta. Não era cicloturista. Mais uma vez, era apenas uma pessoa indo do ponto A ao ponto B.

O homem seguia pelo elevado do Joá, pequeno, vulnerável e ágil pela borda da pista. Motoristas passavam apressados, aparentemente irritados com aquela presença que os obrigava desacelerar.

Arriscado? É. Os carros passam muito acelerados. Acelerados demais para ser compatível com a vida. Qualquer vida. Até mesmo a vida de quem viaja dentro da armadura de aço.

Muitas devem ser as mortes por atropelamento de ciclistas e pedestres que não fazem manchete. Outras, por motivos não ignorados, fazem. Essa morte fez, chegou aos jornais.

Não é a primeira vez que, apesar das áreas de proteção ao ciclista, os atletas morrem atropelados, seja indo para o treino, voltando, ou mesmo durante o treino.

Mas morrem também ciclistas urbanos. A velocidade que mata não escolhe categoria, gênero, raça ou classe social.

De que adianta popular a cidade com estações de bike compartilhada, patinetes elétricos e o que vier de novidade, sem garantir o básico da proteção à vida: um transito desacelerado, ordenado, bem sinalizado e a certeza da fiscalização e da punição para infratores?

Não pense que as empresas privadas que oferecem os serviços de mobilidade alternativa ao carro vão espontaneamente se associar à causa da mobilidade. A mobilidade sequer é pauta para essas empresas e seus gestores. Para eles, a mobilidade é um negócio.

Se o Estado, sem cuidado, permitiu a exploração do nicho ‘mobilidade urbana ativa’ por particulares, não será a empresa que irá fazer qualquer movimento para reduzir acidentes ou brigar pela melhoria, qualidade e segurança das vias.

Alguma contrapartida deveria ser oferecida por quem lucra, muitas vezes na forma de monopólio do mercado. A maioria dessas empresas funcionam por aplicativos. Dado, uma grande fonte de riqueza, é algo de que dispõem. O mínimo, seria dar transparência a esses dados.

Tipos de viagens, distancias, durações, frequências, ocorrências… tudo isso poderia ajudar a mapear prioridades de investimento na qualidade e a segurança do transito. E isso é apenas uma pequena coisa possível. Outras ideias? Por exemplo, porquê não exigir uma percentagem dos lucros obtidos pela exploração do mercado de mobilidade ativa para custear implantação e conservação de mobiliário urbano para ciclistas e pedestres, sinalização, melhoria das calçadas, campanhas educativas, entre outros?

A mais essa família em luto, me solidarizo.

https://oglobo.globo.com/rio/empresario-morre-atropelado-por-onibus-quando-treinava-de-bicicleta-na-barra-23533396

O espelho assombra

Minha experiência de vó e de vô me ensinou a certeza de que o amor é maior e mais intenso que a própria vida. Vôs e vós me emocionam.

Perdi um irmão quando ele era pequeno. Por empatia, por memória, me solidarizo ao pesar de Lula, como me solidarizaria a qualquer outro. Imagino que a dor desse momento não tem nem nome.

Ficaria no silêncio em mim. Mas foram tantas colocações insensíveis, inumanas, desastrosas, mesquinhas e feias, que precisei fazer o silêncio falar. Não sei até onde chega. Mas meu silêncio grita assim:

Gostaria de dizer que apesar de você, amanhã será outro dia. Mas agora, só penso que por sua causa os dias tem sido penosos.

Você justificou seu voto injustificável porque era “contra a corrupção”. Porque era contra “bandido de estimação”, porque “bandido bom é bandido morto”. Veja você, porém. O filho do seu presidente já leva corrupção inscrita no DNA. O filho do seu presidente deita na cama de miliciano, faz festa, chama de amigo.

Você justificou seu voto injustificável porque estava cansado da “velha política”. Note, entretanto. O seu presidente trabalha em um pacote de maldades, o velho toma lá, dá cá, pra fazer passar a tal Reforma da Previdência.

Você justificou seu voto injustificável pq queria um governo “técnico”. Que ironia. Você tem um astrólogo como mentor do seu governo.

Você justificou seu voto injustificável alegando desprezo pelos “intelectuais”, sabe lá o que quer dizer com isso. No seu governo, olhe bem, ministros recalcados mentem sobre suas formações acadêmicas. Fosse pouco, os mesmos ministros odeiam aquilo pelo que advogam, não tem qualquer relação com a pasta que lideram, ou, quando tem, se submetem aos achismos de Whatsapp do eleitorado chucro como o próprio presidente que elegeu – um velho mesquinho, franzino, fraco, caprichoso e tirano.

Nada do que você usou pra justificar seu voto injustificável se sustenta. Sua única motivação foi o ódio. O ódio ainda é sua motivação. E você nem sabe o que odeia. Ou sabe e é covarde demais pra dizer. Eu te digo. Você odeia aquilo que vê refletido no espelho. Você não suporta. Então você odeia um outro. Agora você chama esse outro de Lula, de esquerdista, de petista, de intelectual, de analfabeto. Você nem se decide. A única certeza é que você se odeia tanto, e não suporta, que até se autoriza a odiar uma criança de 7 anos, morta.

Você é horrível.

Ser normal

É uma pessoa muito boa. No Natal faz caridade. Leva cesta básica pra uns pobres.

É uma pessoa muito engajada. Distribui cobertores pra morador de rua. Dá até prato de comida. Às vezes, nem é resto.

É uma pessoa muito consciente. Não come carne vermelha, evita plástico, faz até mutirão de limpeza do lixo.

É uma pessoa muito ajustada. Joga o jogo, não faz marola. Mas o jogo mata. Até o cidadão de bem sabe disso. Só que quem morre é o outro. “É ele ou eu. Que seja ele”.

De boa vontade em boa vontade, quando dá, o cidadão de bem se exime de pensar nos privilégios que detém. Livre de pensar, não questiona a engrenagem que mata e mata e mata. Finge, assim, que nem percebe que essas mortes garantem seus pequenos (ou grandes) luxos. Iludido (nem sempre), ignora que também está morrendo em nome desses mesmos privilégios. Uma morte diferente, talvez. Ainda assim, não menos morte.

——

Tateia na cômoda, buscando suas bolinhas. Vasculha a geladeira atrás de doces. Se acaba na noite. Vira todas no carnaval. Ah, o carnaval. Vamos sair de laranjal, fazer marchinha contra o racismo, a homofobia, o Capetão. Somos muito críticos, cultos, amamos cinema, andamos de bicicleta. Já falei que não comemos carne?

——

Por temer e evitar a morte, a sua e a dos seus, o cidadão de bem, que sabe o que tem valor, cria seus filhos na escola cara. Na escola cara tem um programa incrível voltado pro desenvolvimento socioemocional da criança rica, essencial pra formar um cidadão de bem, bem ajustado. Afinal, “ninguém quer ser ponta de lança”. Nossas inovações tem essa característica de inovar pra não sair do lugar. É um primor.

A educação inovadora do século 21 precisa pensar, portanto, muito além dos conteúdos tradicionais – esses que Damares, com seus diplomas falsos, diz que os pais “podem aplicar mais” em casa.

A educação do século 21 precisa educar o ser integral, capaz de reconhecer, nomear e fazer bom uso de suas emoções. Não serve só juntar letras e fazer as operações básicas. Isso é claro.

É claro, se você é cidadão de bem.

E, assim, nomeando suas raivas, tristezas e medos, a criança que recebeu sua educação integral se tornará também um cidadão de bem.

Com sorte, porém, não será assim. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que esse jogo não joga mais. Talvez lhe cresça a coragem de não se ajustar à norma de privilégios aprofundados em misérias de toda sorte a serem exploradas. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que é o capitalismo que mata e mata e mata pra que uns possam ir pra escola cara enquanto outros sequer tem o de comer e o de morar. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que o capitalismo não é resposta adequada, sem se esconder em desculpas. Se nem isso e nem aquilo serviu, talvez lhe cresça a coragem de ousar outro caminho ainda não percorrido. Talvez. Talvez até seja ouvida. Talvez nem a matem. (#MariellePresente, diz a hashtag adesivada no peito).

Deixo o link com matéria (2016) sobre o livro Despejados (Evicted), de Matthew Desmond. Trata-se de um estudo etnográfico sobre inquilinos de baixa renda em uma cidade desindustrializada de médio porte. O estudo, mais uma vez, e ainda, parte dos sempre mesmos questionamentos óbvios.

“E se o discurso dominante sobre a pobreza estiver errado? E se o problema não for a suposta carência moral das pessoas pobres — que elas são preguiçosas, impulsivas e não tem valores familiares — ou ainda sua falta de habilidade e inteligência necessárias para serem bem adaptados à gloriosa economia do século 21? E se o problema da pobreza é que ela gera lucro?”

Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as mulheres. Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as pessoas não brancas. Como sempre no capitalismo, o privilégio se concentra nas mãos do macho branco da espécie. É a norma. É normal.

Dizia o maluco, “deus me livre de ser normal”.

https://www.theguardian.com/books/2016/apr/07/evicted-poverty-and-profit-in-the-american-city-matthew-desmond-review

Consciência e atuação política é imprescindível. Reavaliar o modelo econômico é urgente.

Não é “só” o mau cheiro. Além de prejudicar a sobrevivência da fauna e da flora, e mesmo o sustento de comunidades de pescadores, o lixo lançado diariamente na rede hídrica também prejudica a saúde das pessoas.

E não é pouco lixo.

Para você ter uma dimensão da coisa, em menos de duas horas de mutirão 17 voluntários recolheram 6 mil litros de lixo de um pequeno trecho à margem do Canal de Marapendi. A variedade do que foi encontrado você vê nas fotos.

Esse mutirão não é o único. São muitas iniciativas que acontecem de modo articulado ou independente. Ainda assim, o lixo parece não ter fim. Todo dia ele volta, arrastado pelas correntes das águas ou simplesmente abandonado ali.

Já pensou como isso prejudica a sua vida? Você percebe o prejuízo para a economia, o turismo, ou mesmo o valor do seu imóvel? O que você pode fazer para evitar a degradação desse ecossistema e o empobrecimento da sua cidade tão aninhada nessa natureza?

Conheça seu lixo. Consuma menos. Reaproveite e reutilize. Questione “conveniências”. Mas, exija e lute por políticas que multipliquem o seu esforço, para que as iniciativas individuais não se percam.