Impressões. Intuição talvez. Coisas que a gente sente, mas não sabe dar nome.

O que acha que foi escolhido por Deus tem recebido a imprensa (selecionada) em casa. Oferece sempre a parte nada nobre do que pareceria uma garagem. O espaço está sempre com aparência descuidada, como não desse muita importância para o que pensam dele, para as pessoas que está recebendo, para o eleitor que o vê de casa, para os que não votaram nele.

Ao mesmo tempo, parece despretensioso, humilde, “gente como a gente”, abrindo a porta de casa sem muito ou nenhum protocolo além da censura e da demonstração de poder tirano: é do jeito que ele impõe.

Entre a coleção de objetos aparentemente abandonados nesse espaço, com também aparente despreocupação, podemos ver objetos de significado específico que reforçam sua narrativa: militar, intimista, mundana, violenta, familiar, religiosa, nacionalista. Os olhos do eleitor (seria correto denominar adorador?) podem escolher o objeto que preferirem para adornar seu mito.

O figurino do próprio ou da prole, ajuda a compor a mesma cena. Comunicando com a sutileza de um piano que se espatifa no chão as mesma ideias que os objetos aparentemente esquecidos na cena.

Não menos relevante é a expressão corporal, sempre prepotente e rígida. Rígidos são os músculos da face, a moldura torta e murcha dos lábios e a frieza do olhar que não parece ver nada, nem ninguém. Repara naqueles olhos vazios, ou, antes, cheios de desprezo. Eu nao sei explicar. Mas aqueles olhos me transmitem ausência de vida. Morte mesmo.

E como estou falando de impressões e intuições, vou falar de como sinto essa recepção selecionada da imprensa e do que fantasio estar fora do quadro, aquilo que a câmera não vê por inteiro, só em fragmentos, tal qual os objetos que parecem esquecidos ali. Parecem, apenas. É tudo bem pensado. Tudo.

Sobre a imprensa, se a presença é selecionada, se a locação “improvisada” já é tão determinada, me transborda pela pele a sensação de que ele oferece o espaço da forma mais hostil possível, como quem diz: estou concedendo essa graça, aceitem o que vem, do modo que vem. Essa é a minha casa e as regras são definidas por mim. Planejamento para oferecer conforto à imprensa? Jamais. Vai ser no improviso premeditado, e eles que se espremam no desconforto, eles que se humilhem pela acolhida não ofertada.

Sobre o que esta fora do quadro, vejo o trânsito de homens mal encarados, inclusive os próprios filhos. Vejo pessoas usando roupas com padrão escuro ou camuflado, inclusive os próprios filhos. É como se o tempo inteiro estivesse insinuada, sem sutileza, a presença da força bruta e truculenta, a serviço do que afirma ter sido escolhido por Deus.

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Atualização para processos seletivos

Procurando recolocação no mercado?
Siga as dicas quentíssimas para a entrevista. Não falha!

Qualificação: Não precisa. Admita que não tem qualquer competência e jogue nas mãos de Deus. Seja firme e declare: “tenho certeza de que não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos”.

Honestidade e coerência: Isso é coisa do passado. Palavra não vale nada. Diga o que for preciso, ainda que não tenha como provar. Se pegar mal, diga o contrário, imediatamente depois. Repita essa ação até que o interlocutor fique satisfeito.

Titulação: Que bobagem. Você tem Whatsapp?

Princípios éticos: Não caia nessa. “Ninguém é bonzinho”. Admita que é inescrupuloso. Diga que pra vc negros devem morrer após atingirem 7 arrobas, quando já não servem mais nem pra procriar. Diga que mulheres são inferiores e que jamais estupraria uma que não merecesse. Diga que indígenas são o atraso da nação. Diga que seus concorrentes devem ser “varridos”, dizimados.

Direitos trabalhistas. Diga que isso é coisa de encostado. Diga que abre mão de suas horas de descanso, hora extra, CLT, 13o ou férias. Diga que gosta do desafio. Que vc quer ser um colaborador da empresa, sem participação nos lucros. Você quer mesmo só entrar com o lombo.

Dica final. Infalivel. Todo empreendedor de si mesmo deve ter um ídolo. Seja criativo. Ustra tá em alta. Mas você pode mais. Veja algumas sugestoes: Pol Pot, Pinochet, Mussolini, Hitler, Stalin, Erdogan, Bashar Al-Assad, Franco, Salazar. Escolha o seu.

Eles gritam “Mito”, sofrem porque o peteeeeeee

“Toupeiras são pequenos mamíferos adaptados a um estilo de vida subterrâneo. Eles têm olhos e ouvidos muito pequenos e imperceptíveis”.

Não enxergam e não ouvem nada.

Prisioneiros voluntários do auto-engano, desbotaram as cores da bandeira gritando indignação contra a corrupção. Agora batem no peito com orgulho: somos todos caixa 2

(Publicado originalmente em 31.10.2018 no meu perfil do facebook) .

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Bom dia, Rio de Janeiro.

Imagem: Fernanda Garrafiel/G1 (8.10.18)

Paes sai eleito no Jardim Botânico. Tarcísio, em Laranjeiras. Witzel vence em todas as demais áreas.

O quanto de milícia e igreja impondo voto de cabresto elegeu esse homem é algo que me pergunto. Mas não foi só isso, embora isso seja relevante.

Já eleito, com a arrogância de sempre, inflacionada pela estrondosa vitoria nas urnas, Witzel confirma o que prometeu em campanha, sofisticando um pouco mais: o abate de quem estiver portando fuzil está liberado, snipers serão disponibilizados. O excludente de ilicitude estará aí pra amparar qualquer ação da polícia.

Pra quem acha que é “só” bandido armado que vai morrer, lembre do homem que levava um guarda chuva e foi alvejado e assassinado. Entenda que não precisa nem mais da desculpa do guarda chuva. Mas você já entende isso.

Pra quem acha que a morte de inocentes é o preço a ser pago pra “limpar” a cidade, não se iluda. A arma é pretexto. O que se caça é gente de pele preta. Mas você já sabe disso.

Se você acha que tá tudo bem, pq a cor da sua pele te salva, pq você mora no asfalto, na outra parte da cidade, lembra que o Rio de Janeiro é um estado cercado de favelas por todos os lados. O asfalto é exceção. A janela do quarto do seu filho olha pra favela. E a favela olha pra ela. O seu caminho pro trabalho, pra escola, pra casa de praia e até pro aeroporto, tudo isso olha pra favela. E a favela olha de volta. Se a polícia tem sniper liberado pra matar dentro da favela, não pense que a criminalidade que se esconde na favela vai pensar duas vezes antes de atirar. E você, no seu caminho pro trabalho, o seu filho na volta da escola, a sua filha no sono de princesa, sua família na fuga pra Portugal, pode ser também alvo. Só que agora, não mais acidental. Mas você vai rezar pra tudo dar certo.

Se a polícia já morria muito em confrontos contra o crime, agora que o abate está liberado, como você pensa que os bandidos armados vão responder? Com mais ou com menos violência? Se na sua família tem policial, ele também vai morrer, provavelmente mais e de forma ainda mais violenta. E não precisa ser só no serviço de combate ao crime armado. Se já era sentença de morte um policial ser surpreendido em um assalto durante um passeio com a família, agora talvez você nem precise apresentar a insígnia nos seus documentos pra virar vítima. Basta que o bandido apenas “ache” que você é PM, assim como bastará a polícia apenas “achar” que você parece bandido, porque você tem a cor da pele “errada”, porque você levava um fuzil. Mas era só um trabalhador. Mas era só um guarda-chuva. Mas era só uma vida. E 2018 ensinou pra gente que uma vida não importa. Que o brasileiro caipirinha e carnaval quer mesmo é morte. Afinal o presidente foi eleito dizendo que o erro da ditadura (que nunca existiu, ele diz) foi torturar sem matar tanto quanto podia, tanto quanto deveria. “Uns 30 mil”. Lembra desse número, por que ele vai ficar curto. Mas é isso o que você quer. É?

(Publicado originalmente em 31.10.2018 na minha página pessoal no facebook).

Um grupo de memes

Da penumbra barulhenta salta o meu nome. Sorrisos de reconhecimento e, em pouco tempo, estava passando meu telefone adiante. Vou te adicionar ao grupo da escola, disse a mais sorridente.

Com o passar das semanas já tinha até me esquecido do evento. Eis que em uma certa manhã preguiçosa, o aparelho vibra na cômoda ao lado da cama. Estava oficialmente no grupo de mensagens do velho segundo grau.

Fiquei pouco tempo. Nesse tempo, o teor das comunicações foram concentrados em tentar marcar um encontro de fim de tarde e o desfile de memes preconceituosos, carregados de ódio e desprezo ao diferente, mas tudo bem humorado, afinal, é só humor, é só brincadeira.

Os alvos? Mulher. Sim. As mensagens eram machistas e misoginas, mas era só piada…

Tudo o que fugia à heteronormatividade também era alvo – de piada, é claro. E, assim, cheios de graça, compartilhavam piadas homofobicas, lesbofobicas, transfobicas.

Se eu falei algo? Não. Covarde, me calei. Me reduzi a acompanhar, chocada, esperando uma voz dissonante. Me reduzi a apagar cada meme ou comentário ofensivo, como se assim, o fato pudesse ser apagado também.

Eram alvo de desqualificação todo aquele que sofre pela opressão e pelas as injusticas, todo aquele que luta contra a desigualdade. Sim. As mensagens eram de desprezo ao pobre, ao negro, ao nordestino, ao trabalhador comum, ao sem teto, ao sem terra, ao sem trabalho.

Passados alguns dias, eu queria sair do grupo. Não sai. Achei que seria deselegante.

Lembrei do encontro no bar. Lá constatei que a velha classe de crianças vestindo moleton do Mickey, mochila da Cantão e tênis Reebok virou um grupo de velhos conservadores; o tiozão da família, a barbie doll desesperada. Percebi que naquela rede social mais intimista, que é o Whatsapp, aqueles seres brincantes do passado viraram pessoas fanfarronas, detentoras de algum ou muito poder, mas, decadentes na ausência de criatividade, sem desejo de olhar com generosodade para o mundo, sem coragem para reconhecer os proprios privilégios.

Estes privilégios eram ostendados com certa descrição por meio da exibição calculada de símbolos de status. Eles também se expressam, e aí com mais vigor ainda, na forma de ideias reacionárias, com investimento em costumes conservadores.

Os memes de mal gosto pareciam de fonte inesgotável. Entre um meme e outro, alguns poucos comentários com texto autoral ensaiavam alguma crítica social e política. Porém, tal qual o vôo de uma galinha, aterrissavam na própria merda, sem ir muito longe.

Como disse, apagava cada mensagem ou meme degradante recebido. Mas estaria mentindo se dissesse que não me afetava. Lembro, entristecida, que a maioria procriou. Transferência de DNA, de bens, de privilégios e de estupidez. Funciona assim?

Certa manhã, logo cedo, um rapaz de quase 50 anos que já foi um menino tão bonitinho, compartilhou uma notícia com o grupo. A noticia era sobre a retirada de uma rede de fake news ligada ao MBL do ar. O homem estava desolado. Para ele, forças ocultas estavam operando em prol da ditadura bolivariana lulopetista, sob a chancela de Zuckerberg. Isso mesmo que você leu.

Em tom de revolta, questionou: “Zuckerberg deleta todos os perfis do MBL, dos seus líderes e afins em uma tacada só… Censura pura e simples… Como fazer um debate se uma das partes é silenciada??”

Gente, atentem, rede de fake news sai do ar e a homem se sente silenciado.

Não está sozinho. Outros no grupo reverberam.

Não para aí. Como aprendeu a escrever, embora não saiba ler, complementa, “Falam em radicais, fake news e etc. como justificativa, mas nenhum perfil de esquerda foi deletado… voltamos aos tempos da censura”.

Um coleguinha solidário lança seu olhar crítico, desconfiado com o descaramento dos ‘esquerdopatas’, veio apoiar o amigo. Siga as pedras, diz ele. “Um dos caras mais influentes dentro da seleção de conteúdo do FB hoje é militante doente do PT. Não esconde nem no perfil pessoal”.

Tirando a paranoia e a evidente rusga pessoal do comentário, que ficou esclarecida logo em seguida, pensei comigo, caso fosse verdade, que esse tal cara influente devia ser mesmo um descarado. Imagina, a pessoa não esconde aquilo que acredita. Como pode ser transparente?

O moço sentencia: “Foda é a dimensão que o FB tomou…”.

Percebi que já era hora de deixar o grupo. Me sentia em um bueiro. Repare que antes da popularização de redes como Whatsapp, todo esse esgoto estava a céu aberto, em debates públicos nas redes sociais quase democráticas. Era bom, eu acho.

Digo isso, porque ainda que dificilmente estejamos dispostos a mudar de opinião ou mesmo escutar, quando os debates eram abertos, era possível estar exposto à uma argumentação divergente. Sim, existem as bolhas. Mas em redes como o Facebook, elas podem se tocar, quem sabe trocar. Dos pontos de contato e interseções, há possibilidade de conflito e, talvez, de ampliar horizontes. Sou uma otimista.

Agora, os valões de excrementos ideologicos foram privatizados e o rio de sujeira corre subterrâneo, longe dos olhos, dentro de grupos e mentes fechados. É a bolha da bolha flutuando no vácuo.

Cada um fala consigo mesmo. Divergência e confronto já no cabe. Só o eco de si e das próprias certezas. E assim envelhecemos. Fomos tão jovens, pudemos ser criativos. Acabamos assim, plugados à máquinas que simulam um espelho falante e validam nossos delírios.

“Espelho, espelho meu, existe alguém mais certo do que eu?”