Brasil: 422 dias sem dignidade

Em pouco mais de um ano atuando como presidente desse país o legado de Bolsonaro é mais negativo do que as análises econômicas podem fazer parecer.


Uso do aparelho judiciário para coibir investigação de corrupção, envolvimento com milícia e desconcertante proximidade com o assassinato da parlamentar carioca Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Está acontecendo.

Alinhamento com lideranças autoritárias de países com histórico político, econômico e social de barbárie. Está acontecendo.

Decisões que comprometem a credibilidade do país perante a comunidade internacional séria e a confiança de invstidores. Está acontecendo.

Ataques diretos à pessoas específicas que ameaçam o castelo de esterco e mentiras erguido para proteger uma família de “parasitas de corpo mole” que tomou o país de assalto (pelas urnas!, como resultado de um golpe midiático institucional alimentado pela Casa Grande que agora se diz escandalizada). Está acontecendo.

Apoio à organizações paramilitares, violência de Estado e manifestações de enfraquecimento e deterioração inconstitucional. Está acontecendo.

Incentivo à formação de um Estado miliciano neopentecostal. Está acontecendo.

Produção despudorada de mentiras, deliberadamente descuidando de qualquer verniz de credibilidade que sequer pudesse mascará-las. Está acontecendo.

Manifestações públicas, de alcance nacional e internacional, de desprezo pelo país, sua cultura, sua biodiversidade e seu povo. Está acontecendo.

Desmonte da educação em todas as esferas, e condenação de indivíduos e da nação ao obscurantismo. Está acontecendo.

Destruição da saúde pública e condenação da população ao abandono e à morte evitável. Está acontecendo.

Incompetência administrativa. Está acontecendo.

Incompetência em propor e buscar soluções econômicas para a crise atual, com o agravamento de estar contribuindo para o endurecimento da crise. Está acontecendo. (E você ainda está feliz e confiante “porque o Paulo Guedes…?”).

Condenação de milhões de brasileiros e brasileiras ao desemprego, humilhação e fome. Está acontecendo. (E você ainda está satisfeito”porque ao menos tirou o PT…?”).

Ataques constantes ao funcionalismo público de carreita que faz o Estado chegar com zelo, eficiência e humanidade aos cidadãos e cidadãs desse país por meio de trabalho sério e comprometido. Está acontecendo.

Ameaças e perseguições políticas. Está acontecendo.

Ameaça à soberania econômica, intelectual, territorial, cultural e alimentar do Brasil. Está acontecendo.

Apoio ao genocídio dos povos da floresta remanescentes. Está acontecendo.

Destruição do patrimônio ambiental e genético de ecossistemas ricos e únicos como a Amazônia e o Cerrado. Está acontecendo.

Convocação covarde e inconstitucional do gado bolsonarista e da manada controlada pela ameaça direta do aparato miliciano neopentecostal para a derrubada do Congresso. Está acontecendo.

Silêncio. Está acontecendo.

Mais uma morte no trânsito. Até quando?

O desequilíbrio das forças é absurdo. Embora nossa presença mobilizada e coletiva nas ruas tenha força, como mulher, pedestre e ciclista me questiono sobre a honestidade da mensagem quando experimento a inviabilidade planejada do meu corpo desarmado na cidade.

Desarmado sim. Ir a pé, ir de bicicleta, é ir sem armadura e sem arma. Os governantes dessa cidade investem em políticas públicas que fazem dela uma cidade que mata. Os governantes dessa cidade, desse estado, desse país, nos matam em todo lugar. Em toda esquina. De muitas formas. Por nenhum motivo. Mesmo porque, nenhum motivo justifica qualquer morte.

Existem muitos tipos de ciclistas na cidade. Um deles é o atleta. É linda a conquista de Áreas de Proteção ao Ciclista. Que venham mais. Mas, e quando não se está nela, como faz? E quem não é atleta, e quem apenas quer se deslocar pela cidade de forma saudável, eficiente, divertida, humana e barata, como faz?

Domingo, indo de carro para a zona sul, vi dois ciclistas de passeio, uma moça e um rapaz. Eu saia do túnel. Eles precisavam entrar, pois o acesso pela calcada compartilhada foi interditado em face aos desmoronamentos e mortes causados por uma obra superfaturada. Saí do túnel no sentido zona sul. Eles entraram no sentido oposto, em direção à zona oeste.

Loucura? Imprudência? Resistência?

Cada um especule o que quiser.

A mobilidade, a liberdade de ir e vir, é um direito. O Estado tem o dever de ofertar opções diversas, sustentáveis e seguras de deslocamento.

No mesmo domingo, voltando para casa já de noite, vi mais um ciclista no mesmo túnel. Um homem sozinho.

Não era atleta. Não era cicloturista. Mais uma vez, era apenas uma pessoa indo do ponto A ao ponto B.

O homem seguia pelo elevado do Joá, pequeno, vulnerável e ágil pela borda da pista. Motoristas passavam apressados, aparentemente irritados com aquela presença que os obrigava desacelerar.

Arriscado? É. Os carros passam muito acelerados. Acelerados demais para ser compatível com a vida. Qualquer vida. Até mesmo a vida de quem viaja dentro da armadura de aço.

Muitas devem ser as mortes por atropelamento de ciclistas e pedestres que não fazem manchete. Outras, por motivos não ignorados, fazem. Essa morte fez, chegou aos jornais.

Não é a primeira vez que, apesar das áreas de proteção ao ciclista, os atletas morrem atropelados, seja indo para o treino, voltando, ou mesmo durante o treino.

Mas morrem também ciclistas urbanos. A velocidade que mata não escolhe categoria, gênero, raça ou classe social.

De que adianta popular a cidade com estações de bike compartilhada, patinetes elétricos e o que vier de novidade, sem garantir o básico da proteção à vida: um transito desacelerado, ordenado, bem sinalizado e a certeza da fiscalização e da punição para infratores?

Não pense que as empresas privadas que oferecem os serviços de mobilidade alternativa ao carro vão espontaneamente se associar à causa da mobilidade. A mobilidade sequer é pauta para essas empresas e seus gestores. Para eles, a mobilidade é um negócio.

Se o Estado, sem cuidado, permitiu a exploração do nicho ‘mobilidade urbana ativa’ por particulares, não será a empresa que irá fazer qualquer movimento para reduzir acidentes ou brigar pela melhoria, qualidade e segurança das vias.

Alguma contrapartida deveria ser oferecida por quem lucra, muitas vezes na forma de monopólio do mercado. A maioria dessas empresas funcionam por aplicativos. Dado, uma grande fonte de riqueza, é algo de que dispõem. O mínimo, seria dar transparência a esses dados.

Tipos de viagens, distancias, durações, frequências, ocorrências… tudo isso poderia ajudar a mapear prioridades de investimento na qualidade e a segurança do transito. E isso é apenas uma pequena coisa possível. Outras ideias? Por exemplo, porquê não exigir uma percentagem dos lucros obtidos pela exploração do mercado de mobilidade ativa para custear implantação e conservação de mobiliário urbano para ciclistas e pedestres, sinalização, melhoria das calçadas, campanhas educativas, entre outros?

A mais essa família em luto, me solidarizo.

https://oglobo.globo.com/rio/empresario-morre-atropelado-por-onibus-quando-treinava-de-bicicleta-na-barra-23533396