O enxofre

Gritou “Moro herói”. Nunca questionou a troca de favores: vc rasga a constituição e eu deixo vc ser meu ministro capacho da justiça, taokey.

Vestiu camisa da seleção. Andou junto de quem gritou “viva ustra”. Chamou de mito.

Abusou da hashtag b17. Acreditou em mamadeira de piroca. Apoiou damares e sua divisão do mundo em duas cores.

Mutilou qualquer vestigio de inteligência sob o rolo compressor do “pelo fim da corrupssaaaaaum”. Pratica a indignação seletiva.

Flertou e ainda flerta com a ditadura. Paga de conservador. Esquece que a gente sabe o que fez no verão passado.

Ach(ou)a que arte é só aquilo que te faz rir, distrai e agrada a tua mente preguiçosa. O resto é pouca vergonha e tem que proibir.

Defende(u) a moral e os bons costumes, mas delir(a)ou com a demonstração pública de misoginia do dono do puteiro.

É(foi) super moralista. Fica(ou) horrorizado com a “violência” de um beijo gay. Mas se o mito defende assassinato, tortura, racismo, genocídio, machismo é pq ele não tem papas na língua, “diz o que precisa ser dito e ninguém tem coragem de dizer”.

Achou lindo o capitão que nunca foi falar barbaridades, mas confrontado com sua hipocrisia fica nervoso.

Queria proteger as crianças “daquela pouca vergonha esquerdista”, mas ensinou o filho a fazer arminha com a mão.

Esteve dormindo em paz desde outubro de 2018. Só acordou ontem pra dizer que o Brasil é uma vergonha, pra pedir o fim do STF, pra chamar passeata pela prisão em 2a instancia.

Tá chokado que TODOS os estupradores vão sair da cadeia direto pra porta dele.

Ama animais e natureza. Mas defendeu que as queimadas na amazonia são coisa de indio e ong. Ficou em silencio quando o secretário da pesca disse, do lado do presidente, que peixe é inteligente. Achou normal o governo não fazer NADA pra controlar a crise do derramamento de óleo. Disse que foi coisa da venezuela pra derrubar o mitinho, logo agora que o brasil…

Ainda hoje pede pra torcer pelo governo. Insiste que não tem “provas do que dizem por aí”. Ignora as obstrucoes de justiça e as amigagens com as milicias.

Agora diz que não votou e nem gosta do clã que ajudou a eleger e defende todo dia.

Arrependimento? Vergonha? Não parece o caso.

O secretario da pesca tem razão. Tomando esse tipo como referencia, peixe é mesmo inteligente. Se bem que não é questão de inteligencia, ne? É carater mesmo.

Porque eu já tô de saco cheio

Alô, marciano. Aqui quem fala é da Terra. Não, 👉😄👈 fake news . Aqui quem fala é do Brasil, mais especificamente do Rio de Janeiro. Já fui o cara que dava porrada 3×4 sem despentear, mas só quando alguém bota a mãe no meio, e olhe lá.

No mais, não faço força nem pra virar de lado na esteira. Talvez se o flamengo jogar. Talvez se o boi tolo desfilar. Talvez se der praia. Talvez.

O quê? Venderam a Petrobrás pra Petrobrás? Ah… deixa.

O quê? Tão matando lideranças da floresta? Matando criança por lá? Ah… que tragedia, mas quanto foi o jogo mesmo?

O quê? Mais de 1 bilhão de pessoas esmagada na miséria e 50% do país sobrevive com 413 reais? O ministro da economia disse que o pobre não sabe investir os recursos que tem? Ah… mas num é? Pobre é foda, no lugar de comer quer parcelar o… o quê mesmo que não tem credito? Ah…

O quê? Censura? Nah… exagero, mimimi dos esquerda. Que eu comprei meu Romero Brito e ninguém me impediu. É que eles confundem essas putaria com arte. Arte é Monalisa. Arte é o que tem no Louvre. Eu, hein, arte brasileira. Arte é cinema gospel do Edir Macedo financiado pela Rouanet, aí sim. Arte é Picasso. Picasso. Ih, só pensa besteira. Aff. To falando, esquerda só pensa putaria. Mas já ouviu aquela do … ele tinha um…👉 🤣 👈

O quê? Mais de 600 dias sem resposta pelo assassinato de Marielle? Envolveram o nome do presidente no crime? Ele usou o governo aparelhado pra impedir a investigação? As provas foram parar nas mãos dele e dos filhos? O autor dos disparos é vizinho dele? É da milicia? A milicia, que o filho dele empregava? Ih, gente, vê maldade em tudo. E o filho do Lula? E o pedalinho? E o peteeeee?

O quê? Liberou agrotóxicos proibidos no mundo? Que bobagem, vocês ficam torcendo contra, aí dá cancer mesmo.

O quê? A Amazonia ardeu em chamas? O presidente minimizou? O quê? Ele enfraqueceu fiscalização, autorizou ações criminosas? O destamento cresceu? Ah… mas essa época do ano sempre pega fogo por lá, e tem mais, coisa de ONG isso, e, e, e … e é isso mesmo, os índios tb queimam floresta, tá?

O quê? O presidente mentiu no twitter mais uma vez? Disse que 3 empresas sairam da argentina pra vir pro Rio? Pro Brasil? Era mentira? Ah, ele tava brincando. Vocês, tb, o cara não pode brincar. E ele já apagou. O twitter.

O quê? O Brasil de Bolsonaro é alinhado com teocracias monarquistas assassinas? Melhor amigo do Mohammed bin Salman? Cara, todo mundo, especialmente as mulheres, dariam tudo por uma noite com o principe. O Bozo deu. Vc tb daria, serio… para de mimimi.

O quê? Teve um derramamento de óleo na costa brasileira e o governo federal não fez nada e ainda apareceu na live do presidente pra dizer que peixe é esperto? Ah, mas o óleo é da venezuela. Navio grego é o escambau. O óleo é comunista. Para de reclamar que isso é o comunismo querendo nos derrubar. E pensa positivo. Faz um theta healing que passa. Arminha tb ajuda.

O quê? O condominio milicias da barra, avenida lucio costa 3200, fica ali, na praia? Pertinho dos pontos de onibus que vem da oeste, norte e sul? Logo ali do BRT e metro? Tem estacao de bike compartilhada na porta? Tem patinete?! Facinho de chegar? Na frente-frente da praia? Dá até pra ver o flamengo na led do quiosque em frente? Ah, espera o boi tolo desfilar por lá que a gente vai fazer vigilia na porta pra protestar.

O quê? E se a vigilia de Curitiba se plantasse no milicias da barra? Será?

Tragedinha anunciada

Opa. Boa noite. A imagem é pessima, estilo olha o ovni, acredita em mim. Mas é a que posso fazer de noite, pelo celular, da varanda do prédio.

No ponto vermelho tem um farol piscando e um alarme disparado. É um carro, talvez um caminhão, pelo barulho absurdo que fez. O motorista perdeu o controle EM UMA RETA sem obstáculos e, na curva, foi parar dentro do canteiro remanescente da obra estupida de redesenho de avenida.

Parabens, Crivella. Parabéns, ativistas do Rio de Janeiro. Parabens, acadêmicos estudiosos. O prefeito está de parabéns pela (des)graça da obra. Os acadêmicos e ativistas estão de parabens pela inoperancia e omissão. Foram ativados. Preferiram calar. Me orientaram a ir SOZINHA na prefeitura. Fui, deu em nada, claro.

Lembro que na epoca poder publico e universidade, junto com uns ativistas bem intencionados faziam uma intervenção urbana mal comunicada e que não gerou nenhum resultado no bairro da tijuca. Parabens mesmo.

Também lembro que, em um evento sobre segurança do pedestre e mobilidade ativa — own — conversei com uma mocinha da prefeitura, responsável por esse tipo de questão. Me olhou como se fosse louca. Disse que eu não devia estar entendendo a obra. Já dei os parabéns?

Só pra recordar o que já sabemos e que já descrevi em post anterior, justamente sobre essa obra. Na longa, perfeita e livre reta, motoristas conduzindo carros, que já vem aceleradissimos da praia, ganham velocidades impressionantes.

Pedestres NÃO tem como atravessar sem risco de morte. NÃO tem redutor de velocidade. NÃO tem sinal. NÃO tem faixa de travessia. Nem vou comentar sobre acessibilidade para crianças, idosos, cadeirantes, carro de bebê, porque NÃO TEM. Facilidade e segurança para ciclistas? NÃO tem.

Tem uma calcadinha mequetrefe. TODA a iluminação é para os carros. Mas os postes ocupam lindamente a calcadinha mequetrefe. Ah, foda-se o pedestre.

Como pedestre me sinto ameaçada caminhando por essa calçada. É nítida sensação de que, no retão acelerado, um carro pode facilmente subir a calçada e levar o pedestre inconveniente pra outra vida — pra ver se para de atrapalhar nessa; já vai tarde.

Hoje não aconteceu. A essa hora da madrugada não há pedestres. A verdade é que depois dessa linda obra, vejo menos pedestres e ciclistas. Coisa que no bairro da Barra já é meio raro. Caminhar e pedalar é ato heroico, coisa de pobre ou de uber bike ou de maluco beleza ou de ciclochato, ou de velho ou de tudo isso junto. Eu mesma já não uso esse acesso. Embora seja o mais óbvio, é o mais mortal.

A policia chegou. Tô tão de saco cheio. Agora chegou a ambulância também.

Problema evitavel. Crime urbano.
Carro em alta velocidade na reta sobre a calçada e invade canteiro de mangue.

46 outubros atrás

Ainda dá tempo? Sempre gosto de ver o desfile de crianças deslizando pela telinha do celular. Fui procurar fotos minhas. Pra participar. Achei as várias crianças que eu fui, sempre sendo a mesma. Escolhi essa.

Aqui é a criança suburbana, que aprendeu a andar correndo na rua larga próxima da linha do trem, do lado oposto à fábrica de açúcar.

Esta bebê é carioca. Primeira da família a nascer em terras brasileiras. Contam que não queria sair da Terra do Antes. Chegou por cesariana. Era de muito olhar e quase nunca falar, “tão quietinha que a gente até esquecia”.

Foi neta de imigrantes camponeses que cruzaram um oceano inteiro em busca de paz, trabalho e futuro. É filha de imigrantes — crianças tentando se achar no continente novo entre a tradição familiar campesina e a vida na cidade, jovens adultos, mais jovens que adultos, começando uma família.

O ano desta foto é 1973. Registro de meu pai. Nesta época, plena ditadura militar, ele já estava relativamente bem orientado na direção daquilo que seria a vida dele e que era, como ainda é hoje, fortemente identificada com o trabalho.

Minha mãe, para os meus atuais 46 anos, era uma menina de apenas 21. Recém chegada de terras vizinhas, no Rio era imigrante duas vezes. Sem nenhuma referência que não fosse meu pai e esse bebê, ela se equilibrava entre aprender a viver longe da família, dos amigos e de tudo o que conhecia, aprender uma nova língua, aprender a ser mulher adulta, aprender a ser dona de casa, aprender a ser esposa e aprender a ser mãe. Além da família, deixava no país onde cresceu a estudante de artes plásticas.

Contam que esta bebê não gostava de leite e não comia nada. Mas tinha loucura por passear de carro. O carro era esse Chevette goiaba.

Sobre o tampo do porta malas, a pequena criatura veste um colar de chupeta e fralda de pano. O sorriso sem dentes enfeita a magrelice de toda vida.

Não tenho absolutamente nenhuma memória dessa época. Só aquela que me contaram e também as que eu ouvi por aí.

Dois anos e seis meses depois ganharia um irmão gordinho e cheio de dobras.

Paralelos e opostos

Raoni Metuktire, líder da etnia caiapó, nasceu em 1930 no estado brasileiro de Mato Grosso.

Depois de quase um século andando por esse mundo, o embaixador pela proteção da floresta amazônica e dos povos indígenas foi citado como inimigo do país em discurso pós-verdade na assembléia geral da ONU, em 2019. Raoni, liderança reconhecida e respeitada internacionalmente, foi atacado por aquele que nunca será.

Olha esses caminhos.

Quando, aos 24 anos, Raoni estabelecia seu primeiro contato com a cultura branca, Jair nem tinha nascido. Esse chegou um ano depois, em 1955. Para sua mãe acontecia um milagre. Por isso, recebeu o nome de Messias. Acreditou. Nascia o capiroto brasileiro de uma família com ascendência italiana e alemã. Melhor berço pra um anti-cristo não tem.

O ano agora é 1964. O Brasil sofria um sinistro golpe militar. Após 10 anos de seu primeiro contato com ‘o homem branco’, Raoni se encontrava com o rei Leopoldo III da Bélgica por ocasião de sua expedição por reservas indígenas protegidas do Mato Grosso. Jair, por sua vez, não tinha sequer completado 10 anos. Cresceu dentro da noite que mal escondia seus crimes com mentiras e medo. Fez escola.

Adolescente, se orgulha de, supostamente, ter denunciado o militar dissidente e guerrilheiro político contra a ditadura militar, Carlos Lamarca. Era o inicio dos anos 70.

Já tendo sido tema de documentário e sentado com ministro brasileiro para negociar demarcação de reserva indígena, Raoni alcança notoriedade internacional em 1987, após encontro com o cantor britânico Sting.

Jair? Avaliado como excessivamente ambicioso e interessado em enriquecer, Jair (falso)Messias (capiroto) Bolsonaro se insubordina contra a autoridade e a disciplina do Exército. Abre o verbo – que no seu caso é dizer que abre o intestino pela primeira vez pra imprensa. Sua reclamação é por melhor remuneração para sua classe. Ameaça plantar e explodir uma bomba para obter o que quer. Sem maiores punições, aos 33 anos — é isso mesmo, minha gente?! — surfando na marola de lama que nunca mais largou, se elege vereador pelo Rio. Tem inicio uma brilhante carreira politica de 27 anos: como um fungo de pele, permanece no poder sem jamais ter realizado absolutamente nada. Assim, inicia a formação de um clã. Cabra bom, pensa no longo prazo. Principais adjetivos que ostenta com orgulho: desclassificado, odioso, populista, ultra-direitista, defensor da tortura.

Habituado a compartilhar fezes como se fossem ideias, em 2018, fez uma cirurgia no intestino, abrindo suas entranhas para o mundo. Uns dizem que foi uma facada. Outros dizem que foi fakeada. Outros acreditam que foi um câncer. Não importa. Importa que é o intestino. O unico órgão funcional (mas nem tanto) do atual presidente do país.

Em 2019, enquanto Jair se afoga em incidentes diplomáticos, como aquele em que ofende Brigitte Macron, esposa do líder francês, Emmanuel Macron, Raoni foi recebido por esse líder ao fim do G7.

Insatisfeito em humilhar o Brasil apenas no mundo real (que é a ficção ruim que ele construiu com mentiras aprendidas na adolescência, enquanto admirava a ditadura militar), queimou nosso filme também no universo Marvel.

Queria dizer fim. Mas não acabou. Ainda.

Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa

Estranha. Questiona. Não naturaliza a barbárie.

Você não precisa ter certeza. Não precisa ter a resposta pra tudo. Não precisa ter razão. Não precisa ganhar a discussão. E se estiver desconfortável, tudo bem. Você não estará só. Pelo contrário. Provavelmente estará muito bem acompanhado/a.

Um amigo, há umas três décadas, escreveu algo que se lia assim: estou perdido, não quero encontrar o caminho, mas outros que também estejam perdidos para, juntos, criar um caminho.

Pelamorrrrr de Dadá. Não tô aqui falando pra você seguir o obscurantismo canalha do astrólogo escatológico do terraplanismo, antivacina ou coisa que lhe valha. Presta atenção!

Apenas, abre os olhos e vê. Sintoniza os ouvidos e escuta. E respira. Respira pra valer. Desafoga os teus pulmões desse excesso de ar congestionado que te sufoca.

Inspira. Expira. E, depois, expira mais.

Percebe o vazio.

Só então inspira de novo.

Muito provavelmente quase ninguém sabe bem o que tá fazendo e nem porquê. Eu desconfio muito de quem diz que sabe.

Vai. Vai na sua. Vai no seu tempo. Acha a sua turma. Ela existe. Ou, antes, acha as suas turmas. Você pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Ou uma de cada vez. E nenhuma delas precisa estar a serviço do enriquecimento financeiro de outro, em uma troca que nunca é justa, até que sobre nada de você.

Disseram que o mundo tinha que funcionar assim. E o mundo se convenceu. Mas, não. O seu trabalho é seu. O seu trabalho, a sua criatividade, a sua inteligência, o seu tempo, a sua vida, a sua saúde, tudo isso é seu e não precisa ser cativo da exploração de um senhor; de um sistema de moer gente e acumular riqueza que te descarta como se nada: “ele não era nada não”. Tem uma realidade aí fora que te disseram ser a única possivel. Não é.

Isso não é verdade.

Assim como também não é verdade que alguém é nada não. Não! Ninguém não é nada não. Nem mesmo quem diz uma barbaridade dessa.

Ama. Conversa. Escuta.

Escuta.

Escuta.

Abraça. Planta uma semente. Rega. Vê brotar.

Escuta. Vê. Ama.

Tenta. Erra. Acerta. Erra de novo. Tudo bem.

Ama.

Faz algo por alguém. Só por fazer. Só pra ver um sorriso. Se o sorriso não vier do outro, tá tudo certo, tá bom também. Tenho certeza que você estará sorrido.

Ama.

Lê um livro. Escreve. Qualquer coisa. Do jeito que der.

Desenha. Pra você. Pra ninguém. Pra quem for. Só pra desenhar.

Borda. Faz música. Ouve música. Dança.

Dorme. Dormir é bom. Dormir é ótimo. Dorme bem.

Não faz nada.

Nada. Vê o céu, o sol, o mar, o verde, a vida.

Ama. Se ame. Pra você. Não pro aplicativo. Não pra competir. Só pra sentir. Só pra ser.

Ama.

Dica amiga: vai lá e escuta Dê um rolê, Os Novos Baianos 😊

Mais uma morte no trânsito. Até quando?

O desequilíbrio das forças é absurdo. Embora nossa presença mobilizada e coletiva nas ruas tenha força, como mulher, pedestre e ciclista me questiono sobre a honestidade da mensagem quando experimento a inviabilidade planejada do meu corpo desarmado na cidade.

Desarmado sim. Ir a pé, ir de bicicleta, é ir sem armadura e sem arma. Os governantes dessa cidade investem em políticas públicas que fazem dela uma cidade que mata. Os governantes dessa cidade, desse estado, desse país, nos matam em todo lugar. Em toda esquina. De muitas formas. Por nenhum motivo. Mesmo porque, nenhum motivo justifica qualquer morte.

Existem muitos tipos de ciclistas na cidade. Um deles é o atleta. É linda a conquista de Áreas de Proteção ao Ciclista. Que venham mais. Mas, e quando não se está nela, como faz? E quem não é atleta, e quem apenas quer se deslocar pela cidade de forma saudável, eficiente, divertida, humana e barata, como faz?

Domingo, indo de carro para a zona sul, vi dois ciclistas de passeio, uma moça e um rapaz. Eu saia do túnel. Eles precisavam entrar, pois o acesso pela calcada compartilhada foi interditado em face aos desmoronamentos e mortes causados por uma obra superfaturada. Saí do túnel no sentido zona sul. Eles entraram no sentido oposto, em direção à zona oeste.

Loucura? Imprudência? Resistência?

Cada um especule o que quiser.

A mobilidade, a liberdade de ir e vir, é um direito. O Estado tem o dever de ofertar opções diversas, sustentáveis e seguras de deslocamento.

No mesmo domingo, voltando para casa já de noite, vi mais um ciclista no mesmo túnel. Um homem sozinho.

Não era atleta. Não era cicloturista. Mais uma vez, era apenas uma pessoa indo do ponto A ao ponto B.

O homem seguia pelo elevado do Joá, pequeno, vulnerável e ágil pela borda da pista. Motoristas passavam apressados, aparentemente irritados com aquela presença que os obrigava desacelerar.

Arriscado? É. Os carros passam muito acelerados. Acelerados demais para ser compatível com a vida. Qualquer vida. Até mesmo a vida de quem viaja dentro da armadura de aço.

Muitas devem ser as mortes por atropelamento de ciclistas e pedestres que não fazem manchete. Outras, por motivos não ignorados, fazem. Essa morte fez, chegou aos jornais.

Não é a primeira vez que, apesar das áreas de proteção ao ciclista, os atletas morrem atropelados, seja indo para o treino, voltando, ou mesmo durante o treino.

Mas morrem também ciclistas urbanos. A velocidade que mata não escolhe categoria, genero, raça ou classe social.

De que adianta popular a cidade com estações de bike compartilhada, patinetes elétricos e o que vier de novidade, sem garantir o básico da proteção à vida: um transito desacelerado, ordenado, bem sinalizado e a certeza da fiscalização e da punição para infratores?

Não pense que as empresas privadas que oferecem os serviços de mobilidade alternativa ao carro vão espontaneamente se associar à causa da mobilidade. A mobilidade sequer é pauta para essas empresas e seus gestores. Para eles, a mobilidade é um negócio.

Se o Estado, sem cuidado, permitiu a exploração do nicho ‘mobilidade urbana ativa’ por particulares, não será a empresa que irá fazer qualquer movimento para reduzir acidentes ou brigar pela melhoria, qualidade e segurança das vias.

Alguma contrapartida deceria ser oferecida por quem lucra, muitas vezes na forma de monopólio do mercado. A maioria dessas empresas funcionam por aplicativos. Dado, uma grande fonte de riqueza, é algo de que dispõem. O mínimo, seria dar transparencia a esses dados.

Tipos de viagens, distancias, durações, frequências, ocorrências… tudo isso poderia ajudar a mapear prioridades de investimento na qualidade e a segurança do transito. E isso é apenas uma pequena coisa possível. Outras ideias? Por exemplo, porquê não exigir uma percentagem dos lucros obtidos pela exploração do mercado de mobilidade ativa para custear implantação e conservação de mobiliário urbano para ciclistas e pedestres, sinalização, melhoria das calçadas, campanhas educativas, entre outros?

A mais essa família em luto, me solidarizo.

https://oglobo.globo.com/rio/empresario-morre-atropelado-por-onibus-quando-treinava-de-bicicleta-na-barra-23533396