Notas sobre a pandemia (1)

Em três dias completo um mês de isolamento social. Nesse tempo, apenas saí de casa por duas vezes. A primeira, logo no início da crise no Brasil. Meu destino, o mercado de verduras e frutas. A segunda vez foi hoje. Precisei ir ao banco. Entre a primeira e a segunda saída, pelo menos no bairro onde moro, a diferença no fluxo de pessoas nas ruas chamou a atenção.

Há quase um mês atrás, as ruas estavam praticamente desertas de carros, e as calçadas vazias de gente. No mercado, evidentemente, havia pessoas. Mas todos pareciam cuidadosos em manter distância saudável de outro vivente. Hoje foi bem diferente. O fluxo de carros estava alto. Atravessar as ruas foi trabalhoso. Envolveu alguma espera para que os muitos carros pudessem desfilar acelerados, ignorantes de tudo que não fosse o asfalto livre. Senti gastura. O trânsito de pedestres também chamou a atenção. Era muita gente circulando, despreocupada em guardar alguma distância de qualquer outra pessoa.

O bairro onde moro é marcado pela ausência de vida nas ruas. É mesmo só um ir e vir de gente. Ninguém para, até porque não tem onde parar. Não tem uma esquina, não tem um bar, não tem uma praça viva. Tem a praia. Tem os condomínios. Tem os shoppings. Em dias comuns, as pessoas que a gente vê circulando pelas ruas são, em sua maioria, trabalhadores e trabalhadoras destes shoppings e condomínios. Eram essas as pessoas circulando a pé, 4 semanas depois do início do isolamento social. Não eram essas, entretanto, as mesmas que circulavam de carro. Pensei pelo aspecto otimista: quanta gente nessa minha cidade é serviço essencial! Quase bati palmas, mas estava ocupada tentando manter alguma distância dos outros corpos. Senti ansiedade e irritação.

No banco, avistei um atendente, três seguranças e uma cliente. Enquanto esperava minha vez, o que foi rápido, percebi os seguranças conversando entre si. Pareciam contrariados. A mulher dizia que a linha de ônibus que usou para chegar ao trabalho estava amontoada de gente: “um falando dentro da cara do outro”! Um dos homens reclamou do que avaliou como insensibilidade dos que insistem em estar nas ruas sem necessidade: “parece que não estão lendo as notícias, não estão levando a sério, um desrespeito com a gente”. O terceiro disse que não tinha jeito, era confiar no papai. Eu não entendi. Acho que ninguém entendeu, porque ele precisou explicar: “papai! O pai do céu. Só a providência”.

No caminho pra casa parei em uma farmácia. Chorei ao me afastar do caixa. Estranhei as marcações no chão, as fitas criando distância entre as gôndolas e os balcões. O caixa estendendo o braço, com a sacola pendurada na pontinha dos dedos, a embalagem de álcool ao lado da registradora.

Apesar de as lojas estarem fechadas, à exceção das farmácias, bancos e lojas de chocolate, tinha bastante gente circulando dentro do shopping. Também havia uma padaria aberta, com pessoas sentadas às mesas, sem qualquer distância entre si. Não estava proibido consumir dentro dos locais?

Chegando em casa, teve início o ritual de desinfecção, ainda na porta do apartamento. Fui direto pro banho. Achei que um homem tinha espirrado perto demais de mim. Meus cabelos estavam soltos. Lavei os cabelos que estão longos, longuíssimos.

Sentada no sofá, senti um tipo de alívio. Olhei pela varanda. O mar ainda em ressaca. Acostumei a olhar o mar pela janela. Só passou um mês e parece que a vida sempre foi assim.

Paralelos e opostos

Raoni Metuktire, líder da etnia caiapó, nasceu em 1930 no estado brasileiro de Mato Grosso.

Depois de quase um século andando por esse mundo, o embaixador pela proteção da floresta amazônica e dos povos indígenas foi citado como inimigo do país em discurso pós-verdade na assembléia geral da ONU, em 2019. Raoni, liderança reconhecida e respeitada internacionalmente, foi atacado por aquele que nunca será.

Olha esses caminhos.

Quando, aos 24 anos, Raoni estabelecia seu primeiro contato com a cultura branca, Jair nem tinha nascido. Esse chegou um ano depois, em 1955. Para sua mãe acontecia um milagre. Por isso, recebeu o nome de Messias. Acreditou. Nascia o capiroto brasileiro de uma família com ascendência italiana e alemã. Melhor berço pra um anti-cristo não tem.

O ano agora é 1964. O Brasil sofria um sinistro golpe militar. Após 10 anos de seu primeiro contato com ‘o homem branco’, Raoni se encontrava com o rei Leopoldo III da Bélgica (o genocida) por ocasião de sua expedição por reservas indígenas protegidas do Mato Grosso. Jair, por sua vez, não tinha sequer completado 10 anos. Cresceu dentro da noite que mal escondia seus crimes com mentiras e medo. Fez escola.

Adolescente, se orgulha de, supostamente, ter denunciado o militar dissidente e guerrilheiro político contra a ditadura militar, Carlos Lamarca. Era o inicio dos anos 70.

Já tendo sido tema de documentário e sentado com ministro brasileiro para negociar demarcação de reserva indígena, Raoni alcança notoriedade internacional em 1987, após encontro com o cantor britânico Sting.

Jair? Avaliado como excessivamente ambicioso e interessado em enriquecer, Jair (falso)Messias (capiroto) Bolsonaro se insubordina contra a autoridade e a disciplina do Exército. Abre o verbo – que no seu caso é dizer que abre o intestino pela primeira vez pra imprensa. Sua reclamação é por melhor remuneração para sua classe. Ameaça plantar e explodir uma bomba para obter o que quer. Sem maiores punições, aos 33 anos — é isso mesmo, minha gente?! — surfando na marola de lama que nunca mais largou, se elege vereador pelo Rio. Tem inicio uma brilhante carreira politica de 27 anos: como um fungo de pele, permanece no poder sem jamais ter realizado absolutamente nada. Assim, inicia a formação de um clã. Cabra bom, pensa no longo prazo. Principais adjetivos que ostenta com orgulho: desclassificado, odioso, populista, ultra-direitista, defensor da tortura, misógino, machista, racista, inescrupuloso.

Habituado a compartilhar fezes como se fossem ideias, em 2018, fez uma cirurgia no intestino, abrindo suas entranhas para o mundo. Uns dizem que foi uma facada. Outros dizem que foi fakeada. Outros acreditam que foi um câncer. Não importa. Importa que é o intestino. O unico órgão funcional (mas nem tanto) do atual presidente do país.

Em 2019, enquanto Jair se afoga em incidentes diplomáticos, como aquele em que ofende Brigitte Macron, esposa do líder francês, Emmanuel Macron (outra pérola, que perto de Bolsonaro parece a melhor coisa do mundo), Raoni foi recebido por esse líder ao fim do G7.

Insatisfeito em humilhar o Brasil apenas no mundo real (que é a ficção ruim que ele construiu com mentiras aprendidas na adolescência, enquanto admirava a ditadura militar), queimou nosso filme também no universo Marvel.

Queria dizer fim. Mas não acabou. Ainda.

Uma horta de bairro ou Nas cidades tem gente

As tristezas se acumulam com o lixo e a lama que a chuva fez correr como se quisesse despertar nas gentes, por meio do espanto, uma reflexão mais séria, uma ação mais comprometida, uma consciência mais viva. Ocupada da tragédia, mais uma, acabei deixando de lado um breve encontro que gostaria de compartilhar, e que considero especialmente necessário diante de todo o caos e abandono e descaso que estamos continuamente e crescentemente recebendo de cada uma das três esferas de poder.

Domingo fui papear com uma amiga lá na horta do bairro. Entre um assunto e outro, fomos regando as mudinhas de hortaliças, temperos e árvores frutíferas que os vizinhos e amigos começaram a semear. Antes mesmo das sementes da terra produzirem frutos e frutas e raízes e folhas, outras sementes já começaram a brotar. Sementes de ideias vindas de diferentes lugares. Ideias que já seguem livre o seu caminho de fazer voar outras ideias que vão chegando longe.

Mas não foi só semente da terra, não foi só ideia, foram vínculos com o lugar e com as pessoas. Duradouros ou efêmeros, cada vínculo traz a possibilidade do olhar, do sorriso e de histórias que podem ensinar.

Foto: Cris Portella

Vejo a amiga voltar com a água. Junto dela, um rapaz ajudava a carregar um galão cheio. Jorge Luiz vem sorrindo. Enquanto fazíamos a rega, ele passou a mão sobre uma das folhas, dizendo do contentamento que sente quando vê o verde brotar. “É como se elas estivessem agradecendo pelo carinho da gente.”

Contou que começou a gostar de planta quando ajudava a avó a cuidar do quintal de casa. Lembranças boas de infância. Suas plantas preferidas são a planta da felicidade e a bougainvillea. “Uma parece renda, a outra é cheia de cor”.

Falou que agora está morando na rua e que há muito tempo não passava ali. Voltou recentemente e se encheu de alegria porque ali “onde o mal se enraizava, agora está nascendo o bem”.

Sobre o mal, nos contou dos “playboy” que ocupavam aquele “lugar abandonado antes da horta”. Fez questão de explicar o que queria dizer com playboy, “porque a pessoa não tem culpa de nascer rica, mas ela é responsável pelo que escolhe fazer disso. O playboy é aquele que acha que é melhor, que passa arrogante, que acredita que pode mais e pode tudo, que pensa que você não é nada, que nem olha no olho, que bota fogo em morador de rua”.

Passamos parte da manhã ali, conversando e compartilhando nosso cuidado com o espaço, que é público, e nosso gosto comum pelo verde.

Esse encontro me fez pensar sobre a potência de ações singelas capazes de dar vida a espaços que são tão nossos, mas que tão fácil a gente esquece.

No seu bairro também tem uma praça? Como é a convivência nesse espaço? Como pode melhorar?

O espelho assombra

Minha experiência de vó e de vô me ensinou a certeza de que o amor é maior e mais intenso que a própria vida. Vôs e vós me emocionam.

Perdi um irmão quando ele era pequeno. Por empatia, por memória, me solidarizo ao pesar de Lula, como me solidarizaria a qualquer outro. Imagino que a dor desse momento não tem nem nome.

Ficaria no silêncio em mim. Mas foram tantas colocações insensíveis, inumanas, desastrosas, mesquinhas e feias, que precisei fazer o silêncio falar. Não sei até onde chega. Mas meu silêncio grita assim:

Gostaria de dizer que apesar de você, amanhã será outro dia. Mas agora, só penso que por sua causa os dias tem sido penosos.

Você justificou seu voto injustificável porque era “contra a corrupção”. Porque era contra “bandido de estimação”, porque “bandido bom é bandido morto”. Veja você, porém. O filho do seu presidente já leva corrupção inscrita no DNA. O filho do seu presidente deita na cama de miliciano, faz festa, chama de amigo.

Você justificou seu voto injustificável porque estava cansado da “velha política”. Note, entretanto. O seu presidente trabalha em um pacote de maldades, o velho toma lá, dá cá, pra fazer passar a tal Reforma da Previdência.

Você justificou seu voto injustificável pq queria um governo “técnico”. Que ironia. Você tem um astrólogo como mentor do seu governo.

Você justificou seu voto injustificável alegando desprezo pelos “intelectuais”, sabe lá o que quer dizer com isso. No seu governo, olhe bem, ministros recalcados mentem sobre suas formações acadêmicas. Fosse pouco, os mesmos ministros odeiam aquilo pelo que advogam, não tem qualquer relação com a pasta que lideram, ou, quando tem, se submetem aos achismos de Whatsapp do eleitorado chucro como o próprio presidente que elegeu – um velho mesquinho, franzino, fraco, caprichoso e tirano.

Nada do que você usou pra justificar seu voto injustificável se sustenta. Sua única motivação foi o ódio. O ódio ainda é sua motivação. E você nem sabe o que odeia. Ou sabe e é covarde demais pra dizer. Eu te digo. Você odeia aquilo que vê refletido no espelho. Você não suporta. Então você odeia um outro. Agora você chama esse outro de Lula, de esquerdista, de petista, de intelectual, de analfabeto. Você nem se decide. A única certeza é que você se odeia tanto, e não suporta, que até se autoriza a odiar uma criança de 7 anos, morta.

Você é horrível.

Ser normal

É uma pessoa muito boa. No Natal faz caridade. Leva cesta básica pra uns pobres.

É uma pessoa muito engajada. Distribui cobertores pra morador de rua. Dá até prato de comida. Às vezes, nem é resto.

É uma pessoa muito consciente. Não come carne vermelha, evita plástico, faz até mutirão de limpeza do lixo.

É uma pessoa muito ajustada. Joga o jogo, não faz marola. Mas o jogo mata. Até o cidadão de bem sabe disso. Só que quem morre é o outro. “É ele ou eu. Que seja ele”.

De boa vontade em boa vontade, quando dá, o cidadão de bem se exime de pensar nos privilégios que detém. Livre de pensar, não questiona a engrenagem que mata e mata e mata. Finge, assim, que nem percebe que essas mortes garantem seus pequenos (ou grandes) luxos. Iludido (nem sempre), ignora que também está morrendo em nome desses mesmos privilégios. Uma morte diferente, talvez. Ainda assim, não menos morte.

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Tateia na cômoda, buscando suas bolinhas. Vasculha a geladeira atrás de doces. Se acaba na noite. Vira todas no carnaval. Ah, o carnaval. Vamos sair de laranjal, fazer marchinha contra o racismo, a homofobia, o Capetão. Somos muito críticos, cultos, amamos cinema, andamos de bicicleta. Já falei que não comemos carne?

——

Por temer e evitar a morte, a sua e a dos seus, o cidadão de bem, que sabe o que tem valor, cria seus filhos na escola cara. Na escola cara tem um programa incrível voltado pro desenvolvimento socioemocional da criança rica, essencial pra formar um cidadão de bem, bem ajustado. Afinal, “ninguém quer ser ponta de lança”. Nossas inovações tem essa característica de inovar pra não sair do lugar. É um primor.

A educação inovadora do século 21 precisa pensar, portanto, muito além dos conteúdos tradicionais – esses que Damares, com seus diplomas falsos, diz que os pais “podem aplicar mais” em casa.

A educação do século 21 precisa educar o ser integral, capaz de reconhecer, nomear e fazer bom uso de suas emoções. Não serve só juntar letras e fazer as operações básicas. Isso é claro.

É claro, se você é cidadão de bem.

E, assim, nomeando suas raivas, tristezas e medos, a criança que recebeu sua educação integral se tornará também um cidadão de bem.

Com sorte, porém, não será assim. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que esse jogo não joga mais. Talvez lhe cresça a coragem de não se ajustar à norma de privilégios aprofundados em misérias de toda sorte a serem exploradas. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que é o capitalismo que mata e mata e mata pra que uns possam ir pra escola cara enquanto outros sequer tem o de comer e o de morar. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que o capitalismo não é resposta adequada, sem se esconder em desculpas. Se nem isso e nem aquilo serviu, talvez lhe cresça a coragem de ousar outro caminho ainda não percorrido. Talvez. Talvez até seja ouvida. Talvez nem a matem. (#MariellePresente, diz a hashtag adesivada no peito).

Deixo o link com matéria (2016) sobre o livro Despejados (Evicted), de Matthew Desmond. Trata-se de um estudo etnográfico sobre inquilinos de baixa renda em uma cidade desindustrializada de médio porte. O estudo, mais uma vez, e ainda, parte dos sempre mesmos questionamentos óbvios.

“E se o discurso dominante sobre a pobreza estiver errado? E se o problema não for a suposta carência moral das pessoas pobres — que elas são preguiçosas, impulsivas e não tem valores familiares — ou ainda sua falta de habilidade e inteligência necessárias para serem bem adaptados à gloriosa economia do século 21? E se o problema da pobreza é que ela gera lucro?”

Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as mulheres. Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as pessoas não brancas. Como sempre no capitalismo, o privilégio se concentra nas mãos do macho branco da espécie. É a norma. É normal.

Dizia o maluco, “deus me livre de ser normal”.

https://www.theguardian.com/books/2016/apr/07/evicted-poverty-and-profit-in-the-american-city-matthew-desmond-review

Atualização para processos seletivos

Procurando recolocação no mercado?
Siga as dicas quentíssimas para a entrevista. Não falha!

Qualificação: não precisa. Admita que não tem qualquer competência e jogue nas mãos de Deus. Seja firme e declare: “tenho certeza de que não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos” (Bolsonaro, Jair apud Deus. Bíblia).

Honestidade e coerência: isso é coisa do passado. Palavra não vale nada. Diga o que for preciso, ainda que não tenha como provar. Se pegar mal, diga o contrário imediatamente depois. Repita essa ação até que o interlocutor fique satisfeito.

Titulação: que bobagem. Você tem WhatsApp?

Princípios éticos: não caia nessa. “Ninguém é bonzinho”. Admita que é inescrupuloso. Diga que pra você negros devem morrer após atingirem 7 arrobas, quando já “não servem mais nem pra procriar”. Diga que mulheres são inferiores e que jamais estupraria uma que não merecesse. Diga que indígenas são o atraso da nação. Diga que seus concorrentes devem ser “varridos”, “destruídos”. (Bolsonaro, Jair)

Direitos trabalhistas: diga que isso é coisa de encostado. Diga que abre mão de suas horas de descanso, hora extra, CLT, 13o ou férias. Diga que gosta do desafio. Que vc quer ser um ‘colaborador’ da empresa, sem participação nos lucros, sem perspectivas, sem nada, afinal você quer trabalhar, você não quer direitos.

Dica final: infalível! Todo empreendedor de si mesmo deve ter um ídolo. Seja criativo. Ustra está em alta. Mas você pode mais. Veja algumas sugestões: Pol Pot, Pinochet, Mussolini, Hitler, Stalin, Erdogan, Duterte, Bashar Al-Assad, Franco, Salazar. Escolha o seu.

Cativeiro e ferocidade são as únicas possibilidades?

Esse texto é um comentário à coluna de Joaquim Ferreira dos Santos para O Globo em 18/06/2018.

O título é ruim. “Perigo! Bicicleta!” aponta para uma série de lugares comuns que povoam a fantasia das pessoas. O título infeliz alimenta o antagonismo entre indivíduos ao invés de tratar do problema real e indicar quem pode e deve agir para resolvê-lo.

O problema real: quase um século de investimento em infraestrutura segundo a lógica da velocidade e centrada na conveniência do motorizado.

O principal responsável e agente de mudança é o poder público local. Este não é apenas omisso, mas age com irresponsabilidade e descompromisso com a vida da população local.

A linha fina denuncia a miopia do autor. Nela lemos que “A bicicleta no Rio é o bicho solto. Para ela não existe limite de velocidade, lugar apropriado de transitar ou essas coisinhas miúdas de obedecer mão e contramão”.

Sua visão comprometida faz com que atribua como exclusividade da bicicleta (vamos ler ciclista) aquilo que é, de fato, observado em carros ou motos ou ônibus (vamos ler motoristas).

Faça o exercício. Substitua a palavra bicicleta, na linha fina, por carro, ou moto, ou ônibus, ou van, use a imaginação. Veja se funciona. Funcionou, né?

O colunista acerta, no entanto, quando diz que “A coitada não tem culpa. Caiu numa cidade que já tinha escolhido o carro como objeto de simpatia, principalmente por ser um dos pagadores de suas contas. A bicicleta foi chegando de mansinho num lugar onde não cabia mais nada”. Foi chegando. De mansinho. Invisível e invisibilizada, chegou, como quem chega a uma festa para a qual não foi convidada. Tão logo é percebida, os leões de chácara são acionados para se livrarem dela, como se não fosse nada.

Imagine que a cidade é um bioma complexo. No nosso caso, esse bioma sofreu, e sofre, uma interferência que gerou desequilíbrio entre cada um dos seus elementos essenciais. Como o organismo é vivo, houve adaptação, mas o preço dessa adaptação foi alto. A referência deixou de ser humana. A consequência? Ruas vazias de gente e repletas de motos, carros, ônibus, caminhões; poucas árvores, muito asfalto e concreto; poucas passagens e acessos; longas distâncias e muitas interdições. As interdições aparecem como muros e grades, superfícies espelhadas e repelentes, cancelas e barricadas. Elas também se manifestam como balas perdidas na troca de gentilezas entre traficantes, assaltantes, policiais e milicianos. O risco luminoso de projéteis atravessando o ar desenha limites e impossibilidades para a livre manifestação da vida no espaço público, e essa interdição não pode ser ignorada. Ao  mesmo tempo, se você for mulher, as interdições são tantas que as paredes de concreto, as grades pontudas e afiadas e até as armas de fogo, em alguns lugares tão naturalizadas, não parecem ser mesmo é nada.

O passeio e o estar virou passagem e trânsito de carros. Este, cada vez mais veloz, mais agressivo e mais violento, em pouco tempo virou congestionamento. A infraestrutura para motorizados ocupa quase todo o espaço público e, ainda assim, esse privilégio não lhe é suficiente. Por isso, reivindica mais e mais. Reivindica e toma. O preço é alto, já sabemos. Paga-se com a vida. A vida sensível e delicada, rara e ordinária, matéria fina que se esgarça e morre. Morre no trânsito, vítima das altas velocidades, da pouca qualidade de vida e do descaso dos nossos governantes.

Nesse contexto, andar a pé é um ato de resistência. Andar de bicicleta é um ato de resistência. No contexto da violência no trânsito motorizado, da invisibilidade e da opressão à tudo o que não for rápido e veloz, a estratégia para seguir resistindo é a guerrilha.

Eu gosto disso? Não. Nem um pouco. Mas, se o trânsito não é pacificado, se as infraestruturas não passam de maquiagem ou engodo para alimentar estatísticas superdimensionadas, se o poder público ignora, descuida, abandona, o que fazer? Se submeter a lógica dominante do carro? Ficar em casa deprimido sonhando como é linda a Amsterdã ou Afuá ou Paquetá? Sair kamikaze entre carros que trafegam acima de 70km, ou mais? Se expor à “fina educativa” dos motoristas, que seguem impunes e potentes, certos de sua supremacia e invencibilidade? Afinal, você sabe, a culpa sempre é do pedestre ou do ciclista que não estava no sofá, certo?

Ir para a calçada é a resposta possível de muitos para seguir pedalando, uma vez que estão abandonados à própria sorte.

“Ah, mas a pessoa deve pedalar com prudência, quando na calçada”. Óbvio! Ninguém discorda disso. Diria mais. Deve pedalar com prudência na calçada e fora dela. Pedalar, andar, dirigir, beber, comer, … tudo, né?

A cidade em equilíbrio é espaço de convívio. Não se engane, porém, pensando que isso significa a supressão de todo tipo de conflito. Não. Vai ter conflito sim. Faz parte. Mas eles vão se resolver com negociação e não com imposição de vitória pelo uso da violência do mais forte sobre o mais fraco.

O texto do autor erra dolorosamente ao colocar toda a responsabilidade sobre o indivíduo. É responsabilidade do poder público garantir políticas e investimentos que harmonizem a cidade e a devolvam para as pessoas.

Isso significa acabar com os carros? Não! Significa que todos agora andarão apenas de bicicleta ou a pé? Não!

Significa, apenas, que um modal motorizado será mais um modal entre tantos outros que também tem direito de ocupar as vias. Significa que escolhendo o motorizado, motoristas deverão estar cientes de que estão sujeitos a limitações sim, inclusive de ocupação das vias e de velocidade. Significa que andar de transporte coletivo, que a gente chama de público sem ser, a pé ou de bicicleta, patins, patinete, ou o que for, vai ser uma opção e não um ato de resistência com o qual pode-se pagar com a vida. Significa que as pessoas estarão no centro das decisões políticas e realizações urbanísticas. Significa que as cidades serão humanas.

Mas, mesmo em seus equívocos, a coluna tem seu valor. Vejo muito ganho em ler com atenção a forma caricata com que o autor pinta “o ciclista”. Parece misturar tudo em uma coisa só, como quando a gente viaja pra um país muito diferente do nosso, e tudo parece exatamente igual pela simples ausência de repertório e referência.

E é aqui, que eu volto o olhar para dentro, não enquanto ciclista, mas enquanto cicloativista. O que nós, em nosso ativismo, estamos fazendo ou deixando de fazer para não sermos vistos em nossa diversidade e humanidade? Nós, que também moramos na cidade. Nós, que também somos pedestres, que também usamos o transporte público, que também usamos carro ou motocicleta. Antes de perguntar se o outro nos percebe em nossa diversidade, devolveria a pergunta para dentro: será que nós mesmos somos realmente capazes de nos perceber na nossa diversidade, ou apenas reconhecemos a imagem do espelho e pintamos caricaturas do que não reflete o que esperamos ver?

Para quem dirigimos o nosso discurso, e qual a qualidade do que é dito? Será que estamos nos comunicando? Se sim, essa comunicação fura a nossa bolha, ou reverbera apenas dentro dela? Lembrando que “a” bolha, são muitas e variadas, todas elas são afetadas?

Eu não descarto que tem muito da cultura do motorizado impregnada na percepção e na capacidade de interpretação do autor do texto sobre o papel da bicicleta como transporte na cidade. Mas tem muito de nossa in(habilidade) de comunicação aí. Você não acha?

Entre outras coisas, o que temos feito para alimentar um olhar caricato e reducionista sobre nós, ciclistas ativistas? Isso é responsabilidade nossa. Olhar para os eventos de junho dedicados à bicicleta e que tiveram sede no Rio de Janeiro pode dar uma pista. Olhar para a forma com que o ativismo se percebe e organiza também pode dar uma boa pista. Pensar como essas duas coisas juntas fizeram o nosso junho da bicicleta acontecer como aconteceu também pode ser um bom exercício. Sei que serei antipática por trazer isso, mas acho necessário. Teve alegria, sucesso e superação de adversidade? Teve. Mas, também tem muito material para autorreflexão. Sempre é possível melhorar.

Voltando ao autor, a confusão dele em imputar ao ciclista a responsabilidade por um caos e uma truculência que são típicos da cultura que privilegia o motorizado, não é culpa dele. Arrisco dizer que ele é apenas mais uma vítima. A cultura do motorizado deixa muitas vítimas, de tipos diferentes. Algumas vítimas ficarão esmagadas em poças de sangue no asfalto quente. Quantos já perdemos assim? Outras vítimas serão estas, que como o colunista, repetem felizes que desejam a prisão, acreditando piamente que, de fato, estão defendendo a liberdade.

Enfim. Se você soltar um animal silvestre que passou gerações em cativeiro de volta na natureza, ele vai morrer. A alternativa é se tornar feral. Cativeiro ou ferocidade são os únicos caminhos verdadeiramente possíveis quando o assunto é reintegrar a bicicleta como transporte no contexto da cidade?

Nem uma coisa (cativeiro), nem outra (ferocidade).

Nos soltaram entre hienas famintas, sem nenhum tipo de amparo. Para não sermos predados, predamos. O “novo” modal, que não tem nada de novo, pode até estar sendo incorporado à rotina urbana, mas, diante da omissão e descompromisso do poder público com políticas de incentivo à mobilidade ativa, a lógica da violência nos coloca reproduzindo o mesmo comportamento equivocado da supremacia da velocidade sobre a vida. É salve-se quem puder. A responsabilidade por um novo comportamento, mais humano, pode até ser minha e sua, mas antes, é do poder público, é dos gestores e políticos dessa cidade que tem o dever de criar as condições necessárias para o convívio em detrimento do combate.

Um detalhe cor de laranja

O texto deveria acabar aqui, mas quero compartilhar uma reflexão sobre as estações de bicicletas compartilhadas.

É inegável a contribuição das bicicletas compartilhadas para o redesenho dos hábitos de deslocamento na cidade. A conveniência, a praticidade e a possibilidade de combinar o modal com outros meios de transporte desse tipo de serviço ajudaram a mudar a paisagem urbana, tornando mais comum a presença de ciclistas aos olhos de todos.

No entanto, não basta conceder a licença de operação para a empresa privada explorar comercialmente essa fatia do mercado de transportes.

Sem o diálogo e a comunicação com a sociedade, sem o investimento em campanhas de educação, sem a coragem para desacelerar o trânsito e ceder parte da via de rolamento para a ocupação de bicicletas, o que se vê é a presença de totens com propaganda de banco subtraindo espaço de calçada dos pedestres, muitas vezes já exíguos e precários. Tal escolha, que segue privilegiando o transporte motorizado individual, o que faz é servir a um banco privado ao mesmo tempo em que abandona ciclistas e pedestres à disputa pelo espaço escasseado.

O poder público, sem a coragem de desacelerar o trânsito, quando autoriza ao banco salpicar as calçadas da cidade com estações de compartilhamento de bicicleta, praticamente faz um convite ao usuário do serviço para pedalar sobre as calçadas, por simples falta de alternativa. Qual é o ciclista inexperiente que vai escolher transitar ao lado de máquinas pesadas em alta velocidade?

Sobre a escolha dos locais de instalação, a empresa que mantém o serviço alega que a prefeitura determina o local. A prefeitura… bem, fale com a prefeitura, se tiver sucesso, me avise. No jogo de empurra, motoristas, ciclistas e pedestres, mais uma vez, estão lançados no ambiente hostil do salve-se quem puder, vence o mais forte.

Antes de atacar as vítimas, moradores de uma cidade abandonada à própria sorte pelo poder público, e explorada pela parceria deste com a iniciativa privada, vale ampliar o olhar e reavaliar aonde se encontra a raiz do problema e da solução que quer brotar. O que não dá é para podar a árvore errada.

Entusiamo pela Vida

Claro que teve a clássica brincadeira de esconder dela algum objeto. O “sumiço” e recuperação do celular “perdido” aconteceu quando o bolo ia chegando à mesa. Depois do parabéns e de assoprar as velinhas, um amigo fez uma declaração. Foi tão espontânea e certeira que lembro exatamente das palavras dele.  — Eu desejo para cada um de nós esse mesmo entusiasmo que você mostra por comemorar o seu aniversário, mesmo depois de todos esses anos.

Essas palavras ficaram comigo desde então. Não só as palavras, mas a expressão que ele tinha no olhar. Isso me fez prestar atenção em cada uma das pessoas que estava na mesa naquele dia. Isso foi no dia 22 de outubro de 2017.

Depois disso, um monte de coisas aconteceu. Além dessa comemoração vieram outras para celebrar esse mesmo dia. O dia do nascimento. O dia em que para ela se fez a vida. Veio também o diagnóstico .

Esse entusiasmo não era só pelo aniversário. Estava presente diante do simples, nas coisas do cotidiano, na singeleza do ordinário; como a perspectiva de retomada do grupo de RPG em janeiro de 2018.

Amiga, acho que posso te chamar assim, nesse curto período de dois meses foram internações longas e breves altas para passar as festas em casa. Cada um de nós te desejando o melhor e força. No dia 31 de dezembro, nova entrada no hospital. Hoje a notícia da evolução do quadro. Tenho certeza que muitos são os pensamentos voltados pra você, quem sabe até envolvidos na esperança de um milagre. Somos assim.

O milagre é você. O milagre sou eu. O milagre é cada um de nós. E isso merece mesmo ser celebrado. Sempre. Sem pretextos. E é por isso que me aproprio das palavras bem colocadas do amigo para agradecer por essa lição, e renovar os votos para que  cada um de nós possa encontrar em si esse mesmo entusiasmo seu pelo simples e puro de estar e ser no instante presente.

Nota: ao concluir esta minha pequena homenagem a você recebi a notícia da sua partida. Vá em paz. Fica a saudade, o estarrecimento e a gratidão pela lição deixada.

 

 

 

A humilhação do pedestre

Os shoppings centers na Barra da Tijuca são uma presença vulgar, e parte importante da paisagem monótona e hostil de muros e edificações sem personalidade. No bairro, os shoppings são referência de localização e demarcação de território, ganhando status de acidente geográfico, tal qual um rio, um lago ou um morro.

Contra toda a dinâmica proposta para o bairro (Lúcio Costa tá como agora?), eu costumo circular a pé ou de bicicleta por ruas e lugares feitos exclusivamente para serem vistos de longe e de relance através da velocidade impessoal de quem vai de carro. Não é bonito. Não é agradável.

Seguia pela avenida da Américas, no sentido zona sul. O domingo estava perfeito e a rua vazia de gente, a não ser por aquele grupo à minha frente. Eram 4 mulheres acompanhadas de 4 crianças. Uma das mulheres, a mais velha, gesticulava muito. Olhava ao redor e parecia bastante insatisfeita. Me aproximando, pude conhecer o motivo do seu (justificado) descontentamento.

O grupo havia chegado de ônibus. Desceram no ponto em frente ao destino final, mas uma cicatriz imensa as separava do seu objetivo: chegar ao Barra Shopping. Eram 12 pistas de alta velocidade dedicadas ao trânsito de automóveis particulares e coletivos, mais duas pistas exclusivas de BRT – sigla do inglês para transporte rápido por ônibus.

Considerando o BRT, precisariam vencer 14 faixas para ir de um lado ao outro da avenida. Isso corresponde a 92 metros de travessia, conforme o desenho proposto pelos especialistas. Se o pedestre optar pelo caminho mais curto, que é uma reta, são 80 metros de travessia.

Mas não era a extensão da travessia a pé o que causava consternação. Diminuindo meu passo, ouvi a mulher mais velha questionar o planejamento que colocava um ponto de ônibus tão distante de um ponto seguro de travessia. Para ir de onde saltaram até a faixa de pedestres, o grupo precisaria andar aproximadamente 100 metros em uma calçada desabitada. Aí, poderiam esperar o sinal fechar para os carros e atravessar para a outra calçada – o que certamente não seria feito em apenas um tempo de sinal. Quando, finalmente, chegassem ao outro lado, precisariam voltar os mesmos quase 100 metros, até a entrada do shopping.

A mulher desabafou: “é por isso que eu não gosto de vir aqui! Olha isso! Quem planejou isso? Parece que quer dizer assim pra gente: você não é bem-vinda. Não venha aqui a não ser que tenha carro”.

Me solidarizei. Parei ao seu lado para conversar. Concordei com todas as colocações e argumentos e perguntei se ela sabia que um pouco mais perto do ponto de ônibus havia uma travessia subterrânea. Tinha que andar, mas era bem menos.

Ela disse que já trabalhou ali perto e que conhecia a travessia subterrânea, mas que preferia não usar. “Já fui assaltada ali duas vezes. E tive amigas assaltadas também. Não tem segurança. Você não sabe o que pode encontrar lá embaixo. É ruim, mas prefiro andar tudo isso a atravessar naquele ‘buraco’. A gente se sente tão insegura que, se estiver cansada mesmo, ou se estiver chovendo, acaba se arriscando entre os carros, só pra não ter que andar tudo isso ou enfrentar a passagem subterrânea. Imagina, eu estou com 4 crianças…”

Ela tinha razão. Assenti. Entendi.

Nesse momento, já estávamos bem perto da travessia de pedestres. Eu ia me despedindo, quando ela falou: “agora é a outra parte da humilhação do pedestre. Tem que correr isso tudo aqui”. E ela riu.  “Se não correr não chega de uma vez, tem que esperar mais um ou dois sinais, dependendo da sua velocidade. E isso, que eu quero ir ali naquele shopping pra gastar dinheiro. Eu quero ir lá gastar, e preciso passar por isso tudo. É por isso que não gosto de vir aqui.”

Eu não tinha nada a acrescentar depois de ouvi-la falar. Nos despedimos. “Vai com Deus”, me disse ela, com um menino em cada mão, já pronta pra iniciar sua corrida. Digo, travessia.

 

Ser pedestre na Barra da Tijuca

O dia em que fui de BRT até o Bosque da Barra

Para quem não conhece o bairro, o Bosque da Barra fica sobre as avenidas Américas e Ayrton Senna. Está quase em frente ao Terminal Rodoviário Alvorada, um ponto nodal para quem vem da Linha Amarela, da praia, da Zona Sul ou do Recreio.

Perto e longe, o Bosque está isolado do acesso por transporte coletivo por um vasto rio de aço correndo ameaçador, barulhento e em alta velocidade, em todas as direções.

Embora irônico, usando o BRT existem alguns caminhos possíveis. Irônico, porque o que a experiência mostrou foi a impossibilidade dos percursos a pé.

Hipótese 1 – saltar na estação Terminal Alvorada e brincar de equilibrista

Já do lado de fora do terminal, o pedestre vai costear a fachada gradeada e sem calçada, espremido entre o trânsito e o terminal rodoviário.

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Caminho usado por pedestres sem segurança alguma. Fonte: googlemaps

Em seguida, passando por baixo de um elevado, chegará a uma agulha que separa o fluxo de motorizados que vem da avenida Ayrton Senna em direção à Barra em dois destinos: praia e Recreio. Evidentemente o pedestre está do lado direito. Sem qualquer ponto de travessia, irá aguardar aquele momento especial para correr até o gramado que forma a agulha.

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Caminho usado por pedestres próximo à Cidade das Artes e Bosque da Barra: googlemaps

Quase lá. Agora só falta esperar mais um pouco e correr para uma última travessia sem segurança. Já na calçada do Bosque, o pedestre irá caminhar até a entrada do mesmo, acompanhando uma grade verde, que ‘brinca’ com dentro-fora.

Eu sei. Você deve estar pensando que não parece seguro. Então, vamos tentar esse outro caminho. Vem comigo.

Hipótese 2 – saltar na estação Terminal Alvorada e escalar uma passarela que NÃO leva até o parque

Saia do Terminal Alvorada e suba as escadas de acesso à passarela para atravessar a avenida. Você não vai chegar no Bosque ainda. Na verdade, andou mais e ainda se afastou do seu objetivo. Persevere.

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Passarela no Terminal Alvorada. Fonte: googlemaps

Já na calçada em frente ao terminal rodoviário, siga em direção à avenida das Américas e vire à esquerda, sobre a calçada. É bonito? Não, mas continue.

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Calçada em frente ao Terminal Alvorada. Fonte: googlemaps

Continue até não chegar a nenhum lugar adequado para a sua travessia segura. Aguarde a hora de correr e corra! No canteiro central, aguarde novamente e corra! Ainda não acabou. Repita essa operação, espere e corre mais duas vezes. Parabéns. Caso tenha sobrevivido, você vai poder desfrutar de um dia lindo com a família no bosque bucólico de vegetação e fauna característicos.

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Travessia informal usada pelos pedestres em Avenida das Américas. Fonte: googlemaps

Ah, mas não tem outro jeito? Tem. É o caminho da hipótese 3.

Hipótese 3 – saltar na estação Bosque da Barra

Talvez você esteja considerando algo assim: gente, mas se tem uma estação de BRT com o mesmo nome do lugar que eu quero ir, é claro que é nessa estação que eu tenho que descer. Me fez ler tudo isso pra que?

Eu sei, e eu também pensei assim. E foi exatamente nesta estação que eu desci: Bosque da Barra. Mas aí…

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Percurso a pé entre BRT Bosque da Barra e o Parque. Fonte: googlemaps

Aí, acontece que o semáforo para travessia de pedestres fica do lado oposto ao que você quer ir, então, você vai sair da estação e andar em direção ao Recreio. Atravesse por uma espécia de retorno sem faixa de pedestre e aguarde o sinal fechar para atravessar na faixa. Olha a vantagem. Tem faixa de travessia em algum lugar. E ainda tem sombra.

Só que como aí não tem nada, não é raro que você se veja ilhado entre pistas de automóveis para os dois lados, a mercê de algum tipo de assédio na rua. Neste ponto, por causa do congestionamento constante, e da ausência de vida, é comum encontrar grupos de adolescentes trabalhando-pedindo-assaltando no sinal. Mas essa não é a única preocupação. Qualquer um, em uma moto, um carro, pode parar ali e, sei lá… Talvez, se você for um homem adulto, esse tipo de pensamento não passe pela sua cabeça. Talvez. No entanto, certos espaços são particularmente hostis se você tiver cometido o erro de não ser um homem adulto.

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Vista da faixa de pedestre na estação BRT Bosque da Barra. Fonte: googlemaps

Mas agora você atravessou. Está na calçada certa. É só caminhar até o bosque.

Claro que não!

Não, porque você não está em lugar nenhum. Você se encontra agora sobre mais um canteiro, que desta vez, separa a avenida movimentada da “rua residencial” desertificada, em frente ao conjunto de condomínios fechados. Eu sei. Esse é um quadro que transmite paz. Tanta paz que você só quer sair rápido dali.

Pode seguir pela calçada dos prédios? Pode, mas não vai longe. Então, o melhor é seguir pelo canteiro de terra gramada. Imagina na chuva.

Outra coisa: repara que a diferença de nível da avenida de carros em alta velocidade para o canteiro é bem pequena, o que torna fácil para um carro vencer o desnível. É bacana. Confere uma sensação de segurança muito forte para pedestres.

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Canteiro em frente à estação BRT Bosque da Barra. Fonte: googlemaps

Agora, chega. Vamos seguir.

Você vai andar por aproximadamente 10 minutos pelo chão de grama e terra, até chegar a um posto da Guarda Municipal. Não desista. Olha lá a Pedra da Gávea no horizonte. Bonita, né? Foca na Pedra. Você já está quase no parque. Só mais um pouquinho.

Quando chegar no posto da Guarda Municipal — esse aí duplamente cercado por uma grade de metal e uma cerca viva — atravesse como puder. É que, mais uma vez, não tem sinal de trânsito e nem faixa de pedestre. Depois de atravessar, vá até o muro horroroso de concreto e tijolo lá do outro lado. Tá vendo ele?

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Calçada em frente ao posto da GM. Fonte: googlemaps

Acompanhe esse muro. Olha aí. Vagas para idoso pintadas no chão. Calçadinha parcialmente sombreada pra você andar. Tá bonito. Mais um pouco e já começa a grade do parque.

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Calçada e vagas de idoso junto ao muro do parque. Fonte: googlemaps

Agora não tem erro. Você está seguro. A grade verde e vazada quase que aproxima o parque de você e da rua. Em breve, vai ver uma movimentação humana. É a entrada do parque. Divirta-se e nem pense em como vai sair daí depois do passeio. Viva uma coisa de cada vez. Esse é o segredo da felicidade.

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A grade do parque. Fonte: googlemaps