Por quê o bolsonarista age como age?

Muito se questiona sobre a razão que leva bolsonaristas a continuarem apoiando Bolsonaro. Ricardo Rangel publicou uma reflexão sobre isso com o título “O coração tem razões que a própria razão desconhece” (Veja. 30.06.20). Ele conclui que é fácil entender porque Bolsonaro age como age, mas que é difícil entender porque os bolsonaristas continuam o apoiando depois de serem, segundo seu entendimento, traídos de maneira tão acachapante.

Não me é tão fácil entender porque Bolsonaro age como age. Enxergo sua motivação – cuja ética e moral são questionáveis – para desidratar a Lava Jato e garantir o foro privilegiado à Flávio Bolsonaro. Visa proteger o filho implicado em crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, por exemplo. Quanto à traição que retiraria de Bolsonaro o apoio de bolsonaristas, me parece haver um erro de leitura. Bolsonaro não traiu nada e nem ninguém. Para fazê-lo, seria necessário que tivesse assumido algum compromisso com esse algo ou alguém. Jamais o fez.

Veja, Bolsonaro nunca se comprometeu sequer com o que fala e fica registrado. Sua lealdade, se é que há alguma, é restrita aos seus filhos. Seu descompromisso é tal que fugiu aos debates. Privou o país do direito de ouvir suas propostas e dialogar sobre elas. Bombardeou, e segue bombardeando, a população de dentro e de fora do país com mentiras e distorções da realidade, as chamadas fake news. O descuido proposital com o conteúdo e a forma do material apresentado como plano de governo foi mais uma declaração explícita da sua falta de zelo com a nação, com a democracia e com cada cidadão e cada cidadã, inclusive aquele que era o seu eleitor convicto.

Não faltam evidências muito objetivas que caracterizem o desleixo e a falta de compromisso de Bolsonaro com qualquer pensamento, ação, instituição ou pessoa. Não me detenho nisso que é público e notório. Meu objetivo, foi apenas demonstrar que não se pode acusar Bolsonaro de traição.

Se Bolsonaro não traiu, logicamente ninguém foi traído, nem mesmo o núcleo duro de seu eleitorado – vulgarmente tratado por bolsonaristas. Tampouco creio que se sintam traídos. Do mesmo modo que Bolsonaro, seu eleitor não demonstra compromisso com o país e seu povo. Concordando que bolsonaristas não foram “traídos de maneira tão acachapante”, permanece o problema: por que o bolsonarista age como age? Tenho uma hipótese. Para desenvolvê-la é preciso que se defina o que é um bolsonarista.

O que é um bolsonarista: primeira aproximação

Num primeiro momento, pode parecer simples: um bolsonarista é um seguidor de Bolsonaro. No entanto, essa definição parte de um pressuposto falso: o de que para existir a categoria bolsonarista é preciso que exista Bolsonaro. Defendo que bolsonaristas existem antes e para além de Bolsonaro.

Para essa hipótese, é preciso assumir que Bolsonaro é apenas mais um bolsonarista, não merecendo que se lhe atribua qualquer autoria na construção desse modo de existir. Isso seria lhe conferir uma importância que não possui. Enquanto o tipo de bolsonarista que é, Bolsonaro é insignificante.

Se o modo de existir bolsonarista independe de Bolsonaro, por que o adjetivo nasce de seu nome?

Personalidade como função

A personalidade Bolsonaro ganha função na medida em que ativa o que passarei a chamar de bolsonarista existencial. É necessário e estratégico distinguir entre os dois tipos de bolsonarista que identifico: o existencial e o circunstancial.

A categoria bolsonarista existencial corresponde ao grupo de indivíduos sem disposição ao pensamento reflexivo. Os indivíduos da categoria bolsonarista circunstancial são aqueles que, por alguma circunstância específica, estão com a capacidade de pensar temporariamente embotada. O primeiro é caso perdido. O segundo é possível recuperar.

Esse é o trabalho necessário. Identificar, dentro do que comumente se designa por bolsonarista, quem é caso perdido e quem ainda pode ser resgatado. Não pretendo explicar porque a não disposição para o pensamento reflexivo ocorre. A proposta é distinguir entre os tipos existencial e circunstancial com o fim de dirigir o trabalho para aquilo que pode e deve ser feito: recuperar o bolsonarista circunstancial.

Sob a função Bolsonaro, os tipos bolsonarista existencial e circunstancial passam a orbitar o que parece um movimento organizado: o bolsonarismo. No entanto, ainda que se reconheça um bolsonarismo, e que ele possa ser caracterizado como um movimento, a realidade mostra que não é organizado. Ao contrário, sua expressão é caótica, violenta e perturbada.

O bolsonarista existencial

Esse grupo é caracterizado pelo fanatismo e pela ausência de pensamento reflexivo, sendo a faculdade do pensar o elemento-chave. O pensar de modo reflexivo é próprio do humano. Abrir mão desse pensar genuinamente curioso, que reflete sobre si mesmo e sobre o que está fora de si, é o mesmo que abrir mão da própria humanidade. Isso é muito perigoso e pode ter consequências desastrosas, deixando marcas profundas, duradouras e terríveis não apenas para toda a humanidade, mas também para toda forma de vida existente no planeta.

Partindo da pergunta retirada do texto de Ricardo Rangel, é preciso identificar o que motiva o agir do bolsonarista existencial uma vez que o pensamento está ausente. Se não é instada pelo pensamento, sua ação é pura reação dirigida à sobrevivência do organismo. Diante de uma ameaça, seu repertório de respostas irrefletidas se restringe à fuga, luta ou paralisação (fingir de morto). Sem disposição ou competência para o pensamento, toda complexidade é uma ameaça e, portanto, fonte de sofrimento a ser evitada.

Ao repudiar tudo o que lhe é estranho, o bolsonarista existencial substitui o convite ao diálogo pelo esforço de enquadrar o que lhe escapa dentro dos limites de certezas com as quais está familiarizado. O que foge disso é inimigo a ser subjugado e controlado. No limite, deverá ser eliminado.

Para esse perfil, ansioso pela necessidade de controle, não surpreende a recorrência ao passado como tempo idealizado, livre de complexidades, onde cada pessoa sabia exatamente o seu lugar e, por isso, era feliz. Nesse sentido, muito mais do que conservador, um bolsonarista existencial é retrógrado. Saudoso de um passado inventado, trabalha pela supressão de direitos conquistados no longo percurso da construção de uma sociedade menos desigual.

Em síntese, para o bolsonarista existencial não há razão. Há reação. Não há curiosidade e encantamento. Diante do abismo há apenas medo, talvez pavor. Não há transformação possível, há o esforço violento de conservar e controlar aquilo que, em essência, não é possível conservar estagnado nem controlar: a vida. Talvez, por isso, o ódio seja um afeto tão presente. E, talvez precisamente por isso, a bolsonarista existencial constitua risco potencial de aniquilação da própria vida que deseja conservar livre de mudança.

O bolsonarista circunstancial

Nem todo bolsonaristaé um deserto de sal. Ao contrário do primeiro tipo, o bolsonarista circunstancial não abriu mão de sua humanidade. A disposição para o pensar reflexivo existe, porém está temporariamente embotada. Embora haja o espaço para o diálogo, este perfil se acredita carente dos recursos que permitiriam o relacionamento criativo com uma complexidade transbordante.

Essa crença pode promover o sentimento de desamparo que favorece a adesão a um modelo de mundo simplificado, sem nuances, de fronteiras bem marcadas e impermeáveis. Nesse mundo, o pensamento reflexivo é substituído pelo conforto do discurso pronto, ainda que autoritário. Para esse tipo, empobrecido pelas circunstâncias, podemos nos oferecer como um outro que dialoga e ajuda a recuperar o acesso aos recursos próprios de interação criativa e resiliente com a realidade.

Nosso papel é identificar o bolsonarista circunstancial perdido no que parece ser a massa indiferenciada do bolsonarismo vulgar. Então, devemos nos oferecer como facilitadores da recuperação da potencia do pensar nessas pessoas. É possível que, em resposta ao espetáculo tosco das mentiras, descuidos e desprezo por tudo que não sejam seus próprios interesses, Bolsonaro já tenha mobilizado esse grupo a despertar para o equívoco de apostar no ódio como resposta aos desafios de nossa sociedade.

É junto a essas pessoas que devemos nos posicionar. Não importa, agora, saber porque o bolsonarista existencial age como age. Ele mesmo não sabe, e nem demonstra interesse em saber. O importante é identificar esse que, se percebendo desamparado, aderiu ao discurso pronto, violento e autoritário que tem Bolsonaro como porta voz. Identificar e ajudar a recuperar a coragem de pensar desses sujeitos de diálogo circunstancialmente embotados é fundamental para enfraquecer o projeto de poder da ultradireita neste país.

Esse texto foi escrito em junho de 2020.

Somos bichos escrotos

Dizemos que queremos saúde, mas escolhemos o caminho da doença. Vivemos rotinas sedentárias, comemos pela gula e não para nos alimentar, nos expomos a todo tipo de substância tóxica em excesso: do cigarro de nicotina ao monóxido de carbono. Nos separamos da natureza. Ignorantes, degradamos a natureza da qual julgamos não pertencer.

Ontem, distraidamente, fiz a tolice de ir pedalar pela orla do Rio. O lixo! Sem exagero. O lixo era surpreendente. Papel, plástico, garrafas, restos de comida e cigarro, máscara sem gente e gente sem máscara escarrando no chão, mijando no chão. No mesmo chão onde andavam descalços, onde os filhos brincavam.

Vi um homem trôpego, talvez alcoolizado, catando tampinhas de garrafa plástica. Vi quando levantou uma garrafa tampada do chão. Destampou. Recolheu a tampa. Descartou a garrafa novamente no chão.

Olhei pros prédios. Muitas varandas com a bandeira do Brasil pendurada. Já implico. Já desprezo. Olhei pra turba aglomerada desfilando sobre o lixo do calçadão. Não foram raros os que avistei enrolados em cangas representando a bandeira nacional. De um lado e do outro, miséria. O rico e o pobre, miséria.

Patriotas, talvez. É provável que as bandeiras estivessem lá em comemoração ao 7 de setembro. Independência proclamada às margens de um Ipiranga que há muito não passa de um esgoto a céu aberto. Diz muito.

Estar presente é um presente

Na parte da cidade onde moro tem cobertura de mangue ❤ Agora estamos cumprindo o distanciamento social, evitando a rua, então é tudo paisagem na memória. Mas quando posso estar na rua, gosto de caminhar ou de pedalar para os meus compromissos — depende da distância. Prefiro isso ao carro, porque é um jeito de estar no lugar, e não apenas passar, com pressa e automatismo. Então eu olho pra tudo. E é sempre novo. Um reflexo na água. Um ninho de passarinho. Peixes nadando. Pessoas que passam. Flores ou frutos que não estavam antes. Galhos pelados, galhos esverdeados, galhos amarelados, galhos avermelhados, galhos de muitas cores. De tardinha, as capivaras. De noite, os morcegos. Então, quando vejo o mangue cuidado, as águas limpas, fico feliz. Dói quando está machucado.

E se a cidade pudesse privilegiar a natureza que tem em cada bairro?

E se o seu dia incluísse o olhar e o estar presente nesses espaços, que são públicos, coletivos?

Que mudanças isso traria pro seu dia e pro dia da cidade? Pra sua vida e pra vida na cidade?

Mangue

Imaginar: a coragem de ser livre

“I can’t breathe!”. Eu não posso respirar! Repetiu George Floyd, assassinado por asfixia pelas forças racistas do Estado, em maio de 2020.

Até a manhã de 31 de maio do mesmo ano, o mundo contabilizava 369.529 mortes humanas por asfixia em complicações associadas ao Covid-19.

Ailton Krenak, em muitas de suas falas, tem chamado a atenção para o descolamento do homem branco de tudo o que diz respeito à vida. Destaca o absurdo da sua fantasia de superioridade à outras raças, outras espécias, o planeta, e, até, fora dele.

Não é exagero. Ontem, em meio ao caos na terra, uma nave tripulada deixou o planeta com destino a uma estação espacial. Parece um grande feito. Muita gente animada. Os EUA, aparentemente recuperariam sua liderança na exploração do espaço — não fosse suficiente a bagunça que vai-se acumulando aqui embaixo. E, apostam os senhores do capital, voos comerciais tripulados serão rotineiros. Uau, hein…

“I can’t breathe!”, repetiu George Floyd antes de desacordar, sob as botas de um policial branco, até, finalmente, morrer.

“Alguma coisa está fora da ordem”. Te parece?

Uma mudança radical precisa acontecer. Essa mudança precisa ser voluntária e consciente. Krenak alerta não ser adequado pensar nessa suspensão da vida, provocada pela pandemia, como algo temporário, que apenas adia nossos planos, para que retomemos tudo de onde parou. É necessário que se reflita como se chegou até aqui, e o que deve ser feito para que não se repita.

Achille Mbembe faz a mesma prolação em seu artigo ‘O direito universal à respiração’. Reproduzo um trecho.

“Presa em um cerco de injustiça e desigualdade, grande parte da humanidade está ameaçada pela asfixia, e a sensação de que nosso mundo está em suspenso não para de se espalhar.

“Se, nessas condições, ainda houver um dia seguinte, ele não poderá ocorrer às custas de alguns, sempre os mesmos, como na Antiga Economia. Ele dependerá, necessariamente, de todos os habitantes da terra, sem distinção de espécie, raça, gênero, cidadania, religião ou qualquer outro marcador de diferenciação. Em outras palavras, ele só poderá acontecer ao custo de uma ruptura gigantesca, produto de uma imaginação radical.

“Um mero remendo não será suficiente”.

Não é de agora a denúncia sobre essa falta de imaginação humana, que insiste em velhas fórmulas falidas, ou, como diz Mbembe, meros remendos.

A boa notícia é que podemos fazer mais do que remendar. Somos dotados da capacidade de imaginar. E somos em maior número do que aqueles que se encontram embotados dessa capacidade.

Ontem o Brasil foi dormir com a esperança de que sua porção não necrosada, viva, capaz de imaginar, é a maioria. #Somos70%. Talvez sejamos mais. Não só no Brasil. No mundo. O que falta pra ativar a coragem de imaginar outro jeito de estar no mundo, e de ser com o mundo?

Em nome desses outros jeitos de estar no mundo, compartilho a determinação e a coragem dessa mulher nigeriana, Sophie Oluwole. Desafiando a narrativa dominante que silencia e apaga outros olhares, seres e pensares, ela teve a coragem de se imaginar em um lugar diverso daquele imposto pelo colozinador. Pela força transformadora de sua coragem de imaginar, resgatou um novo fio narrativo pra história da África no mundo e para história do mundo como um todo. Também compartilho a força inventiva e criadora de mundos de Frida Khalo, reproduzindo sua obra de 1943: Myself, Diego and señor Xolotol.

Para uma ruptura gigantesca, para a imaginação radical, vamos precisar de todo mundo.

The Love Embrace of the Universe, the Earth (Mexico), Myself, Diego and Señor Xolotl. Frida Khalo, 1943.

Notas sobre a pandemia (1)

Em três dias completo um mês de isolamento social. Nesse tempo, apenas saí de casa por duas vezes. A primeira foi logo no início da crise no Brasil. Meu destino: o mercado de verduras e frutas. A segunda vez foi hoje. Precisei ir ao banco. Entre a primeira e a segunda saída, pelo menos no bairro onde moro, a diferença no fluxo de pessoas nas ruas chamou a atenção.

Há quase um mês atrás, as ruas estavam praticamente desertas de carros, e as calçadas vazias de gente. No mercado, evidentemente, havia pessoas. Mas todos pareciam cuidadosos em manter distância saudável de outro vivente. Hoje foi bem diferente. O fluxo de carros estava alto. Atravessar as ruas foi trabalhoso. Envolveu alguma espera para que os muitos carros pudessem desfilar acelerados, ignorantes de tudo que não fosse o asfalto livre. Senti gastura. O trânsito de pedestres também chamou a atenção. Era muita gente circulando, despreocupada em guardar alguma distância de qualquer outra pessoa.

O bairro onde moro é marcado pela ausência de vida nas ruas. É mesmo só um ir e vir de gente. Ninguém para, até porque não tem onde parar. Não tem uma esquina, não tem um bar, não tem uma praça viva. Tem a praia. Tem os condomínios. Tem os shoppings. Em dias comuns, as pessoas que a gente vê circulando pelas ruas são, em sua maioria, trabalhadores e trabalhadoras destes shoppings e condomínios. Eram essas as pessoas circulando a pé, 4 semanas depois do início do isolamento social. Não eram essas, entretanto, as mesmas que circulavam de carro. Pensei pelo aspecto otimista: quanta gente nessa minha cidade é serviço essencial! Quase bati palmas, mas estava ocupada tentando manter alguma distância dos outros corpos. Senti ansiedade e irritação.

No banco, avistei um atendente, três seguranças e uma cliente. Enquanto esperava minha vez, o que foi rápido, percebi os seguranças conversando entre si. Pareciam contrariados. A mulher dizia que a linha de ônibus que usou para chegar ao trabalho estava amontoada de gente: “um falando dentro da cara do outro”! Um dos homens reclamou do que avaliou como insensibilidade dos que insistem em estar nas ruas sem necessidade: “parece que não estão lendo as notícias, não estão levando a sério, um desrespeito com a gente”. O terceiro disse que não tinha jeito, era confiar no papai. Eu não entendi. Acho que ninguém entendeu, porque ele precisou explicar: “papai! O pai do céu. Só a providência”.

No caminho pra casa parei em uma farmácia. Chorei ao me afastar do caixa. Estranhei as marcações no chão, as fitas criando distância entre as gôndolas e os balcões. O caixa estendendo o braço, com a sacola pendurada na pontinha dos dedos, a embalagem de álcool ao lado da registradora.

Apesar de as lojas estarem fechadas, à exceção das farmácias, bancos e lojas de chocolate, tinha bastante gente circulando dentro do shopping. Também havia uma padaria aberta, com pessoas sentadas às mesas, sem qualquer distância entre si. Não estava proibido consumir dentro dos locais?

Chegando em casa, teve início o ritual de desinfecção, ainda na porta do apartamento. Fui direto pro banho. Achei que um homem tinha espirrado perto demais de mim. Meus cabelos estavam soltos. Lavei os cabelos que estão longos, longuíssimos.

Sentada no sofá, senti um tipo de alívio. Olhei pela varanda. O mar ainda em ressaca. Acostumei a olhar o mar pela janela. Só passou um mês e parece que a vida sempre foi assim.

Paralelos e opostos

Raoni Metuktire, líder da etnia caiapó, nasceu em 1930 no estado brasileiro de Mato Grosso.

Depois de quase um século andando por esse mundo, o embaixador pela proteção da floresta amazônica e dos povos indígenas foi citado como inimigo do país em discurso pós-verdade na assembléia geral da ONU, em 2019. Raoni, liderança reconhecida e respeitada internacionalmente, foi atacado por aquele que nunca será.

Olha esses caminhos.

Quando, aos 24 anos, Raoni estabelecia seu primeiro contato com a cultura branca, Jair nem tinha nascido. Esse chegou um ano depois, em 1955. Para sua mãe acontecia um milagre. Por isso, recebeu o nome de Messias. Acreditou. Nascia o capiroto brasileiro de uma família com ascendência italiana e alemã. Melhor berço pra um anti-cristo não tem.

O ano agora é 1964. O Brasil sofria um sinistro golpe militar. Após 10 anos de seu primeiro contato com ‘o homem branco’, Raoni se encontrava com o rei Leopoldo III da Bélgica (o genocida) por ocasião de sua expedição por reservas indígenas protegidas do Mato Grosso. Jair, por sua vez, não tinha sequer completado 10 anos. Cresceu dentro da noite que mal escondia seus crimes com mentiras e medo. Fez escola.

Adolescente, se orgulha de, supostamente, ter denunciado o militar dissidente e guerrilheiro político contra a ditadura militar, Carlos Lamarca. Era o inicio dos anos 70.

Já tendo sido tema de documentário e sentado com ministro brasileiro para negociar demarcação de reserva indígena, Raoni alcança notoriedade internacional em 1987, após encontro com o cantor britânico Sting.

Jair? Avaliado como excessivamente ambicioso e interessado em enriquecer, Jair (falso)Messias (capiroto) Bolsonaro se insubordina contra a autoridade e a disciplina do Exército. Abre o verbo – que no seu caso é dizer que abre o intestino pela primeira vez pra imprensa. Sua reclamação é por melhor remuneração para sua classe. Ameaça plantar e explodir uma bomba para obter o que quer. Sem maiores punições, aos 33 anos — é isso mesmo, minha gente?! — surfando na marola de lama que nunca mais largou, se elege vereador pelo Rio. Tem inicio uma brilhante carreira politica de 27 anos: como um fungo de pele, permanece no poder sem jamais ter realizado absolutamente nada. Assim, inicia a formação de um clã. Cabra bom, pensa no longo prazo. Principais adjetivos que ostenta com orgulho: desclassificado, odioso, populista, ultra-direitista, defensor da tortura, misógino, machista, racista, inescrupuloso.

Habituado a compartilhar fezes como se fossem ideias, em 2018, fez uma cirurgia no intestino, abrindo suas entranhas para o mundo. Uns dizem que foi uma facada. Outros dizem que foi fakeada. Outros acreditam que foi um câncer. Não importa. Importa que é o intestino. O unico órgão funcional (mas nem tanto) do atual presidente do país.

Em 2019, enquanto Jair se afoga em incidentes diplomáticos, como aquele em que ofende Brigitte Macron, esposa do líder francês, Emmanuel Macron (outra pérola, que perto de Bolsonaro parece a melhor coisa do mundo), Raoni foi recebido por esse líder ao fim do G7.

Insatisfeito em humilhar o Brasil apenas no mundo real (que é a ficção ruim que ele construiu com mentiras aprendidas na adolescência, enquanto admirava a ditadura militar), queimou nosso filme também no universo Marvel.

Queria dizer fim. Mas não acabou. Ainda.

Uma horta de bairro ou Nas cidades tem gente

As tristezas se acumulam com o lixo que a chuva fez correr, como se quisesse despertar nas gentes, por meio do espanto, uma reflexão mais séria, uma ação mais comprometida, uma consciência mais viva. Ocupada do assombro, deixei de lado um breve encontro que gostaria de compartilhar, e que considero especialmente necessário diante de todo o caos e abandono que recebemos de cada uma das três esferas de poder.

Domingo fui papear com uma amiga lá na horta comunitária do bairro. Entre um assunto e outro, fomos regando as mudinhas de hortaliças, temperos, frutíferas e nativas que vizinhos e amigos começaram a semear. Antes mesmo das sementes da terra produzirem frutos e frutas, raízes e folhas, outras sementes já começaram a brotar. Sementes de ideias vindas de diferentes lugares. Ideias que já seguem livre o seu caminho de fazer voar outras ideias que vão chegando longe.

Mais do que o privilégio de ter um pequeno sistema agroflorestal bem no coração da cidade, iniciativas como a Horta do Vinil tem o encatamento de recuperar o sentido de espaço público. Existem muitas formas de revitalizar áreas urbanas. Os movimentos de agricultura comunitária em espaços públicos da cidade é uma delas.

A Horta do Vinil fica em terreno ladeado por uma igreja e uma escola pública. Durante muito tempo a área, que dispõe de alguns aparelhos de ginásica, uma pequena arena circular e dois campos de futebol, esteve subutilizada. Quase esquecida. Diante da ameaça de que a área pública fosse vendida para a iniciativa privada, um grupo organizado da sociedade civil se mobilizou para preservar a área pública. Passaram a ocupá-la com a horta.

É lindo ver a pequena floresta ganhando forma. Mas, muito mais do que isso, ao revitalizar o espaço público, a ação oferece a oportunidade de revitalizar também o sentido de comunidade. Ao promover a convivência, são criadas e fortalecidas redes sociais, sentimento de pertença e vizinhança. Isso favorece a saúde mental, a percepção de segurança e pode ser fundamental no processo de restabelecimento dos diálogos saudáveis, em uma sociedade tão sofrida por polarizaçôes e intolerância.

Mais do que semente na terra e ideia em movimento, a iniciativa ajuda a criar vínculo e afeto entre as pessoas e destas com o lugar. Duradouros ou efêmeros, cada vínculo traz a possibilidade do olhar, do sorriso e de histórias que podem ensinar.

Foto: Cris Portella

Uma das dificuldades que enfrentamos na horta é o acesso à água: para rega e para nossa higiene. No momento, a igreja ao lado da horta tem permitido que busquemos água com eles. Levamos baldes vazios e voltamos com eles cheios. Pesam!

Foi em uma dessas idas e vindas de balde cheio que vi a amiga voltar acompanhada de um rapaz. Enquanto fazíamos a rega, ele passou a mão sobre uma das folhas, dizendo do contentamento que sente quando vê o verde brotar. “É como se elas estivessem agradecendo pelo carinho da gente.”

Contou que começou a gostar de planta quando ajudava a avó a cuidar do quintal de casa. Lembranças boas de infância. Suas plantas preferidas são a planta da felicidade e a bougainvillea, porque uma parece renda e a outra é cheia de cor.

Nos conta que está contente de ver a horta acontecer. Avalia que antes estava abandonado e agora já não.

Passamos parte da manhã ali, conversando e compartilhando nosso cuidado com o espaço, que é público, e nosso gosto comum pelo verde.

Esse encontro me fez pensar sobre a potência de ações singelas capazes de dar vida a espaços que são tão nossos, mas que tão fácil a gente esquece.

No seu bairro também tem uma praça? Como é a convivência nesse espaço? Como pode melhorar?

O espelho assombra

Minha experiência de vó e de vô me ensinou a certeza de que o amor é maior e mais intenso que a própria vida. Vôs e vós me emocionam.

Perdi um irmão quando ele era pequeno. Por empatia, por memória, me solidarizo ao pesar de Lula, como me solidarizaria a qualquer outro. Imagino que a dor desse momento não tem nem nome.

Ficaria no silêncio em mim. Mas foram tantas colocações insensíveis, inumanas, desastrosas, mesquinhas e feias, que precisei fazer o silêncio falar. Não sei até onde chega. Mas meu silêncio grita assim:

Gostaria de dizer que apesar de você, amanhã será outro dia. Mas agora, só penso que por sua causa os dias tem sido penosos.

Você justificou seu voto injustificável porque era “contra a corrupção”. Porque era contra “bandido de estimação”, porque “bandido bom é bandido morto”. Veja você, porém. O filho do seu presidente já leva corrupção inscrita no DNA. O filho do seu presidente deita na cama de miliciano, faz festa, chama de amigo.

Você justificou seu voto injustificável porque estava cansado da “velha política”. Note, entretanto. O seu presidente trabalha em um pacote de maldades, o velho toma lá, dá cá, pra fazer passar a tal Reforma da Previdência.

Você justificou seu voto injustificável pq queria um governo “técnico”. Que ironia. Você tem um astrólogo como mentor do seu governo.

Você justificou seu voto injustificável alegando desprezo pelos “intelectuais”, sabe lá o que quer dizer com isso. No seu governo, olhe bem, ministros recalcados mentem sobre suas formações acadêmicas. Fosse pouco, os mesmos ministros odeiam aquilo pelo que advogam, não tem qualquer relação com a pasta que lideram, ou, quando tem, se submetem aos achismos de Whatsapp do eleitorado chucro como o próprio presidente que elegeu – um velho mesquinho, franzino, fraco, caprichoso e tirano.

Nada do que você usou pra justificar seu voto injustificável se sustenta. Sua única motivação foi o ódio. O ódio ainda é sua motivação. E você nem sabe o que odeia. Ou sabe e é covarde demais pra dizer. Eu te digo. Você odeia aquilo que vê refletido no espelho. Você não suporta. Então você odeia um outro. Agora você chama esse outro de Lula, de esquerdista, de petista, de intelectual, de analfabeto. Você nem se decide. A única certeza é que você se odeia tanto, e não suporta, que até se autoriza a odiar uma criança de 7 anos, morta.

Você é horrível.

Ser normal

É uma pessoa muito boa. No Natal faz caridade. Leva cesta básica pra uns pobres.

É uma pessoa muito engajada. Distribui cobertores pra morador de rua. Dá até prato de comida. Às vezes, nem é resto.

É uma pessoa muito consciente. Não come carne vermelha, evita plástico, faz até mutirão de limpeza do lixo.

É uma pessoa muito ajustada. Joga o jogo, não faz marola. Mas o jogo mata. Até o cidadão de bem sabe disso. Só que quem morre é o outro. “É ele ou eu. Que seja ele”.

De boa vontade em boa vontade, quando dá, o cidadão de bem se exime de pensar nos privilégios que detém. Livre de pensar, não questiona a engrenagem que mata e mata e mata. Finge, assim, que nem percebe que essas mortes garantem seus pequenos (ou grandes) luxos. Iludido (nem sempre), ignora que também está morrendo em nome desses mesmos privilégios. Uma morte diferente, talvez. Ainda assim, não menos morte.

——

Tateia na cômoda, buscando suas bolinhas. Vasculha a geladeira atrás de doces. Se acaba na noite. Vira todas no carnaval. Ah, o carnaval. Vamos sair de laranjal, fazer marchinha contra o racismo, a homofobia, o Capetão. Somos muito críticos, cultos, amamos cinema, andamos de bicicleta. Já falei que não comemos carne?

——

Por temer e evitar a morte, a sua e a dos seus, o cidadão de bem, que sabe o que tem valor, cria seus filhos na escola cara. Na escola cara tem um programa incrível voltado pro desenvolvimento socioemocional da criança rica, essencial pra formar um cidadão de bem, bem ajustado. Afinal, “ninguém quer ser ponta de lança”. Nossas inovações tem essa característica de inovar pra não sair do lugar. É um primor.

A educação inovadora do século 21 precisa pensar, portanto, muito além dos conteúdos tradicionais – esses que Damares, com seus diplomas falsos, diz que os pais “podem aplicar mais” em casa.

A educação do século 21 precisa educar o ser integral, capaz de reconhecer, nomear e fazer bom uso de suas emoções. Não serve só juntar letras e fazer as operações básicas. Isso é claro.

É claro, se você é cidadão de bem.

E, assim, nomeando suas raivas, tristezas e medos, a criança que recebeu sua educação integral se tornará também um cidadão de bem.

Com sorte, porém, não será assim. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que esse jogo não joga mais. Talvez lhe cresça a coragem de não se ajustar à norma de privilégios aprofundados em misérias de toda sorte a serem exploradas. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que é o capitalismo que mata e mata e mata pra que uns possam ir pra escola cara enquanto outros sequer tem o de comer e o de morar. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que o capitalismo não é resposta adequada, sem se esconder em desculpas. Se nem isso e nem aquilo serviu, talvez lhe cresça a coragem de ousar outro caminho ainda não percorrido. Talvez. Talvez até seja ouvida. Talvez nem a matem. (#MariellePresente, diz a hashtag adesivada no peito).

Deixo o link com matéria (2016) sobre o livro Despejados (Evicted), de Matthew Desmond. Trata-se de um estudo etnográfico sobre inquilinos de baixa renda em uma cidade desindustrializada de médio porte. O estudo, mais uma vez, e ainda, parte dos sempre mesmos questionamentos óbvios.

“E se o discurso dominante sobre a pobreza estiver errado? E se o problema não for a suposta carência moral das pessoas pobres — que elas são preguiçosas, impulsivas e não tem valores familiares — ou ainda sua falta de habilidade e inteligência necessárias para serem bem adaptados à gloriosa economia do século 21? E se o problema da pobreza é que ela gera lucro?”

Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as mulheres. Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as pessoas não brancas. Como sempre no capitalismo, o privilégio se concentra nas mãos do macho branco da espécie. É a norma. É normal.

Dizia o maluco, “deus me livre de ser normal”.

https://www.theguardian.com/books/2016/apr/07/evicted-poverty-and-profit-in-the-american-city-matthew-desmond-review