Uma horta de bairro ou Nas cidades tem gente

As tristezas se acumulam com o lixo e a lama que a chuva fez correr como se quisesse despertar nas gentes, por meio do espanto, uma reflexão mais séria, uma ação mais comprometida, uma consciência mais viva. Ocupada da tragédia, mais uma, acabei deixando de lado um breve encontro que gostaria de compartilhar, e que considero especialmente necessário diante de todo o caos e abandono e descaso que estamos continuamente e crescentemente recebendo de cada uma das três esferas de poder.

Domingo fui papear com uma amiga lá na horta do bairro. Entre um assunto e outro, fomos regando as mudinhas de hortaliças, temperos e árvores frutíferas que os vizinhos e amigos começaram a semear. Antes mesmo das sementes da terra produzirem frutos e frutas e raízes e folhas, outras sementes já começaram a brotar. Sementes de ideias vindas de diferentes lugares. Ideias que já seguem livre o seu caminho de fazer voar outras ideias que vão chegando longe.

Mas não foi só semente da terra, não foi só ideia, foram vínculos com o lugar e com as pessoas. Duradouros ou efêmeros, cada vínculo traz a possibilidade do olhar, do sorriso e de histórias que podem ensinar.

Foto: Cris Portella

Vejo a amiga voltar com a água. Junto dela, um rapaz ajudava a carregar um galão cheio. Jorge Luiz vem sorrindo. Enquanto fazíamos a rega, ele passou a mão sobre uma das folhas, dizendo do contentamento que sente quando vê o verde brotar. “É como se elas estivessem agradecendo pelo carinho da gente.”

Contou que começou a gostar de planta quando ajudava a avó a cuidar do quintal de casa. Lembranças boas de infância. Suas plantas preferidas são a planta da felicidade e a bougainvillea. “Uma parece renda, a outra é cheia de cor”.

Falou que agora está morando na rua e que há muito tempo não passava ali. Voltou recentemente e se encheu de alegria porque ali “onde o mal se enraizava, agora está nascendo o bem”.

Sobre o mal, nos contou dos “playboy” que ocupavam aquele “lugar abandonado antes da horta”. Fez questão de explicar o que queria dizer com playboy, “porque a pessoa não tem culpa de nascer rica, mas ela é responsável pelo que escolhe fazer disso. O playboy é aquele que acha que é melhor, que passa arrogante, que acredita que pode mais e pode tudo, que pensa você não é nada, que nem olha no olho, que bota fogo em morador de rua”.

Passamos parte da manhã ali, conversando e compartilhando nosso cuidado com o espaço, que é público, e nosso gosto comum pelo verde.

Esse encontro me fez pensar sobre a potência de ações singelas capazes de dar vida a espaços que são tão nossos e que tão fácil a gente esquece.

No seu bairro também tem uma praça? Como é a convivência nesse espaço? Como pode melhorar?

O espelho assombra

Minha experiência de vó e de vô me ensinou a certeza de que o amor é maior e mais intenso que a própria vida. Vôs e vós me emocionam.

Perdi um irmão quando ele era pequeno. Por empatia, por memória, me solidarizo ao pesar de Lula, como me solidarizaria a qualquer outro. Imagino que a dor desse momento não tem nem nome.

Ficaria no silêncio em mim. Mas foram tantas colocações insensíveis, inumanas, desastrosas, mesquinhas e feias, que precisei fazer o silêncio falar. Não sei até onde chega. Mas meu silêncio grita assim:

Gostaria de dizer que apesar de você, amanhã será outro dia. Mas agora, só penso que por sua causa os dias tem sido penosos.

Você justificou seu voto injustificável pq era contra a corrupção. Pq era contra bandido de estimação, porque “bandido bom é bandido morto”. Veja você, porém. O filho do seu presidente já leva corrupção inscrita no DNA. O filho do seu presidente deita na cama de miliciano, faz festa, chama de amigo.

Você justificou seu voto injustificável pq estava cansado da ‘velha politica’. Note, entretanto. O seu presidente trabalha em um pacote de maldades, o velho toma lá, dá cá, pra fazer passar a tal Reforma da Previdência.

Você justificou seu voto injustificável pq queria um governo ‘técnico’. Que ironia. Você tem um astrólogo como mentor do seu governo.

Você justificou seu voto injustificável alegando desprezo pelos ‘intelectuais’, sabe lá o que quer dizer com isso. No seu governo, olhe bem, ministros recalcados mentem sobre suas formações acadêmicas. Fosse pouco, os mesmos ministros odeiam aquilo pelo que advogam, não tem qualquer relação com a pasta que lideram, ou, quando tem, se submetem aos achismos de Whatsapp do eleitorado chucro como o próprio presidente que elegeu – um velho mesquinho, franzino, fraco, caprichoso e tirano.

Nada do que você usou pra justificar seu voto injustificável se sustenta. Sua única motivação foi o ódio. O ódio ainda é sua motivação. E você nem sabe o que odeia. Ou sabe e é covarde demais pra dizer. Eu te digo. Você odeia aquilo que vê refletido no espelho. Você não suporta. Então você odeia um outro. Agora você chama esse outro de Lula, de esquerdista, de petista, de intelectual, de analfabeto. Você nem se decide. A única certeza é que você se odeia tanto, e não suporta, que até se autoriza a odiar uma criança de 7 anos, morta.

Você é horrível.

*não soube achar a autoria da foto de Lula com seu neto.

Ser normal

É uma pessoa muito boa. No Natal faz caridade. Leva cesta básica pra uns pobres.

É uma pessoa muito engajada. Distribui cobertores pra morador de rua. Dá até prato de comida. Às vezes, nem é resto.

É uma pessoa muito consciente. Não come carne vermelha, evita plástico, faz até mutirão de limpeza do lixo.

É uma pessoa muito ajustada. Joga o jogo, não faz marola. Mas o jogo mata. Até o cidadão de bem sabe disso. Só que quem morre é o outro. “É ele ou eu. Que seja ele”.

De boa vontade em boa vontade, quando dá, o cidadão de bem se exime de pensar nos privilégios que detém. Livre de pensar, não questiona a engrenagem que mata e mata e mata. Finge, assim, que nem percebe que essas mortes garantem seus pequenos (ou grandes) luxos. Iludido (nem sempre), ignora que também está morrendo em nome desses mesmos privilégios. Uma morte diferente, talvez. Ainda assim, não menos morte.

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Tateia na cômoda, buscando suas bolinhas. Vasculha a geladeira atrás de doces. Se acaba na noite. Vira todas no carnaval. Ah, o carnaval. Vamos sair de laranjal, fazer marchinha contra o racismo, a homofobia, o Capetão. Somos muito críticos, cultos, amamos cinema, andamos de bicicleta. Já falei que não comemos carne?

——

Por temer e evitar a morte, a sua e a dos seus, o cidadão de bem, que sabe o que tem valor, cria seus filhos na escola cara. Na escola cara tem um programa incrível voltado pro desenvolvimento socioemocional da criança rica, essencial pra formar um cidadão de bem, bem ajustado. Afinal, “ninguém quer ser ponta de lança”. Nossas inovações tem essa característica de inovar pra não sair do lugar. É um primor.

A educação inovadora do século 21 precisa pensar, portanto, muito além dos conteúdos tradicionais – esses que Damares, com seus diplomas falsos, diz que os pais “podem aplicar mais” em casa.

A educação do século 21 precisa educar o ser integral, capaz de reconhecer, nomear e fazer bom uso de suas emoções. Não serve só juntar letras e fazer as operações básicas. Isso é claro.

É claro, se você é cidadão de bem.

E, assim, nomeando suas raivas, tristezas e medos, a criança que recebeu sua educação integral se tornará também um cidadão de bem.

Com sorte, porém, não será assim. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que esse jogo não joga mais. Talvez lhe cresça a coragem de não se ajustar à norma de privilégios aprofundados em misérias de toda sorte a serem exploradas. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que é o capitalismo que mata e mata e mata pra que uns possam ir pra escola cara enquanto outros sequer tem o de comer e o de morar. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que o capitalismo não é resposta adequada, sem se esconder em desculpas. Se nem isso e nem aquilo serviu, talvez lhe cresça a coragem de ousar outro caminho ainda não percorrido. Talvez. Talvez, até, seja ouvida. Talvez nem a matem. (Marielle Presente, diz a hashtag adesivada no peito).

Deixo o link com matéria (2016) sobre o livro Despejados (Evicted), de Matthew Desmond. Trata-se de um estudo etnográfico sobre inquilinos de baixa renda em uma cidade desindustrializada de médio porte. O estudo, mais uma vez, e ainda, parte dos sempre mesmos questionamentos óbvios.

“E se o discurso dominante sobre a pobreza estiver errado? E se o problema não for a suposta carência moral das pessoas pobres — que elas são preguiçosas, impulsivas e não tem valores familiares — ou ainda sua falta de habilidade e inteligência necessárias para serem bem adaptados à gloriosa economia do século 21? E se o problema da pobreza é que ela gera lucro?”

Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as mulheres. Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as pessoas não brancas. Como sempre no capitalismo, o privilégio se concentra nas mãos do macho branco da espécie. É a norma. É normal.

Dizia o maluco, “deus me livre de ser normal”.

https://www.theguardian.com/books/2016/apr/07/evicted-poverty-and-profit-in-the-american-city-matthew-desmond-review

Atualização para processos seletivos

Procurando recolocação no mercado?
Siga as dicas quentíssimas para a entrevista. Não falha!

Qualificação: não precisa. Admita que não tem qualquer competência e jogue nas mãos de Deus. Seja firme e declare: “tenho certeza de que não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos”.

Honestidade e coerência: isso é coisa do passado. Palavra não vale nada. Diga o que for preciso, ainda que não tenha como provar. Se pegar mal, diga o contrário imediatamente depois. Repita essa ação até que o interlocutor fique satisfeito.

Titulação: que bobagem. Você tem WhatsApp?

Princípios éticos: não caia nessa. “Ninguém é bonzinho”. Admita que é inescrupuloso. Diga que pra você negros devem morrer após atingirem 7 arrobas, quando já “não servem mais nem pra procriar”. Diga que mulheres são inferiores e que jamais estupraria uma que não merecesse. Diga que indígenas são o atraso da nação. Diga que seus concorrentes devem ser “varridos”, “destruídos”.

Direitos trabalhistas: diga que isso é coisa de encostado. Diga que abre mão de suas horas de descanso, hora extra, CLT, 13o ou férias. Diga que gosta do desafio. Que vc quer ser um ‘colaborador’ da empresa, sem participação nos lucros, sem perspectivas, sem nada, afinal você quer trabalhar, você não quer direitos.

Dica final: infalível! Todo empreendedor de si mesmo deve ter um ídolo. Seja criativo. Ustra está em alta. Mas você pode mais. Veja algumas sugestões: Pol Pot, Pinochet, Mussolini, Hitler, Stalin, Erdogan, Duterte, Bashar Al-Assad, Franco, Salazar. Escolha o seu.

Cativeiro e ferocidade são as únicas possibilidades?

Esse texto é um comentário à coluna de Joaquim Ferreira dos Santos para O Globo em 18/06/2018.

O título é ruim. “Perigo! Bicicleta!” aponta para uma série de lugares comuns que povoam a fantasia das pessoas. O título infeliz alimenta o antagonismo entre indivíduos ao invés de tratar do problema real e indicar quem pode e deve agir para resolvê-lo.

O problema real: quase um século de investimento em infraestrutura segundo a lógica da velocidade e centrada na conveniência do motorizado.

O principal responsável e agente de mudança: poder público local, o qual não direi que é omisso para não ser redundante. Droga! Já foi…

A linha fina denuncia a miopia do autor. Nela lemos que “A bicicleta no Rio é o bicho solto. Para ela não existe limite de velocidade, lugar apropriado de transitar ou essas coisinhas miúdas de obedecer mão e contramão”.

Sua visão comprometida faz com que atribua como exclusividade da bicicleta (vamos ler ciclista) aquilo que é, de fato, observado em carros ou motos ou ônibus (vamos ler motoristas).

Faça o exercício. Substitua a palavra bicicleta, na linha fina, por carro, ou moto, ou ônibus, ou van, use a imaginação. Veja se funciona. Funcionou, né?

O colunista acerta, no entanto, quando diz que “A coitada não tem culpa. Caiu numa cidade que já tinha escolhido o carro como objeto de simpatia, principalmente por ser um dos pagadores de suas contas. A bicicleta foi chegando de mansinho num lugar onde não cabia mais nada”. Foi chegando, de mansinho. Invisível e invisibilizada, chegou, como quem chega a uma festa para a qual não foi convidada. Tão logo é percebida, os leões de chácara são acionados para se livrarem dela, como se não fosse nada.

Imagine que a cidade é um bioma complexo. No nosso caso, esse bioma sofreu, e sofre, uma interferência que gerou desequilíbrio entre cada um dos seus elementos essenciais. Como o organismo é vivo, houve adaptação, mas o preço dessa adaptação foi alto. A referência deixou de ser humana. A consequência? Ruas vazias de gente e repletas de motos, carros, ônibus, caminhões; poucas árvores, muito asfalto e concreto; poucas passagens e acessos; longas distâncias e muitas interdições. As interdições aparecem como muros e grades, superfícies espelhadas e repelentes, cancelas e barricadas. Elas também se manifestam como balas perdidas na troca de gentilezas entre traficantes, assaltantes, policiais e milicianos. O risco luminoso de projéteis atravessando o ar desenha limites e impossibilidades para a livre manifestação da vida no espaço público, e essa interdição não pode ser ignorada. Ao  mesmo tempo, se você for mulher, as interdições são tantas que as paredes de concreto, as grades pontudas e afiadas e até as armas de fogo, em alguns lugares tão naturalizadas, não parecem ser mesmo é nada.

O passeio e o estar virou passagem e trânsito de carros. Este, cada vez mais veloz, mais agressivo e mais violento, em pouco tempo virou congestionamento. A infraestrutura para motorizados ocupa quase todo o espaço público e, ainda assim, esse privilégio não lhe é suficiente. Por isso, reivindica mais e mais. Reivindica e toma. O preço é alto, já sabemos. Paga-se com a vida. A vida sensível e delicada, rara e ordinária, matéria fina que se esgarça e morre. Morre no trânsito, vítima das altas velocidades, da pouca qualidade de vida e do descaso dos nossos governantes.

Nesse contexto, andar a pé é um ato de resistência. Andar de bicicleta é um ato de resistência. No contexto da violência no trânsito motorizado, da invisibilidade e da opressão à tudo o que não for rápido e veloz, a estratégia para seguir resistindo é a guerrilha.

Eu gosto disso? Não. Nem um pouco. Mas, se o trânsito não é pacificado, se as infraestruturas não passam de maquiagem ou engodo para alimentar estatísticas superdimensionadas, se o poder público ignora, descuida, abandona, o que fazer? Se submeter a lógica dominante do carro? Ficar em casa deprimido sonhando como é linda a Amsterdã ou Afuá ou Paquetá? Sair kamikaze entre carros que trafegam acima de 70km, ou mais? Se expor à “fina educativa” dos motoristas, que seguem impunes e potentes, certos de sua supremacia e invencibilidade? Afinal, você sabe, a culpa sempre é do pedestre ou do ciclista que não estava no sofá, certo?

Ir para a calçada é a resposta possível de muitos para seguir pedalando, uma vez que estão abandonados à própria sorte.

“Ah, mas a pessoa deve pedalar com prudência, quando na calçada”. Óbvio! Ninguém discorda disso. Diria mais. Deve pedalar com prudência na calçada e fora dela. Pedalar, andar, dirigir, beber, comer, … tudo, né?

A cidade em equilíbrio é espaço de convívio. Não se engane, porém, pensando que isso significa a supressão de todo tipo de conflito. Não. Vai ter conflito sim. Faz parte. Mas eles vão se resolver com negociação e não com imposição de vitória pelo uso da violência do mais forte sobre o mais fraco.

O texto do autor erra dolorosamente ao colocar toda a responsabilidade sobre o indivíduo. É responsabilidade do poder público garantir políticas e investimentos que harmonizem a cidade e a devolvam para as pessoas.

Isso significa acabar com os carros? Não! Significa que todos agora andarão apenas de bicicleta ou a pé? Não!

Significa, apenas, que um modal motorizado será mais um modal entre tantos outros que também tem direito de ocupar as vias. Significa que escolhendo o motorizado, motoristas deverão estar cientes de que estão sujeitos a limitações sim, inclusive de ocupação das vias e de velocidade. Significa que andar de transporte coletivo, que a gente chama de público sem ser, a pé ou de bicicleta, patins, patinete, ou o que for, vai ser uma opção e não um ato de resistência com o qual pode-se pagar com a vida. Significa que as pessoas estarão no centro das decisões políticas e realizações urbanísticas. Significa que as cidades serão humanas.

Mas, mesmo em seus equívocos, a coluna tem seu valor. Vejo muito ganho em ler com atenção a forma caricata com que o autor pinta “o ciclista”. Parece misturar tudo em uma coisa só, como quando a gente viaja pra um país muito diferente do nosso, e tudo parece exatamente igual pela simples ausência de repertório e referência.

E é aqui, que eu volto o olhar para dentro, não enquanto ciclista, mas enquanto cicloativista. O que nós, em nosso ativismo, estamos fazendo ou deixando de fazer para não sermos vistos em nossa diversidade e humanidade? Nós, que também moramos na cidade. Nós, que também somos pedestres, que também usamos o transporte público, que também usamos carro ou motocicleta. Antes de perguntar se o outro nos percebe em nossa diversidade, devolveria a pergunta para dentro: será que nós mesmos somos realmente capazes de nos perceber na nossa diversidade, ou apenas reconhecemos a imagem do espelho e pintamos caricaturas do que não reflete o que esperamos ver?

Para quem dirigimos o nosso discurso, e qual a qualidade do que é dito? Será que estamos nos comunicando? Se sim, essa comunicação fura a nossa bolha, ou reverbera apenas dentro dela? Lembrando que a bolha, de fato, são muitas e variadas bolhas, todas elas são afetadas?

Eu não descarto que tem muito da cultura do motorizado impregnada na percepção e na capacidade de interpretação do autor do texto sobre o papel da bicicleta como transporte na cidade. Mas tem muito de nossa in(habilidade) de comunicação aí. Você não acha?

Entre outras coisas, o que temos feito para alimentar um olhar caricato e reducionista sobre nós, ciclistas ativistas? Isso é responsabilidade nossa. Olhar para os eventos de junho dedicados à bicicleta e que tiveram sede no Rio de Janeiro pode dar uma pista. Olhar para a forma com que o ativismo se percebe e organiza também pode dar uma boa pista. Pensar como essas duas coisas juntas fizeram o nosso junho da bicicleta acontecer como aconteceu também pode ser um bom exercício. Sei que serei antipática por trazer isso, mas acho necessário. Teve alegria, sucesso e superação de adversidade? Teve. Mas, também tem muito material para autorreflexão. Sempre é possível melhorar.

Voltando ao autor, a confusão dele em imputar ao ciclista a responsabilidade por um caos e uma truculência que são típicos da cultura que privilegia o motorizado, não é culpa dele. Arrisco dizer que ele é apenas mais uma vítima. A cultura do motorizado deixa muitas vítimas, de tipos diferentes. Algumas vítimas ficarão esmagadas em poças de sangue no asfalto quente. Quantos já perdemos assim? Outras vítimas serão estas, que como o colunista, repetem felizes que desejam a prisão, acreditando piamente que, de fato, estão defendendo a liberdade.

Enfim. Se você soltar um animal silvestre que passou gerações em cativeiro de volta na natureza, ele vai morrer. A alternativa é se tornar feral. Cativeiro ou ferocidade são os únicos caminhos verdadeiramente possíveis quando o assunto é reintegrar a bicicleta como transporte no contexto da cidade?

Nem uma coisa (cativeiro), nem outra (ferocidade).

Nos soltaram entre hienas famintas, sem nenhum tipo de amparo. Para não sermos predados, predamos. O “novo” modal, que não tem nada de novo, pode até estar sendo incorporado à rotina urbana, mas, diante da omissão e descompromisso do poder público com políticas de incentivo à mobilidade ativa, a lógica da violência nos coloca reproduzindo o mesmo comportamento equivocado da supremacia da velocidade sobre a vida. É salve-se quem puder. A responsabilidade por um novo comportamento, mais humano, pode até ser minha e sua, mas antes, é do poder público, é dos gestores e políticos dessa cidade que tem o dever de criar as condições necessárias para o convívio em detrimento do combate.

Um detalhe cor de laranja

O texto deveria acabar aqui, mas quero compartilhar uma reflexão sobre as estações de bicicletas compartilhadas.

É inegável a contribuição das bicicletas compartilhadas para o redesenho dos hábitos de deslocamento na cidade. A conveniência, a praticidade e a possibilidade de combinar o modal com outros meios de transporte desse tipo de serviço ajudaram a mudar a paisagem urbana, tornando mais comum a presença de ciclistas aos olhos de todos.

No entanto, não basta conceder a licença de operação para a empresa privada explorar comercialmente essa fatia do mercado de transportes.

Sem o diálogo e a comunicação com a sociedade, sem o investimento em campanhas de educação, sem a coragem para desacelerar o trânsito e ceder parte da via de rolamento para a ocupação de bicicletas, o que se vê é a presença de totens com propaganda de banco subtraindo espaço de calçada dos pedestres, muitas vezes já exíguos e precários. Tal escolha, que segue privilegiando o transporte motorizado individual, o que faz é servir a um banco privado ao mesmo tempo em que abandona ciclistas e pedestres à disputa pelo espaço escasseado.

O poder público, sem a coragem de desacelerar o trânsito, quando autoriza ao banco salpicar as calçadas da cidade com estações de compartilhamento de bicicleta, praticamente faz um convite ao usuário do serviço para pedalar sobre as calçadas, por simples falta de alternativa. Qual é o ciclista inexperiente que vai escolher transitar ao lado de máquinas pesadas em alta velocidade?

Sobre a escolha dos locais de instalação, a empresa que mantém o serviço alega que a prefeitura determina o local. A prefeitura… bem, fale com a prefeitura, se tiver sucesso, me avise. No jogo de empurra, motoristas, ciclistas e pedestres, mais uma vez, estão lançados no ambiente hostil do salve-se quem puder, vence o mais forte.

Antes de atacar as vítimas, moradores de uma cidade abandonada à própria sorte pelo poder público, e explorada pela parceria deste com a iniciativa privada, vale ampliar o olhar e reavaliar aonde se encontra a raiz do problema e da solução que quer brotar. O que não dá é para podar a árvore errada.

Violência argumentativa

Consistentemente sente necessidade de afirmar sua “honestidade intelectual”. Faz isso com a mesma frequência com que acusa seus interlocutores discordantes de “desonestidade intelectual”. Desconhece o debate. Prolifera na agressividade e na violência, onde acredita triunfar devido aos aplausos de uma claque adestrada. Composta por personalidades dependentes e ansiosas por agradar aqueles que identificam como detentores de status e poder, a claque se caracteriza pela disposição à submissão. Não desistem da esperança de um dia receber  qualquer migalha lançada do Olimpo inventado, onde habitam os deuses raquíticos que elas mesmas criaram.

Como é típico aos covardes, quando confrontado, nosso herói às avessas procura esconder sua fragilidade sob o manto vil da virilidade, ingrediente essencial de toda forma de opressão. Se um interlocutor aponta um caminho distinto do seu credo, que assume infalível e inquestionável, responde com a desqualificação do mesmo. Outra estratégia frequente é o argumento de autoridade e a ameaça pessoal. Em sua defesa diz que só trabalha com dados e acusa o interlocutor discordante de miopia ideológica. Para ele, esse tipo de interlocutor é “um merda”, adjetivo carinhoso que distribui sem economia.

Como bom crente, deposita toda a sua fé em um deus: o mercado, que parece visitá-lo com sua mão invisível em noites frias e solitárias. Com fé inabalável e devota, insiste na certeza de que o mercado, como entidade sobrenatural, tudo salva, tudo regula e tudo protege, pairando acima do bem e do mal; e o mal, é claro, é o Estado. É como se fosse um bebê ainda, e tivesse nascido depois de 2008.

Evidentemente, para tudo a melhor solução que oferece é sempre privatizar. Tudo. Sempre.

Nem sempre.

“Em países onde os mecanismos de governança estão consolidados, e as instituições são fortes o bastante para inibir e coibir a corrupção, estatais até podem funcionar. Mas no Brasil…” Então a ordem é privatizar. Vender tudo. Não importa para quem. Não importa como. “A solução tem que ser agora!”. É taxativo.

Se você acredita que ele tira essas informações do meio das axilas, bem, talvez você não se engane. O especialista se defende com fatos. As ideias que defende são todas baseadas em pesquisas que ele mesmo fez. Onde publicou? Não, não foi em uma revista científica relevante, sequer passou por revisão de pares. Mas ele desafia: “Eu trouxe dados. E você? Mostre seus dados!”.

Citando a si mesmo como fonte, toda a sua argumentação é inquestionável. Lembra? Se você discordar dele, é por pura “desonestidade intelectual”. Ele não. Tem até a própria claque deslumbrada, ostentando uma inveja mal disfarçada de  admiração.

É que nosso intelectual é um cara que venceu. Com uma história dura de superação de homem branco, hoje afirma seu bom gosto e sofisticação oferecendo generosos banquetes. As garrafas de álcool que enfeitam a mesa, rendem longas conversas despretensiosas sobre o poder aquisitivo que compra e esbanja. O poder é evidente no dinheiro liquefeito em malte que os bêbados seguem entornando goela abaixo.  É o poder de compra que pode ser queimado em cinzas de charutos repousando entre lábios satisfeitos. Tudo liberado. Sem mesquinhez. E, sem mesquinhez, voluntaria o preço disso e daquilo, o que parece atiçar a sede de álcool, a fome de embutidos importados ou a ansiedade por sugar fumaça de tabaco. A claque delira.

Mas, divertido mesmo é ver o autoproclamado liberal de esquerda jogando seu canto de sereia pra quem é surdo à melodia.

— Whisky? — Não bebo álcool. Obrigado. Tem água?

— Um cubano? — Não fumo… Abre a janela? A fumaça tá incomodando.

Como dominar quem não se submete às normas do imaginário que você habita? Não domina. A solução? Hostilizar. Desacreditar. Se tudo falhar, eliminar.

E o liberal de esquerda, convicto da baixeza moral e viciada do Estado, sentencia: “prefiro botar dinheiro na mão do pobre do que pagar salário pra funcionário de estatal”. Continua: “você sabe, o funcionário da estatal ganha acima do valor do mesmo cargo no mercado privado”. Evidências? Não precisa. Ele disse. Ele sabe. Ele sempre sabe.

Alguém arrisca: “mas as responsabilidades são as mesmas? As competências são as mesmas? Os salários que o mercado pratica são justos? Se há discrepância, o correto seria mesmo jogar todos os salários para para baixo, supostamente para o patamar do mercado?”

A besta fera da economia salta: “não importa! O mercado não é justo e nem injusto. O mercado regula! O mercado pune! Você tem que ser competente. O que não pode é sustentar vagabundo”.

É isso. Está dito. Privatiza. Mediocriza o salário de todo mundo. Não trabalha pra fortalecer instituições, democracia, governança. “Não dá tempo”, é o que ele diagnostica. Além do mais, o papel do Brasil é servir. Esqueceu? Somos o celeiro do mundo. O estábulo. O galinheiro. O puteiro. O cercado dos porcos.

A claque? Curtindo, aplaudindo, repetindo, amplificando. “Ain, professor…”. É que a besta fera é professor de instituição privada. E afaga o pupilo obediente: bom padawan, vem aqui, pega mais álcool engarrafado que eu trouxe da Ásia, é caro.

Ah, … como ele é bom.

Entusiamo pela Vida

Claro que teve a clássica brincadeira de esconder dela algum objeto. O “sumiço” e recuperação do celular “perdido” aconteceu quando o bolo ia chegando à mesa. Depois do parabéns e de assoprar as velinhas, um amigo fez uma declaração. Foi tão espontânea e certeira que lembro exatamente das palavras dele.  — Eu desejo para cada um de nós esse mesmo entusiasmo que você mostra por comemorar o seu aniversário, mesmo depois de todos esses anos.

Essas palavras ficaram comigo desde então. Não só as palavras, mas a expressão que ele tinha no olhar. Isso me fez prestar atenção em cada uma das pessoas que estava na mesa naquele dia. Isso foi no dia 22 de outubro de 2017.

Depois disso, um monte de coisas aconteceu. Além dessa comemoração vieram outras para celebrar esse mesmo dia. O dia do nascimento. O dia em que para ela se fez a vida. Veio também o diagnóstico .

Esse entusiasmo não era só pelo aniversário. Estava presente diante do simples, nas coisas do cotidiano, na singeleza do ordinário; como a perspectiva de retomada do grupo de RPG em janeiro de 2018.

Amiga, acho que posso te chamar assim, nesse curto período de dois meses foram internações longas e breves altas para passar as festas em casa. Cada um de nós te desejando o melhor e força. No dia 31 de dezembro, nova entrada no hospital. Hoje a notícia da evolução do quadro. Tenho certeza que muitos são os pensamentos voltados pra você, quem sabe até envolvidos na esperança de um milagre. Somos assim.

O milagre é você. O milagre sou eu. O milagre é cada um de nós. E isso merece mesmo ser celebrado. Sempre. Sem pretextos. E é por isso que me aproprio das palavras bem colocadas do amigo para agradecer por essa lição, e renovar os votos para que  cada um de nós possa encontrar em si esse mesmo entusiasmo seu pelo simples e puro de estar e ser no instante presente.

Nota: ao concluir esta minha pequena homenagem a você recebi a notícia da sua partida. Vá em paz. Fica a saudade, o estarrecimento e a gratidão pela lição deixada.