Ser normal

É uma pessoa muito boa. No Natal faz caridade. Leva cesta básica pra uns pobres.

É uma pessoa muito engajada. Distribui cobertores pra morador de rua. Dá até prato de comida. Às vezes, nem é resto.

É uma pessoa muito consciente. Não come carne vermelha, evita plástico, faz até mutirão de limpeza do lixo.

É uma pessoa muito ajustada. Joga o jogo, não faz marola. Mas o jogo mata. Até o cidadão de bem sabe disso. Só que quem morre é o outro. “É ele ou eu. Que seja ele”.

De boa vontade em boa vontade, quando dá, o cidadão de bem se exime de pensar nos privilégios que detém. Livre de pensar, não questiona a engrenagem que mata e mata e mata. Finge, assim, que nem percebe que essas mortes garantem seus pequenos (ou grandes) luxos. Iludido (nem sempre), ignora que também está morrendo em nome desses mesmos privilégios. Uma morte diferente, talvez. Ainda assim, não menos morte.

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Tateia na cômoda, buscando suas bolinhas. Vasculha a geladeira atrás de doces. Se acaba na noite. Vira todas no carnaval. Ah, o carnaval. Vamos sair de laranjal, fazer marchinha contra o racismo, a homofobia, o Capetão. Somos muito críticos, cultos, amamos cinema, andamos de bicicleta. Já falei que não comemos carne?

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Por temer e evitar a morte, a sua e a dos seus, o cidadão de bem, que sabe o que tem valor, cria seus filhos na escola cara. Na escola cara tem um programa incrível voltado pro desenvolvimento socioemocional da criança rica, essencial pra formar um cidadão de bem, bem ajustado. Afinal, “ninguém quer ser ponta de lança”. Nossas inovações tem essa característica de inovar pra não sair do lugar. É um primor.

A educação inovadora do século 21 precisa pensar, portanto, muito além dos conteúdos tradicionais – esses que Damares, com seus diplomas falsos, diz que os pais “podem aplicar mais” em casa.

A educação do século 21 precisa educar o ser integral, capaz de reconhecer, nomear e fazer bom uso de suas emoções. Não serve só juntar letras e fazer as operações básicas. Isso é claro.

É claro, se você é cidadão de bem.

E, assim, nomeando suas raivas, tristezas e medos, a criança que recebeu sua educação integral se tornará também um cidadão de bem.

Com sorte, porém, não será assim. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que esse jogo não joga mais. Talvez lhe cresça a coragem de não se ajustar à norma de privilégios aprofundados em misérias de toda sorte a serem exploradas. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que é o capitalismo que mata e mata e mata pra que uns possam ir pra escola cara enquanto outros sequer tem o de comer e o de morar. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que o capitalismo não é resposta adequada, sem se esconder em desculpas. Se nem isso e nem aquilo serviu, talvez lhe cresça a coragem de ousar outro caminho ainda não percorrido. Talvez. Talvez, até, seja ouvida. Talvez nem a matem. (Marielle Presente, diz a hashtag adesivada no peito).

Deixo o link com matéria (2016) sobre o livro Despejados (Evicted), de Matthew Desmond. Trata-se de um estudo etnografico sobre inquilinos de baixa renda em uma cidade desindustrializada de médio porte. O estudo, mais uma vez, e ainda, parte dos sempre mesmos questionamentos óbvios.

“E se o discurso dominante sobre a pobreza estiver errado? E se o problema não for a suposta carência de moral das pessoas pobres — que elas sao preguiçosas, impulsivas e não tem valores familiares — ou ainda sua falta de habilidade e inteligência necessárias para serem bem adaptados à gloriosa economia do século 21? E se o problema da pobreza é que ela gera lucro?”

Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as mulheres. Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as pessoas não brancas. Como sempre no capitalismo, o privilégio se concentra nas mãos do macho branco da espécie. É a norma. É normal.

Dizia o maluco, “deus me livre de ser normal”.

https://www.theguardian.com/books/2016/apr/07/evicted-poverty-and-profit-in-the-american-city-matthew-desmond-review

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Atualização para processos seletivos

Procurando recolocação no mercado?
Siga as dicas quentíssimas para a entrevista. Não falha!

Qualificação: Não precisa. Admita que não tem qualquer competência e jogue nas mãos de Deus. Seja firme e declare: “tenho certeza de que não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos”.

Honestidade e coerência: Isso é coisa do passado. Palavra não vale nada. Diga o que for preciso, ainda que não tenha como provar. Se pegar mal, diga o contrário imediatamente depois. Repita essa ação até que o interlocutor fique satisfeito.

Titulação: Que bobagem. Você tem Whatsapp?

Princípios éticos: Não caia nessa. “Ninguém é bonzinho”. Admita que é inescrupuloso. Diga que pra você negros devem morrer após atingirem 7 arrobas, quando já “não servem mais nem pra procriar”. Diga que mulheres são inferiores e que jamais estupraria uma que não merecesse. Diga que indígenas são o atraso da nação. Diga que seus concorrentes devem ser “varridos”, “destruídos”.

Direitos trabalhistas: Diga que isso é coisa de encostado. Diga que abre mão de suas horas de descanso, hora extra, CLT, 13o ou férias. Diga que gosta do desafio. Que vc quer ser um ‘colaborador’ da empresa, sem participação nos lucros, sem perspectivas, sem nada, afinal você quer trabalhar, você não quer direitos.

Dica final: Infalivel!

Todo empreendedor de si mesmo deve ter um ídolo. Seja criativo. Ustra tá em alta. Mas você pode mais. Veja algumas sugestoes: Pol Pot, Pinochet, Mussolini, Hitler, Stalin, Erdogan, Bashar Al-Assad, Franco, Salazar. Escolha o seu.

Cativeiro e ferocidade são as únicas possibilidades?

Esse texto é um comentário à coluna de Joaquim Ferreira dos Santos para O Globo em 18/06/2018.

O título é ruim. “Perigo! Bicicleta!” aponta para uma série de lugares comuns que povoam a fantasia das pessoas. O título infeliz alimenta o antagonismo entre indivíduos ao invés de tratar do problema real e indicar quem pode e deve agir para resolvê-lo.

O problema real: quase um século de investimento em infraestrutura segundo a lógica da velocidade centrada na conveniência do motorizado.

O principal responsável e agente de mudança: poder público local, o qual não direi que é omisso para não ser redundante. Droga! Já foi…

A linha fina denúncia a miopia do autor. Nela lemos que “A bicicleta no Rio é o bicho solto. Para ela não existe limite de velocidade, lugar apropriado de transitar ou essas coisinhas miúdas de obedecer mão e contramão”.

Sua visão comprometida faz com que atribua como exclusividade da bicicleta (vamos ler ciclista) aquilo que é, de fato, observado em carros ou motos ou ônibus (vamos ler motoristas).

Faça o exercício. Substitua a palavra bicicleta, na linha fina, por carro, ou moto, ou ônibus, ou van, use a imaginação. Veja se funciona. Funcionou, né?

Ele acerta, no entanto, quando diz que “A coitada não tem culpa. Caiu numa cidade que já tinha escolhido o carro como objeto de simpatia, principalmente por ser um dos pagadores de suas contas. A bicicleta foi chegando de mansinho num lugar onde não cabia mais nada”. Foi chegando, de mansinho. Invisível e invisibilizada. Chegou, como quem chega a uma festa para a qual não foi convidada. Tão logo é percebida, os leões de chácara são acionados para se livrarem dela, como se não fosse nada.

Imagine que a cidade é um bioma complexo. No nosso caso, esse bioma sofreu, e sofre, uma interferência que gerou desequilíbrio entre cada um dos seus essenciais elementos. Como o organismo é vivo, houve adaptação, mas o preço dessa adaptação foi alto. A referência deixou de ser humana, tornando-se inumana. Ruas vazias de gente e repletas de motos, carros, ônibus, caminhões; poucas árvores, muito asfalto e concreto; poucas passagens e acessos, muitas interdições. As interdições aparecem como muros e grades, superfícies inaderentes e espelhadas, cancelas e barricadas. Não se esqueça das balas perdidas da troca de gentilezas entre traficantes, assaltantes, policiais e milicianos. Elas existem, interditam a vida no espaço público e não podem ser ignoradas. E se você for mulher, as interdições são tantas que as paredes de concreto, as grades pontudas e afiadas e até as armas de fogo, em alguns lugares tão naturalizadas, não parecem ser mesmo é nada.

O passeio e o estar virou passagem e trânsito de carros. Este, cada vez mais veloz, mais agressivo e mais violento, em pouco tempo virou congestionamento. A infraestrutura para motorizados ocupa quase todo o espaço público e, ainda assim, esse privilégio não lhe é suficiente. Por isso, reivindica mais e mais. Reivindica e toma. O preço é alto, já sabemos. Paga-se com a vida. A vida sensível e delicada, rara e ordinária, matéria fina que se esgarça e morre. Morre no trânsito, vítima das altas velocidades, da pouca qualidade de vida e do descaso dos nossos governantes.

Nesse contexto, andar a pé é um ato de resistência. Andar de bicicleta é um ato de resistência. No contexto da violência no trânsito motorizado, da invisibilidade e da opressão à tudo o que não for rápido e veloz, a estratégia para seguir resistindo é a guerrilha.

Eu gosto disso? Não. Nem um pouco. Mas, se o trânsito não é apaziguado, se as infraestruturas não passam de maquiagem ou engodo para alimentar estatísticas superdimensionadas, se o poder público ignora, descuida, abandona, o que fazer? Se submeter a lógica dominante do carro? Ficar em casa deprimido sonhando como é linda a Amsterdã ou Afuá ou Paquetá? Sair kamikaze entre carros que trafegam acima de 70km, ou mais? Se expor à “fina educativa” dos motoristas, que seguem impunes e potentes, certos de sua supremacia e invencibilidade? Afinal, você sabe, a culpa sempre é do pedestre ou do ciclista que não estava no sofá, certo?

Ir para a calçada é a resposta possível de muitos para seguir pedalando, uma vez que estão abandonados à própria sorte.

“Ah, mas a pessoa deve pedalar com prudência, quando na calçada”. Óbvio! Ninguém discorda disso. Diria mais. Deve pedalar com prudência na calçada e fora dela. Pedalar, andar, dirigir, beber, comer, … tudo, né?

A cidade em equilíbrio é espaço de convívio. Não se engane, nunca será uma Xanadu, com a Olivia patinando em cima de uma plataforma, em um cenário alvo e luminoso, cercada de gente jovem e sorridente por todos os lados. Não. Vai ter conflito sim, faz parte, mas eles vão se resolver com negociação e não com imposição de vitória pelo uso da violência do mais forte sobre o mais fraco.

O texto do autor erra, erra feio e erra rude, ao colocar toda a responsabilidade sobre o indivíduo. É responsabilidade do poder público garantir políticas e investimentos que harmonizem a cidade e a devolvam para as pessoas.

Isso significa acabar com os carros? Não! Significa que todos agora andarão apenas de bicicleta ou a pé? Não!

Significa, apenas, que um modal motorizado será mais um modal entre tantos outros que também tem direito de ocupar as vias. Significa que escolhendo o motorizado, motoristas deverão estar cientes de que estão sujeitos a limitações sim, inclusive de ocupação das vias e de velocidade. Significa que andar de transporte coletivo, que a gente chama de público sem ser, a pé ou de bicicleta, patins, patinete, ou o que for, vai ser uma opção e não um ato de resistência com o qual pode-se pagar com a vida. Significa que as pessoas estarão no centro das decisões políticas e realizações urbanísticas. Significa que as cidades serão humanas.

Mas, mesmo em seus equívocos, a coluna tem seu valor. Vejo muito ganho em ler com atenção a forma caricata com que o autor pinta “o ciclista”. Parece misturar tudo em uma coisa só, como quando a gente viaja pra um país muito diferente do nosso, e tudo parece exatamente igual. Não temos referência. Não sabemos diferenciar.

O que estamos fazendo para não sermos vistos em nossa diversidade e humanidade? Nós, que também moramos na cidade. Nós, que, entre outros meios, usamos a bicicleta, algo que poderia ser adotado por muitas outras pessoas, mas não é percebido como tal. Iria além. Antes de perguntar se o outro nos percebe em nossa diversidade, a nós, os ciclistas, os que adotaram a bicicleta como meio de locomoção na cidade, devolveria a pergunta para dentro: será que nós mesmos somos realmente capazes de nos perceber na nossa diversidade, ou apenas reconhecemos a imagem do espelho e pintamos caricaturas do que não reflete o que esperamos ver?

Para quem dirigimos o nosso discurso, e qual a qualidade do que é dito? Será que estamos nos comunicando? Se sim, essa comunicação fura a nossa bolha, ou reverbera apenas dentro dela? Lembrando que a bolha, de fato, são bolhas, todas elas são afetadas?

Eu não descarto que tem muito da cultura do motorizado impregnada na percepção e capacidade de interpretação do autor do texto sobre o papel da bicicleta como transporte na cidade. Mas tem muito de nossa in(habilidade) de comunicação aí. Você não acha?

Entre outras coisas, o que temos feito para alimentar esse olhar caricato e reducionista sobre nós, ciclistas ativistas? Isso é responsabilidade nossa. Olhar para os eventos de junho no Rio de Janeiro pode dar uma pista. Olhar para a forma com que o ativismo se percebe e organiza também pode dar uma boa pista. Pensar como essas duas coisas juntas fizeram o nosso junho da bicicleta acontecer como aconteceu também pode ser um bom exercício. Sei que serei antipática por trazer isso, mas acho necessário. Teve alegria e sucesso, purpurina e superação de adversidade? Teve. Mas, também tem muito material para autorreflexão. Sempre é possível melhorar.

Voltando ao autor, a confusão dele em imputar ao ciclista a responsabilidade por um caos e uma truculência que são típicos da cultura que privilegia o motorizado, não é culpa dele. Ele é mais uma vítima, arrisco dizer. A cultura do motorizado deixa muitas vítimas, de tipos diferentes. Algumas vítimas ficarão esmagadas em poças de sangue no asfalto quente. Quantos já perdemos assim? Outras vítimas serão estas, que como o autor da coluna, repetem felizes que desejam a prisão, acreditando piamente que, de fato, estão defendendo a liberdade e a ordem, porque, você sbe, sem ordem não há progresso.

Enfim. Se você soltar um animal silvestre, que passou gerações em cativeiro, de volta na natureza, ele vai morrer. A alternativa é se tornar feral. Cativeiro ou ferocidade são os únicos caminhos verdadeiramente possíveis quando o assunto é reintegrar a bicicleta como transporte no contexto da cidade?

Nem uma coisa (cativeiro) nem outra (ferocidade ou morte) para a bicicleta, certo?

Nos soltaram entre hienas famintas, sem nenhum tipo de amparo. Para não sermos predados, predamos. O “novo” modal, que não é novo, sabemos, pode estar até estar sendo incorporado à rotina urbana, mas a lógica da violência, diante do abandono do poder público e da escassez de infraestrutura e medidas educativas, nos coloca reproduzindo o mesmo comportamento equivocado da supremacia da velocidade sobre a vida. É salve-se quem puder. A responsabilidade por um novo comportamento, mais humano, pode até ser minha e sua, mas antes e primeiramente, é do poder público, é dos gestores e políticos dessa cidade que tem o dever de criar as condições necessarias para o convívio em detrimento do combate.

O texto deveria acabar aqui, mas veja, não posso deixar de pontuar a incorporação da bicicleta na rotina da cidade e a reprodução da lógica da violência com o apoio do poder público, sem falar das laranjinhas do Itaú. É claro que bicicletas compartilhadas são bem-vindas e estratégicas para que mais e mais pessoas adotem a bicicleta em trajetos curtos ou combinando com outros meios de transporte. Mas, quando as estações de bicicletas compartilhadas são instaladas sobre as calçadas, preferindo-se subtrair o espaço do pedestre à rever o espaço dos automóveis, está se gerando um conflito entre ciclista e pedestre. Quando as estações são instaladas sobre calçadas que se encontram em avenidas altamente movimentadas e com fluxo de automóveis em velocidades muito superiores a 70km, sem que haja apaziguamento dessas velocidades ou criação de infraestrutura segregada para ciclistas, onde se espera que os ciclistas que alugam essas bicicletas trafeguem? Ou eles voarão, como a bicicletinha que levava o ET (o que não seria nada mal, né, Joaquim dos Santos); ou se arriscarão entre carros velozes e imprudentes tirando finas; ou imporão sua presença sobre as calçadas, nem sempre bem desenhadas ou bem cuidadas. Aqui, o conflito que se estimula é entre todos, pedestres, ciclistas e automotores.

Veja, a empresa que mantém o serviço alega que faz as instalações aonde a prefeitura determina. A prefeitura… bem, fale com a prefeitura. E no jogo de empurra, motoristas, ciclistas e pedestres, mais uma vez, estão lançados no ambiente hostil do salve-se quem puder, vence o mais forte.

Antes de atacar as vítimas, moradores de uma cidade abandonada à própria sorte pelo poder público e explorada pela parceria deste com a iniciativa privada, vale ampliar o olhar e reavaliar aonde se encontra a raiz do problema e da solução que quer brotar. Porque é de onde nasce o problema que vem a solução. O que não dá é para podar a árvore errada.

Violência argumentativa

Consistentemente sente necessidade de afirmar sua “honestidade intelectual”. Faz isso com a mesma frequência com que acusa seus interlocutores discordantes de “desonestidade intelectual”. Desconhece o debate. O habitat no qual prolifera é o da agressividade e violência. Aí triunfa, sob os aplausos da claque adestrada. Essa, se caracteriza por personalidades que se mostram dependentes, ansiosas por agradar aqueles que identificam como detentores de status e poder. Caracterízam-se pela disposição de engolir toda sorte de sapo com a esperança de um dia receber  qualquer migalha vinda do Olimpo inventado, onde habitam os deuses raquíticos que elas mesmas criaram.

Como é típico aos covardes, quando confrontado, nosso herói às avessas procura esconder sua fragilidade sob o manto vil da virilidade, ingrediente essencial de toda forma de opressão. Se um interlocutor aponta um caminho distinto do seu credo, que assume infalível e inquestionável, responde com a desqualificação do mesmo. Outra estratégia frequente é o argumento de autoridade e a ameaça pessoal. Em sua defesa diz que só trabalha com dados e acusa o interlocutor discordante de miopia ideológica. Curiosamente, insiste em proclamar que é “esquerda liberal”, mas, veja bem, nada do que fala é atravessado por ideologias: alto lá, vítima da ideologia é você, “seu merda”, adjetivo carinhoso que distribui sem economia.

Como bom crente, deposita sua fé no deus mercado, esse punheteiro de mão invisível que o visita nas noites frias e solitárias. Parece que não era nascido em 2008. Reafirma sem titubeios que o mercado tudo salva, tudo regula, tudo protege. Lembra? Em 2008 nosso personagem não era nascido. Não tem como ele saber que não é bem assim que funciona.

Evidentemente, para tudo a melhor solução que oferece é sempre privatizar. Tudo. Sempre.

Calma. Nem sempre. “Em países onde os mecanismos de governança estão consolidados e as instituições são fortes o bastante para inibir e coibir a corrupção, estatais até podem funcionar. mas no Brasil…” No Brasil não. Privatiza. Vende tudo. Não importa para quem. Não importa como. “A solução tem que ser agora!”

E se defede com fatos, diz ele: “Olha os dados que eu trouxe”. Fonte, recorte, metodologia? Para que?  — Olha os dados que eu trouxe. Eles são incontestáveis. Fui EU quem os compilou e analisou. EU que sou intelectualmente honesto, não me questiona, Mas se questionar, tem que ser intelectualmente honesto como EU, senão não vou aceitar. e quem determina sua honestidade intelectual sou EU, e EU disse que você é um desonesto intelectual! Olha minha claque curtindo o que EU falo. Olha como eles ME validam. Shhhhh é que eu faço regabofe pra otário. Boto garrafa de álcool cara na mesa; liberado. Boto tabaco na roda; liberado. Falo pra todo mundo o quanto custou cada gota de cachaça que estou entornando; bebe, você não bebe? Falo pra todo mundo quanto custou cada folha do tabaco que eu estou queimando. E tem mais, isso aqui, isso aqui custou tanto! E isso, nem falo, mentira, falo sim! Custou TANTO! A claque delira.

Divertido ver o dito cujo, o liberal de esquerda, jogando seu canto de sereia pra quem é surdo à melodia.

— Whisky?

— Não bebo álcool. Obrigado. Tem água?

— Charutão cubano?

— Não fumo. Abre a janela? A fumaça tá incomodando. … Ah, puxa, parabéns pela sua compra, mas ela não me interessa.

Como dominar quem não se submete às normas do imaginário que você habita? Não domina. A solução? Hostiliza. Tenta desacreditar. Faz logo um block.

esse cara é um cara tão legal. Um liberal de esquerda. “Prefiro botar dinheiro na mão do pobre do que pagar salário pra funcionário de estatal”, insiste. Eu: “Nossa, essa frase faz todo sentido”. Ele continua: “Você sabe, o funcionário da estatal ganha acima do valor do mesmo cargo no mercado privado”. Evidências? Não precisa. Ele disse. E sabe. Ele sempre sabe.

Pergunto: “Mas as responsabilidades são as mesmas? As competências são as mesmas? Os salários que o mercado pratica são justos? Se há discrepância, o correto seria mesmo jogar todos os salários para para baixo, supostamente para o patamar do mercado, essa criança besta e mimada?”

“Não importa! O mercado não é justo e nem injusto. O mercado regula! O mercado pune! Você tem que ser competente. O que não pode é sustentar vagabundo”.

Então, tá certo. Privatiza. mediocriza o salário de todo mundo. Não trabalha pra fortalecer instituições, democracia, governança. Não dá tempo, né? O papel do Brasil é servir. Esqueceu? Somos o celeiro do mundo. O estábulo. O galinheiro. O puteiro. O cercado dos porcos.

A claque? Curtindo, aplaudindo, repetindo, amplificando. “Ain, professor…”. O bufo afaga o pupilo: bom padawan, vem aqui, pega mais álcool engarrafado que eu trouxe da Ásia, é caro.

Ah, o bufo… como ele é bom.

Entusiamo pela Vida

Claro que teve a clássica brincadeira de esconder dela algum objeto. O “sumiço” e recuperação do celular “perdido” aconteceu quando o bolo ia chegando à mesa. Depois do parabéns e de assoprar as velinhas, um amigo fez uma declaração. Foi tão espontânea e certeira que lembro exatamente das palavras dele.  — Eu desejo para cada um de nós esse mesmo entusiasmo que você mostra por comemorar o seu aniversário, mesmo depois de todos esses anos.

Essas palavras ficaram comigo desde então. Não só as palavras, mas a expressão que ele tinha no olhar. Isso me fez prestar atenção em cada uma das pessoas que estava na mesa naquele dia. Isso foi no dia 22 de outubro de 2017.

Depois disso, um monte de coisas aconteceu. Além dessa comemoração vieram outras para celebrar esse mesmo dia. O dia do nascimento. O dia em que para ela se fez a vida. Veio também o diagnóstico .

Esse entusiasmo não era só pelo aniversário. Estava presente diante do simples, nas coisas do cotidiano, na singeleza do ordinário; como a perspectiva de retomada do grupo de RPG em janeiro de 2018.

Amiga, acho que posso te chamar assim, nesse curto período de dois meses foram internações longas e breves altas para passar as festas em casa. Cada um de nós te desejando o melhor e força. No dia 31 de dezembro, nova entrada no hospital. Hoje a notícia da evolução do quadro. Tenho certeza que muitos são os pensamentos voltados pra você, quem sabe até envolvidos na esperança de um milagre. Somos assim.

O milagre é você. O milagre sou eu. O milagre é cada um de nós. E isso merece mesmo ser celebrado. Sempre. Sem pretextos. E é por isso que me aproprio das palavras bem colocadas do amigo para agradecer por essa lição, e renovar os votos para que  cada um de nós possa encontrar em si esse mesmo entusiasmo seu pelo simples e puro de estar e ser no instante presente.

Nota: ao concluir esta minha pequena homenagem a você recebi a notícia da sua partida. Vá em paz. Fica a saudade, o estarrecimento e a gratidão pela lição deixada.

 

 

 

A humilhação do pedestre

Os shoppings centers na Barra da Tijuca são uma presença vulgar, e parte importante da paisagem monótona e hostil de muros e edificações sem personalidade. No bairro, os shoppings são referência de localização e demarcação de território, ganhando status de acidente geográfico, tal qual um rio, um lago ou um morro.

Contra toda a dinâmica proposta para o bairro, eu costumo circular a pé ou de bicicleta por ruas e lugares feitos exclusivamente para serem vistos de longe e de relance através da velocidade impessoal de quem vai de carro. Não é bonito. Não é agradável.

Seguia pela avenida da Américas, no sentido zona sul. O domingo estava perfeito e a rua vazia de gente, a não ser por aquele grupo à minha frente. Eram 4 mulheres acompanhadas de 4 crianças. Uma das mulheres, a mais velha, gesticulava muito. Olhava ao redor e parecia bastante insatisfeita. Irritada. Chegando perto, pude conhecer o motivo do seu (justificado) descontentamento.

O grupo havia chegado de ônibus. Desceram no ponto em frente ao destino final, mas uma cicatriz imensa as separava do seu objetivo, chegar ao Barra Shopping. Eram 12 pistas de alta velocidade dedicadas ao trânsito de automóveis particulares e coletivos, mais duas pistas exclusivas de BRT – sigla do inglês para transporte rápido por ônibus.

Considerando o BRT, são 14 faixas que precisariam ser vencidas para que pudessem ir de um lado ao outro da avenida. Isso corresponde a 92 metros de travessia, conforme o desenho proposto pelos especialistas. Se o pedestre optar pelo caminho mais curto, que é uma reta, são 80 metros de travessia.

Mas não era a extensão da travessia a pé o que causava consternação. Diminuindo meu passo, ouvi a mulher mais velha questionar o planejamento que colocava um ponto de ônibus tão distante de um ponto seguro de travessia. Para ir de onde saltaram até a faixa de pedestres, o grupo precisaria andar aproximadamente 100 metros em uma calçada desabitada. Aí, poderiam esperar o sinal fechar para os carros e atravessar para a outra calçada – o que certamente não seria feito em apenas um tempo de sinal. Quando, finalmente, chegassem ao outro lado, precisariam voltar os mesmos quase 100 metros, até a entrada do shopping.

A mulher desabafou: “é por isso que eu não gosto de vir aqui! Olha isso! Quem planejou isso? Parece que quer dizer assim pra gente: você não é bem-vindo. Não venha aqui a não ser que tenha carro”.

Me solidarizei. Parei ao seu lado para conversar. Concordei com todas as colocações e argumentos e perguntei se ela sabia que um pouco mais perto do ponto de ônibus havia uma travessia subterrânea. Tinha que andar, mas era bem menos.

Ela disse que já trabalhou ali perto e que conhecia a travessia subterrânea, mas que preferia não usar. “Já fui assaltada ali duas vezes. E tive amigas assaltadas também. Não tem segurança. Você não sabe o que pode encontrar lá embaixo. É ruim, mas acaba sendo preferível andar tudo isso a atravessar naquele ‘buraco’. A gente se sente tão insegura que, se estiver cansada mesmo, ou se estiver chovendo, acaba se arriscando entre os carros, só pra não ter que andar tudo isso ou enfrentar a passagem subterrânea. Imagina, eu estou com 4 crianças…”

Ela tinha razão. Assenti. Entendi.

Nesse momento, já estávamos bem perto da travessia de pedestres. Eu ia me despedindo, quando ela falou: “agora é a outra parte da humilhação do pedestre. Tem que correr isso tudo aqui”. E ela riu.  “Se não correr não chega de uma vez, tem que esperar mais um ou dois sinais, dependendo da sua velocidade. E isso, minha filha, que eu quero ir ali naquele shopping pra gastar dinheiro. Eu quero ir lá gastar, e preciso passar por isso tudo. É por isso que não gosto de vir aqui.”

“Vai com Deus”, disse ela. Sorri, me despedindo.

 

Ser pedestre na Barra da Tijuca

O dia em que fui de BRT até o Bosque da Barra

Para quem não conhece o bairro, o Bosque da Barra fica sobre as avenidas Américas e Ayrton Senna. Está quase em frente ao Terminal Rodoviário Alvorada, um ponto nodal para quem vem da Linha Amarela, da praia, da Zona Sul ou do Recreio.

Perto e longe, o Bosque está isolado do acesso por transporte coletivo por um vasto rio de aço correndo ameaçador, barulhento e em alta velocidade, em todas as direções.

Embora irônico, usando o BRT existem alguns caminhos possíveis. Irônico, porque o que a experiência mostrou foi a impossibilidade dos percursos a pé.

Hipótese 1 – saltar na estação Terminal Alvorada e brincar de equilibrista

Já do lado de fora do terminal, o pedestre vai costear a fachada gradeada e sem calçada, espremido entre o trânsito e o terminal rodoviário.

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Caminho usado por pedestres sem segurança alguma. Fonte: googlemaps

Em seguida, passando por baixo de um elevado, chegará a uma agulha que separa o fluxo de motorizados que vem da avenida Ayrton Senna em direção à Barra em dois destinos: praia e Recreio. Evidentemente o pedestre está do lado direito. Sem qualquer ponto de travessia, irá aguardar aquele momento especial para correr até o gramado que forma a agulha.

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Caminho usado por pedestres próximo à Cidade das Artes e Bosque da Barra: googlemaps

Quase lá. Agora só falta esperar mais um pouco e correr para uma última travessia sem segurança. Já na calçada do Bosque, o pedestre irá caminhar até a entrada do mesmo, acompanhando uma grade verde, que ‘brinca’ com dentro-fora.

Hipótese 2 – saltar na estação Terminal Alvorada e escalar uma passarela que não leva até o parque

Não quer passar por isso? Não tem problema. Saia do Terminal Alvorada e suba as escadas de acesso à passarela para atravessar a avenida. Você não vai chegar no Bosque ainda. Na verdade, andou mais e ainda se afastou do seu objetivo. Persevere.

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Passarela no Terminal Alvorada. Fonte: googlemaps

Já na calçada em frente ao terminal rodoviário, siga em diração à avenida das Américas e vire à esquerda, sobre a calçada. É bonito? Não, mas continue.

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Calçada em frente ao Terminal Alvorada. Fonte: googlemaps

Continue até não chegar a nenhum lugar adequado para a sua travessia segura. Aguarde a hora de correr e corra! No canteiro central, aguarde novamente e corra! Ainda não acabou. Repita essa operação, espera e corre mais duas vezes. Parabéns. Caso tenha sobrevivido, você vai poder desfrutar de um dia lindo com a família no bosque bucólico de vegetação e fauna característicos.

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Travessia informal usada pelos pedestres em Avenida das Américas. Fonte: googlemaps

Ah, mas não tem outro jeito? Tem. É o caminho da hipótese 3.

Hipótese 3 – saltar na estação Bosque da Barra

Gente, mas se tem uma estação de BRT com o mesmo nome do lugar que eu quero ir, é claro que é nessa estação que eu tenho que descer. Blogueira desgraçada, me fez ler tudo isso pra que?

Eu sei, e eu também pensei assim. E foi exatamente nesta estação que eu desci: Bosque da Barra. Mas aí…

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Percurso a pé entre BRT Bosque da Barra e o Parque. Fonte: googlemaps

Aí, acontece que o sinal fica do lado oposto ao que você quer ir, então, você vai sair da estação e andar em direção ao Recreio. Atravesse por uma espécia de retorno, sem faixa de pedestre, nem nada, e aguarde o sinal fechar para atravessar na faixa. Olha a vantagem. E ainda tem sombra.

Só que como aí não tem nada, não é raro que você se veja ilhado entre pistas de automóveis para os dois lados, e a mercê de algum tipo de assédio na rua. Neste ponto, por causa do congestionamento constante, e da ausência de vida, é comum encontrar grupos de adolescentes trabalhando-pedindo-assaltando no sinal.

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Vista da faixa de pedestre na estação BRT Bosque da Barra. Fonte: googlemaps

Mas agora você atravessou. Está na calçada certa. É só caminhar até o bosque. Não. Você não está em lugar nenhum. Você está sobre mais um canteiro, que desta vez, separa a avenida movimentada da “rua residencial”, em frente ao conjunto de condomínios fechados.

Pode seguir pela calçada dos prédios? Pode, mas não vai longe. Então, o melhor é seguir pelo canteiro gramado. Imagina na chuva.

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Canteiro em frente à estação BRT Bosque da Barra. Fonte: googlemaps

Você vai andar por aproximadamente 10 minutos pelo chão de grama e terra, até chegar a um posto da Guarda Municipal. Não desista. Está quase lá. Atravesse como puder, porque não tem sinal de trânsito e nem faixa de pedestre, e vá até o muro horroroso do outro lado.

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Calçada em frente ao posto da GM. Fonte: googlemaps

Acompanhe esse muro. Olha aí. Vagas para idoso pintadas no chão. Calçadinha pra você andar. Tá bonito. Mais um pouco e já começa a grade do parque.

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Calçada e vagas de idoso junto ao muro do parque. Fonte: googlemaps

Agora não tem erro. Você está seguro. A grade verde e vazada quase que aproxima o parque de você e da rua. Em breve, vai ver uma movimentação humana. É a entrada do parque. Divirta-se e nem pense em como vai sair daí depois do passeio. Viva uma coisa de cada vez. Esse é o segredo da felicidade.

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A grade do parque. Fonte: googlemaps