Pequenos cuidados

Recentemente em um debate público sobre ciclo-entregadores, serviços de entregas por aplicativos e segurança viária uma liderança social desencorajava discussões e ações de estímulo à segurança pessoal e orientações para o trânsito seguro junto a esse público, que vem crescendo como reflexo da crise econômica e do aumento do desemprego formal. A liderança em questão é a jornalista e cicloativista Renata Falzoni. Ela argumentava que “a presença desses garotos”, normalmente das periferias, “nas ruas era uma forma revolucionária de ocupação das cidades” e que “querer regular essa ocupação e determinar como devem se movimentar é tampar os ouvidos para o que podemos aprender e devemos mudar para tornar as cidades mais humanas”.

Procurei entender a fala como uma tentativa de tirar o foco do aspecto disciplinador dos agentes de trânsito (pedestres, ciclistas, motoristas …) para privilegiar o questionamento sobre a violência de um modelo de planejamento que favorece um determinado modo de transporte ao ponto de praticamente inviabilizar todos os demais. No entanto, escutando com mais cuidado, a colocação me pareceu irresponsável e romântica, ao mesmo tempo.

A irresponsabilidade: minimizar, senão retirar da equação, o fato de que a disputa (como ela se dá) por esse espaço (como ele se apresenta) está matando justamente esses que já são os que nossa sociedade mais mata: rapazes jovens das periferias.

Disseminar e discutir questões ligadas à segurança pessoal e práticas para um transito seguro não me parece tampar os ouvidos para nada. Ao contrário, me parece um oportunidade de escuta, atualização e sensibilização de um maior número de pessoas para os fatores que fazem do nosso trânsito brasileiro um dos mais violentos do mundo, ajudando a democratizar e qualificar o debate para mais camadas da sociedade.

O alcance das pautas que o cicloativismo propõe é restrito a um determinado segumento da sociedade, que sem medo de errar eu diria que é justamente a parcela que marca uma ou mais caixinhas de privilégios. Ter a oportunidade de chegar a públicos com os quais sempre desejamos dialogar não pode ser desperdiçado. E note, é dialogar. Dialogar não significa chegar com verdades, mas chegar com escuta.

As pessoas que hoje compõem o trânsito do Rio de Janeiro como ciclistas entregadores, em sua maioria, não possuem vínculo formal de trabalho nem com a empresa de aplicativo, nem com a empresa que fornece o produto da entrega e nem com o consumidor final. Portanto, sua segurança não é uma questão para ninguém a não ser elas mesmas. Enquanto ciclistas e trabalhadores precarizados, sua segurança também não é uma questão para o poder público. O que não faz sentido nem do ponto de vista humano e nem econômico, porque desconsidera perdas econômicas para o país tanto por morte, invalidez permanente ou temporária de pessoas econômicamente ativas, quanto por e sobrecarga ao sistema público de saúde. Assim, nesse lugar de abandono, descaso e descuido, se aproximar desse público para construir diálogo e estratégia de enfrentamento, sobrevivência e segurança no ambiente hostil, não é apenas uma oportunidade para o cicloativismo ampliar sua base crítica, mas é a atitude ética e humana a se tomar.

Ao defender a não ação e a não responsablização tanto do movimento cicloativista quanto dos trabalhadores precarizados, a liderança não apenas faz eco ao coro dos que abandonam à própria sorte aqueles que já acumulam um lastro de abandonos. Ela também assume uma posição confortável (e fantasiosa) de capitalizar ganhos para sua agenda a partir de um supostamente natural rearranjo da cidade para uma condição menos violenta, ironicamente construída a partir de um lugar de exploração e predação de despossuídos ou desesperados.

O romantismo: assumir que os tais garotos de periferia estão ocupando as ruas de bicicleta porque para eles essa é uma causa, e que a presença (inconveniente) de seus corpos (descartáveis) explorados em uma economia falida por meio de um trabalho inseguro, insalubre e mal remunerado nas ruas irá sensibilizar a sociedade brasileira que elegeu o fascismo ou os governos fascistas por ela eleitos.

Ao afirmar isso, está-se fazendo uso, em causa própria, de uma parcela da população que não necessariamente é sensível ou familiar ao debate sobre a mobilidade ativa. Desconsidera-se que, se esses corpos estão na luta e na rua disputando espaço em um ambiente hostil, e muitas vezes pagando com a vida, eles aí se encontram não por identificação à causa, mas por necessidade de trabalho em um contexto de crise econômica, desemprego e precarização laboral. É apenas mais uma expressão de desamparo.

Na reportagem de Leandro Machado para a BBC Brasil isso aparece com bastante clareza. A bicicleta como opção é uma expressão da ausência de opção. Seria, portanto, o primeiro passo possível para gerar alguma renda, até que se tornasse viável conseguir algo percebido como mais conveniente e desejável: um transporte-meio de trabalho motorizado: a motocicleta.

Dos fatores apresentados na reportagem para que a moto seja cobiçada em detrimento da bicicleta, destaco este: o rendimento gerado pelos ciclo-entregadores corresponde à metade daquele gerado pelos entregadores de moto. Mesmo que os ciclistas trabalhem mais horas e gastem mais energia (talvez até correndo mais riscos), o resultado financeiro fica aquém daquele que seus parem em motocicleta são capazes de fazer. O tipo de relação com a bicicleta e o desejo de mudança de transporte fica bem expresso por essa frase dita por um dos entrevistados: “Agora que já tenho as manhas do trabalho, que já conheço as ruas, só me falta um motor.”

Ainda que possamos identificar um ponto em comum entre o cicloativismo e a realidade dos ciclo-entregadores circunstanciais, a dizer, desejo de sobreviver à barbárie, não devemos confundir a causa de um com a causa de outro. Para os primeiros, a pauta se adere à luta por um trânsito mais seguro, de paz e limpo. Já, para os outros, a luta parece mais imediatamente ligada à necessidade de gerar meios para pagar um teto e a comida.

Ao sonhar com a troca da bicicleta pela moto, o ciclo-entregador espera melhores ganhos. E isso não configura traição à uma causa que jamais foi dele. No entanto, acredito que aqueles que estão conduzindo ações em prol da agenda da bicicleta como transporte podem conquistar mais atores para a sua causa por meio de debates sobre segurança pessoal e práticas para um transito seguro junto aos ciclo-entregadores, mesmo que sua condição seja meramente circunstancial.

Pense que se esse trabalhador que usa a bicicleta desconhece as condutas seguras ou, se conhece, escolhe ignorá-las, quando mudar de transporte, assumirá as mesmas condutas pobres e perigosas. No entanto, agora, seu grau de letalidade cresceu com a capacidade aumentada de velocidade do novo veículo e com o porte do mesmo. Perdem todos. A necessidade de apaziguar o trânsito, investir no compartilhamento e diminuir as velocidades dos motorizados não concorre com a necessidade de que as normas de trânsito sejam conhecidas, praticadas e fiscalizadas. Disciplina é importante sim.

A questão, porém, não começa e acaba nos trabalhadores de entrega, seja por moto ou por bicicleta. Ao invés disso, ela se estende ao Estado, aos empresários/comerciantes e aos consumidores que fazem uso da conveniência da entrega em domicílio.

Clientes consumidores

Parece bastante fácil para os clientes consumidores, no conforto de suas casas ou escritórios, deixar de avaliar qualquer outra variável que não seja a rapidez das entregas no que diz respeito ao seu grau de satisfação com o serviço. Seria o caso de promover alguma campanha que sensibilize esse cliente para a ampliação dessa percepção de qualidade, envolvendo-o como corresponsável por um trânsito mais seguro? E se houvesse alguma certificação ou selo de empresa responsável com a vida no trânsito, que ajudasse o cliente consumidor a identificar e escolher aquelas prestadoras de serviço que estão mais de acordo com seus princípios morais e valores? Já pensou nisso? Talvez, de quebra, ainda viesse o bônus de, quem sabe, sensibilizar esse público também para questões relativas à segurança e dignidade do trabalho dos profissionais de entrega.

Empresários e comerciantes

Imagine se as empresas que atuam como prestadoras de serviço de entregas por moto ou bicicleta, não importa, fossem avaliadas quanto a sua responsabilidade pela promoção de um trânsito seguro. Será que assim haveria o cuidado de orientar os trabalhadores para condutas seguras no trânsito? Será que isso refletiria na diminuição do número de infrações? E o que aconteceria com o número de acidentes?

Houvesse um selo que certificasse a responsabilidade social da empresa prestadora de serviço, os comerciantes poderiam escolher a empresa que iriam contratar conforme sue afinidade ética. Do mesmo modo, os consumidores finais, o cliente que solicitou a entrega em domicílio, poderia mapear tanto os comércios quanto as prestadoras de serviço mais afinadas com o que considera justo, desejável e correto.

É possível que se assim fosse, todos cuidando juntos pela segurança de todos e do trânsito, metas de agilidade e rapidez que colocam vidas em risco não fossem mais impostas, considerando tempos impossíveis de serem cumpridos sem que infrações de trânsito estejam no repertório das atitudes esperadas, conhecidas mas, convenientemente, ignoradas por todos.

Talvez, nesse dia, não tenhamos mais que ouvir mais justificativas como esta que recebi de um gerente de uma rede de pizzas na zona sul do Rio de Janeiro, a Vezpa: “o pior que pode acontecer em um acidente com algum de nossos motoboys é a gente perder o pedido”. Entende? O pior não era o acidente machucar ou matar uma pessoa, ou muitas. O problema era perder o pedido.

Estado

Ao Estado, evidentemente, cabe ações de sensibilização e educação para o trânsito, além de oferecer as condições adequadas de segurança e conduta e incentivar as melhores práticas, por exemplo, por meio de uma certificação ou selo que ateste a responsabilidade do prestador de serviço e do motorista.

Todos fazem parte de um sistema, e o sistema tem regras sim. Caso não estejamos dispostos a lidar com isso, com ou sem motor, o certo é que vamos continuar impondo para parcelas importantes da sociedade uma relação de trabalho desequilibrada, insegura e indigna. Mais que isso, vamos continuar impondo um ‘ambiente de trabalho’ que tem a característica de ser violento e que aparece como um dos que mais matam pessoas no mundo: o trânsito brasileiro.

Mais uma morte no trânsito. Até quando?

O desequilíbrio das forças é absurdo. Embora nossa presença mobilizada e coletiva nas ruas tenha força, como mulher, pedestre e ciclista me questiono sobre a honestidade da mensagem quando experimento a inviabilidade planejada do meu corpo desarmado na cidade.

Desarmado sim. Ir a pé, ir de bicicleta, é ir sem armadura e sem arma. Os governantes dessa cidade investem em políticas públicas que fazem dela uma cidade que mata. Os governantes dessa cidade, desse estado, desse país, nos matam em todo lugar. Em toda esquina. De muitas formas. Por nenhum motivo. Mesmo porque, nenhum motivo justifica qualquer morte.

Existem muitos tipos de ciclistas na cidade. Um deles é o atleta. É linda a conquista de Áreas de Proteção ao Ciclista. Que venham mais. Mas, e quando não se está nela, como faz? E quem não é atleta, e quem apenas quer se deslocar pela cidade de forma saudável, eficiente, divertida, humana e barata, como faz?

Domingo, indo de carro para a zona sul, vi dois ciclistas de passeio, uma moça e um rapaz. Eu saia do túnel. Eles precisavam entrar, pois o acesso pela calcada compartilhada foi interditado em face aos desmoronamentos e mortes causados por uma obra superfaturada. Saí do túnel no sentido zona sul. Eles entraram no sentido oposto, em direção à zona oeste.

Loucura? Imprudência? Resistência?

Cada um especule o que quiser.

A mobilidade, a liberdade de ir e vir, é um direito. O Estado tem o dever de ofertar opções diversas, sustentáveis e seguras de deslocamento.

No mesmo domingo, voltando para casa já de noite, vi mais um ciclista no mesmo túnel. Um homem sozinho.

Não era atleta. Não era cicloturista. Mais uma vez, era apenas uma pessoa indo do ponto A ao ponto B.

O homem seguia pelo elevado do Joá, pequeno, vulnerável e ágil pela borda da pista. Motoristas passavam apressados, aparentemente irritados com aquela presença que os obrigava desacelerar.

Arriscado? É. Os carros passam muito acelerados. Acelerados demais para ser compatível com a vida. Qualquer vida. Até mesmo a vida de quem viaja dentro da armadura de aço.

Muitas devem ser as mortes por atropelamento de ciclistas e pedestres que não fazem manchete. Outras, por motivos não ignorados, fazem. Essa morte fez, chegou aos jornais.

Não é a primeira vez que, apesar das áreas de proteção ao ciclista, os atletas morrem atropelados, seja indo para o treino, voltando, ou mesmo durante o treino.

Mas morrem também ciclistas urbanos. A velocidade que mata não escolhe categoria, gênero, raça ou classe social.

De que adianta popular a cidade com estações de bike compartilhada, patinetes elétricos e o que vier de novidade, sem garantir o básico da proteção à vida: um transito desacelerado, ordenado, bem sinalizado e a certeza da fiscalização e da punição para infratores?

Não pense que as empresas privadas que oferecem os serviços de mobilidade alternativa ao carro vão espontaneamente se associar à causa da mobilidade. A mobilidade sequer é pauta para essas empresas e seus gestores. Para eles, a mobilidade é um negócio.

Se o Estado, sem cuidado, permitiu a exploração do nicho ‘mobilidade urbana ativa’ por particulares, não será a empresa que irá fazer qualquer movimento para reduzir acidentes ou brigar pela melhoria, qualidade e segurança das vias.

Alguma contrapartida deveria ser oferecida por quem lucra, muitas vezes na forma de monopólio do mercado. A maioria dessas empresas funcionam por aplicativos. Dado, uma grande fonte de riqueza, é algo de que dispõem. O mínimo, seria dar transparência a esses dados.

Tipos de viagens, distancias, durações, frequências, ocorrências… tudo isso poderia ajudar a mapear prioridades de investimento na qualidade e a segurança do transito. E isso é apenas uma pequena coisa possível. Outras ideias? Por exemplo, porquê não exigir uma percentagem dos lucros obtidos pela exploração do mercado de mobilidade ativa para custear implantação e conservação de mobiliário urbano para ciclistas e pedestres, sinalização, melhoria das calçadas, campanhas educativas, entre outros?

A mais essa família em luto, me solidarizo.

https://oglobo.globo.com/rio/empresario-morre-atropelado-por-onibus-quando-treinava-de-bicicleta-na-barra-23533396

Ser normal

É uma pessoa muito boa. No Natal faz caridade. Leva cesta básica pra uns pobres.

É uma pessoa muito engajada. Distribui cobertores pra morador de rua. Dá até prato de comida. Às vezes, nem é resto.

É uma pessoa muito consciente. Não come carne vermelha, evita plástico, faz até mutirão de limpeza do lixo.

É uma pessoa muito ajustada. Joga o jogo, não faz marola. Mas o jogo mata. Até o cidadão de bem sabe disso. Só que quem morre é o outro. “É ele ou eu. Que seja ele”.

De boa vontade em boa vontade, quando dá, o cidadão de bem se exime de pensar nos privilégios que detém. Livre de pensar, não questiona a engrenagem que mata e mata e mata. Finge, assim, que nem percebe que essas mortes garantem seus pequenos (ou grandes) luxos. Iludido (nem sempre), ignora que também está morrendo em nome desses mesmos privilégios. Uma morte diferente, talvez. Ainda assim, não menos morte.

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Tateia na cômoda, buscando suas bolinhas. Vasculha a geladeira atrás de doces. Se acaba na noite. Vira todas no carnaval. Ah, o carnaval. Vamos sair de laranjal, fazer marchinha contra o racismo, a homofobia, o Capetão. Somos muito críticos, cultos, amamos cinema, andamos de bicicleta. Já falei que não comemos carne?

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Por temer e evitar a morte, a sua e a dos seus, o cidadão de bem, que sabe o que tem valor, cria seus filhos na escola cara. Na escola cara tem um programa incrível voltado pro desenvolvimento socioemocional da criança rica, essencial pra formar um cidadão de bem, bem ajustado. Afinal, “ninguém quer ser ponta de lança”. Nossas inovações tem essa característica de inovar pra não sair do lugar. É um primor.

A educação inovadora do século 21 precisa pensar, portanto, muito além dos conteúdos tradicionais – esses que Damares, com seus diplomas falsos, diz que os pais “podem aplicar mais” em casa.

A educação do século 21 precisa educar o ser integral, capaz de reconhecer, nomear e fazer bom uso de suas emoções. Não serve só juntar letras e fazer as operações básicas. Isso é claro.

É claro, se você é cidadão de bem.

E, assim, nomeando suas raivas, tristezas e medos, a criança que recebeu sua educação integral se tornará também um cidadão de bem.

Com sorte, porém, não será assim. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que esse jogo não joga mais. Talvez lhe cresça a coragem de não se ajustar à norma de privilégios aprofundados em misérias de toda sorte a serem exploradas. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que é o capitalismo que mata e mata e mata pra que uns possam ir pra escola cara enquanto outros sequer tem o de comer e o de morar. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que o capitalismo não é resposta adequada, sem se esconder em desculpas. Se nem isso e nem aquilo serviu, talvez lhe cresça a coragem de ousar outro caminho ainda não percorrido. Talvez. Talvez até seja ouvida. Talvez nem a matem. (#MariellePresente, diz a hashtag adesivada no peito).

Deixo o link com matéria (2016) sobre o livro Despejados (Evicted), de Matthew Desmond. Trata-se de um estudo etnográfico sobre inquilinos de baixa renda em uma cidade desindustrializada de médio porte. O estudo, mais uma vez, e ainda, parte dos sempre mesmos questionamentos óbvios.

“E se o discurso dominante sobre a pobreza estiver errado? E se o problema não for a suposta carência moral das pessoas pobres — que elas são preguiçosas, impulsivas e não tem valores familiares — ou ainda sua falta de habilidade e inteligência necessárias para serem bem adaptados à gloriosa economia do século 21? E se o problema da pobreza é que ela gera lucro?”

Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as mulheres. Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as pessoas não brancas. Como sempre no capitalismo, o privilégio se concentra nas mãos do macho branco da espécie. É a norma. É normal.

Dizia o maluco, “deus me livre de ser normal”.

https://www.theguardian.com/books/2016/apr/07/evicted-poverty-and-profit-in-the-american-city-matthew-desmond-review

Consciência e atuação política é imprescindível. Reavaliar o modelo econômico é urgente.

Não é “só” o mau cheiro. Além de prejudicar a sobrevivência da fauna e da flora, e mesmo o sustento de comunidades de pescadores, o lixo lançado diariamente na rede hídrica também prejudica a saúde das pessoas.

E não é pouco lixo.

Para você ter uma dimensão da coisa, em menos de duas horas de mutirão 17 voluntários recolheram 6 mil litros de lixo de um pequeno trecho à margem do Canal de Marapendi. A variedade do que foi encontrado você vê nas fotos.

Esse mutirão não é o único. São muitas iniciativas que acontecem de modo articulado ou independente. Ainda assim, o lixo parece não ter fim. Todo dia ele volta, arrastado pelas correntes das águas ou simplesmente abandonado ali.

Já pensou como isso prejudica a sua vida? Você percebe o prejuízo para a economia, o turismo, ou mesmo o valor do seu imóvel? O que você pode fazer para evitar a degradação desse ecossistema e o empobrecimento da sua cidade tão aninhada nessa natureza?

Conheça seu lixo. Consuma menos. Reaproveite e reutilize. Questione “conveniências”. Mas, exija e lute por políticas que multipliquem o seu esforço, para que as iniciativas individuais não se percam.

Consumismo – alegria efêmera, danos duradouros

Após romper sua carapaça, a cigarra experimenta um período de vulnerabilidade até formar uma nova estrutura que a proteja e sustente. Esse processo de transformação chamado de ecdise é o que permite o crescimento da cigarra.

Mudar nossos hábitos, certezas e verdades também pode nos deixar vulneráveis. Por isso é tão comum resistir ao não conhecido e até brigar para manter tudo exatamente como é, afinal, dizem que em time que tá ganhando não se mexe. Mas será que o time tá mesmo ganhando?

Quando a gente pensa no impacto dos nossos hábitos sobre o meio ambiente parece que não é bem assim. De fato, nem o nosso time e nem nenhum outro está ganhando.

Já parou para fazer essa reflexão? Reflita sobre seus hábitos de consumo e descarte. O que você pode mudar? Com quais certezas deve romper para crescer em consciência e cidadania para uma vida sustentável?

Impressões

Em delírio messiânico, diz que Deus não escolhe os preparados, mas prepara quem escolhe. No discurso de posse, a mensagem é que foi eleito por esse Deus. À mesa, uma Bíblia, a Constituição Federal, uma referência à Churchill e outra à Olavo de Carvalho.

Fez mais de um pronunciamento. Cada um dirigido a um público. Cada um veiculado por um meio diferente. Privilegiou o espaço informal das redes sociais que o elegeram.

A imprensa precisaria se adequar. Fez imposições e mesmo ameaças. Tem recebido as coletivas em casa. Seleciona quem irá receber. Oferece sempre a parte externa que parece um alpendre, varanda ou mesmo uma garagem. O lugar é decorado de entulhos aparentemente esquecidos naquele espaço sempre descuidado, como se o anfitrião não desse muita importância para o que pensam dele. Mas dá e é tudo muito calculado.

A um só tempo, a cena mostra uma figura arrogante e despretensiosa, autoritária e humilde, poderosa e ordinária.

Na coleção de objetos vemos símbolos que reforçam a narrativa: militar, intimista, mundana, violenta, familiar, religiosa, nacionalista. Os olhos do eleitor (adorador?) podem escolher o objeto que preferirem para adornar seu mito. A personagem é fugidia e pode assumir a forma de quem a idealiza. Os figurinos ajudam a compor a cena, comunicando as mesmas ideias que os objetos aparentemente esquecidos e desimportantes que constituem o cenário.

No teatro, a expressão corporal não passa sem ser notada. Sempre rígida em um misto de desconforto, tensão e inadequação, a um passo do descompasso, da manifestação violenta de quem ataca pra se defender. Rígidos são os músculos da face, a moldura torta e murcha dos lábios e a ausência do olhar que parece ver nada e nem ninguém.

É assim que o novo presidente faz suas primeiras aparições após os resultados das urnas, antes da posse. A locação ‘improvisada’ mostra que será a regra não prestigiar a imprensa, não respeitar esse trabalhador, não cuidar da imagem que chega nas casas de cada brasileiro e de cada brasileira em cada canto do Brasil. Hostilidade, desprezo, pequenas demonstrações de poder e força, e amadorismo são a tônica.

Todo quadro tem aquilo que transborda. Nesse quadro presidencial transborda o trânsito de homens mal encarados, entre eles, os próprios filhos. Não há leveza. Não há sorriso. As roupas ostentam um padrão escuro ou camuflado. Em cada detalhe a brutalidade, a ameaça e a demonstração de força e violência estão presentes.

Na rua da praia, em frente ao condomínio que serve de locação, com a mesma estética, com o mesmo espírito, uma turba de contentes faz arma com as mãos. A massa elogia assassinos e torturadores, faz ameaças a tudo o que não cabe na sua pobre imaginação e dança uma micareta ao som de mito.

Eles gritam “Mito” e sofrem porque o peteeeeeeeeeeee

“Toupeiras são pequenos mamíferos adaptados a um estilo de vida subterrâneo. Eles têm olhos e ouvidos muito pequenos e imperceptíveis”.

Não enxergam e não ouvem nada.

Prisioneiros voluntários do auto-engano, desbotaram as cores da bandeira gritando indignação contra a corrupção. Agora batem no peito com orgulho: somos todos caixa 2.

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Bom dia, Rio de Janeiro.

Imagem: Fernanda Garrafiel/G1 (8.10.18)

Paes sai eleito no Jardim Botânico. Tarcísio, em Laranjeiras. Witzel vence em todas as demais áreas. O quanto de milícia e igreja elegeu esse homem é algo que me pergunto. Mas não foi só isso, embora isso seja relevante.

Já eleito, com a arrogância inflacionada pela estrondosa vitória nas urnas, Witzel confirma o que prometeu em campanha: o abate de quem estiver portando fuzil está liberado, snipers serão disponibilizados. O excludente de ilicitude estará aí pra amparar qualquer ação (repressora, criminosa ou violenta) da polícia.

Pra quem acha que é “só” bandido armado que vai morrer, lembre do homem que levava um guarda chuva e foi alvejado e assassinado. Entenda que não precisa nem mais da desculpa do guarda chuva. Mas você já entende isso.

Pra quem acha que a morte de inocentes é o preço a ser pago pra “limpar” a cidade, não se iluda. A arma é pretexto. O que se caça é gente de pele preta. Mas você já sabe disso.

Se você acha que está tudo bem, porque a cor da sua pele te salva, porque você mora no asfalto, na outra parte da cidade, lembra que o Rio de Janeiro é um estado cercado de favelas por todos os lados. O asfalto é exceção. A janela do quarto do seu filho olha pra favela. E a favela olha pra ela. O seu caminho pro trabalho, pra escola, pra casa de praia e até pro aeroporto (esse lugar que é sonho da classe média covarde que sonha com a fuga mágica para Portugal), tudo isso olha pra favela. E a favela olha de volta. Se a polícia tem sniper liberado pra matar dentro da favela, não pense que a criminalidade que se esconde na favela vai pensar duas vezes antes de atirar. E você, no seu caminho pro trabalho, o seu filho na volta da escola, a sua filha no sono de princesa, sua família na fuga pra Portugal, cada um de vocês também pode ser também alvo. Só que agora, não mais acidental. Mas você vai rezar pra tudo dar certo. É torcer, né, que vocês falam…

Se a polícia já morria muito em confrontos contra o crime, agora que o abate está liberado, como você pensa que os bandidos armados vão responder? Com mais ou com menos violência? Se na sua família tem policial, ele também vai morrer, provavelmente mais e de forma ainda mais violenta. E não precisa ser só no serviço de combate ao crime armado. Se já era sentença de morte um policial ser surpreendido em um assalto durante um passeio com a família, agora talvez você nem precise apresentar a insígnia da corporação presente nos seus documentos pra virar vítima. Basta que o bandido apenas “ache” que você é PM, assim como bastará a polícia apenas “achar” que você parece bandido, porque você tem a cor da pele “errada”, porque seu guarda-chuva parecia um fuzil. Mas era só um trabalhador. Mas era só um guarda-chuva. Mas era só uma vida. Só isso. Uma vida. E 2018 ensinou pra gente que uma vida não importa. Que o brasileiro gente boa quer mesmo é morte. Afinal, o presidente foi eleito dizendo que o erro da ditadura (que nunca existiu, ele diz) foi torturar sem matar tanto quanto podia, tanto quanto deveria. “Uns 30 mil”. Lembra desse número, por que ele vai ficar curto. Mas é isso o que você quer. É?