Atualização de referências pra gente asquerosa

Witzel não é bobo. Tudo pra ele é palanque.

Em agosto de 2019, um rapaz fez de reféns os passageiros de um ônibus. A operação durou cerca de 4 horas e terminou com o sequestrador sendo baleado e morto por um sniper. Houve controvérsia quanto ao, assim definido, sucesso da operação. Indagações quanto a uma possível inabilidade da no processo de negociação e sobre a real necessário o disparo do sniper são algumas das questões que ficaram mal respondidas. Não vou entrar nesse mérito, porém. O ponto aqui é destacar a inadequação e a inadmissibilidade quanto ao comportamento do governador do estado do Rio de Janeiro.

Eleito na sombra das afinidades de prateleira com o ultradireitista Bolsonaro, servo dos interesses conservadores de falsos moralistas e liberais de mercado, o ilustre desconhecido, hoje governador do Rio, já foi protagonista de atrocidades diversas. Uma das primeiras informações sobre sua biografia foi um vídeo onde ele, ainda juiz, palestra para outros magistrados sobre formas de corrupção a fim de obterem vantagens financeiras manipulando as brechas da lei. A partir daí, fica difícil elencar quais das suas manifestações públicas são mais desprezíveis. Para fins ilustrativos, a fim de expressar a dimensão grotesca do quadro, relembro, com pesar, de alguns eventos.

Cena grotesca 1 com participação mais que especial de Witzel, o asqueroso: desrespeitoso vandalismo com a memória de Marielle Franco, cujo assassinato ainda segue sem respostas.

Nesta ocasião, o mesquinho ex-juiz aparece em palanque de comício com o microfone em mãos. Ao lado dele, os deputados, não menos asquerosos, Daniel Silveira e Rodrigo Amorim eleitos pelo PSL, partido do também eleito presidente Jair Bolsonaro, vandalizam a placa em homenagem à deputada assassinada por milicianos muito próximos ao clã Bolsonaro. O ato é simultâneo à entrega de mais um discurso de ódio e intolerância que incita a violência.

Ao discurso e ao ato, Witzel, o dono do comício, oferece seu apoio. Felizes, os três posam para a foto. Witzel aparece com punho cerrado em direção ao alto, como quem celebra uma vitória e um estúpido sorriso no rosto suado. Ele nega, embora as evidências sejam inquestionáveis e fartas.

Cena grotesca 2 com participação mais que especial de Witzel, o asqueroso: coletiva para comunicar sua política de segurança pública.

Em mais uma demonstração de violência, preconceito e desprezo pela vida, ele declara que a polícia militar, em sua gestão, terá carta branca para matar, atirando primeiro e perguntando depois, porque ele “não tem bandido de estimação”. Em uma linha, sua política se resume, em suas palavras, à seguinte ordem: “é para atirar na cabecinha”.

Em operações desastradas e irresponsáveis, construídas para serem espetaculares, sob esse comando vidas inocentes foram perdidas. Foi o caso “isolado” de Agatha, a menina de 8 anos que morreu nos braços do avô baleada nas costas pela PM; de Rodrigo Alexandre Serrano, de 26 anos, que foi alvejado pela PM por que portava um guarda-chuva para proteger a esposa e o filho da chuva, um guarda-chuva que a polícia achou ser um fuzil; de Marcos Vinícius da Silva, o adolescente de 14 anos, baleado enquanto ia para a escola uniformizado com a camisa da rede pública de ensino, e que, nos braços da mãe ainda teve tempo de perguntar: “mãe, ele não viu que eu estava indo para a escola?”. Eu paro aqui, mas saiba que não é por falta do que relatar, posto que esses casos isolados são uma ficha corrida de crimses de racismo e injustiça social.

Se você chegou até aqui, há de concordar comigo que Witzel não apenas é asqueroso, mas que ele eleva a definição do termo para outro patamar. Como ele é consistente, e o contrario não pode ser dito, suas manifestações grotescas se repetem como a lua sempre segue o sol ao terminar o dia.

Foi assim, demonstrando consistência em ser asqueroso, que no dia 20 de agosto de 2019 ele chegou de helicóptero todo saltitante e socando o ar pra comemorar o assassinato de um rapaz que havia feito de reféns os passageiros de um ônibus sobre a ponte Rio-Niterói. Estava feliz que não cabia em si, o bichinho. Após 4 horas de operação no coração de um cartão postal e todas as lentes da imprensa dirigidas para o local, um sniper atira. É a cereja do bolo. Ou seria a “azeitona” da empadinha? O fato é que era tudo o que o governador precisava para aparecer como o herói justiceiro que vai proteger a população fluminense de GothamRio fazendo uso, não de inteligência, mas de grave demonstração de força militar.

Pegou mal. Como sempre pega. Questionado, mais tarde, ele negou a comemoração. Não estava comemorando uma morte, estava comemorando as vidas salvas, declarou à imprensa. Engole essa empadinha seca e com caroço se você puder. Fosse o que fosse, a atitude é inadequada, especialmente com todos os inevitáveis questionamentos sobre a habilidade na condução da operação.

Pegou mal, mas vida que segue. Tudo na mais pura “normalidade”.

Comemoração asquerosa de Witzel

Governador do Rio comemora morte como resultado de uma operação policial

E como a nova normalidade é o aberrante e o ridículo, Witzel atacou de espetáculo novamente. Dessa vez foi com a Libertadores. Mais uma vez, um acontecimento que tinha garantida a ampla cobertura da imprensa e a atenção popular. Lá foi ele: patético, fez da vitória rubro-negra um evento para jogar holofotes sobre si. O palanque? A capital do estado que o elegeu governador.

Fantasiado no seu caricato sorriso de paspalho, paletó cinza sobre a camisa do Flamengo e um manto da “nação” sobre o pescoço, pisou o gramado e se ajoelhou aos pés do atacante Gabigol. É exagero dizer, por extensāo, que se ajoelhou aos pés do clube que pouco antes fora palco da morte de 10 jovens atletas por negligência deliberada? Um clube cuja diretoria ainda não foi punida pelo crime cometido? Pois ele se ajoelhou em uma atitude asquerosa e populista.

Vi a cena e logo imaginei o toma lá dá cá que se negociou entre o governador, o clube e o jogador para a produção de triste espetáculo.

Ah, mas que mal-humorada. O cara não se ajoelhou para o clube e nem para a diretoria, ele se ajoelhou para o Gabigol, o craque, o jogador. A festa não pode ser punida pelos erros dos cartolas.

Desculpa, amore, que festa? E, convenhamos, é mesmo que você desconsidera a possibilidade de uma conversa, um faz-me-rir com a diretoria e o atleta?

Mas eu nem tive tempo de terminar esse pensamento, e o assunto já era trending topic no Twitter. O ângulo e o instante capturado, faziam o jogador parecer desconfortável em ter o Mr. Potato ajoelhado aos seus pés. Aparentemente, o atacante teria se afastado constrangido ou, talvez, enojado com a cena. E nem duvido que tenha sentido nojo e desprezo. Não duvido mesmo. As imagens em vídeo deixam mais evidentes o constrangimento.

Populismo asqueroso de um invertebrado

Populismo asqueroso de um invertebrado

Mas, aí, de volta para o Twitter não havia espaço para outro assunto. Uma histeria de postagens reproduzindo a imagem com frases como: Gabigol lacrou. Gabigol humilhou. Gabigol desprezou. Gabigol herói.

Fiquei aguardando quanto tempo até o herói dos tolos se desfazer como gelo no sol. Não precisei esperar muito. Algumas poucas horas depois, vestindo medalha e o manto rubro-negro, a imagem asquerosa de Witzel e de Gabigol silenciando os arroubos de heroísmo inexistente na suposta recusa do atleta em receber a deferência do invertebrado que nos governa o estado.

Print da tela da conta oficial de Witzel agarradinho com Gabigol

Print da tela da conta oficial de Witzel que aparece agarradinho com Gabigol

Os passadores de pano de plantão, de todos os matizes sociais, econômicos, políticos e ideológicos se apressaram para: passar pano! — Ah, mas a pressão da imprensa. — Ah, mas a pressão da diretoria.

— Ah, mas a pressão…dos privilégios e vantagens que posso acumular disso — deve ter pensado Gabigol. E a diretoria. E o governador.

Gabigol pode até ter sido forçado a posar de troféu pro tolete humano que o povo fluminense, com seu dedo de Midas invertido, colocou no poder. Mas, precisava posar assim cheio de dente e convicção?

10 flamenguistas não comemoraram

O lugar se chama Ninho do Urubu. Urubu é a mascote do Flamengo. No Ninho do Urubu jovens atletas com futuro promissor são “cuidados” até se tornarem os craques do futuro.

Para o clube, para a indústria do esporte e do futebol, para a imprensa especializada, no Ninho são gestadas as cifras indizíveis de lucro sobre a compra e a venda de craques e ídolos. É bonito, que falando assim faz lembrar a compra e venda de pessoas escravizadas. A diferença é que esses “escravizados” não geram lucro só pra quem vendeu e pra quem comprou. Com sorte e inteligência, eles também podem fazer dinheiro pra si mesmos, e fazer dinheiro pra durar. Vai ser difícil. Corpo de atleta é corpo exigido além do limite. É corpo abusado. É corpo que lesiona muito. É corpo que gasta rápido. Mas, pra muita gente, nesse país de desigualdades muitas, a fama do esporte pode ser o único passaporte acessível para fora da margem. Para muita gente, nesse país que despreza a educação, a ciência, a pesquisa, a força física pode ser a única forma de romper com a roda da fortuna virada sempre de ponta-cabeça. Se tudo der certo, as promessas de craque podem até ajudar as famílias de origem que, quase invariavelmente, são humildes e passam até necessidade. É uma espécie de conto de fada. É muito bonito o que o esporte faz pelas pessoas. O que o Flamengo pode ajudar o menino humilde a conquistar com a exploração adequada de seu talento.

O lugar se chama Ninho do Urubu. Urubu é a mascote do Flamengo. No Ninho do Urubu jovens atletas com futuro promissor são “cuidados” até se tornarem os craques do futuro. Só tem um problema. Eles não foram cuidados. Dormindo em alojamentos condenados pela vistoria técnica, em 2019, 10 meninos morreram em um incêndio por negligência do Flamengo.

O lugar se chama Ninho do Urubu. O quando foi em fevereiro de 2019. O como foi negligência. O quanto foram 10 mortes e 3 feridos.

No Ninho do Urubu, em fevereiro de 2019, foram mortos 10 jovens por negligência. Eram os filhos de 10 famílias. Morreram 10 talentos promissores do esporte nacional. O Ninho do Urubu encurralou e queimou à morte 10 sonhos, ao menos.

Jovens atletas do Ninho do Urubu mortos em incêndio por negligência do clube
Jovens atletas do Ninho do Urubu mortos em incêndio por negligência do clube

As reações? Pessoas declarando à exaustão seus lutos e indignação virtual em rede social. Chocadas com a tragédia, repercutiam o coração rubro negro dilacerado em suas timelines. Manifestavam solidariedade às famílias. E… defendiam o Flamengo.

Foi fascinante acompanhar em tempo real o processo de racionalização insustentável de separar o que não se separa para tirar a responsabilidade das costas e das mãos e da consciência (se é que ela existe) dos autores do crime.

Imprensa, torcedores (do mais variado espectro sociocultural), diretoria do time, jogadores, nenhum deles pareciam ter qualquer dificuldade em separar o que seria o Flamengo “diretoria” do Flamengo produto vendido nas embalagens time, “nação”, emoção, ídolos, craques, objetos, vestimentas, hinos, fofocas, ideal de consumo etc.

A comoção durou um tempo. Afinal era o Flamengo. Sério. Acho que o que mais capturou a atenção e a solidariedade geral não foi a morte de 10 meninos encurralados em um alojamento condenado pela vistoria técnica e negligenciado pelo clube. Acho que o que capturou a atenção e a solidariedade do público foi ser uma tragédia com o Flamengo. COM o Flamengo. Entende? Não eram os meninos.

Assim, passado esse tempo, e cumprido o papel social esperado de indivíduos, grupos e instituições de bem, a imprensa e as redes socais não demoraram a se acalmar. Assim, 10 mortes ficaram para trás sem que a tal diretoria tenha sido punida e sem que nenhuma reparação mais profunda e significativa tivesse sido observada.

O que ficou? O esquecimento. Ou talvez, uma memória sem afeto de uma tragédia espetacular e distante. Mas tudo bem. Em breve o Flamengo vai trazer muitas alegrias pra esse Brazil. Quer apostar? E depois, já tem o Carnaval. E tem o presidente. Já ele fala uma barbaridade e a gente se agarra nela, até que venha a outra.

Torcedores lotam av. Presidente Vargas no Rio
Torcedores lotam av. Presidente Vargas no Rio

Hoje, com o penoso 2019 chegando ao fim, olhando as imagens de uma Presidente Vargas tomada de rubro negro em festa, é difícil não pensar onde estava toda essa gente pressionando o sistema por uma reparação. Se essa multidão tivesse de fato se indignado e usado essa energia para declarar sua repulsa a uma estrutura que se sustenta da exploração da carência econômica e emocional de seres humanos, será que o evento trágico poderia ter iniciado um processo de redefinição das regras de um jogo perverso que naturaliza a exploração da miséria nas suas mais variadas formas?

Porque eu já tô de saco cheio

Alô! Marciano? Aqui quem fala é da Terra. Do Brasil mesmo. Do Rio de Janeiro. É. Eu sou. Do Rio de Janeiro. Sabe, aquele, pele e osso sem recheio, mas se botam a mãe no meio, dá porrada 3×4 sem despentear. Claro, só se alguém botar a mãe no meio, e olhe lá. No mais, não faço força nem pra virar de lado na esteira. Talvez se o Flamengo jogar. Talvez se o Boi Tolo desfilar. Talvez se der praia. Talvez.

O quê? Venderam a Petrobrás pra Petrobrás? Ah… deixa.

O quê? Tão matando lideranças da floresta? Matando criança por lá? Ah… que tragédia, mas quanto foi o jogo mesmo?

O quê? Mais de 1 bilhão de brasileiros estão na miséria e 50% do país sobrevive com 413 reais? Pesado, hein…

Ah, mas não é só isso? Sério mesmo que o ministro da economia disse que o pobre não sabe investir os recursos que tem?! Ah… mas também num é? Pobre é foda, no lugar de guardar dinheiro quer parcelar o… o arroz com feijão na conta do mercado. Mas parcelar com o quê mesmo que não tem credito? Ah… deixa pra lá. Qualquer coisa, eu que votei no 17 e ensinei criança a fazer arminha com as mãos, faço as malas e vou pra Portugal. Sabe, né, Brasil não dá mais… muita gente ignorante de esquerda. O negócio é Estado mínimo, não essas palhaçadas de brasileiro encostado que quer tudo de mão beijada do Estado. E Portugal vai ser ótimo pras crianças. Lá a escola é de qualidade e é pública. Tem saúde… mas eu quero é Estado mínimo! Não pra mim, é claro.

O quê? Censura? Nah… exagero, mimimi dos esquerda. É que esses rap, já ouviram? Já ouviram? É que eles confundem essas putaria com arte. Arte é Monalisa, meu. Arte é aquele quadrinho envidraçado e fetichizado pra tu se acotovelar pra fazer selfie sem flash. Arte é o que tem no Louvre. É os Caravaggio. É os… aqueles clássicos, de antigamente, sabe, quando as pessoas não eram sem vergonha. Eu, hein, arte brasileira, arte popular… Arte é cinema gospel do Edir Macedo financiado pela Rouanet, aí sim. Não essas merda da esquerda. Essas coisas de homem pelado. Performance… Performance meu CU-lto, tá ligado?

O quê? Mais de 600 dias sem resposta pelo assassinato de Marielle? Envolveram o nome do presidente no crime? Ele usou o governo aparelhado pra impedir a investigação? As provas foram parar nas mãos dele e dos filhos? O autor dos disparos é vizinho dele? É da milícia? A milícia, que o filho dele empregava? Que ele homenageou? Ih, gente, vê maldade em tudo. Eu quero é saber do filho do Lula, do pedalinho! Eu quero saber é do PT. E o peteeeee? Isso é o que importa. E, mais, quem é essa tal de Maribelle? Mari-o-quê Ah, essa aí. Tava era metida com coisa errada, senão nem tinha morrido.

O quê? os ministérios da agricultura e do meio ambiente liberaram agrotóxicos condenados e proibidos no mundo todo? Tão dando isenção de imposto pra quem usa veneno no solo, nas plantas? Tão destruindo a agricultura familiar e orgânica? Que bobagem, vocês ficam torcendo contra, aí é que dá câncer mesmo. Entendeu? Eu compro ali, na vendinha orgânica do Leblon, da fazenda do Marcos, sabe? Tô fazendo a minha parte. É que pobre é foda. Tem o orgânico e ele prefere comprar o envenenado… Ih, nem vem que agrotóxico polui o lençol freático. Porra nenhuma. Coisa de esquerdista esse papo ai, talquei!

O quê? A Amazônia ardeu em chamas? O presidente minimizou? O quê? Ele enfraqueceu fiscalização, autorizou ações criminosas? O desmatamento cresceu? Não pode falar desmatamento? É desflorestar? É limpar o mato com fogo pra criar gado? É pra produzir comida que vai vendar na gringa e que a gente nem vai ver por aqui na nossa mesa? Ah… mas, ó, esse negócio do fogo, sabe, essa época do ano sempre pega fogo por lá, e tem mais, coisa de ONG isso, e, e, e … e é isso mesmo, os índios também queimam floresta, tá? Quem disse? Li no WhatsApp. E repassei pra 15 contatos. Se cada um repassar as verdades pra 15 contatos, chega em todo mundo. #ForaGlobolixo, talquei?

O quê? O presidente mentiu no Twitter mais uma vez? Disse que 3 empresas saíram da Argentina pra vir investir no Rio? No Brasil? Era mentira? Ah, para de ver maldade. Vocês, esquerdopatas, são muito sem senso de humor. O presidente, o nosso presi, tava brincando. Vocês também, o cara não pode brincar. E ele já apagou. O Twitter.

O quê? O Brasil de Bolsonaro é alinhado com teocracias monarquistas assassinas? Melhor amigo do Mohammed bin Salman? Nem vem… Cara, todo mundo, especialmente as mulheres, dariam tudo por uma noite com o príncipe. O Bozo que disse. O Bozo deu. Vc tb daria, sério… para de mimimi. Claro que vocês não podiam deixar o Bozinho se divertir com o príncipe assassino. Não. Tinham que subornar o porteiro do Vivendas da Barra pra ele mentir que o assassino da Maristelle, Maribelle, Marielle, ah…. que o cara que matou aquelazinha lá, passou na casa do Bolsonaro. Golpe baixo. Ele teve que sair todo doido pra fazer live da madrugada arrancando cueca pela cabeça. Ele é muito equilibrado, mas vocês também iam ficar putos se quisessem acusar teu filho de envolvimento com miliciano e assassinato de parlamentar. E daí que eles são vizinhos? E daí que o filho do presidente namorou a filha do autor dos disparos? E daí que o Flávio homenageou os envolvidos no crime? E daí que os assassinos e seus familiares foram empregados no gabinete dos filhos de Bolsonaro? Nada a ver…

O quê? Teve um derramamento de óleo na costa brasileira e o governo federal não fez nada por mais de 40 dias e ainda apareceu na live do presidente pra dizer que peixe é esperto e foge de óleo? Ah, mas o óleo é da Venezuela! Navio grego é o escambau. O óleo é comunista. Para de reclamar desse óleo que a única tragédia aqui é o comunismo querendo nos derrubar. E pensa positivo. Faz um thetahealing que passa. Arminha também ajuda.

O quê? O condomínio Milícias da Barra, avenida Lucio Costa 3200, fica ali, na praia? Pertinho dos pontos de ônibus que vem da oeste, norte e sul? Logo ali do BRT e metro? Tem estação de bike compartilhada na porta? Tem patinete?! Facinho de chegar? Na frente, frente mesmo, da praia? Dá até pra ver o Flamengo na LED do quiosque? Ah, espera o Boi Tolo desfilar por lá que a gente vai fazer vigília na porta pra protestar.

O quê? E se a vigília de Curitiba se plantasse no milícias da Barra? Será?

Cidade é pra gente ou Parem de culpar pedestres por um planejamento pobre

Logo cedo, uma matéria do Bom Dia Rio se estendeu por mais de 3 minutos na culpabilização de pedestres pelo alto número de atropelamentos em vias urbanas. As tomadas e entrevistas com pedestres foram realizadas em pontos próximos a passarelas em ruas e avenidas como Brasil, Ayrton Sena e Américas.

Se existe passarela, por quê o pedestre se arrisca? Queriam saber. Deram voz apenas aos pedestres em passarelas. Os argumentos postos por estes: falta de cultura, falta de educação, irresponsabilidade, falta de apreço à própria vida.

Para atravessar uma passarela, o pedestre, que faz uso da própria energia para se movimentar, precisa subir e descer de um patamar que pode variar de 3 a 6 metros de altura. O pedestre jovem, adulto, saudável e sem restrição na mobilidade já é penalizado. Imagine como fica o pedestre idoso, a criança ou pessoas com mobilidade reduzida? Enquanto isso, a pessoa que se desloca de modo sedentário, dentro de um veículo motorizado, segue livre e sem obstáculos sempre no nível do chão. Faz sentido?

Nem entro no mérito de que nem sempre as passarelas tem rampas, obrigando que pedestres escalem degraus do chão à passagem. Também não vou comentar sobre o desconforto da ausência de cobertura que expõe o pedestre aos ventos, chuvas ou sol quente. Deixo apenas uma provocação. Qual é a racionalidade capaz de conciliar o discurso carregado do desejo de reduzir índices de poluição nas cidades e estimular práticas saudáveis no combate ao sedentarismo com o desestímulo ao transporte ativo?

Talvez a racionalidade esteja aqui: hipocrisia. Talvez, na verdade, as cidades não devam mesmo ser para pessoas. Talvez as pessoas sejam apenas um inconveniente necessário para produzir e gastar, mas que não devem atrapalhar que a cidade aconteça.

Sem gente? É. Parece.

A passarela de pedestres seria, portanto, uma solução genial. Ela subtrai o problema gente. Fica aquela estrutura feiosa pendurada sobre o asfalto quente e atrapalhando a visão do maciço montanhoso pela janela do carro, mas, ao menos, elimina o inconveniente pessoas do trânsito. Aí é bom. Dá pra correr. Meter, o quê, uns 90km/h, mais? Maravilha. Saio do meu caixote cedo. Entro na minha caixinha motorizada, fecho o vidro, ligo o ar, amanso as crianças com uma telinha de LED nas costas do banco. Deposito as crianças na penitenciária, digo escola. Acelero pro trabalho. Estaciono minha caixinha motorizada. Entro na caixinha elevador. Vou pra minha caixinha escritório. Depois é só inverter a rota. Todo dia.

Agora sim. Isso é vida. As passarelas higienizam o trânsito ao retirar as pessoas da equação. Com isso, as vias ficam livres para motorizados realizarem velocidades altas e incompatíveis com a vida. Ué, mas então não é isso, velocidade incompatível com a vida, o que causa atropelamentos e mortes? O repórter ignorou.

De todos os exemplos de travessia por passarela da reportagem apenas um era passagem subterrânea. Fica sobre a Avenida das Américas. As passagens subterrâneas exigem menos dos pedestres. O desnível em relação à rua não passa de 3 metros. Além disso, elas são cobertas. Que bom. Assim deu para eliminar o problema gente da cidade e deixar a vida fácil para os ciborgues sem sacrificar tanto esses frágeis humanos.

Porém, nem o número de passagens subterrâneas é tão expressivo quanto o de passarelas suspensas e nem aquelas são sempre exatamente seguras ou higiênicas. Deixa ver, vou pelo buraco escuro, deserto e mal cheiroso ou tento a humanidade de um motorista que desacelere ao me ver correndo na avenida? Escolha difícil, né?

Para provar a tese da matéria, de que pedestres são imprudentes, irracionais e sem educação, o repórter faz a travessia pela passagem subterrânea. Calcula o tempo. Chega a, segundo ele, meros 3 minutos. Menos tempo que a duração da reportagem. Desconsidera, entretanto, que é um homem jovem, saudável, adulto e com uma altura de aproximadamente 1,80 metros. Talvez esse tempo não seja o mesmo para uma criança, para um idoso ou para alguém com mobilidade reduzida. Diante de sua alta performance na travessia, conclui com uma pergunta: por quê arriscar? Será mesmo imprudência, irracionalidade e falta de educação?

Certa vez conversei com uma família “encurralada” às margens do rio de aço. Queriam chegar ao outro lado. Eram mulheres e crianças. Estavam bem perto dessa passagem subterrânea, mas optaram por não usá-la. Me explicaram o porquê. Para ler, clique aqui: https://derivanavegante.com/2017/10/19/foi-feito-pra-quem/

Mas, olha que bacana: um planejamento urbano e suburbano que tivesse como referência gente desenharia vias que privilegiassem o trânsito de pedestres e ciclistas ao nível do chão. Para isso, os automotores precisariam se desviar, claro. Mas esse desvio, além de fisicamente não sacrificante para motoristas, não seria muito superior a 2 metros. Então, por quê o pedestre precisa escalar até 6 metros ou descer até 3 metros por um túnel muito provavelmente inseguro ou insalubre?

Calma, gente. Esta não é uma revolta contra as passarelas. Passarelas ou passagens subterrâneas são soluções de acessibilidade e segurança para pedestres e ciclistas. Mas passarela e passagem subterrânea não é confete no carnaval. Por isso, na hora de separar o trânsito de carros, pessoas e bicicletas, elas devem ser o último recurso. Antes delas, existem outras estratégias possíveis e mais desejáveis.

Repare, se a área é urbana e se o fluxo de pedestres e ciclistas é alto, a prioridade é de quem usa meios ativos para transitar na cidade.

Deixa eu repetir: se a área é urbana e se o fluxo de pedestres e ciclistas é alto, a prioridade é de quem usa meios ativos para transitar na cidade.

Quer dizer, antes das passarelas e passagens subterrâneas, que se reduzam as velocidades dos automóveis. Que sejam instaladas travessias seguras e acessíveis no nível da rua. Que sejam feitos desvios para os carros e não o contrário.

Para o reporter fazer uma matéria melhor da próxima vez, deixo uma dica. Por quê o pedestre se arrisca entre os carros? Porque aquele projeto não contempla pedestres e ciclistas.

Link para a matéria – Bom Dia Rio (22/10/2019): https://globoplay.globo.com/v/8023222/programa/

Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa

Estranha. Questiona. Não naturaliza a barbárie.

Você não precisa ter certeza. Não precisa ter a resposta pra tudo. Não precisa ter razão. Não precisa ganhar a discussão. E se estiver desconfortável, tudo bem. Você não estará só. Pelo contrário. Provavelmente estará muito bem acompanhado/a.

Há três décadas, o poema dizia assim: estou perdido, não quero encontrar o caminho, mas outros que também estejam perdidos para, juntos, criar um caminho.

Pelamorrrrr de Dadá. Não tô aqui falando pra você seguir o obscurantismo canalha do astrólogo escatológico do terraplanismo, antivacina ou coisa semelhante. Presta atenção!

Apenas, abre os olhos e vê. Sintoniza os ouvidos e escuta. E respira. Respira pra valer. Desafoga os teus pulmões desse excesso de ar congestionado que te sufoca.

Inspira. Expira. E, depois, expira mais.

Percebe o vazio.

Só então inspira de novo.

Muito provavelmente quase ninguém sabe bem o que tá fazendo e nem porquê. Eu desconfio muito de quem diz que sabe.

Vai. Vai na sua. Vai no seu tempo. Acha a sua turma. Ela existe. Ou, antes, acha as suas turmas. Você pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Ou uma de cada vez. E nenhuma delas precisa estar a serviço do enriquecimento financeiro de outro, em uma troca que nunca é justa, até que sobre nada de você.

Disseram que o mundo tinha que funcionar assim. E o mundo se convenceu. Mas, não. O seu trabalho é seu. O seu trabalho, a sua criatividade, a sua inteligência, o seu tempo, a sua vida, a sua saúde, tudo isso é seu e não precisa ser cativo da exploração de um senhor; de um sistema de moer gente e acumular riqueza que te descarta como se nada: “ele não era nada não”, disse a mãe do menino assassinado pela PM do Rio. Tem uma realidade aí fora que te disseram ser a única possivel. Não é.

Isso não é verdade.

Assim como também não é verdade que alguém é nada não. Não! Ninguém não é nada não.

Ama. Conversa. Escuta.

Escuta.

Escuta.

Abraça. Planta uma semente. Rega. Vê brotar.

Escuta. Vê. Ama.

Tenta. Erra. Acerta. Erra de novo. Tudo bem.

Ama.

Faz algo por alguém. Só por fazer. Só pra ver um sorriso. Se o sorriso não vier do outro, tá tudo certo, tá bom também. Tenho certeza que você estará sorrido.

Ama.

Lê um livro. Escreve. Qualquer coisa. Do jeito que der.

Desenha. Pra você. Pra ninguém. Pra quem for. Só pra desenhar.

Borda. Faz música. Ouve música. Dança.

Dorme. Dormir é bom. Dormir é ótimo. Dorme bem.

Não faz nada.

Nada. Vê o céu, o sol, o mar, o verde, a vida.

Ama. Se ame. Pra você. Não pro aplicativo. Não pra competir. Só pra sentir. Só pra ser.

Ama.

Dica amiga: vai lá e escuta Dê um rolê, Os Novos Baianos 😊

Pequenos cuidados

Recentemente em um debate público sobre ciclo-entregadores, serviços de entregas por aplicativos e segurança viária uma liderança social desencorajava discussões e ações de estímulo à segurança pessoal e orientações para o trânsito seguro junto a esse público, que vem crescendo como reflexo da crise econômica e do aumento do desemprego formal. A liderança em questão é a jornalista e cicloativista Renata Falzoni. Ela argumentava que “a presença desses garotos”, normalmente das periferias, “nas ruas era uma forma revolucionária de ocupação das cidades” e que “querer regular essa ocupação e determinar como devem se movimentar é tampar os ouvidos para o que podemos aprender e devemos mudar para tornar as cidades mais humanas”.

Procurei entender a fala como uma tentativa de tirar o foco do aspecto disciplinador dos agentes de trânsito (pedestres, ciclistas, motoristas …) para privilegiar o questionamento sobre a violência de um modelo de planejamento que favorece um determinado modo de transporte ao ponto de praticamente inviabilizar todos os demais. No entanto, escutando com mais cuidado, a colocação me pareceu irresponsável e romântica, ao mesmo tempo.

A irresponsabilidade: minimizar, senão retirar da equação, o fato de que a disputa (como ela se dá) por esse espaço (como ele se apresenta) está matando justamente esses que já são os que nossa sociedade mais mata: rapazes jovens das periferias.

Disseminar e discutir questões ligadas à segurança pessoal e práticas para um transito seguro não me parece tampar os ouvidos para nada. Ao contrário, me parece um oportunidade de escuta, atualização e sensibilização de um maior número de pessoas para os fatores que fazem do nosso trânsito brasileiro um dos mais violentos do mundo, ajudando a democratizar e qualificar o debate para mais camadas da sociedade.

O alcance das pautas que o cicloativismo propõe é restrito a um determinado segumento da sociedade, que sem medo de errar eu diria que é justamente a parcela que marca uma ou mais caixinhas de privilégios. Ter a oportunidade de chegar a públicos com os quais sempre desejamos dialogar não pode ser desperdiçado. E note, é dialogar. Dialogar não significa chegar com verdades, mas chegar com escuta.

As pessoas que hoje compõem o trânsito do Rio de Janeiro como ciclistas entregadores, em sua maioria, não possuem vínculo formal de trabalho nem com a empresa de aplicativo, nem com a empresa que fornece o produto da entrega e nem com o consumidor final. Portanto, sua segurança não é uma questão para ninguém a não ser elas mesmas. Enquanto ciclistas e trabalhadores precarizados, sua segurança também não é uma questão para o poder público. O que não faz sentido nem do ponto de vista humano e nem econômico, porque desconsidera perdas econômicas para o país tanto por morte, invalidez permanente ou temporária de pessoas econômicamente ativas, quanto por e sobrecarga ao sistema público de saúde. Assim, nesse lugar de abandono, descaso e descuido, se aproximar desse público para construir diálogo e estratégia de enfrentamento, sobrevivência e segurança no ambiente hostil, não é apenas uma oportunidade para o cicloativismo ampliar sua base crítica, mas é a atitude ética e humana a se tomar.

Ao defender a não ação e a não responsablização tanto do movimento cicloativista quanto dos trabalhadores precarizados, a liderança não apenas faz eco ao coro dos que abandonam à própria sorte aqueles que já acumulam um lastro de abandonos. Ela também assume uma posição confortável (e fantasiosa) de capitalizar ganhos para sua agenda a partir de um supostamente natural rearranjo da cidade para uma condição menos violenta, ironicamente construída a partir de um lugar de exploração e predação de despossuídos ou desesperados.

O romantismo: assumir que os tais garotos de periferia estão ocupando as ruas de bicicleta porque para eles essa é uma causa, e que a presença (inconveniente) de seus corpos (descartáveis) explorados em uma economia falida por meio de um trabalho inseguro, insalubre e mal remunerado nas ruas irá sensibilizar a sociedade brasileira que elegeu o fascismo ou os governos fascistas por ela eleitos.

Ao afirmar isso, está-se fazendo uso, em causa própria, de uma parcela da população que não necessariamente é sensível ou familiar ao debate sobre a mobilidade ativa. Desconsidera-se que, se esses corpos estão na luta e na rua disputando espaço em um ambiente hostil, e muitas vezes pagando com a vida, eles aí se encontram não por identificação à causa, mas por necessidade de trabalho em um contexto de crise econômica, desemprego e precarização laboral. É apenas mais uma expressão de desamparo.

Na reportagem de Leandro Machado para a BBC Brasil isso aparece com bastante clareza. A bicicleta como opção é uma expressão da ausência de opção. Seria, portanto, o primeiro passo possível para gerar alguma renda, até que se tornasse viável conseguir algo percebido como mais conveniente e desejável: um transporte-meio de trabalho motorizado: a motocicleta.

Dos fatores apresentados na reportagem para que a moto seja cobiçada em detrimento da bicicleta, destaco este: o rendimento gerado pelos ciclo-entregadores corresponde à metade daquele gerado pelos entregadores de moto. Mesmo que os ciclistas trabalhem mais horas e gastem mais energia (talvez até correndo mais riscos), o resultado financeiro fica aquém daquele que seus parem em motocicleta são capazes de fazer. O tipo de relação com a bicicleta e o desejo de mudança de transporte fica bem expresso por essa frase dita por um dos entrevistados: “Agora que já tenho as manhas do trabalho, que já conheço as ruas, só me falta um motor.”

Ainda que possamos identificar um ponto em comum entre o cicloativismo e a realidade dos ciclo-entregadores circunstanciais, a dizer, desejo de sobreviver à barbárie, não devemos confundir a causa de um com a causa de outro. Para os primeiros, a pauta se adere à luta por um trânsito mais seguro, de paz e limpo. Já, para os outros, a luta parece mais imediatamente ligada à necessidade de gerar meios para pagar um teto e a comida.

Ao sonhar com a troca da bicicleta pela moto, o ciclo-entregador espera melhores ganhos. E isso não configura traição à uma causa que jamais foi dele. No entanto, acredito que aqueles que estão conduzindo ações em prol da agenda da bicicleta como transporte podem conquistar mais atores para a sua causa por meio de debates sobre segurança pessoal e práticas para um transito seguro junto aos ciclo-entregadores, mesmo que sua condição seja meramente circunstancial.

Pense que se esse trabalhador que usa a bicicleta desconhece as condutas seguras ou, se conhece, escolhe ignorá-las, quando mudar de transporte, assumirá as mesmas condutas pobres e perigosas. No entanto, agora, seu grau de letalidade cresceu com a capacidade aumentada de velocidade do novo veículo e com o porte do mesmo. Perdem todos. A necessidade de apaziguar o trânsito, investir no compartilhamento e diminuir as velocidades dos motorizados não concorre com a necessidade de que as normas de trânsito sejam conhecidas, praticadas e fiscalizadas. Disciplina é importante sim.

A questão, porém, não começa e acaba nos trabalhadores de entrega, seja por moto ou por bicicleta. Ao invés disso, ela se estende ao Estado, aos empresários/comerciantes e aos consumidores que fazem uso da conveniência da entrega em domicílio.

Clientes consumidores

Parece bastante fácil para os clientes consumidores, no conforto de suas casas ou escritórios, deixar de avaliar qualquer outra variável que não seja a rapidez das entregas no que diz respeito ao seu grau de satisfação com o serviço. Seria o caso de promover alguma campanha que sensibilize esse cliente para a ampliação dessa percepção de qualidade, envolvendo-o como corresponsável por um trânsito mais seguro? E se houvesse alguma certificação ou selo de empresa responsável com a vida no trânsito, que ajudasse o cliente consumidor a identificar e escolher aquelas prestadoras de serviço que estão mais de acordo com seus princípios morais e valores? Já pensou nisso? Talvez, de quebra, ainda viesse o bônus de, quem sabe, sensibilizar esse público também para questões relativas à segurança e dignidade do trabalho dos profissionais de entrega.

Empresários e comerciantes

Imagine se as empresas que atuam como prestadoras de serviço de entregas por moto ou bicicleta, não importa, fossem avaliadas quanto a sua responsabilidade pela promoção de um trânsito seguro. Será que assim haveria o cuidado de orientar os trabalhadores para condutas seguras no trânsito? Será que isso refletiria na diminuição do número de infrações? E o que aconteceria com o número de acidentes?

Houvesse um selo que certificasse a responsabilidade social da empresa prestadora de serviço, os comerciantes poderiam escolher a empresa que iriam contratar conforme sue afinidade ética. Do mesmo modo, os consumidores finais, o cliente que solicitou a entrega em domicílio, poderia mapear tanto os comércios quanto as prestadoras de serviço mais afinadas com o que considera justo, desejável e correto.

É possível que se assim fosse, todos cuidando juntos pela segurança de todos e do trânsito, metas de agilidade e rapidez que colocam vidas em risco não fossem mais impostas, considerando tempos impossíveis de serem cumpridos sem que infrações de trânsito estejam no repertório das atitudes esperadas, conhecidas mas, convenientemente, ignoradas por todos.

Talvez, nesse dia, não tenhamos mais que ouvir mais justificativas como esta que recebi de um gerente de uma rede de pizzas na zona sul do Rio de Janeiro, a Vezpa: “o pior que pode acontecer em um acidente com algum de nossos motoboys é a gente perder o pedido”. Entende? O pior não era o acidente machucar ou matar uma pessoa, ou muitas. O problema era perder o pedido.

Estado

Ao Estado, evidentemente, cabe ações de sensibilização e educação para o trânsito, além de oferecer as condições adequadas de segurança e conduta e incentivar as melhores práticas, por exemplo, por meio de uma certificação ou selo que ateste a responsabilidade do prestador de serviço e do motorista.

Todos fazem parte de um sistema, e o sistema tem regras sim. Caso não estejamos dispostos a lidar com isso, com ou sem motor, o certo é que vamos continuar impondo para parcelas importantes da sociedade uma relação de trabalho desequilibrada, insegura e indigna. Mais que isso, vamos continuar impondo um ‘ambiente de trabalho’ que tem a característica de ser violento e que aparece como um dos que mais matam pessoas no mundo: o trânsito brasileiro.

Mais uma morte no trânsito. Até quando?

O desequilíbrio das forças é absurdo. Embora nossa presença mobilizada e coletiva nas ruas tenha força, como mulher, pedestre e ciclista me questiono sobre a honestidade da mensagem quando experimento a inviabilidade planejada do meu corpo desarmado na cidade.

Desarmado sim. Ir a pé, ir de bicicleta, é ir sem armadura e sem arma. Os governantes dessa cidade investem em políticas públicas que fazem dela uma cidade que mata. Os governantes dessa cidade, desse estado, desse país, nos matam em todo lugar. Em toda esquina. De muitas formas. Por nenhum motivo. Mesmo porque, nenhum motivo justifica qualquer morte.

Existem muitos tipos de ciclistas na cidade. Um deles é o atleta. É linda a conquista de Áreas de Proteção ao Ciclista. Que venham mais. Mas, e quando não se está nela, como faz? E quem não é atleta, e quem apenas quer se deslocar pela cidade de forma saudável, eficiente, divertida, humana e barata, como faz?

Domingo, indo de carro para a zona sul, vi dois ciclistas de passeio, uma moça e um rapaz. Eu saia do túnel. Eles precisavam entrar, pois o acesso pela calcada compartilhada foi interditado em face aos desmoronamentos e mortes causados por uma obra superfaturada. Saí do túnel no sentido zona sul. Eles entraram no sentido oposto, em direção à zona oeste.

Loucura? Imprudência? Resistência?

Cada um especule o que quiser.

A mobilidade, a liberdade de ir e vir, é um direito. O Estado tem o dever de ofertar opções diversas, sustentáveis e seguras de deslocamento.

No mesmo domingo, voltando para casa já de noite, vi mais um ciclista no mesmo túnel. Um homem sozinho.

Não era atleta. Não era cicloturista. Mais uma vez, era apenas uma pessoa indo do ponto A ao ponto B.

O homem seguia pelo elevado do Joá, pequeno, vulnerável e ágil pela borda da pista. Motoristas passavam apressados, aparentemente irritados com aquela presença que os obrigava desacelerar.

Arriscado? É. Os carros passam muito acelerados. Acelerados demais para ser compatível com a vida. Qualquer vida. Até mesmo a vida de quem viaja dentro da armadura de aço.

Muitas devem ser as mortes por atropelamento de ciclistas e pedestres que não fazem manchete. Outras, por motivos não ignorados, fazem. Essa morte fez, chegou aos jornais.

Não é a primeira vez que, apesar das áreas de proteção ao ciclista, os atletas morrem atropelados, seja indo para o treino, voltando, ou mesmo durante o treino.

Mas morrem também ciclistas urbanos. A velocidade que mata não escolhe categoria, gênero, raça ou classe social.

De que adianta popular a cidade com estações de bike compartilhada, patinetes elétricos e o que vier de novidade, sem garantir o básico da proteção à vida: um transito desacelerado, ordenado, bem sinalizado e a certeza da fiscalização e da punição para infratores?

Não pense que as empresas privadas que oferecem os serviços de mobilidade alternativa ao carro vão espontaneamente se associar à causa da mobilidade. A mobilidade sequer é pauta para essas empresas e seus gestores. Para eles, a mobilidade é um negócio.

Se o Estado, sem cuidado, permitiu a exploração do nicho ‘mobilidade urbana ativa’ por particulares, não será a empresa que irá fazer qualquer movimento para reduzir acidentes ou brigar pela melhoria, qualidade e segurança das vias.

Alguma contrapartida deveria ser oferecida por quem lucra, muitas vezes na forma de monopólio do mercado. A maioria dessas empresas funcionam por aplicativos. Dado, uma grande fonte de riqueza, é algo de que dispõem. O mínimo, seria dar transparência a esses dados.

Tipos de viagens, distancias, durações, frequências, ocorrências… tudo isso poderia ajudar a mapear prioridades de investimento na qualidade e a segurança do transito. E isso é apenas uma pequena coisa possível. Outras ideias? Por exemplo, porquê não exigir uma percentagem dos lucros obtidos pela exploração do mercado de mobilidade ativa para custear implantação e conservação de mobiliário urbano para ciclistas e pedestres, sinalização, melhoria das calçadas, campanhas educativas, entre outros?

A mais essa família em luto, me solidarizo.

https://oglobo.globo.com/rio/empresario-morre-atropelado-por-onibus-quando-treinava-de-bicicleta-na-barra-23533396