Ser normal

É uma pessoa muito boa. No Natal faz caridade. Leva cesta básica pra uns pobres.

É uma pessoa muito engajada. Distribui cobertores pra morador de rua. Dá até prato de comida. Às vezes, nem é resto.

É uma pessoa muito consciente. Não come carne vermelha, evita plástico, faz até mutirão de limpeza do lixo.

É uma pessoa muito ajustada. Joga o jogo, não faz marola. Mas o jogo mata. Até o cidadão de bem sabe disso. Só que quem morre é o outro. “É ele ou eu. Que seja ele”.

De boa vontade em boa vontade, quando dá, o cidadão de bem se exime de pensar nos privilégios que detém. Livre de pensar, não questiona a engrenagem que mata e mata e mata. Finge, assim, que nem percebe que essas mortes garantem seus pequenos (ou grandes) luxos. Iludido (nem sempre), ignora que também está morrendo em nome desses mesmos privilégios. Uma morte diferente, talvez. Ainda assim, não menos morte.

——

Tateia na cômoda, buscando suas bolinhas. Vasculha a geladeira atrás de doces. Se acaba na noite. Vira todas no carnaval. Ah, o carnaval. Vamos sair de laranjal, fazer marchinha contra o racismo, a homofobia, o Capetão. Somos muito críticos, cultos, amamos cinema, andamos de bicicleta. Já falei que não comemos carne?

——

Por temer e evitar a morte, a sua e a dos seus, o cidadão de bem, que sabe o que tem valor, cria seus filhos na escola cara. Na escola cara tem um programa incrível voltado pro desenvolvimento socioemocional da criança rica, essencial pra formar um cidadão de bem, bem ajustado. Afinal, “ninguém quer ser ponta de lança”. Nossas inovações tem essa característica de inovar pra não sair do lugar. É um primor.

A educação inovadora do século 21 precisa pensar, portanto, muito além dos conteúdos tradicionais – esses que Damares, com seus diplomas falsos, diz que os pais “podem aplicar mais” em casa.

A educação do século 21 precisa educar o ser integral, capaz de reconhecer, nomear e fazer bom uso de suas emoções. Não serve só juntar letras e fazer as operações básicas. Isso é claro.

É claro, se você é cidadão de bem.

E, assim, nomeando suas raivas, tristezas e medos, a criança que recebeu sua educação integral se tornará também um cidadão de bem.

Com sorte, porém, não será assim. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que esse jogo não joga mais. Talvez lhe cresça a coragem de não se ajustar à norma de privilégios aprofundados em misérias de toda sorte a serem exploradas. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que é o capitalismo que mata e mata e mata pra que uns possam ir pra escola cara enquanto outros sequer tem o de comer e o de morar. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que o capitalismo não é resposta adequada, sem se esconder em desculpas. Se nem isso e nem aquilo serviu, talvez lhe cresça a coragem de ousar outro caminho ainda não percorrido. Talvez. Talvez, até, seja ouvida. Talvez nem a matem. (Marielle Presente, diz a hashtag adesivada no peito).

Deixo o link com matéria (2016) sobre o livro Despejados (Evicted), de Matthew Desmond. Trata-se de um estudo etnografico sobre inquilinos de baixa renda em uma cidade desindustrializada de médio porte. O estudo, mais uma vez, e ainda, parte dos sempre mesmos questionamentos óbvios.

“E se o discurso dominante sobre a pobreza estiver errado? E se o problema não for a suposta carência de moral das pessoas pobres — que elas sao preguiçosas, impulsivas e não tem valores familiares — ou ainda sua falta de habilidade e inteligência necessárias para serem bem adaptados à gloriosa economia do século 21? E se o problema da pobreza é que ela gera lucro?”

Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as mulheres. Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as pessoas não brancas. Como sempre no capitalismo, o privilégio se concentra nas mãos do macho branco da espécie. É a norma. É normal.

Dizia o maluco, “deus me livre de ser normal”.

https://www.theguardian.com/books/2016/apr/07/evicted-poverty-and-profit-in-the-american-city-matthew-desmond-review

Anúncios

Consciência e atuação política é imprescindível. Reavaliar o modelo econômico é urgente.

Não é “só” o mau cheiro. Além de prejudicar a sobrevivência da fauna e da flora, e mesmo o sustento de comunidades de pescadores, o lixo lançado diariamente na rede hídrica também prejudica a saúde das pessoas.

E não é pouco lixo.

Para você ter uma dimensão da coisa, em menos de duas horas de mutirão 17 voluntários recolheram 6mil litros de lixo de um pequeno trecho à margem do Canal de Marapendi. A variedade do que foi encontrado você vê nas fotos.

Esse mutirão não é o único. São muitas iniciativas que acontecem de modo articulado ou independente. Ainda assim, o lixo parece não ter fim. Todo dia ele volta, arrastado pelas correntes das águas ou simplesmente abandonado ali.

Já pensou como isso prejudica a sua vida? Você percebe o prejuízo para a economia, o turismo, ou mesmo o valor do seu imóvel? O que você pode fazer para evitar a degradação desse ecossistema e o empobrecimento da sua cidade tão aninhada nessa natureza?

Conheça seu lixo. Consuma menos. Reaproveite e reutilize. Questione “conveniências”. Mas, exija e lute por políticas que multipliquem o seu esforço, para que as iniciativas individuais não se percam.

Originalmente postado em 17/02/2019 em https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10218639044032986&id=1404252159

Consumismo – alegria efêmera, danos duradouros

Após romper sua carapaça, a cigarra experimenta um período de vulnerabilidade até formar uma nova estrutura que a proteja e sustente. Esse processo de transformação, chamado de ecdise, é o que permite o crescimento da cigarra.

Mudar nossos hábitos, certezas e verdades também pode nos deixar vulneráveis. Por isso é tão comum resistir ao não conhecido e até brigar para manter tudo exatamente como é, afinal, dizem que em time que tá ganhando não se mexe. Mas será que o time tá mesmo ganhando?

Quando a gente pensa no impacto dos nossos hábitos sobre o meio ambiente parece que não é bem assim. De fato, nem o nosso time e nem nenhum outro está ganhando.

Já parou para fazer essa reflexão? Reflita sobre seus hábitos de consumo e descarte. O que você pode mudar? Com quais certezas deve romper para crescer em consciência e cidadania para uma vida sustentável?

Impressões

Diz que Deus não escolhe os preparados, mas prepara quem escolhe. No discurso de posse, a mensagem é que foi eleito por esse Deus. À mesa, uma Bílbia, a Constituição Federal, uma referência à Churchil e outra à Olavo de Carvalho.

Fez mais de um pronunciamento. Cada um dirigido a um público. Cada um veículado por um meio diferente. Privilegiou o espaço informal das redes sociais que o elegeram.

A imprensa precisaria se adequar. Fez imposições e mesmo ameaças. Tem recebido as coletivas em casa. Seleciona quem irá receber. Oferece sempre a parte externa que parece um alpendre, varanda ou memso uma garagem. O lugar é decorado de entulhos aparentemente esquecidos naquele espaço sempre descuidado, como se o anfitrião não desse muita importância para o que pensam dele.

A um só tempo, a cena mostra uma figura arrogante e despretenciosa, autoritária e humilde, poderosa e ordiária.

Na coleção de objetos vemos símbolos que reforçam a narrativa: militar, intimista, mundana, violenta, familiar, religiosa, nacionalista. Os olhos do eleitor (seria correto denominar adorador?) podem escolher o objeto que preferirem para adornar seu mito. a personagem é fugidia e pode assumir a forma de quem a idealiza e deseja.

O figurino da personagem principal e seus coadjuvantes filhos ajuda a composição da cena. Comunica, com a sutileza de um piano que se espatifa no chão, as mesmas ideias que os objetos aparentemente esquecidos e desimportantes que constituem o cenário.

No teatro a expressão corporal não passa sem ser notada, sempre rígida, um misto de desconforto, tensão e inadequação a um passo do descompasso, do destempero, da manifestação violenta de quem ataca pra se defender. Rígidos são os músculos da face, a moldura torta e murcha dos lábios e a ausência do olhar que parece ver nada e nem ninguém.

É assim que o novo presidente faz suas primeiras aparições após os resultados das urnas, antes da posse. A locação ‘improvisada’ para receber a imprensa selecionada mostra que será a regra não prestigiar a imprensa, não respeitar esse trabalhador, não cuidar da imagem que chega nas casas de cada brasileiro e de cada brasileira em canto do Brasil. Hostilidade, desprezo, pequenas demonstrações de poder e força, e amadorismo são a tônica.

Todo quadro tem aquilo que transborda. Nesse quadro presidencial transborda o trânsito de homens mal encarados, entre eles os próprios filhos. Não há leveza. Não há sorriso. As roupas ostentam um padrão escuro ou camuflado. Em cada detalhe, a força bruta, a tirania e a truculência.

Na rua da praia, em frente ao condomínio que serve de locação, com a mesma estética, com o mesmo espírito, uma turba de contentes faz arma com as mãos, elogia assassinos e torturadores, faz ameaças a tudo o que não cabe na sua pobre imaginação e dança uma micareta ao som de mito.

Eles gritam “Mito”, sofrem porque o peteeeeeee

“Toupeiras são pequenos mamíferos adaptados a um estilo de vida subterrâneo. Eles têm olhos e ouvidos muito pequenos e imperceptíveis”.

Não enxergam e não ouvem nada.

Prisioneiros voluntários do auto-engano, desbotaram as cores da bandeira gritando indignação contra a corrupção. Agora batem no peito com orgulho: somos todos caixa 2.

(Publicado originalmente em 31.10.2018 no meu perfil do facebook) .

.