Human Race – uma corrida contra quem?

 

Em inglês, “race” significa raça, mas também significa corrida. A expressão “human race” pode ser lida como raça humana ou corrida humana. Se é uma corrida, é uma corrida contra quem ou o quê? O que marca a chegada?

Tomando por referência o desprezo aos alertas de pesquisadores e pesquisadoras de diferentes áreas do conhecimento, a corrida é contra a própria humanidade. A linha de chegada é a destruição de toda natureza. Nesse caso, é preciso que nos perguntemos: é possível existir humanidade sem natureza?

Parece que uma parte de nós está convencida de que sim. Desses, aqueles com mais poder exploram toda expressão de vida reduzida à dimensão de recurso. Fauna? Recurso. Flora? Recurso. Minerais? Recursos. Energia? Recurso. Tudo é recurso.

Cientes da raridade da vida, se apressam no processo de apropriação e exaustão de tudo o que possa ser dominado e transformado em riqueza privada. Talvez essa seja a corrida: Ser o primeiro a erguer a cerca pelo direito de exploração. Parecem apostar que a moeda acumulada ao investir na morte será suficiente para garantir-lhes a existência descolada da vida.

Sob essa perspectiva, gente também é recurso. Recurso humano. Enquanto recurso, o humano é valorado pela sua utilidade ao sistema. A utilidade é medida pela capacidade que um recurso tem de gerar riqueza para alguém. Eficiente, o sistema convence cada humano que é sua responsabilidade e obrigação individual investir (moeda) em si mesmo, de modo a se tornar o mais útil possível para o próprio sistema.

Conforme uma escala de mérito, nem sempre proporcional ao volume de riqueza que cada recurso humano gera para outrem, o sistema premia os recursos com mais ou menos riqueza, agora distribuída na forma de migalhas, mantendo a competitividade sempre acesa.

Como qualquer outro recurso, quando a energia de um recurso humano se exaure, ele deixa de ter utilidade. Para o pensamento neoliberal, aquilo que não gera riqueza, gera custo, e o que gera custo, deve ser descartado. Porém, assim como o lixo que acreditamos “jogar fora” não desaparece, essas pessoas também não deixam de existir. Agora elas são apenas um problema. O recurso humano passa a condição de refugo humano.

O refugo humano não é apenas improdutivo e inútil. Ele disputa os recursos finitos com os humanos que ainda são úteis. Além disso, atrapalha o sistema na acumulação da moeda com obstáculos como programas sociais dedicados a “sustentar vagabundo” – dizem eles.

Dentro dessa lógica, o ideal seria que o refugo humano morresse o mais breve possível. É o princípio que orienta a gestão dos leitos privados de hospital. O contratante dos serviços de saúde complementar somente é útil se saudável e pagante. Em caso de doença, havendo necessidade de internação, que seja breve, do contrário representará apenas prejuízo. Nem que saia morto, é preciso que saia e rápido. Afinal, saúde privada é um negócio, e ele deve enriquecer o empresário.

Acredito que uma parcela significativa de nós, humanos reduzidos a recurso, viva tão esmagada sob a pressão de lutar para apenas sobreviver, que esperar força para uma reação revoltada possa ser fantasioso. Porém, há uma parte importante de nós que assiste passiva, conivente até, o relógio da bomba armada correr. Faz parte da atitude conivente a aposta em estratégias conciliatórias.

Por quanto tempo ainda é possível sustentar a conciliação com o que é inconciliável? Em troca de que ainda se fazem concessões, quando já se está além do limite? Agir assim, não é operar segundo os mesmos mecanismos de negação do colapso ecológico que movimenta aqueles que ativamente erguem cercas, privatizam, controlam e destroem o que enxergam como bem de direito privado?

O mais irônico é que uma das ferramentas mais comuns utilizadas para sustentar esse tipo de negacionismo “racional” é a fé nos milagres da ciência e da tecnologia. Poderosos, ativistas e pessoas comuns ocupadas com o cotidiano de seus trabalhos e famílias, parecem compartilhar da crença otimista de que alguma fórmula matemática, alguma lei da física, algum processo de sintetização da vida será suficiente para manter a saúde de nossos corpos e mentes. É possível até que se almeje prescindir dos corpos, essa estrutura frágil e perecível que ainda ocupa lugar no espaço. Talvez possamos traduzir tudo em informação a ser armazenada em uma nuvem digital. Viveremos eternamente, como fragmentos de um todo indistinto. Seremos Deus.

Somos bichos escrotos

Dizemos que queremos saúde, mas escolhemos o caminho da doença. Vivemos rotinas sedentárias, comemos pela gula e não para nos alimentar, nos expomos a todo tipo de substância tóxica em excesso: do cigarro de nicotina ao monóxido de carbono. Nos separamos da natureza. Ignorantes, degradamos a natureza da qual julgamos não pertencer.

Ontem, distraidamente, fiz a tolice de ir pedalar pela orla do Rio. O lixo! Sem exagero. O lixo era surpreendente. Papel, plástico, garrafas, restos de comida e cigarro, máscara sem gente e gente sem máscara escarrando no chão, mijando no chão. No mesmo chão onde andavam descalços, onde os filhos brincavam.

Vi um homem trôpego, talvez alcoolizado, catando tampinhas de garrafa plástica. Vi quando levantou uma garrafa tampada do chão. Destampou. Recolheu a tampa. Descartou a garrafa novamente no chão.

Olhei pros prédios. Muitas varandas com a bandeira do Brasil pendurada. Já implico. Já desprezo. Olhei pra turba aglomerada desfilando sobre o lixo do calçadão. Não foram raros os que avistei enrolados em cangas representando a bandeira nacional. De um lado e do outro, miséria. O rico e o pobre, miséria.

Patriotas, talvez. É provável que as bandeiras estivessem lá em comemoração ao 7 de setembro. Independência proclamada às margens de um Ipiranga que há muito não passa de um esgoto a céu aberto. Diz muito.

Ao que serve o arrependimento?

Lya Luft e a banalidade do mal no voto entediado, leio no DCM em junho de 2020. Diz que se arrependeu do voto em Bolsonaro. Que não sabia bem o que fazia, porque não o conhecia, apenas precisava liberar o país do… Adivinha? Isso. Precisava liberar o Brasil do PT. (O ser patético não precisa ser inventado. Ele existe e repete coisas como essa daí).

Me causa repulsa a recusa de alguns em reconhecer a própria autoria no capítulo trágico da história democrática desse país. Era sabido que em algum momento o apoio a um sujeito desqualificado e violento seria uma mancha suja demais para seguir ostentando atrás da maquiagem verde amarela, desfigurada de tanto ódio. Em nome desse ódio mal disfarçado, entregaram o Brasil nas garras de quem nunca escondeu o gozo perverso com o sofrimento e até a aniquilação do outro. Agiram de forma consciente, conivente e desejosa do horror que se descortina sem surpresas. Agiram confiantes de que, se necessário, alegariam a mesma ignorância que tantos homens e mulheres “de bem” alegaram por terem apoiado os crimes contra a humanidade durante o nazismo.

Não existe absolutamente nenhuma justificativa que isente de responsabilidade aquele que votou em Bolsonaro. Também não há como isentar de responsabilidade aquele que, ao abrir mão do voto, deixou este governo (fascistoide ou fascista?) se estabelecer no poder.

Não há pedido de desculpas que baste. A escolha foi consciente. Não é possível alegar ignorância. Não é possível alegar desconhecimento. Não há arrependimento. Não venha pedir desculpas tentando salvar sua biografia.

O que eu respeitaria seria se cada um, ou ao menos alguns destes que usaram o título de eleitor como arma para desferir seu ódio, viesse a público admitir sua responsabilidade concreta e motivação real para o quadro atual. Não aceito e não respeito e não acredito em pedidos de desculpas levianos, de quem quer tirar o corpo fora alegando ignorância, desconhecimento ou mesmo boa fé. Que carreguem em si o peso, a dor e o sangue que sua escolha (inclusive a escolha de anular voto em uma eleição atípica como a de 2018) já causou e seguirá causando por muito tempo.

Por que insisto na responsabilização de si mesmo, quer dizer, por que insisto que a pessoa precisa parar de se justificar e de posar arrependinento?

Porque é a única possibilidade de que, talvez, essa pessoa seja capaz de não repetir o mesmo erro. Mais, e talvez isso seja o mais importante, é a única forma de a pessoa se desvencilhar da arrogância, do medo e do fanatismo que a impede de estabelecer qualquer diálogo.

Pra você, que ainda está tentando dialogar com quem não está aberto, segue meu pensamento.

O fanático não dialoga. É terra arrasada. Pisar nela vai te exaurir, te arrasar também. Nada floresce ali. A boa notícia é que esse universo de pessoas propensa ao fanatismo é relativamente baixo. Não havendo tecnologia, por hora, para semear diálogo nesses campos áridos, a forma é desnutrir retirando qualquer oportunidade de plataforma que alimente essa gente.

O que vem se chamando de bolsonarismo é a expressão caoticamente aglutinada da escória de ressentidos quando ganha olofote e ribalta. Não significa que não estivessem lá antes. Apenas, antes, eram os paspalhos do churraso de família, os chucros do bar ou da empresa. Ainda não sabemos como recuperar essas pessoas. Talvez não seja possíve recuperá-las. É que não é falta de instrução o que as define. Também não é uma doença mental, como pode parecer ao serem chamadas, genericamente, de loucas. Se há uma doença, ela é moral e eu não sei como isso se corrige. Então, apenas deixe que definhem e rastejem nas sombras, como sempre fizeram.

Amanheci hashtag

Quem sou eu na fila do pão? Sou uma pessoa comum que está tentando avaliar esse manifesto cheio de assinaturas, identificado como frente ampla pela democracia e contra o fascismo. Me sinto relativamente aliviada em saber que somos 70% — mas somos 70% de quê?

É certo que quando o rolo compressor vem ameaçando nossa existência, é urgente uma ação pela sobrevivência. Mas, quando vamos sair desse modo tão primitivo: agir pelo instinto de sobrevivência, um instinto basal, nem sempre provido de raciocínio? Pra ilustrar o absurdo disso, vi circulando, em um canal obscuro no YouTube, uma web-serie no modo “survivalist“. O canal é atribuído a uma empresa que leva o nome de uma pessoa que se pretende algo como um coach que vai te ensinar a atravessar crises. Claro, a protagonista é um gringo fantasiado de soldadinho. Faz referência à sua experiência como combatente nas tantas guerras que seu país inventa pelo mundo com o pretexto de promover democracia. Compõe a caracterização a ostentação de armamento pesado. Essa caricatura de oportunismo barato é a face do que aceitamos nos tornar.

Pra que serve a história? Estaremos condenados a repetir os mesmos erros de sempre, às custas da covardia e do medo? Não aprendemos nada com slogans vazios de conteúdo?

É preciso união, mas tendo a coragem de construir uma pauta concreta e coerente, capaz de mobilizar transformação. O debate para essa construção já é transformador. Ainda que lá na frente os rentistas usurpadores de sempre nos passem a perna, teremos uma plataforma sobre a qual ficar de pé. O preço dessas frentes amplas sem forma é a deformação de tudo. O grito vazio de “é contra a corrupção” de 2013 vira o grito esvaziado de “é contra o fascismo”. De grito em grito não dizemos e não ouvimos nada. Precisamos de um projeto. É urgente.

 

Imaginar: a coragem de ser livre

“I can’t breathe!”. Eu não posso respirar! Repetiu George Floyd, assassinado por asfixia pelas forças racistas do Estado, em maio de 2020.

Até a manhã de 31 de maio do mesmo ano, o mundo contabilizava 369.529 mortes humanas por asfixia em complicações associadas ao Covid-19.

Ailton Krenak, em muitas de suas falas, tem chamado a atenção para o descolamento do homem branco de tudo o que diz respeito à vida. Destaca o absurdo da sua fantasia de superioridade à outras raças, outras espécias, o planeta, e, até, fora dele.

Não é exagero. Ontem, em meio ao caos na terra, uma nave tripulada deixou o planeta com destino a uma estação espacial. Parece um grande feito. Muita gente animada. Os EUA, aparentemente recuperariam sua liderança na exploração do espaço — não fosse suficiente a bagunça que vai-se acumulando aqui embaixo. E, apostam os senhores do capital, voos comerciais tripulados serão rotineiros. Uau, hein…

“I can’t breathe!”, repetiu George Floyd antes de desacordar, sob as botas de um policial branco, até, finalmente, morrer.

“Alguma coisa está fora da ordem”. Te parece?

Uma mudança radical precisa acontecer. Essa mudança precisa ser voluntária e consciente. Krenak alerta não ser adequado pensar nessa suspensão da vida, provocada pela pandemia, como algo temporário, que apenas adia nossos planos, para que retomemos tudo de onde parou. É necessário que se reflita como se chegou até aqui, e o que deve ser feito para que não se repita.

Achille Mbembe faz a mesma prolação em seu artigo ‘O direito universal à respiração’. Reproduzo um trecho.

“Presa em um cerco de injustiça e desigualdade, grande parte da humanidade está ameaçada pela asfixia, e a sensação de que nosso mundo está em suspenso não para de se espalhar.

“Se, nessas condições, ainda houver um dia seguinte, ele não poderá ocorrer às custas de alguns, sempre os mesmos, como na Antiga Economia. Ele dependerá, necessariamente, de todos os habitantes da terra, sem distinção de espécie, raça, gênero, cidadania, religião ou qualquer outro marcador de diferenciação. Em outras palavras, ele só poderá acontecer ao custo de uma ruptura gigantesca, produto de uma imaginação radical.

“Um mero remendo não será suficiente”.

Não é de agora a denúncia sobre essa falta de imaginação humana, que insiste em velhas fórmulas falidas, ou, como diz Mbembe, meros remendos.

A boa notícia é que podemos fazer mais do que remendar. Somos dotados da capacidade de imaginar. E somos em maior número do que aqueles que se encontram embotados dessa capacidade.

Ontem o Brasil foi dormir com a esperança de que sua porção não necrosada, viva, capaz de imaginar, é a maioria. #Somos70%. Talvez sejamos mais. Não só no Brasil. No mundo. O que falta pra ativar a coragem de imaginar outro jeito de estar no mundo, e de ser com o mundo?

Em nome desses outros jeitos de estar no mundo, compartilho a determinação e a coragem dessa mulher nigeriana, Sophie Oluwole. Desafiando a narrativa dominante que silencia e apaga outros olhares, seres e pensares, ela teve a coragem de se imaginar em um lugar diverso daquele imposto pelo colozinador. Pela força transformadora de sua coragem de imaginar, resgatou um novo fio narrativo pra história da África no mundo e para história do mundo como um todo. Também compartilho a força inventiva e criadora de mundos de Frida Khalo, reproduzindo sua obra de 1943: Myself, Diego and señor Xolotol.

Para uma ruptura gigantesca, para a imaginação radical, vamos precisar de todo mundo.

The Love Embrace of the Universe, the Earth (Mexico), Myself, Diego and Señor Xolotl. Frida Khalo, 1943.

Atualização de referências pra gente asquerosa

Witzel não é bobo. Tudo pra ele é palanque.

Em agosto de 2019, um rapaz fez de reféns os passageiros de um ônibus. A operação durou cerca de 4 horas e terminou com o sequestrador sendo baleado e morto por um sniper. Houve controvérsia quanto ao, assim definido, sucesso da operação. Não vou entrar nesse mérito. O ponto aqui é destacar a inadequação e a inadmissibilidade do comportamento do governador do estado do Rio de Janeiro.

Eleito na sombra das afinidades de prateleira com o teocrata ultradireitista Bolsonaro, o até então desconhecido Witzel se oferece como servo dos interesses conservadores (retrógrados?) de falsos moralistas e liberais de mercado. Meteórico, ganha relevância defendendo a violência justiceira dos homens de bem, esses marcadamente covardes.

Uma das primeiras informações que o estado conheceu a seu respeito chegou através de um vídeo onde, ainda juiz, ensinava a torcer a lei a fim de se obter vantagens financeiras. Malandro, o fluminense deve ter ficado bem impressionado, porque o elegeu.

Confesso que não enxergava esse Witzel. Quando tomei conhecimento de sua presença, ele já era praticamente eleito. Defendia impiedade no combate ao crime. Desfazendo dos princípios que norteiam os direitos humanos universais e a própria legislação brasileira, repetia que a polícia teria liberdade de atirar antes e perguntar depois. Talvez nem perguntar. E, ao atirar, que fosse ja cabecinha.

Daí em diante, fica difícil elencar quais das suas manifestações públicas são mais desprezíveis. A certeza é a expressão grotesca do quadro.

Uma das atuações públicas de Witzel que mais asco me causou aconteceu em campanha, uma semana antes das eleições. Ao lado dos truculentos Daniel Silveira e Rodrigo Amorim, eleitos deputado federal e estadual pelo Rio, ostenta orgulhoso o vandalismo com a memória de Marielle Franco, cujo assassinato ainda segue sem respostas.

Os três covardes, em busca desesperada por relevância, procuram associar sua imagem à imagem não menos repulsiva de Jair Bolsonaro. O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes também parece bastante associado à Jair Bolsonaro.

Exibindo a placa partida, os três delinquentes entregam mais um discurso de ódio e intolerância incitando a violência. Contentes em sua mediocridade insignificante, os três posam para a foto. Witzel aparece com o braço erguido e o punho cerrado, como quem celebra uma grande vitória. No rosto suado, estúpido sorriso.

Também é de causar asco a coletiva onde Witzel comunica sua política de segurança pública. Sempre expressando violência, preconceito e desprezo pela vida, declara que a polícia militar, em sua gestão, terá carta branca para matar, atirando primeiro e perguntando depois, porque ele “não tem bandido de estimação”. Em uma linha, sua política se resume à seguinte ordem: “é para atirar na cabecinha”. O alvo é claro: negros, pobres, favelados.

Desse modo, operações desastradas e irresponsáveis, construídas para serem espetaculares, entregaram ao mundo o caso isolado do dia. Todo dia.

Foi o caso isolado o assassinato de Agatha. A menina de 8 anos morreu nos braços do avô, baleada nas costas pela PM do Rio, de Witzel.

Foi o caso isolado o assassinato de Rodrigo Alexandre Serrano. O jovem de 26 anos foi alvejado pela PM do Rio por que portava um guarda-chuva para proteger a esposa e o filho da chuva. A desculpa: a polícia confundiu o guarda-chuva com um fuzil.

Foi o caso isolado do assassinato de Marcos Vinícius da Silva. O adolescente de 14 anos foi baleado enquanto ia para a escola, uniformizado com a camisa da rede pública de ensino. Ensanguentado, peito furado por projéteis do Estado, aninhado nos braços da mãe, ainda teve tempo de perguntar: “mãe, ele não viu que eu estava indo para a escola?”.

Esses casos isolados não se resumem aqui. Compõem uma longa ficha corrida de crimses de racismo e injustiça social cometidos pelo Estado com a chancela da população.

Witzel não apenas é asqueroso. Ele eleva a definição do termo para outro patamar. E é consistente.

Foi sendo consistente que no dia 20 de agosto de 2019 ele chegou de helicóptero, saltitante e celebrativo, para comemorar o assassinato de um rapaz que havia feito de reféns os passageiros de um ônibus sobre a ponte Rio-Niterói. Feliz, não cabia em si, o herói.

Questionado, negou a comemoração. Não estava comemorando uma morte, estava comemorando as vidas salvas, declarou.

Comemoração asquerosa de Witzel

Sem limite para espetáculo e o ridículo, Witzel fez de palanque a Libertadores. O sujo usando o mal lavado. Witzel que usa Bolsonaro, que usa o Witzel que usam o Flamengo, que usa Bolsonaro, que usa Witzel e que usam todo mundo.

A taça Libertadores é mais um acontecimento com garantida cobertura da imprensa e atenção popular. Patético, Witzel fez da vitória rubro-negra um evento para jogar holofotes sobre si. O picadeiro? A capital do estado que o elegeu governador.

Fantasiado no seu caricato sorriso de homem bobo, paletó cinza sobre a camisa do Flamengo e um manto da “nação” sobre o pescoço, pisou o gramado e se ajoelhou aos pés do atacante Gabigol. (Por extensāo, se ajoelhou aos pés do clube que pouco antes fora palco da morte de 10 jovens atletas por negligência deliberada, sem que, até o momento a diretoria ainda tenha sido responsabilizada.)

Witzel se ajoelhou em campo, em uma atitude asquerosa e populista.

Vi a cena e logo imaginei o toma lá dá cá que se negociou entre o governador, o clube e o jogador para a produção de triste espetáculo.

— Ah, mas que mal-humorada. O cara não se ajoelhou para o clube e nem para a diretoria, ele se ajoelhou para o Gabigol, o craque, o jogador. A festa não pode ser punida pelos erros dos cartolas. Não pode politizar o entretenimento.

É sério que você desconsidera a possibilidade de uma conversa, um faz-me-rir entre governador, diretoria e atleta?

Nem tive tempo de terminar meu pensamento. O assunto já era TT. O ângulo e o instante capturado, faziam o jogador parecer desconfortável em ter o Mr. Potato ajoelhado aos seus pés. Aparentemente, o atacante teria se afastado constrangido ou, talvez, enojado com a cena. E nem duvido que tenha sentido nojo e desprezo. Não duvido mesmo. As imagens em vídeo deixam mais evidentes o constrangimento.

Populismo asqueroso de um invertebrado

No Twitter, a chuva de histeria reproduzia a imagem ridícula acompanhada de frases como: Gabigol lacrou. Gabigol humilhou. Gabigol desprezou. Gabigol herói.

Fiquei aguardando quanto tempo até o herói dos tolos desmoronar. Não demorou nada. Poucas horas depois, vestindo medalha e o manto rubro-negro, a imagem asquerosa de Witzel e de Gabigol silenciando os arroubos de heroísmo inexistente na suposta recusa do atleta em receber a deferência do invertebrado que nos governa o estado.

Print da tela da conta oficial de Witzel agarradinho com Gabigol

Os passadores de pano, de todos os matizes sociais, econômicos, políticos e ideológicos, se apressaram para: passar pano! — Ah, mas a pressão da imprensa. — Ah, mas a pressão da diretoria.

— Ah, mas a pressão…dos privilégios e vantagens que posso acumular disso — deve ter pensado Gabigol. E a diretoria. E o governador.

Gabigol pode até ter sido forçado a posar de troféu pro tolete humano que o povo fluminense, com seu dedo de Midas invertido, colocou no poder. Mas, precisava posar assim cheio de dente e convicção?

10 flamenguistas não comemoraram

O lugar se chama Ninho do Urubu. Lá, jovens atletas são cuidados até se tornarem os craques do futuro.

Para a indústria que se alimenta do futebol, no Ninho se gesta lucro. Com sorte e inteligência, os melhores atletas também podem fazer dinheiro pra si mesmos, e fazer dinheiro pra durar.

Vai ser difícil. Corpo de atleta é corpo exigido além do limite. É corpo abusado. É corpo que lesiona muito. É corpo que gasta rápido. Mas, pra muita gente, a fama do esporte pode ser o único passaporte para fora da pobreza.

Isso é especialmente verdade para um país que despreza a educação, a ciência e a pesquisa. Em país que premia o mérito de se ter nascido com privilégios, a força física pode ser a única forma de romper com a roda da fortuna virada sempre de ponta-cabeça.

Tudo dando certo, os craques em formação poderão até ajudar as famílias de origem quase invariavelmente humilde. É uma espécie de conto de fada.

É muito bonito o que o esporte faz pelas pessoas.

O lugar se chama Ninho do Urubu. Lá, jovens atletas são cuidados até se tornarem os craques do futuro. Só tem um problema. Eles não foram cuidados.

Dormindo em alojamentos condenados, dez meninos morreram em um incêndio por negligência do Flamengo. Três ficaram feridos.

No Ninho do Urubu, em fevereiro de 2019, foram mortos 10 jovens por negligência do clube. Eram os filhos de 10 famílias.

Jovens atletas do Ninho do Urubu mortos em incêndio por negligência do clube
Jovens atletas do Ninho do Urubu mortos em incêndio por negligência do clube

As reações? Luto e indignação em redes sociais. Chocadas com a tragédia, as pessoas repercutiam o coração rubro negro dilacerado, manifestavam solidariedade às famílias e… defendiam o Flamengo.

Passou pela minha cabeça que o que capturou a atenção e a solidariedade geral não foi a morte de dez meninos por negligencia do clube. Passou pela minha cabeça que o que capturou a atenção e a solidariedade do público foi ser uma tragédia com o Flamengo. COM o Flamengo. Entende? Não eram os meninos.

O tempo passou sem que a diretoria do clube tenha sido punida. O que ficou? Uma memória sem afeto de uma tragédia espetacular e distante.

Dez meninos morreram. Mas está tudo bem. Em breve o Flamengo vai superar isso. A nação rubro negra jamais o abandonará. Afinal, o Flamengo traz tantas alegrias.

Torcedores lotam av. Presidente Vargas no Rio
Torcedores lotam av. Presidente Vargas no Rio

Hoje, com o penoso 2019 chegando ao fim, vejo as imagens de uma Presidente Vargas tomada de rubro negro em festa. O país tá bem. Não mobiliza tanta gente. As famílias dos meninos que morreram queimados por negligência do clube estão bem. Não mobiliza tanta gente pressionando o clube por reparação.O flamengo tá bem. Se coloca a serviço da propaganda fascista e dá tanta alegria que mobiliza gente. Muita gente. Viva o Flamengo. Viva a indústria do futebol.

Porque eu já tô de saco cheio

Alô, Marciano. Aqui quem fala é da Terra.

Brasil.

Rio de Janeiro.

Pele e osso sem recheio. E não bota a mãe no meio que dou porrada 3×4 e nem me despenteio.

Mas só se botar a mãe no meio. No mais, se a panela tá suja não quero nem lavar, se a roupa tá lavada não quero engomar, na esteira que deito não quero nem me virar.

Talvez se o Flamengo jogar. Talvez se o Boi Tolo desfilar. Talvez se der praia. Talvez.

O quê? Tão entregando o país pros lobos, pagando pra vender a autonomia nacional? Ih, rapaz. Me deixa aqui na esteira. Traz uma cerveja. Boa.

O quê? Genocídio. Hã? Etnocídio? Criança é? Matando criança indigena, nas favelas? Hum… Vagabundo, né? Mas, as crianças. Tragédia, né? Escuta: quanto foi o jogo?

O quê? Mais 1 bilhão de brazuka na miséria? 50% sobrevivendo com 413 reais? Pesado, hein… Mas o Guedes vai resolver. Isso é culpa do PT. Vai ver. Foi aquela Dilma. Bando de corrupto. Viu minha camisa do Brasil? Vou pedir pro Mito assinar.

O Guedes disse que o pobre não sabe investir os recursos que tem?! Ah… mas num é? Pobre é foda, no lugar de guardar dinheiro vai gastar com cerveja, prestação de TV, fazer churrasco.

Não? Tá é parcelando o arroz com feijão na conta do mercado?

Hahaha, espia aqui. Olha esse meme. A esquerda pira. Hahaha

Eu votei no 17. Ensinei criança a fazer arminha. Sou patriota. Os esquerda não deixam o homem governar. Torce contra. O Congresso joga contra. STF só tem safado. Bando de socialista de iPhone.

Qualquer coisa vou pra Portugal. Tenho cidadania. Bisavó da esposa. Lá que é bom. Escola de qualidade. Pública. Saúde. Mas o que eu quero é Estado mínimo! Pra cima deles, Guedes! haha

Que mimimi de censura o que. Vá… Agora sou obrigado a ouvir essas putaria de funk. Diz que é expressão cultural. Arte. Arte é Monalisa. Aqui minha self com a Mona. Aqui, ó. É esse bando de japonês na frente. Foda. Só no dedo nervoso. Mas tá ali. Atrás do vidro. Tá vendo?

Agora, fica esse bando de vagabundo de esquerda, mama teta, querendo incentivo pra cultura. Ai vai o cara e fica pelado no museu. E as crianças? Performance, meu cu. Putaria.

Essa gritaria. Marielle quem? Marielle vive. Vive onde? Morreu. Tá morta. Não tem resposta? Já prenderam o cara. E essa ai, se morreu, é que boa coisa não era. Querem o que? Incriminar o presidente? Ah, num fode. Eu quero é saber do filho do Lula, do pedalinho! Eu quero saber é do PT. E o peteeeee?

Agora essa palhaçada de agrotóxico. Tem que produzir. Tem que exportar. Tá é certo isentar imposto pra quem usa veneno na agricultura. Incentivo pro produtor.

Nem vem com isso de Amazônia. Pega fogo sozinho. Agora a California em chamas é culpa do Bolsonaro? Olha aqui o meme. Hahaha. Vou repostar pra família. Pera, deixa colocar a #ForaGlobolixo. Hahahha. A sobrinha esquerdinha vai fritar. Culpa da escola. Lavagem cerebral. Bando de comunista.

Mimimi o presidente mentiu no Twitter. Censura. Censura. Querem calar o presidente. Ele já disse que era brincadeira. Agora não pode brincar? Cadê o senso de humor? O brasileiro já foi melhor. Aqui. Acabou cerveja. Traz outra. Gelada.

Só assim pra descer essa agora. A Venezuela joga óleo na nossa costa e a culpa é do Bolsonaro. O cara não pode nem trabalhar. Subornaram o porteiro do Vivendas da Barra pra levantar falso contra o Mito. Claro que ele ficou nervoso. Patifaria. E daí que os Bolsonaro são vizinhos do assassino de Marielle? E daí que o filho do presidente namorou a filha do autor dos disparos? E daí que o Flávio homenageou os envolvidos no crime? E daí que os assassinos e seus familiares foram empregados no gabinete dos filhos de Bolsonaro? Nada a ver…

Chama aquela garota do thetahealing que tô precisando liberar meus traumas com a esquerdalha. Fazer arminha também ajuda. Vem cá. Deixa o vovô de ensinar. Hahahaha. Lembra, na cabecinha, que a gente não tem pena de bandido.

Agora vou descansar. Esse papo chato estressou. Deixa a cerveja.

Cidade é pra gente ou Parem de culpar pedestres por um planejamento pobre

Logo cedo, uma matéria do Bom Dia Rio se estendeu por mais de 3 minutos na culpabilização de pedestres pelo alto número de atropelamentos em vias urbanas. As tomadas e entrevistas com pedestres foram realizadas em pontos próximos a passarelas em ruas e avenidas como Brasil, Ayrton Sena e Américas.

Queriam saber: Se existe passarela, por quê o pedestre se arrisca? Deram voz apenas aos pedestres em passarelas. Os argumentos postos por estes: falta de cultura, falta de educação, irresponsabilidade, falta de apreço à própria vida.

Para atravessar uma passarela, o pedestre, que faz uso da própria energia para se movimentar, precisa subir e descer de um patamar que pode variar de 3 a 6 metros de altura. O pedestre jovem, adulto, saudável e sem restrição na mobilidade já é penalizado. Imagine como fica o pedestre idoso, a criança ou pessoas com mobilidade reduzida? Enquanto isso, a pessoa que se desloca de modo sedentário, dentro de um veículo motorizado, segue livre e sem obstáculos sempre no nível do chão. Faz sentido?

Nem entro no mérito de que nem sempre as passarelas tem rampas, obrigando que pedestres escalem degraus do chão à passagem. Também não vou comentar sobre o desconforto da ausência de cobertura que expõe o pedestre aos ventos, chuvas ou sol quente. Deixo apenas uma provocação. Qual é a racionalidade capaz de conciliar o discurso carregado do desejo de reduzir índices de poluição nas cidades e estimular práticas saudáveis no combate ao sedentarismo com o desestímulo ao transporte ativo?

Talvez a racionalidade esteja aqui: hipocrisia. Talvez, na verdade, as cidades não devam mesmo ser para pessoas. Talvez as pessoas sejam apenas um inconveniente necessário para produzir e gastar, mas que não devem atrapalhar que a cidade aconteça. Sem gente? É. Parece.

A passarela de pedestres seria, portanto, uma solução genial. Ela subtrai o problema gente. Fica aquela estrutura feiosa pendurada sobre o asfalto quente e atrapalhando a visão do maciço montanhoso pela janela do carro, mas, ao menos, elimina o inconveniente humano do trânsito. Aí é bom. Dá pra correr. Meter, o quê, uns 90km/h, mais? Maravilha. Saio do meu caixote cedo. Entro na minha caixinha motorizada, fecho o vidro, ligo o ar, amanso as crianças com uma telinha de LED nas costas do banco. Deposito as crianças na penitenciária, digo escola. Acelero pro trabalho. Estaciono minha caixinha motorizada. Entro na caixinha elevador. Vou pra minha caixinha escritório. Depois é só inverter a rota. Todo dia.

Agora sim. Isso é vida. As passarelas higienizam o trânsito ao retirar as pessoas da equação. Com isso, as vias ficam livres para motorizados realizarem velocidades altas e incompatíveis com a vida. Ué, mas então não é isso, velocidade incompatível com a vida, o que causa atropelamentos e mortes? O repórter ignorou.

De todos os exemplos de travessia por passarela da reportagem apenas um era passagem subterrânea. Fica sobre a Avenida das Américas. As passagens subterrâneas exigem menos dos pedestres. O desnível em relação à rua não passa de 3 metros. Além disso, elas são cobertas. Que bom. Assim deu para eliminar o problema gente da cidade e deixar a vida fácil para os ciborgues sem sacrificar tanto esses frágeis humanos.

Porém, nem o número de passagens subterrâneas é tão expressivo quanto o de passarelas suspensas e nem aquelas são sempre exatamente seguras ou higiênicas. Deixa ver, vou pelo buraco escuro, deserto e mal cheiroso ou tento a humanidade de um motorista que desacelere ao me ver correndo na avenida? Escolha difícil, né?

Para provar a tese da matéria, de que pedestres são imprudentes, irracionais e sem educação, o repórter faz a travessia pela passagem subterrânea. Calcula o tempo. Chega a, segundo ele, meros 3 minutos. Menos tempo que a duração da reportagem. Desconsidera, entretanto, que é um homem jovem, saudável, adulto e com uma altura de aproximadamente 1,80 metros. Talvez esse tempo não seja o mesmo para uma criança, para um idoso ou para alguém com mobilidade reduzida. Diante de sua alta performance na travessia, conclui com uma pergunta: por quê arriscar? Será mesmo imprudência, irracionalidade e falta de educação?

Certa vez conversei com uma família “encurralada” às margens do rio de aço. Queriam chegar ao outro lado. Eram mulheres e crianças. Estavam bem perto dessa passagem subterrânea, mas optaram por não usá-la. Me explicaram o porquê. Para ler, clique aqui: https://derivanavegante.com/2017/10/19/foi-feito-pra-quem/

Mas, olha que bacana: um planejamento urbano e suburbano que tivesse como referência gente desenharia vias que privilegiassem o trânsito de pedestres e ciclistas ao nível do chão. Para isso, os automotores precisariam se desviar, claro. Mas esse desvio, além de fisicamente não sacrificante para motoristas, não seria muito superior a 2 metros. Então, por quê o pedestre precisa escalar até 6 metros ou descer até 3 metros por um túnel muito provavelmente inseguro ou insalubre?

Calma, gente. Esta não é uma revolta contra as passarelas. Passarelas ou passagens subterrâneas são soluções de acessibilidade e segurança para pedestres e ciclistas. Mas passarela e passagem subterrânea não é confete no carnaval. Por isso, na hora de separar o trânsito de carros, pessoas e bicicletas, elas devem ser o último recurso. Antes delas, existem outras estratégias possíveis e mais desejáveis.

Repare, se a área é urbana e se o fluxo de pedestres e ciclistas é alto, a prioridade é de quem usa meios ativos para transitar na cidade.

Deixa eu repetir: se a área é urbana e se o fluxo de pedestres e ciclistas é alto, a prioridade é de quem usa meios ativos para transitar na cidade.

Quer dizer, antes das passarelas e passagens subterrâneas, que se reduzam as velocidades dos automóveis. Que sejam instaladas travessias seguras e acessíveis no nível da rua. Que sejam feitos desvios para os carros e não o contrário.

Para o reporter fazer uma matéria melhor da próxima vez, deixo uma dica. Por quê o pedestre se arrisca entre os carros? Porque aquele projeto não contempla pedestres e ciclistas.

Link para a matéria – Bom Dia Rio (22/10/2019): https://globoplay.globo.com/v/8023222/programa/

Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa

Estranha. Questiona. Não naturaliza a barbárie.

Você não precisa ter certeza. Não precisa ter a resposta pra tudo. Não precisa ter razão. Não precisa ganhar a discussão. E se estiver desconfortável, tudo bem. Você não estará só. Pelo contrário. Provavelmente estará muito bem acompanhado/a.

Há três décadas, o poema dizia assim: estou perdido, não quero encontrar o caminho, mas outros que também estejam perdidos para, juntos, criar um caminho.

Pelamorrrrr de Dadá. Não tô aqui falando pra você seguir o obscurantismo canalha do astrólogo escatológico do terraplanismo, antivacina ou coisa semelhante. Presta atenção!

Apenas, abre os olhos e vê. Sintoniza os ouvidos e escuta. E respira. Respira pra valer. Desafoga os teus pulmões desse excesso de ar congestionado que te sufoca.

Inspira. Expira. E, depois, expira mais.

Percebe o vazio.

Só então inspira de novo.

Muito provavelmente quase ninguém sabe bem o que tá fazendo e nem porquê. Eu desconfio muito de quem diz que sabe.

Vai. Vai na sua. Vai no seu tempo. Acha a sua turma. Ela existe. Ou, antes, acha as suas turmas. Você pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Ou uma de cada vez. E nenhuma delas precisa estar a serviço do enriquecimento financeiro de outro, em uma troca que nunca é justa, até que sobre nada de você.

Disseram que o mundo tinha que funcionar assim. E o mundo se convenceu. Mas, não. O seu trabalho é seu. O seu trabalho, a sua criatividade, a sua inteligência, o seu tempo, a sua vida, a sua saúde, tudo isso é seu e não precisa ser cativo da exploração de um senhor; de um sistema de moer gente e acumular riqueza que te descarta como se nada: “ele não era nada não”, disse a mãe do menino assassinado pela PM do Rio. Tem uma realidade aí fora que te disseram ser a única possivel. Não é.

Isso não é verdade.

Assim como também não é verdade que alguém é nada não. Não! Ninguém não é nada não.

Ama. Conversa. Escuta.

Escuta.

Escuta.

Abraça. Planta uma semente. Rega. Vê brotar.

Escuta. Vê. Ama.

Tenta. Erra. Acerta. Erra de novo. Tudo bem.

Ama.

Faz algo por alguém. Só por fazer. Só pra ver um sorriso. Se o sorriso não vier do outro, tá tudo certo, tá bom também. Tenho certeza que você estará sorrido.

Ama.

Lê um livro. Escreve. Qualquer coisa. Do jeito que der.

Desenha. Pra você. Pra ninguém. Pra quem for. Só pra desenhar.

Borda. Faz música. Ouve música. Dança.

Dorme. Dormir é bom. Dormir é ótimo. Dorme bem.

Não faz nada.

Nada. Vê o céu, o sol, o mar, o verde, a vida.

Ama. Se ame. Pra você. Não pro aplicativo. Não pra competir. Só pra sentir. Só pra ser.

Ama.

Dica amiga: vai lá e escuta Dê um rolê, Os Novos Baianos 😊