Nossa maior ameaça não é o vírus

Por mais grave que seja uma crise sanitária, nosso horror é estarmos condenados a atravessá-la com o Cujo no comando da nação. Nosso horror começou em 2018, e não vai acabar quando a pandemia estiver controlada e todos nós vacinados.

Não vai acabar porque bolsonaro é nossa mais alarmante ameaça e ele ainda estará aí, usando de todo seu repertório de deslealdades para buscar uma reeleição, se houver eleição. Desde que foi eleito — por meio de golpe sobre golpe, e pela luxuosa ajuda de todos os que anularam voto — não tem feito nada diferente de trabalhar por se manter no poder, não importa como.

É preciso impedir que isso aconteça. talvez, seja aquilo que de mais importante faremos juntos.

Se você está em linha com o pensamento de esquerda e é em favor da democracia e da vida, você precisa se unir ao coro de #forabolsonaro.

Se você está mais identificado com o centro e é em favor da democracia e da vida, você precisa se unir ao coro de #forabolsonaro.

Se você tem maior afinidade com as visões da direita e é em favor da democracia e da vida, você precisa se unir ao coro de #forabolsonaro.

Todos nós, que prezamos a vida, a saúde física e mental, a liberdade e a democracia, precisamos deixar qualquer outra diferença de lado e fazer ecoar nas cidades, campos e florestas o mais retumbante #forabolsonaro.

Bolsonaro não pode ser reeleito. Nenhum de seus filhos podem ser reeleitos ou eleitos. Hoje temos as mais claras evidências: essa gente é morte.

Das mortes que carregam, está a ameaça concreta de morte da democracia e da alegria. Sim, morte da alegria. Principalmente desde 2018, o Brasil está menos alegre. Não merecemos isso. Você não merece isso. Seus filhos não merecem isso.

Então, agora, é #forabolsonaro, e, quando for a hora, não eleja nenhum dos bolsonaro, não eleja nenhum negacionista e *não anule seu voto* — olha a merda que deu ter feito isso.

#forabolsonaro

Esperança: nossa força combinada

O licenciamento ambiental é um instrumento administrativo da gestão pública. Ele serve ao equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a manutenção do meio ambiente.

Ontem, dia 13 de maio, a câmara dos deputados aprovou integralmente o texto base para a alteração do licenciamento ambiental (PL 37729/04). O texto aprovado fragiliza as regras de licenciamento e controle ambiental vigentes no Brasil. Essa mudança coloca a vida e a economia do país e do planeta em condição de vulnerabilidade. A boiada já atravessou a porteira, sem nem a notar. Mas ainda há uma barreira. O PL precisa da aprovação do Senado.

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Ontem, dia 13 de maio, o Brasil registrou 430.417 mortes. 430.417 pessoas perderam a vida para a Covid. Existe vacina contra a Covid. O governo Bolsonaro recebeu oferta de compra e negou – não três, como Judas, mas 11 vezes.

430.417 famílias foram afetadas por essas 430.417 mortes. O governo Bolsonaro matou pessoas e mutilou famílias porque se aliou ao vírus. Instaurou o caos. Enfraqueceu as pessoas. O caos e o enfraquecimento das pessoas facilitam a passagem da boiada.

Há uma CPI que pode punir os criminosos. Um deles, Eduardo Pazuello (general da divisão do Exercito Brasileiro), nosso Otto Adolf Eichmann (SS-Obersturmbannführer da Alemanha Nazista) – o “cidadão de bem”, o “obedece quem tem juízo” – tem fugido de oferecer seu testemunho. O “manda quem pode” tem trabalhado para blindar talvez o mais paspalho dos seus asseclas. Há uma CPI. Ela pode punir os criminosos.

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No dia 13 de maio, acordamos e fomos dormir sabendo que a produção científica do Brasil está com níveis de oxigenação muito abaixo daqueles que sustentam a vida. Com queda consistente de orçamento desde 2013, no dia 11 de maio, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) alertou que pode fechar as portas em julho deste ano. Não é apenas a UFRJ que está ameaçada. Sem produção científica, não há desenvolvimento do país.

Não importa o quanto da Amazônia e do Cerrado seja derrubado, assassinado, loteado, vendido, transformado em resort, estacionamento, shopping center, loja da Havan. Nada disso vai trazer desenvolvimento e riqueza para o país. Pelo contrário. Mas a pesquisa, a produção em ciência, sim, pode desenvolver e enriquecer o pais.

É preciso pressionar o governo a reverter o bloqueio da verba que inviabilizará o que já segue com menos recursos do que é necessário. É preciso o engajamento de toda a sociedade para tentar impedir que, em meio a uma pandemia, a pesquisa que pode trazer respostas e nos salvar seja também asfixiada.

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Apesar dos orçamentos apertados e achatados pelo teto de gastos, Bolsonaro encontrou recursos para aumentar em 69% o seu próprio salário e o salário da cúpula de governo. Tal medida entrou em vigor em maio. Enquanto isso, todo o funcionalismo público de carreira segue com seus salários congelados. Na visão desse governo, como o ministro da economia e o próprio presidente insistem dizer, essas pessoas são vagabundas.

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E nós? Soterrados por mentiras e contradições, até então desconhecidas no nosso repertório comum, estamos confusos e cansados.

E nós? Engolidos pela perversidade explícita de um governo que se aliou ao vírus mortal.

E nós? Apáticos sob a pilha de 430 mil corpos que não para de crescer e a qual se somam aqueles perdidos em massacres ordenados pelo mesmo Estado violador.

Ao que tudo indica, não restará país para erguer em 2022. E não restará quem o erga. Das violências que o governo Bolsonaro vem cometendo desde o seu primeiro dia de mandato, os mais afetados são aqueles que a sociedade, a pátria amada, mantém em maior vulnerabilidade. Sem surpresa, é dessa parcela da população que vem a maior resistência contra a morte e o empobrecimento da nação.

É nas reservas indígenas, dentro da floresta, onde reside a maior potência contra a devastação da vida, da cultura, dos saberes mais ancestrais dessa terra. Essa mesma potência também está ativa nas comunidades quilombolas que resistem por todo o país. É na população mais empobrecida, que não coincidentemente é preta e é mulher, que está a maior expressão de resiliência humana desse país. É importante reconhecer o valor dessa gente que é nossa gente e que insistimos em não perceber como gente.

É muito. É demais. É paralisante. Mas não dispomos do tempo para permanecer assim.

O Brasil está sufocando. Bolsonaro nos tira o pouco ar que resta. Temos, ainda, cilindros disponíveis. Temos a CPI da Covid. Temos o Senado para travar a PL do desmatamento. Temos como levantar nossas vozes coletivas contra a desnutrição das universidades públicas federais e o prejuízo da nossa produção em ciência. É preciso que a indignação popular se organize. Não dá pra esperar.

Não é exagero comparar

Auschwitz. Maior e mais terrivel campo de concentração e extermínio nazista. Epicentro do holocausto, foram mortos mais de 1 milhão de “inimigos”, entre judeus, homossexuais, ciganos, poloneses e prisioneiros soviéticos.

No auge do Holocausto, em 1944, eram assassinadas seis mil pessoas por dia no local. (Birgit Görtz, DW, 27.01.2021)

Hoje, por negligência do governo Bolsonarista, morreram 4.195 (dados oficiais) ou 4.211 (consórcio de imprensa).

Talvez não seja exagero dizer que o Brasil de Bolsonaro é um imenso campo de extermínio.

Sem assistência financeira do governo, brasileiros e brasileiras mais vulneráveis e vulnerabilizados enfrentam a fome diária. Vítimas de desinformação, campanhas de ódio e negacionismo, muitos de nós têm sido experimentados com drogas ineficazes ao combate da pandemia. Quando inaladas, procedimento indicado por alguns médicos, tais drogas podem levar a óbito. Subjugados à lentidão e desinteresse do governo em adquirir vacinas e aplicar medidas de contenção de contágio, nossa população inteira fica desasistida. Doentes infectados aguardam um leito que não está disponível e tampouco estará. Profissionais de saúde exaustos de trabalho, abandono, violência e lutos se vêem obrigados à escolhas tão cruéis quanto decidir quem morre e quem tem o direito de tentar viver. Devido ao colapso do sistema, outros atendimentos e tratamentos de saúde ficam prejudicados. É o caso de pacientes diagnosticados com cancer, por exemplo.

Talvez não seja exagero dizer que hoje, o Brasil de Bolsonaro possa ser comparado a um campo de exterminio nazista.

Em 27 de janeiro de 1945 as tropas soviéticas libertaram cerca de 8 mil prisioneiros de Auschwitz. Em 1o de maio desse ano, após o suicídio de Hitler, Goebbels e sua esposa se suicidaram depois de assassinarem seus pais e filhos. O 8 de maio ficou guardado como o dia da Vitória dos Aliados contra o Eixo.

Sei lá. Uma esperança. Maio tá logo ali.

Não vale o que pula pulga.

1964 Foi golpe.

2013 Onda protofascista captura o movimento Passe Livre banindo bandeiras, partidos, sindicatos e batendo continência pra símbolo de opressão. Seu lema, vestidos de verdeamarelo: minha bandeira jamais será vermelha. 🤦🏽‍♀️

2016 Foi golpe. Foi também a misoginia e o machismo sem pudores.

2018 Desdobramento do golpe. Pela urna. Urna. Susbstantivo feminino. (1) receptáculo para recolher votos, etc. (2) recipiente com tampa onde se depositam as cinzas dos mortos. 🤷🏻‍♀️ Agora já são 333 mil mortos. 🤷🏻‍♀️

2021 Auto-golpe em articulação. “Quem poderia imaginar?” 🧐

É fácil (e justo) responsabilizar uma imprensa manipuladora, politicos, setores rentistas pouco escrupulosos, e por aí vai. Mas cada ser humano é dotado da fascinante capacidade de pensar, questionar, refletir, dialogar, projetar futuros, avaliar riscos.

Foi uma escolha. Sempre é uma escolha.

Bolsonaro é um. É insignificante. É inexpressivo. 99,2M é muita gente. 99,2M foram os que deram poder a quem não tem. O poder é seu. Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Aprendi nos quadrinhos. Use seu poder com responsabilidade.

Não tem perdão

Nunca tinha ouvido falar. Ricardo Kertzman. Aprendi que existe porque alguém compartilhou pelas redes sociais uma opinião do sujeito pra Isto É.

Ricardo Kertzman é um imbecil.

Imbecil: aquele que denota inteligência curta ou pouco juízo; idiota; tolo.

Digo isso não apenas porque sua opinião para a Isto É é imbecil, mas porque o imbecil escreve o texto para pedir perdão pelo seu voto em Bolsonaro. Alega, essencialmente, que foi uma aposta equivocada, mas justificada pela “ojeriza ao lulopetismo”.

Exato. Ele cometeu um erro, mas como ele poderia imaginar? E, convenhamos, foi levado a isso. A culpa, é claro, é do outro, é do PT.

Sim, minha gente. O imbecil Ricardo Kertzman se viu obrigado a votar no genocida pela “ojeriza ao lulopetismo”, logo a culpa é do PT e sua, meu caro, que ele considera ser um lulopetista – seja lá o que isso for.

Agora já temos duas informações sobre Ricardo Kertzman. Ele é imbecil e sem vergonha.

Mas ele também é covarde e inconsequente.

Veja, ele deixa transparecer que Bolsonaro era questionável. Não. Afirma que era inaceitável, posto que declara ter votado de olhos fechados. Amigos, ele fechou os olhos e jogou nosso futuro, que é o presente, ao azar.

Mas nem de olhos fechados lhe foi possível apertar 17. Não. Ele sabia o tamanho da merda que estava fazendo, então, qual a solução dele?

Ele fechou os olhos e orientou a filha de 12 anos que apertasse 1 e 7.

Imbecil. Sem vergonha. Covarde. Inconsequente. Eleitor de genocida.

Eu acho essa imagem particularmente marcante: fechou os olhos e orientou a filha a apertar 17.

Lembram-se em 2018 daqueles homens e mulheres de bem? Diziam ser pela familia, pela vida, por deus. Lembram como eles ensinavam seus filhos a fazer arma com os dedos das mãos?

Pois é.

Fechou os olhos e orientou apertar 17.

Crime.

Orientou a filha a cometer o crime que ele mesmo não teve coragem de executar com as próprias mãos. Fez da filha seu capanga. Elegeu, pela filha, um genocida. Ele sabia.

Imbecil. Sem vergonha. Covarde. inconsequente. Eleitor de genocida.

Agora pede perdão. Alega a “ojeriza ao lulopetismo” como atenuante de seu crime.

Não atenua. Não justifica. Não tem perdão.

Ojeriza: sentimento de má vontade, aversão, antipatia gerada pela intuição, por uma percepção, um ressentimento.

Lulopetismo: neologismo que designa o petismo exacerbado com culto à personalidade de Luiz Inácio Lula da Silva. (dicionario informal online)

Não sei se há de fato um lulopetismo, ou, havendo, se ele se compara ao bolsonarismo. Mas eu afirmo — afirmo — nunca ninguém viu ou ouviu de Lula, do PT ou de seus simpatizantes ou partidários incitação à morte, ao cerceamento de liberdades, ao desprezo à dignidade, à difusão da mentira.

Bolsonaro, ao contrário, sempre idolatrou e fez apologia a toda forma de violência mais vil e covarde.

Se era para ter ojeriza a algo, era para ser dirigida ao alvo certo: Bolsonaro

Antipatizar, discordar, rejeitar o PT ou Lula ou o tal do lulopetismo não justifica eleger uma personalidade que idolatra a violência e a morte.

Ricardo Kertzman sabia disso. Fechou os olhos e orientou a filha a apertar 17.

Cada paspalho que anulou, votou branco ou fechou os olhos e apertou 17 também sabia. Todos eleitores de genocida. Todos igualmente imbecis, sem vergonha, covardes e inconsequentes.

Agora perguntam: como chegamos aqui?

Chegamos aqui por sua culpa. Sua culpa. E nós avisamos.

Mas vocês disseram que se ele fizesse merda vocês o tirariam do poder — como acreditam ter feito com Dilma. Imbecis. Inteligência curta.

Se ele fizer merda a gente tira, vocês garantiram. Então, vão lá e tirem. Vão lá. Tirem.

Não fiquem aí pelas redes sociais questionando o que dizem ser “nossa apatia”.

Nós avisamos. Vocês fecharam os olhos. Anularam. Votaram branco. Apertaram 17.

“Ojeriza ao lulopetismo” é sua desculpa maltrapilha.

Não tem perdão pra vocês.

Vocês fecharam os olhos. Agora, o melhor que podemos fazer por vocês, e por nós mesmos, é garantir que abram de fato esses olhos fechados. Abram e vejam bem o que fizeram. Abram seus olhos e vejam bem o que fizeram.

Abram seus olhos. Olhem suas mãos. Vejam.

Sim, elas estão sujas de sangue. Elas estão carregadas das mortes desnecessárias. Rígidas da dor de tantas familias dilaceradas. Suas mãos. Suas digitais.

Não tem perdão. Nada justifica. Menos ainda essa “ojeriza ao lulopetismo”.

Carreguem o peso do crime que ajudaram a cometer e se corrijam. Se corrijam. Evoluam. Virem gente. Desenvolvam inteligência. Construam humanidade.

Esse papelão do Ricardo Kertzman, de confessar que fechou os olhos e orientou a filha a apertar 17 por causa de um tal “lulopetismo” e sua “ojeriza” a ele năo nos é surpresa.

Assim como avisamos que sua covardia era criminosa e imploramos: vote pela vida, tudo menos Bolsonaro; nós também sabiamos que cedo ou tarde vocês viriam a público pedir um perdão enviesado alegando imprevisibilidade, erro de cálculo e se vitimando, porque seu erro foi culpa do PT e do tal lulopetismo.

Lia Luft foi uma das primeiras paspalhas a mandar esse caô. Lembro bem. Até escrevi sobre isso. Ela se enterrou nessa desculpa logo com as primeiras covas, em 2020.

Ricardo Kertzman, Lia Luft e tantos outros, vocês sabiam. Se sua inteligência era curta ou estava encurtada de ressentimento nós trabalhamos muito para te ajudar a não cometer o crime que estavam dispostos a cometer. Mas vocês nos ignoraram.

Não tem perdão.

Ricardo Kertzman, se quase puxa a responsabilidade para si, de covarde que é recua e sustenta a malandragem de dividir o peso com todos.

Repete a frase da carta de Robert Lewis: o que fizemos?

Não. O que você fez. Não seja ridículo. Você. O que você fez. Você e gente como você.

Todos os que apertaram 17, olhos fechados ou não. Todos os que votaram branco. Todos os que anularam.

Você. O que você fez.

No texto, o autor chega a questionar se Bolsonaro é gente. Moço, se você se considera gente  Bolsonaro é gente.

O texto é recheado de baboseiras e desconexões com a realidade. Em dado momento, ele alerta que o Resident Evil ocupando o Alvorada — por causa dele, Ricardo Kertzman, e de gente como ele — tentará golpear a democracia. Caro covarde e imbecil Ricardo Kertzman, ele não tentará. Ele já golpeou a democracia. E você sabe. Você sempre soube. Se não sabia, avisamos.

Qualquer pessoa não criada em uma caverna nos confins da Sibéria sabia exatamente o tipo de inferno que significava abrir as portas para os Bolsonaro e suas milícias. Então, não. Não tem perdão. E nós avisamos. Imploramos.

O covarde eleitor de Bolsonaro, por voto ou omissão, pode enfiar o pedido de perdão bem onde Dudu Bozo acredita que as máscaras devam ser usadas.

Reafirmando seu compromisso com a imbecilidade Ricardo Kertzman propôe uma comparação incomparável entre seu ato delinquente de apertar 17 e o co-piloto do Enola Gay.

Caro eleitor genocida (quem vota em genocida ou deixa genocida se eleger é genocida). Caro eleitor genocida, ao que consta, o dito co-piloto não sabia exatamente o que carregava até ver o resultado de seu lançamento. Você, eleitor de genocida, sabia. Tinha idade para votar? Não passou a vida inteira preso um um bunker debaixo da terra? Então, eleitor de genocida, você sabia a merda que estava fazendo. Você era o agente na missão de guerra que sabia da arma letal que transportava e ainda assim a despejou. Se tem um Robert Lewis aqui nessa história é sua filha, a quem, de olhos fechados, você orientou que apertasse 1 e 7.

Que miserável ser abjeto é você. Não. Não tem perdão. Não tem perdão.

Usar como desculpa sua “ojeriza do lulopetismo” é vergonhoso.

Todos os covardes que fecharam os olhos, o fizeram porque sabiam sim quem era o maldito desgraçado que estavam a ponto de eleger. Sabiam sim que, por maiores críticas ao PT ao Lula ou ao tal lulopetismo, nunca nada se comparou às baixezas dos bolsonaros e suas milícias, já conhecidas e escancaradas durante a campanha eleitoral. Se não sabiam, não faltou quem se oferecesse para iluminar-lhes o óbvio. Bando de ignorante covarde, fecharam os olhos.

Vocês, nesse oco que existe dentro dos seus crânios, fizeram uma conta. Tenho certeza. Consideraram seus privilegios e pensaram, quando der ruim, não vai respingar em mim. “Quando”, porque era certo que daria ruim. Mas vocês erraram a conta.

Provavelmente imaginaram: quando der ruim, morrerão os outros, os que já morrem mesmo, os que não me importam, os que estão distantes — pela pobreza, pela miséria, pela raça, pela geografia, pela desigualdade desumanizadora. Mas aqui, em mim, nos meus, você pensou, a morte trágica não chega. Tenho certeza. Foi assim que você pensou. É assim que você sempre pensou. Pensa. Ainda que não admita nem pra você mesmo.

Mas, sim, você fez a conta, e calculou muito mal. Tem coisas que furam até mesmo a barreira dos privilelégios. Elas podem ser pequenas. Mesmo invisíveis a olho nu. Sabe o que não é invisível a olho nu? Sua mediocridade. Sua imbecilidade. Sua  covardia. Sua sem vergonhice. Sua inconsequencia.

Não. Não tem perdão.

Eu te desejo saúde e vida longa. Desejo memória também.

Que todo dia, até o seu fim distante você se lembre do sangue que optou por derramar ao eleger um genocida. Olhos abertos ou fechados.

Não diga que você não podia imaginar. Nunca mais repita essa mentira estúpida. E melhore. Aprenda. Viva com a sua responsabilidade pelo mal que causou e segue causando e aprenda com essa dor.

Aprenda a pensar. Pensar nos outros, além de você mesmo. Pensar no coletivo.

Aprenda. E se não puder. Aprenda a escutar. Aprenda a escutar. Aprenda a ter humildade e escutar.

Aprenda a prezar a vida. Sempre. Prezar a vida acima de tudo. A vida acima da pátria. A vida até acima de deus, pra quem acredita. Porque se houver um deus, ele certamente haverá de ser pela vida.

Aprenda. E não. Não tem perdão.

https://istoe.com.br/deus-o-que-fizemos-que-erro-terrivel-cometi-com-bolsonaro-perdao/

Amoedo está chateado

Unanimidade no voto do partido NOVO contra a manutenção da prisão de Silveira. Não é a primeira vez que o NOVO se alinha ao mais baixo na política e na moral. É comum que argumentem e julguem em total descolamento com o contexto. Das bandeiras “inofensivas” compartilhadas com a extrema direita ultra liberal no poder consta: administração eficiente do estado. É uma versão da bandeira anticorrupção que nos trouxe aqui.

Interessante que os Novistas sapatênis aqui do meio fio já encontraram a desculpa para absolver seu partido: O Amoedo está chateado. Dizem que o voto contra a manutenção da prisão de Silveira não representa o bochecha rosa e nem o partido. Insistem que tem muito fascistoide disfarçado de liberal dentro do partido.

Fiquei confusa. Não é o NOVO, super “eficiente e racional” na administração, aquele partido-empresa, que faz processo seletivo pra adesão de membros? Tal processo, segundo Amoedo, é justamente para garantir que somente os que tem mérito técnico e moral, possam representar a legenda. É isso não? Tem também a taxa, né? A pessoa tem que ser aprovada no processo seletivo e pagar uma taxa de adesão ao clube dos seletos. Então, eles garantiriam a superioridade ética, moral e técnica de seus afiliados.

Ainda assim, o Amoedo está chateado porque, mais uma vez, os representantes pelo NOVO se alinharam com o pior.

Ou o processo seletivo deles é uma bosta, logo não se pode confiar na capacidade técnica que alegam, ou o CEO do partido, Amoedo Bochecha Rosa, não está nada surpreso.

Política não é administração de empresa.

Sob a sombra do abandono

Essa é uma reflexão importante. Procede priorizar a vacinação de profissionais de saúde que atendem remotamente em detrimento de outros grupos, efetivamente de risco?

Essa questão ganha mais relevância no contexto de escassez de vacinas que o Brasil enfrenta. Resultado do pobre planejamento das autoridades e estrategistas do governo.

Para piorar o cenário, a falta de um calendário nacional de prioridades, deixa que cada município se organize conforme suas próprias lógicas. Isso dificulta ainda mais o mapeamento de quais grupos foram vacinados e a definição de políticas públicas efetivas no controle e solução dos prejuízos causados pela pandemia.

No micro, a tragédia “espalha ramas pelo chão”. Abandonados aos próprios julgamentos, invariavelmente encobertos pela densidade da sombra que os interesses particulares ganham, indivíduos tentam se proteger cavando oportunidades dentro do caos. Profissionais de saúde, nem sempre em atuação e menos na linha de frente tem viajado para outros municípios atrás da desejada dose de vacina. Da perspectiva do indivíduo procede. É questionável, mas procede.

Cadê o Estado para orientar adequadamente os municípios, as populações, as classes profissionais e os indivíduos? Cadê o planejamento?

Há quem declare surpresa pela persistência dos prejuízos causados pela pandemia nas nossas vidas e no funcionamento da sociedade. Que surpresa é essa? Especialmente para nós, brasileiros. Pessoas, elegemos um governo que mata. E ele avisou que mataria.

Impressiona que alguém, livre de ser seguidor da seita b-nazi, carregue alguma fantasia de que o governo trabalha por soluções que visem o interesse coletivo e a vida. De onde nasce nessas pessoas a surpresa de que estamos mergulhando em queda livre infinita pelo menos desde novembro de 2018?

Olhar estrangeiro

Cadela Rosada
                       [Rio de Janeiro]

Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pelo, pele tão avermelhada…
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela 
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando boias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério: o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a Quarta-Feira, é carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos…
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror…
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô…!
 
Elisabeth Bishop

Cresci com o olhar daqui e o olhar do estrangeiro. O olhar da minha mãe me ensinou o estranhamento. Lendo esse poema lembrei desse olhar do qual me alimentei.

Além da moldura. Fora do roteiro.

Esse artigo apareceu para mim nas redes sociais, provavelmente resgatado em resposta à morte de Quino, em 30 de setembro de 2020, aos 88 anos. Acho importante deixar registrado aqui pra mim.

Uma amiga, pela mesma rede social, me resgatou uma das últimas fotos com meus avós juntos. Vinha como lembrança sugerida. Já tem 8 anos.

Na foto, meus avós estão retratados na cozinha da casa onde fui mais feliz e amada. Estão iluminados pela luz indireta e difusa que passava pela janela. Dessa janela se podia ver quem ia e vinha. Por ela o cheiro que saia das panelas invadia a rua e convidava vizinhos pra uma visita. Sempre tinha visita.

Minha avó, sorrido como de costume, está de pé ao lado de meu avô. Meu avô, já perto de seus últimos dias, tem a aparência surpreendentemente frágil. Seus braços envolvem minha avó. Ele não sorri para a câmera. Olha para a amada companheira de vida. Com uma das mãos parece querer trazer o olhar dela para ele, conduzindo o rostinho pequeno com um leve toque no queixo. Lembro que ele costumava dizer: sua avó é a mulher mais linda da minha cidade, sabia que casaria com ela. Ele se foi em fevereiro de 2012. Ela não queria mais ficar.

Esse artigo de Eliane Brum para El País me tocou. Talvez porque já estou na segunda metade da minha vida. Talvez porque esteja convivendo com uma pandemia que ainda não está controlada e que já levou mais de 1 milhão de vidas em todo o mundo. Talvez porque meus pais já sejam grandes. Talvez porque estou tratando desse assunto do tempo, da vida e da morte no consultório remoto. Talvez por tudo isso e muito mais que eu ainda nem sei.

Lembrei que desde criança tinha fascínio por cemitério. Não era morbidez, era curiosidade. Achava que bem menos do que 7 palmos separavam os vivos e os mortos. Perdi um irmão quando ainda era criança. Acho que ali eu entendi que a distância entre a vida e a morte era menor que um grão de areia. Ali eu aprendi que junto com o morto a gente enterrava uma porção importante de quem a gente era. Que aquele buraco na terra era bem menor que o pedaço arrancado. Mas percebi que esse pedaço que era morte também chamava vida.

Essa vida era a parte essencial da minha curiosidade com cemitérios. Costumava pensar na infinidade de mundos enterrados, de histórias interrompidas, mas também de histórias realizadas e o que delas ficava. Talvez por isso, quando adolescente, pensava estudar arte e história. Queria pesquisar esses mundos que já não eram mais e buscar o fio que os ligava ao mundo que ainda era. Pensava em trabalhar com teatro, talvez cinema e televisão, ajudando a reconstruir memória, mas também a resgatar sonho com cenários e figurinos. Não deu. Me fiz psicóloga e fotógrafa, e até tentei ser documentarista. Mas isso é outra história, que também é vida e ao mesmo tempo é morte.

Lugar de escuta

* escrito em agosto de 2020

Encorajada pelo artigo “Lugar de Cale-se”, escrito por Maria Rita Kehl, me proponho a um exercício sobre um uso muito específico do conceito “lugar de fala” observado em alguns debates. No caso, é o “lugar de fala” usado como mordaça ao divergente. Sei que corro riscos de errar ao expor meu pensamento. O objetivo é trilhar uma breve reflexão sobre tal uso, jamais desclassificar o instrumento no contexto de lutas e conquistas no campo político e social.

O conceito lugar de fala vem reivindicar o saber da experiência do indivíduo enquanto força e elo na rede das relações sociais e de poder. Djamila Ribeiro o posiciona na dimensão do coletivo. Reconheço e respeito a força do lugar de fala como meio de restituir o protagonismo narrativo daqueles que a estrutura social empurra para as bordas. Nesse sentido, o lugar de fala não apenas redefine a relação centro e periferia, ele também reconfigura a topografia social a partir de múltiplas centralidades. Entretanto, percebo que quando seu uso provoca o silenciamento do outro, ele perde a potência que mobiliza.

Minha inquietação se estabelece na constatação do uso não infrequente do conceito para calar a fala que vem de lugares identificados com algum privilégio, sem que se dedique qualquer tempo na construção de um entendimento. Talvez uma expressão máxima desse comportamento seja o cancelamento e suas consequências. A ironia cruel é que tal atitude leva aquele que sofre o peso da subalternização a reproduzir a dominação de que é vítima. Infelizmente, não para aí, e, provavelmente sem que seja esse o interesse, colabora tanto com o esvaziamento, ou mesmo embotamento, do debate quanto com o enfraquecimento do campo mais progressista.

Das vezes em que testemunhei ou tomei conhecimento desse uso pouco interessante do lugar de fala, a que mais me estarreceu foi a prática de colorismo[1] [2] [3} como forma de esvaziar o próprio lugar de fala. Por empatia, imagino o quão dilacerante seja ter a negritude negada por não corresponder a um padrão estético subjetivo (e colonizador) imposto por terceiros. Imagino o horror de sentir o peso da estrutura que silencia e invisibiliza sendo erguida por aqueles que seriam pares identitários.

Minha hipótese é que esse uso do lugar de fala, distanciado de seu propósito original, tem como fontes a baixa tolerância para a confrontação de ideias, a indisponibilidade à frustração e a negação da provisoriedade das certezas. Nesse sentido, aproximaria ao menos uma parte daqueles que se identificam com o campo progressista com aqueles que se identificam com o campo oposto, do extremo conservadorismo com tendências ao fanatismo. Para ambos a diferença aparece como falha a ser corrigida ou eliminada. Cancelada. Cancela-se a ideia. Cancela-se a pessoa.

Essa hipótese não pretende desqualificar indivíduos, grupos ou ideias, reproduzindo assim a lógica do cancelamento. Ao contrário disso, minha aposta é na possibilidade de restabelecer a preferência pela complexidade das soluções dialogadas em vez da intolerância simplificadora. Acredito que conhecer os mecanismos que fazem aflorar comportamentos autoritários e violentos entre aqueles com quem ainda posso manter algum diálogo, os do campo progressista, permita construir uma estratégia de recuperação do diálogo com os indivíduos do campo oposto.

Sonho com o dia em que seremos capazes de celebrar as diferenças, semeando alianças. Por hora, o que observo é certa tendência ao tensionamento dessas diferenças até o limite da ruptura. A ruptura enfraquece, porque isola as partes de um todo heterogêneo em unidades incompletas, ansiosas pela homogeneidade: as bolhas.

Pode-se argumentar que essa ruptura seria desejável, no sentido de fortalecer o encontro de identidades que se reconhecem na luta, sem o gasto de energia supostamente desnecessário no convencimento daquele que é percebido como estranho a essa identidade e suas lutas. Por outro lado, é falso imaginar que “mulher”, “povo preto”, “homem branco”, “feminista” e outras categorias componham uma unidade homogênea. Sempre haverá a necessidade de acolher o contraditório e negociar a partir dele.

No limite do absurdo, a indisponibilidade para lidar com os desafios do confronto saudável das diferenças – tanto do lugar de cada indivíduo quanto do de grupos – levaria à rupturas atomizadoras. Em bolhas cada vez menores, o caminho tenderia para a particularização, o isolamento, a solidão e a radicalização.

Nesse ponto, a noção de um lugar de fala me faz pensar em um lugar de escuta. A fala demanda a escuta do outro, senão não tem poder, é estéril. Uma fala sem escuta talvez seja apenas o lugar da repetição. Refutando o diálogo nos fechamos à possibilidade de aprendizado e transformação.

Logo, penso não ser possível um lugar de fala sem que haja um lugar de escuta. É necessário que em algum momento a fala se torne escuta e a escuta se torne fala, sempre conscientes do lugar que ocupam. A pena para um movimento de fluxo único é a estagnação de energia em um único ponto. As palavras-chave aqui são estagnação, repetição, aprisionamento. O desafio é restabelecer o dinamismo, romper com a repetição, recuperar a liberdade para a transformação.

Nos habituamos a localizar a repulsa ao contraditório, a adesão ao pensamento pronto e a recusa de transformação pelo diálogo junto aos conservadores da direita radical. Descuidando de nossos próprios medos e certezas salvadoras temos a pretensão de irrigar com questionamentos o pensamento fechado à reflexão, evidentemente materializado no comportamento do outro, nunca no nosso.

Talvez, antes de permear as certezas que imunizam o conservadorismo fanático contra a dúvida, devêssemos nos permitir desafiar nossas próprias certezas com potencial de prisão. Esse é um jeito de abrir a escuta.

Escutar a fala que vem desse lugar que não é meu, e que não pode ser meu, é, ao mesmo tempo, reconhecer e celebrar a dignidade da experiência do outro, e aceitar minha ignorância. A despeito dessa ignorância, uma escuta genuína faz ressoar aquilo que do outro há em mim. Sempre há. E pode não ser agradável. A pergunta que se faz é: o que eu faço com isso? Acredito que impor o silenciamento, em  mim e no outro, seja a pior das opções.