Uma horta de bairro ou Nas cidades tem gente

No abalo das tristezas se amontoando de lixo e lama que a chuva fez correr como quisesse despertar nas gentes uma reflexão mais séria, uma ação mais comprometida, uma consciência mais viva sobre as escolhas políticas e prioridades no contexto da cidade e da nossa existência no mundo, acabei deixando de lado um breve encontro que gostaria de compartilhar.

Domingo fui papear com uma amiga lá na horta do bairro. Entre um assunto e outro, fomos regando as mudinhas de hortaliças, temperos e árvores frutíferas que os vizinhos e amigos começaram a semear. Antes mesmo das sementes da terra produzirem frutos e frutas e raízes e folhas, outras sementes já começaram a brotar. Sementes de ideias vindas de diferentes lugares. Ideias que já seguem livre o seu caminho de fazer voar outras ideias que vão chegando longe.

Mas não foi só semente da terra, não foi só ideia, foram vínculos com o lugar e com as pessoas. Duradouros ou efêmeros, cada vínculo traz a possibilidade do olhar, do sorriso e de histórias que podem ensinar.

📸 Cris Portella

Vejo a amiga voltar com a água. Junto dela, um rapaz ajudava a carregar um galão cheio. Jorge Luiz vem sorrindo. Enquanto fazíamos a rega, ele passou a mão sobre uma das folhas, dizendo do contentamento que sente quando vê o verde brotar. “É como se elas estivessem agradecendo pelo carinho da gente.”

Contou que começou a gostar de planta quando ajudava a avó a cuidar do quintal de casa. Lembranças boas de infância. Suas plantas preferidas são a planta da felicidade e a bougainvillea. “Uma parece renda, a outra é cheia de cor”.

Falou que agora está morando na rua e que há muito tempo não passava ali. Voltou recentemente e se encheu de alegria porque ali “onde o mal se enraizava, agora está nascendo o bem”.

Sobre o mal, nos contou dos “playboy” que ocupavam aquele “lugar abandonado antes da horta”. Fez questão de explicar o que queria dizer com playboy, “porque a pessoa não tem culpa de nascer rica, mas ela é responsável pelo que escolhe fazer disso. O playboy é aquele que acha que é melhor, que passa arrogante, que acredita que pode mais e pode tudo, que pensa você não é nada, que nem olha no olho, que bota fogo em morador de rua”.

Passamos parte da manhã ali, conversando e compartilhando nosso cuidado com o espaço que é público e nosso gosto comum pelo verde.

Esse encontro me fez pensar sobre a potência de ações singelas capazes de dar vida a espaços que são tão nossos e que tão fácil a gente esquece.

No seu bairro tambem tem uma praça? Como é a convivencia nesse espaço? Como pode melhorar?

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Mais uma morte evitável no trânsito. Até quando?

Toda ação é importante. Mas, o desequilíbrio das forças é absurdo. Embora o poder esteja sim em nossos corpos e na presença mobilizada e coletiva deles nas ruas, parece que nem sempre lembramos disso.

Como mulher, pedestre, ciclista e militante por cidades mais inclusivas, me questiono sobre a honestidade da mensagem quando experimento a inviabilidade planejada, progressiva e expoente do meu corpo desarmado na cidade. Desarmado sim. Ir a pé, ir de bicicleta, é ir sem armadura e sem arma. Os governantes dessa cidade investem em políticas públicas que fazem dela uma cidade que mata pelas intolerâncias, desprezos, descasos e ódios. Os governantes dessa cidade, desse estado, desse país, nos matam em todo lugar. Em toda esquina. De muitas formas. Por nenhum motivo. Mesmo porque, nenhum motivo justifica qualquer morte.

Existem muitos tipos de ciclistas na cidade. Um deles é o atleta. É linda a conquista de Áreas de Proteção ao Ciclista. Que venham mais. Mas, e quando não se está nela, como faz? E quem não é atleta, e quem apenas quer se deslocar pela cidade de forma saudável, eficiente, divertida, humana e barata, como faz?

Domingo, indo de carro para a zona sul, vi dois ciclistas de passeio, uma moça e um rapaz. Eu saia do túnel. No gramado onde pousam asas delta, em frente à calçada compartilhada desmoronada, interditada e saqueada, os ciclistas pareciam querer acessar o asfalto. Dali só havia um caminho: pegar o asfalto na contramão dos carros para atravessar o túnel sentido Barra da Tijuca.

Loucura? Imprudência? Resistência?

Cada um especule o que quiser. Fato é que nosso dinheiro foi roubado e mal empregado em uma obra necessária e importante, mas que foi mal pensada, mal executada e superfaturada.

A mobilidade, a liberdade de ir e vir, é um direito e o Estado tem o dever de ofertar opções diversas, sustentáveis e seguras de deslocamento.

Pense que nem todos podem ou querem ter carro. Pense que os transportes coletivos oferecem um serviço muito precário e caro. Pense que há pessoas que moram em lugares que sequer tem calçada para caminhar, para chegar no ponto de ônibus, BRT ou metrô; que dirá passear. Pense que isso nem é na periferia da cidade. São realidades facilmente observáveis na área ‘nobre’ e central. Um dia, deixe seu carro em casa e ande. Você vai entender.

Enfim. O fato é que nosso dinheiro se foi junto com a calçada compartilhada ligando a zona sul à zona oeste pela orla. Pior que isso. Junto com a perda de dinheiro e da via, perdemos vidas. Pessoas morreram por causa desse crime: mau uso do dinheiro público, aprovação de projeto sem respeito ao patrimônio ambiental, projeto e execução precários.

O trecho que resiste dessa obra segue interditado e vem sendo desmontado pelos furtos do material que servia de guarda-corpo. Parece cenário de cidade que passou por guerra ou evento pós-apocalíptico, mas é só o Rio de Janeiro.

No mesmo domingo, já de noite, voltando para a zona oeste vejo mais um ciclista. Um homem sozinho. Não era atleta. Não era cicloturista. Mais uma vez, era apenas uma pessoa indo do ponto A ao ponto B, sem poluir o ar, os olhos ou os ouvidos de ninguém. O homem seguia pelo elevado do Joá, pequeno, frágil mas ágil pela borda da pista. Motoristas passavam apressados, aparentemente irritados com aquela presença que os obrigava desacelerar.

Onde está o erro?

Não está nos motoristas e menos ainda nos ciclistas. Onde, então?

Muitas devem ser as mortes por atropelamento de ciclistas e pedestres que não fazem manchete. Essa morte fez, chegou aos jornais. Não é a primeira vez que, apesar das áreas de proteção ao ciclista, os atletas morrem atropelados, seja indo para o treino, voltando, ou mesmo durante o treino. Pensando além dos atletas, como fica a segurança dos ciclistas urbanos que fazem seus deslocamentos por meio de bicicleta?

De que adianta abarrotar a cidade com estações de bike compartilhada, patinetes elétricos e o que vier de novidade, se não temos o básico da educação para o trânsito cidadão, a infraestrutura de vias e sinalizações, a fiscalização e as punições? Sequer temos a infraestrutura básica para caminhar?

Exagero?

As calçadas são vergonhosas. E não falo de bairros lamentavelmente invisíveis e tradicionalmente relegados ao abandono. Falo de Copacabana, de Botafogo, de Ipanema, de Laranjeiras, do Leblon. Imagine Ramos, Marechal Hermes, Guadalupe, Piedade, Água Santa, Madureira, tudo isso que é logo ali… Imagine. Talvez você não precise imaginar. Talvez trabalhe nesses bairros. Talvez estude. Talvez more.

Se você circula, você sabe. As calçadas, como se encontram, são um perigo. Pense numa pessoa de mais idade, alguém com carrinho de bebê, com cadeira de rodas… Nem a poda dos canteiros a prefeitura tem feito. Dizem que Crivella está loteando a cidade para a construção civil e os interesses privados. Deve ser isso. Ele está transformando tudo em um grande terreno baldio. Como é um homem justo, de deus, ele não diferencia. Vai ser lixo, buraco, desordem, abandono para todos. É que levar saúde, planejamento, dignidade dá trabalho.

As tais ciclovias que supostamente irrigam a cidade, os sup9stos 450km, se ja eram engodo antes, agora são engodo perigoso. Se antes suas dimensões eram inadequadas, se sua separação das calçadas ou ruas eram irreais e perigosas, se eram intermitentes e ligavam lugar nenhum a nada, agora, é isso e buraco, desnível, mato, galhos… até carros estacionados sobre elas temos — porque vc sabe, a cidade nem privilegia os automóveis , seus proprietarios precisam se impor pela boçalidade.

O poder público, sob a gestão dos governantes que a população tem se dedicado a escolher, pouco ou nada faz pela conservação, melhoria, modernização, educação, fiscalização, punição. Neste passo, o quadro é piorar.

Ao eleitor equivocado canta glória deux pra ver se resolve. Depois me conta, tá?

A mais essa família em luto, me solidarizo.

https://oglobo.globo.com/rio/empresario-morre-atropelado-por-onibus-quando-treinava-de-bicicleta-na-barra-23533396

O espelho assombra

Minha experiência de vó e de vô me ensinou a certeza de que o amor é maior e mais intenso que a própria vida. Vôs e vós me emocionam.

Perdi um irmão quando ele era pequeno. Por empatia, por memória, me solidarizo ao pesar de Lula, como me solidarizaria a qualquer outro. Imagino que a dor desse momento não tem nem nome.

Ficaria no silêncio que fala dentro de mim. Mas foram tantas colocações insensíveis, inumanas, desastrosas, mesquinhas e feias, que precisei fazer o silêncio falar pra fora. Não sei até onde chega. Mas meu silêncio grita assim:

Gostaria de dizer que apesar de você, amanhã será outro dia. Mas agora, só penso que por sua causa os dias tem sido penosos.

Você justificou seu voto injustificável pq era contra a corrupção. Pq era contra bandido de estimação, porque “bandido bom é bandido morto”. Veja você, porém. O filho do seu presidente já leva corrupção inscrita no DNA. O filho do seu presidente deita na cama de miliciano, faz festa, chama de amigo.

Você justificou seu voto injustificável pq estava cansado da ‘velha politica’. Note, entretanto. O seu presidente trabalha em um pacote de maldades, o velho toma lá, dá cá, pra fazer passar a tal Reforma da Previdência.

Você justificou seu voto injustificável pq queria um governo ‘técnico’. Que ironia. Você tem um astrólogo como mentor do seu governo.

Você justificou seu voto injustificável alegando desprezo pelos ‘intelectuais’, sabe lá o que quer dizer com isso. No seu governo, olhe bem, ministros recalcados mentem sobre suas formações acadêmicas. Fosse pouco, os mesmos ministros odeiam aquilo pelo que advogam, não tem qualquer relação com a pasta que lideram, ou, quando tem, se submetem aos achismos de Whatsapp do eleitorado chucro como o próprio presidente que elegeu – um velho mesquinho, franzino, fraco, caprichoso e tirano.

Nada do que você usou pra justificar seu voto injustificável se sustenta. Sua única motivação foi o ódio. O ódio ainda é sua motivação. E você nem sabe o que odeia. Ou sabe e é covarde demais pra dizer. Eu te digo. Você odeia aquilo que vê refletido no espelho. Você não suporta. Então você odeia um outro. Agora você chama esse outro de Lula, de esquerdista, de petista, de intelectual, de analfabeto. Você nem se decide. A única certeza é que você se odeia tanto, e não suporta, que até se autoriza a odiar uma criança de 7 anos, morta.

Você é horrível.

*não soube achar a autoria da foto de Lula com seu neto.

Ser normal

É uma pessoa muito boa. No Natal faz caridade. Leva cesta básica pra uns pobres.

É uma pessoa muito engajada. Distribui cobertores pra morador de rua. Dá até prato de comida. Às vezes, nem é resto.

É uma pessoa muito consciente. Não come carne vermelha, evita plástico, faz até mutirão de limpeza do lixo.

É uma pessoa muito ajustada. Joga o jogo, não faz marola. Mas o jogo mata. Até o cidadão de bem sabe disso. Só que quem morre é o outro. “É ele ou eu. Que seja ele”.

De boa vontade em boa vontade, quando dá, o cidadão de bem se exime de pensar nos privilégios que detém. Livre de pensar, não questiona a engrenagem que mata e mata e mata. Finge, assim, que nem percebe que essas mortes garantem seus pequenos (ou grandes) luxos. Iludido (nem sempre), ignora que também está morrendo em nome desses mesmos privilégios. Uma morte diferente, talvez. Ainda assim, não menos morte.

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Tateia na cômoda, buscando suas bolinhas. Vasculha a geladeira atrás de doces. Se acaba na noite. Vira todas no carnaval. Ah, o carnaval. Vamos sair de laranjal, fazer marchinha contra o racismo, a homofobia, o Capetão. Somos muito críticos, cultos, amamos cinema, andamos de bicicleta. Já falei que não comemos carne?

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Por temer e evitar a morte, a sua e a dos seus, o cidadão de bem, que sabe o que tem valor, cria seus filhos na escola cara. Na escola cara tem um programa incrível voltado pro desenvolvimento socioemocional da criança rica, essencial pra formar um cidadão de bem, bem ajustado. Afinal, “ninguém quer ser ponta de lança”. Nossas inovações tem essa característica de inovar pra não sair do lugar. É um primor.

A educação inovadora do século 21 precisa pensar, portanto, muito além dos conteúdos tradicionais – esses que Damares, com seus diplomas falsos, diz que os pais “podem aplicar mais” em casa.

A educação do século 21 precisa educar o ser integral, capaz de reconhecer, nomear e fazer bom uso de suas emoções. Não serve só juntar letras e fazer as operações básicas. Isso é claro.

É claro, se você é cidadão de bem.

E, assim, nomeando suas raivas, tristezas e medos, a criança que recebeu sua educação integral se tornará também um cidadão de bem.

Com sorte, porém, não será assim. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que esse jogo não joga mais. Talvez lhe cresça a coragem de não se ajustar à norma de privilégios aprofundados em misérias de toda sorte a serem exploradas. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que é o capitalismo que mata e mata e mata pra que uns possam ir pra escola cara enquanto outros sequer tem o de comer e o de morar. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que o capitalismo não é resposta adequada, sem se esconder em desculpas. Se nem isso e nem aquilo serviu, talvez lhe cresça a coragem de ousar outro caminho ainda não percorrido. Talvez. Talvez, até, seja ouvida. Talvez nem a matem. (Marielle Presente, diz a hashtag adesivada no peito).

Deixo o link com matéria (2016) sobre o livro Despejados (Evicted), de Matthew Desmond. Trata-se de um estudo etnografico sobre inquilinos de baixa renda em uma cidade desindustrializada de médio porte. O estudo, mais uma vez, e ainda, parte dos sempre mesmos questionamentos óbvios.

“E se o discurso dominante sobre a pobreza estiver errado? E se o problema não for a suposta carência de moral das pessoas pobres — que elas sao preguiçosas, impulsivas e não tem valores familiares — ou ainda sua falta de habilidade e inteligência necessárias para serem bem adaptados à gloriosa economia do século 21? E se o problema da pobreza é que ela gera lucro?”

Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as mulheres. Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as pessoas não brancas. Como sempre no capitalismo, o privilégio se concentra nas mãos do macho branco da espécie. É a norma. É normal.

Dizia o maluco, “deus me livre de ser normal”.

https://www.theguardian.com/books/2016/apr/07/evicted-poverty-and-profit-in-the-american-city-matthew-desmond-review

Consciência e atuação política é imprescindível. Reavaliar o modelo econômico é urgente.

Não é “só” o mau cheiro. Além de prejudicar a sobrevivência da fauna e da flora, e mesmo o sustento de comunidades de pescadores, o lixo lançado diariamente na rede hídrica também prejudica a saúde das pessoas.

E não é pouco lixo.

Para você ter uma dimensão da coisa, em menos de duas horas de mutirão 17 voluntários recolheram 6mil litros de lixo de um pequeno trecho à margem do Canal de Marapendi. A variedade do que foi encontrado você vê nas fotos.

Esse mutirão não é o único. São muitas iniciativas que acontecem de modo articulado ou independente. Ainda assim, o lixo parece não ter fim. Todo dia ele volta, arrastado pelas correntes das águas ou simplesmente abandonado ali.

Já pensou como isso prejudica a sua vida? Você percebe o prejuízo para a economia, o turismo, ou mesmo o valor do seu imóvel? O que você pode fazer para evitar a degradação desse ecossistema e o empobrecimento da sua cidade tão aninhada nessa natureza?

Conheça seu lixo. Consuma menos. Reaproveite e reutilize. Questione “conveniências”. Mas, exija e lute por políticas que multipliquem o seu esforço, para que as iniciativas individuais não se percam.

Originalmente postado em 17/02/2019 em https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10218639044032986&id=1404252159

Consumismo – alegria efêmera, danos duradouros

Após romper sua carapaça, a cigarra experimenta um período de vulnerabilidade até formar uma nova estrutura que a proteja e sustente. Esse processo de transformação, chamado de ecdise, é o que permite o crescimento da cigarra.

Mudar nossos hábitos, certezas e verdades também pode nos deixar vulneráveis. Por isso é tão comum resistir ao não conhecido e até brigar para manter tudo exatamente como é, afinal, dizem que em time que tá ganhando não se mexe. Mas será que o time tá mesmo ganhando?

Quando a gente pensa no impacto dos nossos hábitos sobre o meio ambiente parece que não é bem assim. De fato, nem o nosso time e nem nenhum outro está ganhando.

Já parou para fazer essa reflexão? Reflita sobre seus hábitos de consumo e descarte. O que você pode mudar? Com quais certezas deve romper para crescer em consciência e cidadania para uma vida sustentável?

Impressões

Diz que Deus não escolhe os preparados, mas prepara quem escolhe. No discurso de posse, a mensagem é que foi eleito por esse Deus. À mesa, uma Bílbia, a Constituição Federal, uma referência à Churchil e outra à Olavo de Carvalho.

Fez mais de um pronunciamento. Cada um dirigido a um público. Cada um veículado por um meio diferente. Privilegiou o espaço informal das redes sociais que o elegeram.

A imprensa precisaria se adequar. Fez imposições e mesmo ameaças. Tem recebido as coletivas em casa. Seleciona quem irá receber. Oferece sempre a parte externa que parece um alpendre, varanda ou memso uma garagem. O lugar é decorado de entulhos aparentemente esquecidos naquele espaço sempre descuidado, como se o anfitrião não desse muita importância para o que pensam dele.

A um só tempo, a cena mostra uma figura arrogante e despretenciosa, autoritária e humilde, poderosa e ordiária.

Na coleção de objetos vemos símbolos que reforçam a narrativa: militar, intimista, mundana, violenta, familiar, religiosa, nacionalista. Os olhos do eleitor (seria correto denominar adorador?) podem escolher o objeto que preferirem para adornar seu mito. a personagem é fugidia e pode assumir a forma de quem a idealiza e deseja.

O figurino da personagem principal e seus coadjuvantes filhos ajuda a composição da cena. Comunica, com a sutileza de um piano que se espatifa no chão, as mesmas ideias que os objetos aparentemente esquecidos e desimportantes que constituem o cenário.

No teatro a expressão corporal não passa sem ser notada, sempre rígida, um misto de desconforto, tensão e inadequação a um passo do descompasso, do destempero, da manifestação violenta de quem ataca pra se defender. Rígidos são os músculos da face, a moldura torta e murcha dos lábios e a ausência do olhar que parece ver nada e nem ninguém.

É assim que o novo presidente faz suas primeiras aparições após os resultados das urnas, antes da posse. A locação ‘improvisada’ para receber a imprensa selecionada mostra que será a regra não prestigiar a imprensa, não respeitar esse trabalhador, não cuidar da imagem que chega nas casas de cada brasileiro e de cada brasileira em canto do Brasil. Hostilidade, desprezo, pequenas demonstrações de poder e força, e amadorismo são a tônica.

Todo quadro tem aquilo que transborda. Nesse quadro presidencial transborda o trânsito de homens mal encarados, entre eles os próprios filhos. Não há leveza. Não há sorriso. As roupas ostentam um padrão escuro ou camuflado. Em cada detalhe, a força bruta, a tirania e a truculência.

Na rua da praia, em frente ao condomínio que serve de locação, com a mesma estética, com o mesmo espírito, uma turba de contentes faz arma com as mãos, elogia assassinos e torturadores, faz ameaças a tudo o que não cabe na sua pobre imaginação e dança uma micareta ao som de mito.