Não tem perdão

Nunca tinha ouvido falar. Ricardo Kertzman. Aprendi que existe porque alguém compartilhou pelas redes sociais uma opinião do sujeito pra Isto É.

Ricardo Kertzman é um imbecil.

Imbecil: aquele que denota inteligência curta ou pouco juízo; idiota; tolo.

Digo isso não apenas porque sua opinião para a Isto É é imbecil, mas porque o imbecil escreve o texto para pedir perdão pelo seu voto em Bolsonaro. Alega, essencialmente, que foi uma aposta equivocada, mas justificada pela “ojeriza ao lulopetismo”.

Exato. Ele cometeu um erro, mas como ele poderia imaginar? E, convenhamos, foi levado a isso. A culpa, é claro, é do outro, é do PT.

Sim, minha gente. O imbecil Ricardo Kertzman se viu obrigado a votar no genocida pela “ojeriza ao lulopetismo”, logo a culpa é do PT e sua, meu caro, que ele considera ser um lulopetista – seja lá o que isso for.

Agora já temos duas informações sobre Ricardo Kertzman. Ele é imbecil e sem vergonha.

Mas ele também é covarde e inconsequente.

Veja, ele deixa transparecer que Bolsonaro era questionável. Não. Afirma que era inaceitável, posto que declara ter votado de olhos fechados. Amigos, ele fechou os olhos e jogou nosso futuro, que é o presente, ao azar.

Mas nem de olhos fechados lhe foi possível apertar 17. Não. Ele sabia o tamanho da merda que estava fazendo, então, qual a solução dele?

Ele fechou os olhos e orientou a filha de 12 anos que apertasse 1 e 7.

Imbecil. Sem vergonha. Covarde. Inconsequente. Eleitor de genocida.

Eu acho essa imagem particularmente marcante: fechou os olhos e orientou a filha a apertar 17.

Lembram-se em 2018 daqueles homens e mulheres de bem? Diziam ser pela familia, pela vida, por deus. Lembram como eles ensinavam seus filhos a fazer arma com os dedos das mãos?

Pois é.

Fechou os olhos e orientou apertar 17.

Crime.

Orientou a filha a cometer o crime que ele mesmo não teve coragem de executar com as próprias mãos. Fez da filha seu capanga. Elegeu, pela filha, um genocida. Ele sabia.

Imbecil. Sem vergonha. Covarde. inconsequente. Eleitor de genocida.

Agora pede perdão. Alega a “ojeriza ao lulopetismo” como atenuante de seu crime.

Não atenua. Não justifica. Não tem perdão.

Ojeriza: sentimento de má vontade, aversão, antipatia gerada pela intuição, por uma percepção, um ressentimento.

Lulopetismo: neologismo que designa o petismo exacerbado com culto à personalidade de Luiz Inácio Lula da Silva. (dicionario informal online)

Não sei se há de fato um lulopetismo, ou, havendo, se ele se compara ao bolsonarismo. Mas eu afirmo — afirmo — nunca ninguém viu ou ouviu de Lula, do PT ou de seus simpatizantes ou partidários incitação à morte, ao cerceamento de liberdades, ao desprezo à dignidade, à difusão da mentira.

Bolsonaro, ao contrário, sempre idolatrou e fez apologia a toda forma de violência mais vil e covarde.

Se era para ter ojeriza a algo, era para ser dirigida ao alvo certo: Bolsonaro

Antipatizar, discordar, rejeitar o PT ou Lula ou o tal do lulopetismo não justifica eleger uma personalidade que idolatra a violência e a morte.

Ricardo Kertzman sabia disso. Fechou os olhos e orientou a filha a apertar 17.

Cada paspalho que anulou, votou branco ou fechou os olhos e apertou 17 também sabia. Todos eleitores de genocida. Todos igualmente imbecis, sem vergonha, covardes e inconsequentes.

Agora perguntam: como chegamos aqui?

Chegamos aqui por sua culpa. Sua culpa. E nós avisamos.

Mas vocês disseram que se ele fizesse merda vocês o tirariam do poder — como acreditam ter feito com Dilma. Imbecis. Inteligência curta.

Se ele fizer merda a gente tira, vocês garantiram. Então, vão lá e tirem. Vão lá. Tirem.

Não fiquem aí pelas redes sociais questionando o que dizem ser “nossa apatia”.

Nós avisamos. Vocês fecharam os olhos. Anularam. Votaram branco. Apertaram 17.

“Ojeriza ao lulopetismo” é sua desculpa maltrapilha.

Não tem perdão pra vocês.

Vocês fecharam os olhos. Agora, o melhor que podemos fazer por vocês, e por nós mesmos, é garantir que abram de fato esses olhos fechados. Abram e vejam bem o que fizeram. Abram seus olhos e vejam bem o que fizeram.

Abram seus olhos. Olhem suas mãos. Vejam.

Sim, elas estão sujas de sangue. Elas estão carregadas das mortes desnecessárias. Rígidas da dor de tantas familias dilaceradas. Suas mãos. Suas digitais.

Não tem perdão. Nada justifica. Menos ainda essa “ojeriza ao lulopetismo”.

Carreguem o peso do crime que ajudaram a cometer e se corrijam. Se corrijam. Evoluam. Virem gente. Desenvolvam inteligência. Construam humanidade.

Esse papelão do Ricardo Kertzman, de confessar que fechou os olhos e orientou a filha a apertar 17 por causa de um tal “lulopetismo” e sua “ojeriza” a ele năo nos é surpresa.

Assim como avisamos que sua covardia era criminosa e imploramos: vote pela vida, tudo menos Bolsonaro; nós também sabiamos que cedo ou tarde vocês viriam a público pedir um perdão enviesado alegando imprevisibilidade, erro de cálculo e se vitimando, porque seu erro foi culpa do PT e do tal lulopetismo.

Lia Luft foi uma das primeiras paspalhas a mandar esse caô. Lembro bem. Até escrevi sobre isso. Ela se enterrou nessa desculpa logo com as primeiras covas, em 2020.

Ricardo Kertzman, Lia Luft e tantos outros, vocês sabiam. Se sua inteligência era curta ou estava encurtada de ressentimento nós trabalhamos muito para te ajudar a não cometer o crime que estavam dispostos a cometer. Mas vocês nos ignoraram.

Não tem perdão.

Ricardo Kertzman, se quase puxa a responsabilidade para si, de covarde que é recua e sustenta a malandragem de dividir o peso com todos.

Repete a frase da carta de Robert Lewis: o que fizemos?

Não. O que você fez. Não seja ridículo. Você. O que você fez. Você e gente como você.

Todos os que apertaram 17, olhos fechados ou não. Todos os que votaram branco. Todos os que anularam.

Você. O que você fez.

No texto, o autor chega a questionar se Bolsonaro é gente. Moço, se você se considera gente  Bolsonaro é gente.

O texto é recheado de baboseiras e desconexões com a realidade. Em dado momento, ele alerta que o Resident Evil ocupando o Alvorada — por causa dele, Ricardo Kertzman, e de gente como ele — tentará golpear a democracia. Caro covarde e imbecil Ricardo Kertzman, ele não tentará. Ele já golpeou a democracia. E você sabe. Você sempre soube. Se não sabia, avisamos.

Qualquer pessoa não criada em uma caverna nos confins da Sibéria sabia exatamente o tipo de inferno que significava abrir as portas para os Bolsonaro e suas milícias. Então, não. Não tem perdão. E nós avisamos. Imploramos.

O covarde eleitor de Bolsonaro, por voto ou omissão, pode enfiar o pedido de perdão bem onde Dudu Bozo acredita que as máscaras devam ser usadas.

Reafirmando seu compromisso com a imbecilidade Ricardo Kertzman propôe uma comparação incomparável entre seu ato delinquente de apertar 17 e o co-piloto do Enola Gay.

Caro eleitor genocida (quem vota em genocida ou deixa genocida se eleger é genocida). Caro eleitor genocida, ao que consta, o dito co-piloto não sabia exatamente o que carregava até ver o resultado de seu lançamento. Você, eleitor de genocida, sabia. Tinha idade para votar? Não passou a vida inteira preso um um bunker debaixo da terra? Então, eleitor de genocida, você sabia a merda que estava fazendo. Você era o agente na missão de guerra que sabia da arma letal que transportava e ainda assim a despejou. Se tem um Robert Lewis aqui nessa história é sua filha, a quem, de olhos fechados, você orientou que apertasse 1 e 7.

Que miserável ser abjeto é você. Não. Não tem perdão. Não tem perdão.

Usar como desculpa sua “ojeriza do lulopetismo” é vergonhoso.

Todos os covardes que fecharam os olhos, o fizeram porque sabiam sim quem era o maldito desgraçado que estavam a ponto de eleger. Sabiam sim que, por maiores críticas ao PT ao Lula ou ao tal lulopetismo, nunca nada se comparou às baixezas dos bolsonaros e suas milícias, já conhecidas e escancaradas durante a campanha eleitoral. Se não sabiam, não faltou quem se oferecesse para iluminar-lhes o óbvio. Bando de ignorante covarde, fecharam os olhos.

Vocês, nesse oco que existe dentro dos seus crânios, fizeram uma conta. Tenho certeza. Consideraram seus privilegios e pensaram, quando der ruim, não vai respingar em mim. “Quando”, porque era certo que daria ruim. Mas vocês erraram a conta.

Provavelmente imaginaram: quando der ruim, morrerão os outros, os que já morrem mesmo, os que não me importam, os que estão distantes — pela pobreza, pela miséria, pela raça, pela geografia, pela desigualdade desumanizadora. Mas aqui, em mim, nos meus, você pensou, a morte trágica não chega. Tenho certeza. Foi assim que você pensou. É assim que você sempre pensou. Pensa. Ainda que não admita nem pra você mesmo.

Mas, sim, você fez a conta, e calculou muito mal. Tem coisas que furam até mesmo a barreira dos privilelégios. Elas podem ser pequenas. Mesmo invisíveis a olho nu. Sabe o que não é invisível a olho nu? Sua mediocridade. Sua imbecilidade. Sua  covardia. Sua sem vergonhice. Sua inconsequencia.

Não. Não tem perdão.

Eu te desejo saúde e vida longa. Desejo memória também.

Que todo dia, até o seu fim distante você se lembre do sangue que optou por derramar ao eleger um genocida. Olhos abertos ou fechados.

Não diga que você não podia imaginar. Nunca mais repita essa mentira estúpida. E melhore. Aprenda. Viva com a sua responsabilidade pelo mal que causou e segue causando e aprenda com essa dor.

Aprenda a pensar. Pensar nos outros, além de você mesmo. Pensar no coletivo.

Aprenda. E se não puder. Aprenda a escutar. Aprenda a escutar. Aprenda a ter humildade e escutar.

Aprenda a prezar a vida. Sempre. Prezar a vida acima de tudo. A vida acima da pátria. A vida até acima de deus, pra quem acredita. Porque se houver um deus, ele certamente haverá de ser pela vida.

Aprenda. E não. Não tem perdão.

https://istoe.com.br/deus-o-que-fizemos-que-erro-terrivel-cometi-com-bolsonaro-perdao/