Olhar estrangeiro

Cadela Rosada
                       [Rio de Janeiro]

Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pelo, pele tão avermelhada…
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela 
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando boias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério: o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a Quarta-Feira, é carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos…
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror…
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô…!
 
Elisabeth Bishop

Não sei como um carioca vê. Eu sou carioca. Mas também não sou. Cresci com o olhar daqui e o olhar do estrangeiro. O olhar da minha mãe me ensinou o estranhamento. Lendo esse poema lembrei desse olhar do qual me alimentei. Por causa dele me acusaram pessimista, de não gostar da minha cidade ou do meu país, de não gostar do samba e nem do carnaval. Não é verdade. Apenas estranho.

Além da moldura. Fora do roteiro.

Esse artigo apareceu para mim nas redes sociais, provavelmente resgatado em resposta à morte de Quino ontem, dia 30 de setembro de 2020, aos 88 anos. Acho importante deixar registrado aqui pra mim.

Uma amiga, pela mesma rede social, me resgatou uma das últimas fotos com meus avós juntos. Vinha como lembrança sugerida. Já tem 8 anos.

Na foto, meus avós estão retratados na cozinha da casa onde fui mais feliz e amada. Estão iluminados pela luz indireta e difusa que passava pela janela. Dessa janela se podia ver quem ia e vinha. Por ela o cheiro que saia das panelas invadia a rua e convidava vizinhos pra uma visita. Sempre tinha visita.

Minha avó, sorrido como de costume, está de pé ao lado de meu avô. Meu avô, já perto de seus últimos dias, tem a aparência surpeendentemente frágil. Seus braços envolvem minha avó. Ele não sorri para a camera. Olha para a amada companheira de vida. Com uma das mãos parece querer trazer o olhar dela para ele, conduzindo o rostinho pequeno com um leve toque no queixo. Lembro que ele costumava dizer: sua avó é a mulher mais linda da minha cidade, sabia que casaria com ela. Ele se foi em fevereiro de 2012. Ela não queria mais ficar.

Esse artigo de Eliane Brum para El País me tocou. Talvez porque já estou na segunda metade da minha vida. Talvez porque esteja convivendo com uma pandemia que ainda não está controlada e que já levou mais de 1 milhão de vidas em todo o mundo. Talvez porque meus pais já sejam grandes. Talvez porque estou tratando desse assunto do tempo, da vida e da morte no consultório remoto. Talvez por tudo isso e muito mais que eu ainda nem sei.

Lembrei que desde criança tinha fascínio por cemitério. Não era morbidez, era curiosidade. Achava que bem menos do que 7 palmos separavam os vivos e os mortos. Perdi um irmão quando ainda era criança. Acho que ali eu entendi que a distância entre a vida e a morte era menor que a fração de um instante. E era imponderável. Ali eu aprendi que junto com o morto a gente enterrava uma porção importante de quem a gente era. Que aquele buraco na terra era bem menor que o pedaço arrancado. Mas percebi que esse pedaço que era morte também chamava vida.

Essa vida era a parte essencial da minha curiosidade com cemitérios. Costumava pensar na infinidade de mundos enterrados, de histórias interrompidas, mas também de histórias realizadas e o que delas ficava. Talvez por isso, quando adolescente, pensava estudar arte e história. Queria pesquisar esses mundos que já não eram mais e buscar o fio que os ligava ao mundo que ainda era. Pensava em trabalhar com teatro, talvez cinema e televisão, ajudando a reconstruir memória, mas também a resgatar sonho com cenários e figurinos. Não deu. Me fiz psicóloga e fotógrafa, e até tentei ser documentarista. Mas isso é outra história, que também é vida e ao mesmo tempo é morte.