Lugar de escuta

* escrito em agosto de 2020

Encorajada pelo artigo “Lugar de Cale-se”, escrito por Maria Rita Kehl, me proponho a um exercício sobre um uso muito específico do conceito “lugar de fala” observado em alguns debates. No caso, é o “lugar de fala” usado como mordaça ao divergente. Sei que corro riscos de errar ao expor meu pensamento. O objetivo é trilhar uma breve reflexão sobre tal uso, jamais desclassificar o instrumento no contexto de lutas e conquistas no campo político e social.

O conceito lugar de fala vem reivindicar o saber da experiência do indivíduo enquanto força e elo na rede das relações sociais e de poder. Djamila Ribeiro o posiciona na dimensão do coletivo. Reconheço e respeito a força do lugar de fala como meio de restituir o protagonismo narrativo daqueles que a estrutura social empurra para as bordas. Nesse sentido, o lugar de fala não apenas redefine a relação centro e periferia, ele também reconfigura a topografia social a partir de múltiplas centralidades. Entretanto, percebo que quando seu uso provoca o silenciamento do outro, ele perde a potência que mobiliza.

Minha inquietação se estabelece na constatação do uso não infrequente do conceito para calar a fala que vem de lugares identificados com algum privilégio, sem que se dedique qualquer tempo na construção de um entendimento. Talvez uma expressão máxima desse comportamento seja o cancelamento e suas consequências. A ironia cruel é que tal atitude leva aquele que sofre o peso da subalternização a reproduzir a dominação de que é vítima. Infelizmente, não para aí, e, provavelmente sem que seja esse o interesse, colabora tanto com o esvaziamento, ou mesmo embotamento, do debate quanto com o enfraquecimento do campo mais progressista.

Das vezes em que testemunhei ou tomei conhecimento desse uso pouco interessante do lugar de fala, a que mais me estarreceu foi a prática de colorismo[1] [2] [3} como forma de esvaziar o próprio lugar de fala. Por empatia, imagino o quão dilacerante seja ter a negritude negada por não corresponder a um padrão estético subjetivo (e colonizador) imposto por terceiros. Imagino o horror de sentir o peso da estrutura que silencia e invisibiliza sendo erguida por aqueles que seriam pares identitários.

Minha hipótese é que esse uso do lugar de fala, distanciado de seu propósito original, tem como fontes a baixa tolerância para a confrontação de ideias, a indisponibilidade à frustração e a negação da provisoriedade das certezas. Nesse sentido, aproximaria ao menos uma parte daqueles que se identificam com o campo progressista com aqueles que se identificam com o campo oposto, do extremo conservadorismo com tendências ao fanatismo. Para ambos a diferença aparece como falha a ser corrigida ou eliminada. Cancelada. Cancela-se a ideia. Cancela-se a pessoa.

Essa hipótese não pretende desqualificar indivíduos, grupos ou ideias, reproduzindo assim a lógica do cancelamento. Ao contrário disso, minha aposta é na possibilidade de restabelecer a preferência pela complexidade das soluções dialogadas em vez da intolerância simplificadora. Acredito que conhecer os mecanismos que fazem aflorar comportamentos autoritários e violentos entre aqueles com quem ainda posso manter algum diálogo, os do campo progressista, permita construir uma estratégia de recuperação do diálogo com os indivíduos do campo oposto.

Sonho com o dia em que seremos capazes de celebrar as diferenças, semeando alianças. Por hora, o que observo é certa tendência ao tensionamento dessas diferenças até o limite da ruptura. A ruptura enfraquece, porque isola as partes de um todo heterogêneo em unidades incompletas, ansiosas pela homogeneidade: as bolhas.

Pode-se argumentar que essa ruptura seria desejável, no sentido de fortalecer o encontro de identidades que se reconhecem na luta, sem o gasto de energia supostamente desnecessário no convencimento daquele que é percebido como estranho a essa identidade e suas lutas. Por outro lado, é falso imaginar que “mulher”, “povo preto”, “homem branco”, “feminista” e outras categorias componham uma unidade homogênea. Sempre haverá a necessidade de acolher o contraditório e negociar a partir dele.

No limite do absurdo, a indisponibilidade para lidar com os desafios do confronto saudável das diferenças – tanto do lugar de cada indivíduo quanto do de grupos – levaria à rupturas atomizadoras. Em bolhas cada vez menores, o caminho tenderia para a particularização, o isolamento, a solidão e a radicalização.

Nesse ponto, a noção de um lugar de fala me faz pensar em um lugar de escuta. A fala demanda a escuta do outro, senão não tem poder, é estéril. Uma fala sem escuta talvez seja apenas o lugar da repetição. Refutando o diálogo nos fechamos à possibilidade de aprendizado e transformação.

Logo, penso não ser possível um lugar de fala sem que haja um lugar de escuta. Pode-se pensar na fala como um movimento de descarga de tensão acumulada. Complementarmente, a escuta seria um movimento de acumulação da tensão descarregada pela fala. Nessa dinâmica, é necessário que em algum momento a fala se torne escuta e a escuta se torne fala, sempre conscientes do lugar que ocupam. A pena para um movimento de fluxo único é a estagnação de energia em um único ponto. As palavras-chave aqui são estagnação, repetição, aprisionamento. O desafio é restabelecer o dinamismo, romper com a repetição, recuperar a liberdade para a transformação.

Nos habituamos a localizar a repulsa ao contraditório, a adesão ao pensamento pronto e a recusa de transformação pelo diálogo junto aos conservadores da direita radical. Descuidando de nossos próprios medos e certezas salvadoras temos a pretensão de irrigar com questionamentos o pensamento fechado à reflexão, evidentemente materializado no comportamento do outro, nunca no nosso.

Talvez, antes de permear as certezas que imunizam o conservadorismo fanático contra a dúvida, devêssemos nos permitir desafiar nossas próprias certezas com potencial de prisão. Esse é um jeito de abrir a escuta.

Escutar a fala que vem desse lugar que não é meu, e que não pode ser meu, é, ao mesmo tempo, reconhecer e celebrar a dignidade da experiência do outro, e aceitar minha ignorância. A despeito dessa ignorância, uma escuta genuína faz ressoar aquilo que do outro há em mim. Sempre há. E pode não ser agradável. A pergunta que se faz é: o que eu faço com isso que ressoa? Acredito que impor o silenciamento, em  mim e no outro, seja a pior das opções.

Publicado por

Deriva Navegante

Rês desgarrada nessa multidão

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