Ao que serve o arrependimento?

Lya Luft e a banalidade do mal no voto entediado, leio no DCM em junho de 2020. Diz que se arrependeu do voto em Bolsonaro. Que não sabia bem o que fazia, porque não o conhecia, apenas precisava liberar o país do… Adivinha? Isso. Precisava liberar o Brasil do PT. (O ser patético não precisa ser inventado. Ele existe e repete coisas como essa daí).

Me causa repulsa a recusa de alguns em reconhecer a própria autoria no capítulo trágico da história democrática desse país. Era sabido que em algum momento o apoio a um sujeito desqualificado e violento seria uma mancha suja demais para seguir ostentando atrás da maquiagem verde amarela, desfigurada de tanto ódio. Em nome desse ódio mal disfarçado, entregaram o Brasil nas garras de quem nunca escondeu o gozo perverso com o sofrimento e até a aniquilação do outro. Agiram de forma consciente, conivente e desejosa do horror que se descortina sem surpresas. Agiram confiantes de que, se necessário, alegariam a mesma ignorância que tantos homens e mulheres “de bem” alegaram por terem apoiado os crimes contra a humanidade durante o nazismo.

Não existe absolutamente nenhuma justificativa que isente de responsabilidade aquele que votou em Bolsonaro. Também não há como isentar de responsabilidade aquele que, ao abrir mão do voto, deixou este governo (fascistoide ou fascista?) se estabelecer no poder.

Não há pedido de desculpas que baste. A escolha foi consciente. Não é possível alegar ignorância. Não é possível alegar desconhecimento. Não há arrependimento. Não venha pedir desculpas tentando salvar sua biografia.

O que eu respeitaria seria se cada um, ou ao menos alguns destes que usaram o título de eleitor como arma para desferir seu ódio, viesse a público admitir sua responsabilidade concreta e motivação real para o quadro atual. Não aceito e não respeito e não acredito em pedidos de desculpas levianos, de quem quer tirar o corpo fora alegando ignorância, desconhecimento ou mesmo boa fé. Que carreguem em si o peso, a dor e o sangue que sua escolha (inclusive a escolha de anular voto em uma eleição atípica como a de 2018) já causou e seguirá causando por muito tempo.

Por que insisto na responsabilização de si mesmo, quer dizer, por que insisto que a pessoa precisa parar de se justificar e de posar arrependinento?

Porque é a única possibilidade de que, talvez, essa pessoa seja capaz de não repetir o mesmo erro. Mais, e talvez isso seja o mais importante, é a única forma de a pessoa se desvencilhar da arrogância, do medo e do fanatismo que a impede de estabelecer qualquer diálogo.

Pra você, que ainda está tentando dialogar com quem não está aberto, segue meu pensamento.

O fanático não dialoga. É terra arrasada. Pisar nela vai te exaurir, te arrasar também. Nada floresce ali. A boa notícia é que esse universo de pessoas propensa ao fanatismo é relativamente baixo. Não havendo tecnologia, por hora, para semear diálogo nesses campos áridos, a forma é desnutrir retirando qualquer oportunidade de plataforma que alimente essa gente.

O que vem se chamando de bolsonarismo é a expressão caoticamente aglutinada da escória de ressentidos quando ganha olofote e ribalta. Não significa que não estivessem lá antes. Apenas, antes, eram os paspalhos do churraso de família, os chucros do bar ou da empresa. Ainda não sabemos como recuperar essas pessoas. Talvez não seja possíve recuperá-las. É que não é falta de instrução o que as define. Também não é uma doença mental, como pode parecer ao serem chamadas, genericamente, de loucas. Se há uma doença, ela é moral e eu não sei como isso se corrige. Então, apenas deixe que definhem e rastejem nas sombras, como sempre fizeram.

Amanheci hashtag

Quem sou eu na fila do pão? Sou uma pessoa comum que está tentando avaliar esse manifesto cheio de assinaturas, identificado como frente ampla pela democracia e contra o fascismo. Me sinto relativamente aliviada em saber que somos 70% — mas somos 70% de quê?

É certo que quando o rolo compressor vem ameaçando nossa existência, é urgente uma ação pela sobrevivência. Mas, quando vamos sair desse modo tão primitivo: agir pelo instinto de sobrevivência, um instinto basal, nem sempre provido de raciocínio? Pra ilustrar o absurdo disso, vi circulando, em um canal obscuro no YouTube, uma web-serie no modo “survivalist“. O canal é atribuído a uma empresa que leva o nome de uma pessoa que se pretende algo como um coach que vai te ensinar a atravessar crises. Claro, a protagonista é um gringo fantasiado de soldadinho. Faz referência à sua experiência como combatente nas tantas guerras que seu país inventa pelo mundo com o pretexto de promover democracia. Compõe a caracterização a ostentação de armamento pesado. Essa caricatura de oportunismo barato é a face do que aceitamos nos tornar.

Pra que serve a história? Estaremos condenados a repetir os mesmos erros de sempre, às custas da covardia e do medo? Não aprendemos nada com slogans vazios de conteúdo?

É preciso união, mas tendo a coragem de construir uma pauta concreta e coerente, capaz de mobilizar transformação. O debate para essa construção já é transformador. Ainda que lá na frente os rentistas usurpadores de sempre nos passem a perna, teremos uma plataforma sobre a qual ficar de pé. O preço dessas frentes amplas sem forma é a deformação de tudo. O grito vazio de “é contra a corrupção” de 2013 vira o grito esvaziado de “é contra o fascismo”. De grito em grito não dizemos e não ouvimos nada. Precisamos de um projeto. É urgente.

 

Estar presente é um presente

Na parte da cidade onde moro tem cobertura de mangue ❤ Agora estamos cumprindo o distanciamento social, evitando a rua, então é tudo paisagem na memória. Mas quando posso estar na rua, gosto de caminhar ou de pedalar para os meus compromissos — depende da distância. Prefiro isso ao carro, porque é um jeito de estar no lugar, e não apenas passar, com pressa e automatismo. Então eu olho pra tudo. E é sempre novo. Um reflexo na água. Um ninho de passarinho. Peixes nadando. Pessoas que passam. Flores ou frutos que não estavam antes. Galhos pelados, galhos esverdeados, galhos amarelados, galhos avermelhados, galhos de muitas cores. De tardinha, as capivaras. De noite, os morcegos. Então, quando vejo o mangue cuidado, as águas limpas, fico feliz. Dói quando está machucado.

E se a cidade pudesse privilegiar a natureza que tem em cada bairro?

E se o seu dia incluísse o olhar e o estar presente nesses espaços, que são públicos, coletivos?

Que mudanças isso traria pro seu dia e pro dia da cidade? Pra sua vida e pra vida na cidade?

Mangue