Notas sobre a pandemia (1)

Em três dias completo um mês de isolamento social. Nesse tempo, apenas saí de casa por duas vezes. A primeira foi logo no início da crise no Brasil. Meu destino: o mercado de verduras e frutas. A segunda vez foi hoje. Precisei ir ao banco. Entre a primeira e a segunda saída, pelo menos no bairro onde moro, a diferença no fluxo de pessoas nas ruas chamou a atenção.

Há quase um mês atrás, as ruas estavam praticamente desertas de carros, e as calçadas vazias de gente. No mercado, evidentemente, havia pessoas. Mas todos pareciam cuidadosos em manter distância saudável de outro vivente. Hoje foi bem diferente. O fluxo de carros estava alto. Atravessar as ruas foi trabalhoso. Envolveu alguma espera para que os muitos carros pudessem desfilar acelerados, ignorantes de tudo que não fosse o asfalto livre. Senti gastura. O trânsito de pedestres também chamou a atenção. Era muita gente circulando, despreocupada em guardar alguma distância de qualquer outra pessoa.

O bairro onde moro é marcado pela ausência de vida nas ruas. É mesmo só um ir e vir de gente. Ninguém para, até porque não tem onde parar. Não tem uma esquina, não tem um bar, não tem uma praça viva. Tem a praia. Tem os condomínios. Tem os shoppings. Em dias comuns, as pessoas que a gente vê circulando pelas ruas são, em sua maioria, trabalhadores e trabalhadoras destes shoppings e condomínios. Eram essas as pessoas circulando a pé, 4 semanas depois do início do isolamento social. Não eram essas, entretanto, as mesmas que circulavam de carro. Pensei pelo aspecto otimista: quanta gente nessa minha cidade é serviço essencial! Quase bati palmas, mas estava ocupada tentando manter alguma distância dos outros corpos. Senti ansiedade e irritação.

No banco, avistei um atendente, três seguranças e uma cliente. Enquanto esperava minha vez, o que foi rápido, percebi os seguranças conversando entre si. Pareciam contrariados. A mulher dizia que a linha de ônibus que usou para chegar ao trabalho estava amontoada de gente: “um falando dentro da cara do outro”! Um dos homens reclamou do que avaliou como insensibilidade dos que insistem em estar nas ruas sem necessidade: “parece que não estão lendo as notícias, não estão levando a sério, um desrespeito com a gente”. O terceiro disse que não tinha jeito, era confiar no papai. Eu não entendi. Acho que ninguém entendeu, porque ele precisou explicar: “papai! O pai do céu. Só a providência”.

No caminho pra casa parei em uma farmácia. Chorei ao me afastar do caixa. Estranhei as marcações no chão, as fitas criando distância entre as gôndolas e os balcões. O caixa estendendo o braço, com a sacola pendurada na pontinha dos dedos, a embalagem de álcool ao lado da registradora.

Apesar de as lojas estarem fechadas, à exceção das farmácias, bancos e lojas de chocolate, tinha bastante gente circulando dentro do shopping. Também havia uma padaria aberta, com pessoas sentadas às mesas, sem qualquer distância entre si. Não estava proibido consumir dentro dos locais?

Chegando em casa, teve início o ritual de desinfecção, ainda na porta do apartamento. Fui direto pro banho. Achei que um homem tinha espirrado perto demais de mim. Meus cabelos estavam soltos. Lavei os cabelos que estão longos, longuíssimos.

Sentada no sofá, senti um tipo de alívio. Olhei pela varanda. O mar ainda em ressaca. Acostumei a olhar o mar pela janela. Só passou um mês e parece que a vida sempre foi assim.