Atualização de referências pra gente asquerosa

Witzel não é bobo. Tudo pra ele é palanque.

Em agosto de 2019, um rapaz fez de reféns os passageiros de um ônibus. A operação durou cerca de 4 horas e terminou com o sequestrador sendo baleado e morto por um sniper. Houve controvérsia quanto ao, assim definido, sucesso da operação. Não vou entrar nesse mérito. O ponto aqui é destacar a inadequação e a inadmissibilidade do comportamento do governador do estado do Rio de Janeiro.

Eleito na sombra das afinidades de prateleira com o teocrata ultradireitista Bolsonaro, o até então desconhecido Witzel se oferece como servo dos interesses conservadores (retrógrados?) de falsos moralistas e liberais de mercado. Meteórico, ganha relevância defendendo a violência justiceira dos homens de bem, esses marcadamente covardes.

Uma das primeiras informações que o estado conheceu a seu respeito chegou através de um vídeo onde, ainda juiz, ensinava a torcer a lei a fim de se obter vantagens financeiras. Malandro, o fluminense deve ter ficado bem impressionado, porque o elegeu.

Confesso que não enxergava esse Witzel. Quando tomei conhecimento de sua presença, ele já era praticamente eleito. Defendia impiedade no combate ao crime. Desfazendo dos princípios que norteiam os direitos humanos universais e a própria legislação brasileira, repetia que a polícia teria liberdade de atirar antes e perguntar depois. Talvez nem perguntar. E, ao atirar, que fosse ja cabecinha.

Daí em diante, fica difícil elencar quais das suas manifestações públicas são mais desprezíveis. A certeza é a expressão grotesca do quadro.

Uma das atuações públicas de Witzel que mais asco me causou aconteceu em campanha, uma semana antes das eleições. Ao lado dos truculentos Daniel Silveira e Rodrigo Amorim, eleitos deputado federal e estadual pelo Rio, ostenta orgulhoso o vandalismo com a memória de Marielle Franco, cujo assassinato ainda segue sem respostas.

Os três covardes, em busca desesperada por relevância, procuram associar sua imagem à imagem não menos repulsiva de Jair Bolsonaro. O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes também parece bastante associado à Jair Bolsonaro.

Exibindo a placa partida, os três delinquentes entregam mais um discurso de ódio e intolerância incitando a violência. Contentes em sua mediocridade insignificante, os três posam para a foto. Witzel aparece com o braço erguido e o punho cerrado, como quem celebra uma grande vitória. No rosto suado, estúpido sorriso.

Também é de causar asco a coletiva onde Witzel comunica sua política de segurança pública. Sempre expressando violência, preconceito e desprezo pela vida, declara que a polícia militar, em sua gestão, terá carta branca para matar, atirando primeiro e perguntando depois, porque ele “não tem bandido de estimação”. Em uma linha, sua política se resume à seguinte ordem: “é para atirar na cabecinha”. O alvo é claro: negros, pobres, favelados.

Desse modo, operações desastradas e irresponsáveis, construídas para serem espetaculares, entregaram ao mundo o caso isolado do dia. Todo dia.

Foi o caso isolado o assassinato de Agatha. A menina de 8 anos morreu nos braços do avô, baleada nas costas pela PM do Rio, de Witzel.

Foi o caso isolado o assassinato de Rodrigo Alexandre Serrano. O jovem de 26 anos foi alvejado pela PM do Rio por que portava um guarda-chuva para proteger a esposa e o filho da chuva. A desculpa: a polícia confundiu o guarda-chuva com um fuzil.

Foi o caso isolado do assassinato de Marcos Vinícius da Silva. O adolescente de 14 anos foi baleado enquanto ia para a escola, uniformizado com a camisa da rede pública de ensino. Ensanguentado, peito furado por projéteis do Estado, aninhado nos braços da mãe, ainda teve tempo de perguntar: “mãe, ele não viu que eu estava indo para a escola?”.

Esses casos isolados não se resumem aqui. Compõem uma longa ficha corrida de crimses de racismo e injustiça social cometidos pelo Estado com a chancela da população.

Witzel não apenas é asqueroso. Ele eleva a definição do termo para outro patamar. E é consistente.

Foi sendo consistente que no dia 20 de agosto de 2019 ele chegou de helicóptero, saltitante e celebrativo, para comemorar o assassinato de um rapaz que havia feito de reféns os passageiros de um ônibus sobre a ponte Rio-Niterói. Feliz, não cabia em si, o herói.

Questionado, negou a comemoração. Não estava comemorando uma morte, estava comemorando as vidas salvas, declarou.

Comemoração asquerosa de Witzel

Sem limite para espetáculo e o ridículo, Witzel fez de palanque a Libertadores. O sujo usando o mal lavado. Witzel que usa Bolsonaro, que usa o Witzel que usam o Flamengo, que usa Bolsonaro, que usa Witzel e que usam todo mundo.

A taça Libertadores é mais um acontecimento com garantida cobertura da imprensa e atenção popular. Patético, Witzel fez da vitória rubro-negra um evento para jogar holofotes sobre si. O picadeiro? A capital do estado que o elegeu governador.

Fantasiado no seu caricato sorriso de homem bobo, paletó cinza sobre a camisa do Flamengo e um manto da “nação” sobre o pescoço, pisou o gramado e se ajoelhou aos pés do atacante Gabigol. (Por extensāo, se ajoelhou aos pés do clube que pouco antes fora palco da morte de 10 jovens atletas por negligência deliberada, sem que, até o momento a diretoria ainda tenha sido responsabilizada.)

Witzel se ajoelhou em campo, em uma atitude asquerosa e populista.

Vi a cena e logo imaginei o toma lá dá cá que se negociou entre o governador, o clube e o jogador para a produção de triste espetáculo.

— Ah, mas que mal-humorada. O cara não se ajoelhou para o clube e nem para a diretoria, ele se ajoelhou para o Gabigol, o craque, o jogador. A festa não pode ser punida pelos erros dos cartolas. Não pode politizar o entretenimento.

É sério que você desconsidera a possibilidade de uma conversa, um faz-me-rir entre governador, diretoria e atleta?

Nem tive tempo de terminar meu pensamento. O assunto já era TT. O ângulo e o instante capturado, faziam o jogador parecer desconfortável em ter o Mr. Potato ajoelhado aos seus pés. Aparentemente, o atacante teria se afastado constrangido ou, talvez, enojado com a cena. E nem duvido que tenha sentido nojo e desprezo. Não duvido mesmo. As imagens em vídeo deixam mais evidentes o constrangimento.

Populismo asqueroso de um invertebrado

No Twitter, a chuva de histeria reproduzia a imagem ridícula acompanhada de frases como: Gabigol lacrou. Gabigol humilhou. Gabigol desprezou. Gabigol herói.

Fiquei aguardando quanto tempo até o herói dos tolos desmoronar. Não demorou nada. Poucas horas depois, vestindo medalha e o manto rubro-negro, a imagem asquerosa de Witzel e de Gabigol silenciando os arroubos de heroísmo inexistente na suposta recusa do atleta em receber a deferência do invertebrado que nos governa o estado.

Print da tela da conta oficial de Witzel agarradinho com Gabigol

Os passadores de pano, de todos os matizes sociais, econômicos, políticos e ideológicos, se apressaram para: passar pano! — Ah, mas a pressão da imprensa. — Ah, mas a pressão da diretoria.

— Ah, mas a pressão…dos privilégios e vantagens que posso acumular disso — deve ter pensado Gabigol. E a diretoria. E o governador.

Gabigol pode até ter sido forçado a posar de troféu pro tolete humano que o povo fluminense, com seu dedo de Midas invertido, colocou no poder. Mas, precisava posar assim cheio de dente e convicção?

Publicado por

Deriva Navegante

Rês desgarrada nessa multidão

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