10 flamenguistas não comemoraram

O lugar se chama Ninho do Urubu. Urubu é a mascote do Flamengo. No Ninho do Urubu jovens atletas com futuro promissor são “cuidados” até se tornarem os craques do futuro.

Para o clube, para a indústria do esporte e do futebol, para a imprensa especializada, no Ninho são gestadas as cifras indizíveis de lucro sobre a compra e a venda de craques e ídolos. É bonito, que falando assim faz lembrar a compra e venda de pessoas escravizadas. A diferença é que esses “escravizados” não geram lucro só pra quem vendeu e pra quem comprou. Com sorte e inteligência, eles também podem fazer dinheiro pra si mesmos, e fazer dinheiro pra durar. Vai ser difícil. Corpo de atleta é corpo exigido além do limite. É corpo abusado. É corpo que lesiona muito. É corpo que gasta rápido. Mas, pra muita gente, nesse país de desigualdades muitas, a fama do esporte pode ser o único passaporte acessível para fora da margem. Para muita gente, nesse país que despreza a educação, a ciência, a pesquisa, a força física pode ser a única forma de romper com a roda da fortuna virada sempre de ponta-cabeça. Se tudo der certo, as promessas de craque podem até ajudar as famílias de origem que, quase invariavelmente, são humildes e passam até necessidade. É uma espécie de conto de fada. É muito bonito o que o esporte faz pelas pessoas. O que o Flamengo pode ajudar o menino humilde a conquistar com a exploração adequada de seu talento.

O lugar se chama Ninho do Urubu. Urubu é a mascote do Flamengo. No Ninho do Urubu jovens atletas com futuro promissor são “cuidados” até se tornarem os craques do futuro. Só tem um problema. Eles não foram cuidados. Dormindo em alojamentos condenados pela vistoria técnica, em 2019, 10 meninos morreram em um incêndio por negligência do Flamengo.

O lugar se chama Ninho do Urubu. O quando foi em fevereiro de 2019. O como foi negligência. O quanto foram 10 mortes e 3 feridos.

No Ninho do Urubu, em fevereiro de 2019, foram mortos 10 jovens por negligência. Eram os filhos de 10 famílias. Morreram 10 talentos promissores do esporte nacional. O Ninho do Urubu encurralou e queimou à morte 10 sonhos, ao menos.

Jovens atletas do Ninho do Urubu mortos em incêndio por negligência do clube
Jovens atletas do Ninho do Urubu mortos em incêndio por negligência do clube

As reações? Pessoas declarando à exaustão seus lutos e indignação virtual em rede social. Chocadas com a tragédia, repercutiam o coração rubro negro dilacerado em suas timelines. Manifestavam solidariedade às famílias. E… defendiam o Flamengo.

Foi fascinante acompanhar em tempo real o processo de racionalização insustentável de separar o que não se separa para tirar a responsabilidade das costas e das mãos e da consciência (se é que ela existe) dos autores do crime.

Imprensa, torcedores (do mais variado espectro sociocultural), diretoria do time, jogadores, nenhum deles pareciam ter qualquer dificuldade em separar o que seria o Flamengo “diretoria” do Flamengo produto vendido nas embalagens time, “nação”, emoção, ídolos, craques, objetos, vestimentas, hinos, fofocas, ideal de consumo etc.

A comoção durou um tempo. Afinal era o Flamengo. Sério. Acho que o que mais capturou a atenção e a solidariedade geral não foi a morte de 10 meninos encurralados em um alojamento condenado pela vistoria técnica e negligenciado pelo clube. Acho que o que capturou a atenção e a solidariedade do público foi ser uma tragédia com o Flamengo. COM o Flamengo. Entende? Não eram os meninos.

Assim, passado esse tempo, e cumprido o papel social esperado de indivíduos, grupos e instituições de bem, a imprensa e as redes socais não demoraram a se acalmar. Assim, 10 mortes ficaram para trás sem que a tal diretoria tenha sido punida e sem que nenhuma reparação mais profunda e significativa tivesse sido observada.

O que ficou? O esquecimento. Ou talvez, uma memória sem afeto de uma tragédia espetacular e distante. Mas tudo bem. Em breve o Flamengo vai trazer muitas alegrias pra esse Brazil. Quer apostar? E depois, já tem o Carnaval. E tem o presidente. Já ele fala uma barbaridade e a gente se agarra nela, até que venha a outra.

Torcedores lotam av. Presidente Vargas no Rio
Torcedores lotam av. Presidente Vargas no Rio

Hoje, com o penoso 2019 chegando ao fim, olhando as imagens de uma Presidente Vargas tomada de rubro negro em festa, é difícil não pensar onde estava toda essa gente pressionando o sistema por uma reparação. Se essa multidão tivesse de fato se indignado e usado essa energia para declarar sua repulsa a uma estrutura que se sustenta da exploração da carência econômica e emocional de seres humanos, será que o evento trágico poderia ter iniciado um processo de redefinição das regras de um jogo perverso que naturaliza a exploração da miséria nas suas mais variadas formas?

Publicado por

Deriva Navegante

Rês desgarrada nessa multidão

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