46 outubros atrás

Ainda dá tempo? Sempre gosto de ver o desfile de crianças deslizando pela telinha do celular. Fui procurar fotos minhas. Pra participar. Achei as várias crianças que eu fui, sempre sendo a mesma. Escolhi essa.

Aqui é a criança suburbana, que aprendeu a andar correndo na rua larga próxima da linha do trem, do lado oposto à fábrica de açúcar.

Esta bebê é carioca. Primeira da família a nascer em terras brasileiras. Contam que não queria sair da Terra do Antes. Chegou por cesariana. Era de muito olhar e quase nunca falar, “tão quietinha que a gente até esquecia”.

Foi neta de imigrantes camponeses que cruzaram um oceano inteiro em busca de paz, trabalho e futuro. É filha de imigrantes — crianças tentando se achar no continente novo entre a tradição familiar campesina e a vida na cidade, jovens adultos, mais jovens que adultos, começando uma família.

O ano desta foto é 1973. Registro de meu pai. Nesta época, plena ditadura militar, ele já estava relativamente bem orientado na direção daquilo que seria a vida dele e que era, como ainda é hoje, fortemente identificada com o trabalho.

Minha mãe, para os meus atuais 46 anos, era uma menina de apenas 21. Recém chegada de terras vizinhas, no Rio era imigrante duas vezes. Sem nenhuma referência que não fosse meu pai e esse bebê, ela se equilibrava entre aprender a viver longe da família, dos amigos e de tudo o que conhecia, aprender uma nova língua, aprender a ser mulher adulta, aprender a ser dona de casa, aprender a ser esposa e aprender a ser mãe. Além da família, deixava no país onde cresceu a estudante de artes plásticas.

Contam que esta bebê não gostava de leite e não comia nada. Mas tinha loucura por passear de carro. O carro era esse Chevette goiaba.

Sobre o tampo do porta malas, a pequena criatura veste um colar de chupeta e fralda de pano. O sorriso sem dentes enfeita a magrelice de toda vida.

Não tenho absolutamente nenhuma memória dessa época. Só aquela que me contaram e também as que eu ouvi por aí.

Dois anos e seis meses depois ganharia um irmão gordinho e cheio de dobras.

Publicado por

Deriva Navegante

Rês desgarrada nessa multidão

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