Já que o Maio é Amarelo e o sentido é a vida

Registro de uma intervenção em espaço público sem que tenha havido qualquer consulta ou mesmo comunicação junto à comunidade.

Desenho atual: uma curva em S, sem calçada, sem acessibilidade, sem sinalização de velocidade e sem pontos de travessia para pedestre ou redutores de velocidade

Avenida Afonso Arinos, sentido praia – Avenida das Américas

O traçado atual da via está destacado em vermelho. Todo o resto era área verde, hoje derrubada para dar lugar ao novo traçado de via.

Entre a praia e a Avenida das Américas não há nenhum sinal de trânsito, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. A via de velocidades elevadas é testemunha de frequentes acidentes de trânsito provocados pelo excesso de velocidade. Pedestres se arriscam em calçadas exíguas, esburacadas e travessias inexistentes. Ciclistas se arriscam em um trânsito hostil.

Mas a prefeitura está prestes a entregar uma obra de redesenho dessa via. Acompanhe a seguir o projeto.

Trecho de rua segregado e privatizado por cancela

O traçado amarelo, destaca uma rua privatizada por cancela. Separada da curva em S por uma ilha, seu uso era essencialmente dedicado a oferecer acesso praticamente exclusivo para o prédio da esquina, tornando-se uma espécie de extensão do estacionamento de visitantes do mesmo condomínio. Em dias de praia era comum ver banhistas fazerem uso da rua para deixar seus carros. Também era frequente o abandono de veículos danificados nessa área.

Retirada da ilha e ampliação do número de pistas

A ilha que separava essa rua privatizada por cancela da curva em S foi retirada. Também foi retirada a cancela. Deste modo, o número de pistas que vem do sentido da praia em direção ao Canal de Marapendi – Avenida das Américas foi ampliado de duas para quatro pistas. Não foi prevista nenhuma faixa de pedestre, redutor de velocidade ou sinalização indicando passagem de pessoas a pé ou de bicicleta.

Com a derrubada das árvores no terreno imediatamente à frente, a via “morta” ganha uma continuidade que dará acesso de carros, em uma linha praticamente reta, ao canal de Marapendi.

Neste trecho também não há indícios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. Do mesmo modo, ciclistas também não foram contemplados. Acessibilidade é algo que passou longe.

Um contorno antes inexistente

Essa em azul vê-se uma nova via, antes inexistente. De algum modo, parece prevista a circulação de carros no sentido do Canal para a praia, tendo sido abertas duas possibilidades de direção. Para a esquerda do desenho, voltaria em direção ao Canal, passando por de baixo da ponte. Para a direita, haveria um acesso para a rua que segue por sobre a ponte.

Mais uma vez, não há indícios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. Ao contrário do que seria de se esperar, já que há uma ciclovia desenhada no projeto apresentado pelo engenheiro responsável depois de muita insistência, não vemos os ciclistas sendo contemplados. Acessibilidade, novamente, é algo que passou longe.

A antiga curva em S cedeu lugar a uma longa reta

Por fim, o retão da alegria. O longo retão culmina em uma curva pouco suave, seguindo-se de outro longo e desimpedido retão imediatamente à frente.

Vou repetir o mantra: não há indícios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade, o trânsito de ciclistas não foi contemplados, acessibilidade não foi uma preocupação.

Logo da campanha Maio Amarelo de 2019: no trânsito, o sentido é a vida

Campanhas de conscientização no trânsito são maravilhosas, demonstram resultado e, portanto, são necessárias. Que legal. Mas, o que justifica essa desarticulação entre o plano de mobilidade urbana e a publicidade em torno do cuidado com a vida?

Vamos pensar juntos. Se um motorista olha para frente e não vê nenhum obstáculo, se, ao contrário disso, ele se depara com uma via larga, reta, lisa e desimpedida, qual o comportamento que será estimulado? Se você respondeu velocidade alta e convite à imprudência, você acertou.

Velocidades altas e embriaguez são as principais causas de acidentes com morte no trânsito. Então, porque, em uma área urbana, próxima à áreas de lazer e no caminho de um fluxo importante de pedestres (na verdade, o único acessível para pedestres e ciclistas nesse trecho), foi autorizada uma obra dessas, impondo, mais uma vez, um desenho 100% orientado para o transporte individual motorizado?

Cabe destacar que:

1. A obra tem previsão de entrega para esse mesmo maio, o Maio Amarelo.

2. O projeto apresentado pelo engenheiro responsável da obra não previa os vários novos sentidos e acessos possíveis para automóveis.

3. O projeto mostrava uma ciclovia segregada inexistente na obra realizada e prestes a ser entregue.

4. O projeto indicava redutores de velocidade e elevações da via para o nível da calçada. Estes não constam da obra próxima de ser finalizada.

5. No projeto apresentado, haveria um trabalho de calçamento da rua que vai da ponte para a praia, em destaque abaixo. Esse, de acordo com o mesmo engenheiro, era um terreno indevidamente apropriado pelo condomínio Atlântico Sul, e que, portanto, seria reintegrado ao uso público, justamente para dar lugar a uma calçada de pedestres. Esse trecho não recebeu qualquer beneficiamento e continua de posse e uso particular do condomínio Atlântico Sul.

Trecho correspondente a área indevidamente incorporada ao condomínio Atlântico Sul

6. De acordo com o engenheiro responsável pela obra, o restinho de área arborizada, receberia um tratamento paisagístico, recuperação de vegetação local e criação de parque público. Não está acontecendo.

7. Todo o trecho entre a praia e a Avenida das Américas tem 1,1km. Esse percurso carece de calçadas, e muitas das que existem são estreitas, acidentadas e inadequadas (inviáveis mesmo) para o trânsito seguro de pedestres, carrinhos de bebê ou pessoas com mobilidade reduzida. O trecho também é recheado de ameaças aos pedestres e ciclistas: contém muitos cruzamentos e acessos para carros vindo de diferentes vias, e não apresenta nenhum sinal de trânsito, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. Se há alguma placa de limite de velocidade, essa não é respeitada e nem tão pouco fiscalizada.

Conclusão

Uma cidade que ainda se permite tomar área verde para ampliar número de pistas para carros, sem pensar em mobilidade ativa; uma cidade que ainda privatiza espaços (há muitas formas de privatizar) sem pensar no publico; uma cidade que investe em velocidade e abre mão da segurança; essa é uma cidade atrasada, essa é uma cidade destinada a continuar matando no trânsito.

Mas, lembre-se, o sentido é a vida.

Abaixo, uma matéria de 2018 com orientações da OMS para um trânsito orientado à vida.

https://g1.globo.com/carros/noticia/2018/12/07/oms-divulga-relatorio-sobre-mortes-no-transito-e-sugere-reducao-de-velocidade-em-areas-urbanas.ghtml

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Publicado por

Deriva Navegante

Rês desgarrada nessa multidão

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