Pequenos cuidados

Recentemente em um debate público sobre ciclo-entregadores, serviços de entregas por aplicativos e segurança viária uma liderança social desencorajava discussões e ações de estímulo à segurança pessoal e orientações para o trânsito seguro junto a esse público, que vem crescendo como reflexo da crise econômica e do aumento do desemprego formal. A liderança em questão é a jornalista e cicloativista Renata Falzoni. Ela argumentava que “a presença desses garotos”, normalmente das periferias, “nas ruas era uma forma revolucionária de ocupação das cidades” e que “querer regular essa ocupação e determinar como devem se movimentar é tampar os ouvidos para o que podemos aprender e devemos mudar para tornar as cidades mais humanas”.

Procurei entender a fala como uma tentativa de tirar o foco do aspecto disciplinador dos agentes de trânsito (pedestres, ciclistas, motoristas …) para privilegiar o questionamento sobre a violência de um modelo de planejamento que favorece um determinado modo de transporte ao ponto de praticamente inviabilizar todos os demais. No entanto, escutando com mais cuidado, a colocação me pareceu irresponsável e romântica, ao mesmo tempo.

A irresponsabilidade: minimizar, senão retirar da equação, o fato de que a disputa (como ela se dá) por esse espaço (como ele se apresenta) está matando justamente esses que já são os que nossa sociedade mais mata: rapazes jovens das periferias.

Disseminar e discutir questões ligadas à segurança pessoal e práticas para um transito seguro não me parece tampar os ouvidos para nada. Ao contrário, me parece um oportunidade de escuta, atualização e sensibilização de um maior número de pessoas para os fatores que fazem do nosso trânsito brasileiro um dos mais violentos do mundo, ajudando a democratizar e qualificar o debate para mais camadas da sociedade.

O alcance das pautas que o cicloativismo propõe é restrito a um determinado segumento da sociedade, que sem medo de errar eu diria que é justamente a parcela que marca uma ou mais caixinhas de privilégios. Ter a oportunidade de chegar a públicos com os quais sempre desejamos dialogar não pode ser desperdiçado. E note, é dialogar. Dialogar não significa chegar com verdades, mas chegar com escuta.

As pessoas que hoje compõem o trânsito do Rio de Janeiro como ciclistas entregadores, em sua maioria, não possuem vínculo formal de trabalho nem com a empresa de aplicativo, nem com a empresa que fornece o produto da entrega e nem com o consumidor final. Portanto, sua segurança não é uma questão para ninguém a não ser elas mesmas. Enquanto ciclistas e trabalhadores precarizados, sua segurança também não é uma questão para o poder público. O que não faz sentido nem do ponto de vista humano e nem econômico, porque desconsidera perdas econômicas para o país tanto por morte, invalidez permanente ou temporária de pessoas econômicamente ativas, quanto por e sobrecarga ao sistema público de saúde. Assim, nesse lugar de abandono, descaso e descuido, se aproximar desse público para construir diálogo e estratégia de enfrentamento, sobrevivência e segurança no ambiente hostil, não é apenas uma oportunidade para o cicloativismo ampliar sua base crítica, mas é a atitude ética e humana a se tomar.

Ao defender a não ação e a não responsablização tanto do movimento cicloativista quanto dos trabalhadores precarizados, a liderança não apenas faz eco ao coro dos que abandonam à própria sorte aqueles que já acumulam um lastro de abandonos. Ela também assume uma posição confortável (e fantasiosa) de capitalizar ganhos para sua agenda a partir de um supostamente natural rearranjo da cidade para uma condição menos violenta, ironicamente construída a partir de um lugar de exploração e predação de despossuídos ou desesperados.

O romantismo: assumir que os tais garotos de periferia estão ocupando as ruas de bicicleta porque para eles essa é uma causa, e que a presença (inconveniente) de seus corpos (descartáveis) explorados em uma economia falida por meio de um trabalho inseguro, insalubre e mal remunerado nas ruas irá sensibilizar a sociedade brasileira que elegeu o fascismo ou os governos fascistas por ela eleitos.

Ao afirmar isso, está-se fazendo uso, em causa própria, de uma parcela da população que não necessariamente é sensível ou familiar ao debate sobre a mobilidade ativa. Desconsidera-se que, se esses corpos estão na luta e na rua disputando espaço em um ambiente hostil, e muitas vezes pagando com a vida, eles aí se encontram não por identificação à causa, mas por necessidade de trabalho em um contexto de crise econômica, desemprego e precarização laboral. É apenas mais uma expressão de desamparo.

Na reportagem de Leandro Machado para a BBC Brasil isso aparece com bastante clareza. A bicicleta como opção é uma expressão da ausência de opção. Seria, portanto, o primeiro passo possível para gerar alguma renda, até que se tornasse viável conseguir algo percebido como mais conveniente e desejável: um transporte-meio de trabalho motorizado: a motocicleta.

Dos fatores apresentados na reportagem para que a moto seja cobiçada em detrimento da bicicleta, destaco este: o rendimento gerado pelos ciclo-entregadores corresponde à metade daquele gerado pelos entregadores de moto. Mesmo que os ciclistas trabalhem mais horas e gastem mais energia (talvez até correndo mais riscos), o resultado financeiro fica aquém daquele que seus parem em motocicleta são capazes de fazer. O tipo de relação com a bicicleta e o desejo de mudança de transporte fica bem expresso por essa frase dita por um dos entrevistados: “Agora que já tenho as manhas do trabalho, que já conheço as ruas, só me falta um motor.”

Ainda que possamos identificar um ponto em comum entre o cicloativismo e a realidade dos ciclo-entregadores circunstanciais, a dizer, desejo de sobreviver à barbárie, não devemos confundir a causa de um com a causa de outro. Para os primeiros, a pauta se adere à luta por um trânsito mais seguro, de paz e limpo. Já, para os outros, a luta parece mais imediatamente ligada à necessidade de gerar meios para pagar um teto e a comida.

Ao sonhar com a troca da bicicleta pela moto, o ciclo-entregador espera melhores ganhos. E isso não configura traição à uma causa que jamais foi dele. No entanto, acredito que aqueles que estão conduzindo ações em prol da agenda da bicicleta como transporte podem conquistar mais atores para a sua causa por meio de debates sobre segurança pessoal e práticas para um transito seguro junto aos ciclo-entregadores, mesmo que sua condição seja meramente circunstancial.

Pense que se esse trabalhador que usa a bicicleta desconhece as condutas seguras ou, se conhece, escolhe ignorá-las, quando mudar de transporte, assumirá as mesmas condutas pobres e perigosas. No entanto, agora, seu grau de letalidade cresceu com a capacidade aumentada de velocidade do novo veículo e com o porte do mesmo. Perdem todos. A necessidade de apaziguar o trânsito, investir no compartilhamento e diminuir as velocidades dos motorizados não concorre com a necessidade de que as normas de trânsito sejam conhecidas, praticadas e fiscalizadas. Disciplina é importante sim.

A questão, porém, não começa e acaba nos trabalhadores de entrega, seja por moto ou por bicicleta. Ao invés disso, ela se estende ao Estado, aos empresários/comerciantes e aos consumidores que fazem uso da conveniência da entrega em domicílio.

Clientes consumidores

Parece bastante fácil para os clientes consumidores, no conforto de suas casas ou escritórios, deixar de avaliar qualquer outra variável que não seja a rapidez das entregas no que diz respeito ao seu grau de satisfação com o serviço. Seria o caso de promover alguma campanha que sensibilize esse cliente para a ampliação dessa percepção de qualidade, envolvendo-o como corresponsável por um trânsito mais seguro? E se houvesse alguma certificação ou selo de empresa responsável com a vida no trânsito, que ajudasse o cliente consumidor a identificar e escolher aquelas prestadoras de serviço que estão mais de acordo com seus princípios morais e valores? Já pensou nisso? Talvez, de quebra, ainda viesse o bônus de, quem sabe, sensibilizar esse público também para questões relativas à segurança e dignidade do trabalho dos profissionais de entrega.

Empresários e comerciantes

Imagine se as empresas que atuam como prestadoras de serviço de entregas por moto ou bicicleta, não importa, fossem avaliadas quanto a sua responsabilidade pela promoção de um trânsito seguro. Será que assim haveria o cuidado de orientar os trabalhadores para condutas seguras no trânsito? Será que isso refletiria na diminuição do número de infrações? E o que aconteceria com o número de acidentes?

Houvesse um selo que certificasse a responsabilidade social da empresa prestadora de serviço, os comerciantes poderiam escolher a empresa que iriam contratar conforme sue afinidade ética. Do mesmo modo, os consumidores finais, o cliente que solicitou a entrega em domicílio, poderia mapear tanto os comércios quanto as prestadoras de serviço mais afinadas com o que considera justo, desejável e correto.

É possível que se assim fosse, todos cuidando juntos pela segurança de todos e do trânsito, metas de agilidade e rapidez que colocam vidas em risco não fossem mais impostas, considerando tempos impossíveis de serem cumpridos sem que infrações de trânsito estejam no repertório das atitudes esperadas, conhecidas mas, convenientemente, ignoradas por todos.

Talvez, nesse dia, não tenhamos mais que ouvir mais justificativas como esta que recebi de um gerente de uma rede de pizzas na zona sul do Rio de Janeiro, a Vezpa: “o pior que pode acontecer em um acidente com algum de nossos motoboys é a gente perder o pedido”. Entende? O pior não era o acidente machucar ou matar uma pessoa, ou muitas. O problema era perder o pedido.

Estado

Ao Estado, evidentemente, cabe ações de sensibilização e educação para o trânsito, além de oferecer as condições adequadas de segurança e conduta e incentivar as melhores práticas, por exemplo, por meio de uma certificação ou selo que ateste a responsabilidade do prestador de serviço e do motorista.

Todos fazem parte de um sistema, e o sistema tem regras sim. Caso não estejamos dispostos a lidar com isso, com ou sem motor, o certo é que vamos continuar impondo para parcelas importantes da sociedade uma relação de trabalho desequilibrada, insegura e indigna. Mais que isso, vamos continuar impondo um ‘ambiente de trabalho’ que tem a característica de ser violento e que aparece como um dos que mais matam pessoas no mundo: o trânsito brasileiro.