Uma horta de bairro ou Nas cidades tem gente

As tristezas se acumulam com o lixo que a chuva fez correr, como se quisesse despertar nas gentes, por meio do espanto, uma reflexão mais séria, uma ação mais comprometida, uma consciência mais viva. Ocupada do assombro, deixei de lado um breve encontro que gostaria de compartilhar, e que considero especialmente necessário diante de todo o caos e abandono que recebemos de cada uma das três esferas de poder.

Domingo fui papear com uma amiga lá na horta comunitária do bairro. Entre um assunto e outro, fomos regando as mudinhas de hortaliças, temperos, frutíferas e nativas que vizinhos e amigos começaram a semear. Antes mesmo das sementes da terra produzirem frutos e frutas, raízes e folhas, outras sementes já começaram a brotar. Sementes de ideias vindas de diferentes lugares. Ideias que já seguem livre o seu caminho de fazer voar outras ideias que vão chegando longe.

Mais do que o privilégio de ter um pequeno sistema agroflorestal bem no coração da cidade, iniciativas como a Horta do Vinil tem o encatamento de recuperar o sentido de espaço público. Existem muitas formas de revitalizar áreas urbanas. Os movimentos de agricultura comunitária em espaços públicos da cidade é uma delas.

A Horta do Vinil fica em terreno ladeado por uma igreja e uma escola pública. Durante muito tempo a área, que dispõe de alguns aparelhos de ginásica, uma pequena arena circular e dois campos de futebol, esteve subutilizada. Quase esquecida. Diante da ameaça de que a área pública fosse vendida para a iniciativa privada, um grupo organizado da sociedade civil se mobilizou para preservar a área pública. Passaram a ocupá-la com a horta.

É lindo ver a pequena floresta ganhando forma. Mas, muito mais do que isso, ao revitalizar o espaço público, a ação oferece a oportunidade de revitalizar também o sentido de comunidade. Ao promover a convivência, são criadas e fortalecidas redes sociais, sentimento de pertença e vizinhança. Isso favorece a saúde mental, a percepção de segurança e pode ser fundamental no processo de restabelecimento dos diálogos saudáveis, em uma sociedade tão sofrida por polarizaçôes e intolerância.

Mais do que semente na terra e ideia em movimento, a iniciativa ajuda a criar vínculo e afeto entre as pessoas e destas com o lugar. Duradouros ou efêmeros, cada vínculo traz a possibilidade do olhar, do sorriso e de histórias que podem ensinar.

Foto: Cris Portella

Uma das dificuldades que enfrentamos na horta é o acesso à água: para rega e para nossa higiene. No momento, a igreja ao lado da horta tem permitido que busquemos água com eles. Levamos baldes vazios e voltamos com eles cheios. Pesam!

Foi em uma dessas idas e vindas de balde cheio que vi a amiga voltar acompanhada de um rapaz. Enquanto fazíamos a rega, ele passou a mão sobre uma das folhas, dizendo do contentamento que sente quando vê o verde brotar. “É como se elas estivessem agradecendo pelo carinho da gente.”

Contou que começou a gostar de planta quando ajudava a avó a cuidar do quintal de casa. Lembranças boas de infância. Suas plantas preferidas são a planta da felicidade e a bougainvillea, porque uma parece renda e a outra é cheia de cor.

Nos conta que está contente de ver a horta acontecer. Avalia que antes estava abandonado e agora já não.

Passamos parte da manhã ali, conversando e compartilhando nosso cuidado com o espaço, que é público, e nosso gosto comum pelo verde.

Esse encontro me fez pensar sobre a potência de ações singelas capazes de dar vida a espaços que são tão nossos, mas que tão fácil a gente esquece.

No seu bairro também tem uma praça? Como é a convivência nesse espaço? Como pode melhorar?