Mais uma morte no trânsito. Até quando?

O desequilíbrio das forças é absurdo. Embora nossa presença mobilizada e coletiva nas ruas tenha força, como mulher, pedestre e ciclista me questiono sobre a honestidade da mensagem quando experimento a inviabilidade planejada do meu corpo desarmado na cidade.

Desarmado sim. Ir a pé, ir de bicicleta, é ir sem armadura e sem arma. Os governantes dessa cidade investem em políticas públicas que fazem dela uma cidade que mata. Os governantes dessa cidade, desse estado, desse país, nos matam em todo lugar. Em toda esquina. De muitas formas. Por nenhum motivo. Mesmo porque, nenhum motivo justifica qualquer morte.

Existem muitos tipos de ciclistas na cidade. Um deles é o atleta. É linda a conquista de Áreas de Proteção ao Ciclista. Que venham mais. Mas, e quando não se está nela, como faz? E quem não é atleta, e quem apenas quer se deslocar pela cidade de forma saudável, eficiente, divertida, humana e barata, como faz?

Domingo, indo de carro para a zona sul, vi dois ciclistas de passeio, uma moça e um rapaz. Eu saia do túnel. Eles precisavam entrar, pois o acesso pela calcada compartilhada foi interditado em face aos desmoronamentos e mortes causados por uma obra superfaturada. Saí do túnel no sentido zona sul. Eles entraram no sentido oposto, em direção à zona oeste.

Loucura? Imprudência? Resistência?

Cada um especule o que quiser.

A mobilidade, a liberdade de ir e vir, é um direito. O Estado tem o dever de ofertar opções diversas, sustentáveis e seguras de deslocamento.

No mesmo domingo, voltando para casa já de noite, vi mais um ciclista no mesmo túnel. Um homem sozinho.

Não era atleta. Não era cicloturista. Mais uma vez, era apenas uma pessoa indo do ponto A ao ponto B.

O homem seguia pelo elevado do Joá, pequeno, vulnerável e ágil pela borda da pista. Motoristas passavam apressados, aparentemente irritados com aquela presença que os obrigava desacelerar.

Arriscado? É. Os carros passam muito acelerados. Acelerados demais para ser compatível com a vida. Qualquer vida. Até mesmo a vida de quem viaja dentro da armadura de aço.

Muitas devem ser as mortes por atropelamento de ciclistas e pedestres que não fazem manchete. Outras, por motivos não ignorados, fazem. Essa morte fez, chegou aos jornais.

Não é a primeira vez que, apesar das áreas de proteção ao ciclista, os atletas morrem atropelados, seja indo para o treino, voltando, ou mesmo durante o treino.

Mas morrem também ciclistas urbanos. A velocidade que mata não escolhe categoria, genero, raça ou classe social.

De que adianta popular a cidade com estações de bike compartilhada, patinetes elétricos e o que vier de novidade, sem garantir o básico da proteção à vida: um transito desacelerado, ordenado, bem sinalizado e a certeza da fiscalização e da punição para infratores?

Não pense que as empresas privadas que oferecem os serviços de mobilidade alternativa ao carro vão espontaneamente se associar à causa da mobilidade. A mobilidade sequer é pauta para essas empresas e seus gestores. Para eles, a mobilidade é um negócio.

Se o Estado, sem cuidado, permitiu a exploração do nicho ‘mobilidade urbana ativa’ por particulares, não será a empresa que irá fazer qualquer movimento para reduzir acidentes ou brigar pela melhoria, qualidade e segurança das vias.

Alguma contrapartida deceria ser oferecida por quem lucra, muitas vezes na forma de monopólio do mercado. A maioria dessas empresas funcionam por aplicativos. Dado, uma grande fonte de riqueza, é algo de que dispõem. O mínimo, seria dar transparencia a esses dados.

Tipos de viagens, distancias, durações, frequências, ocorrências… tudo isso poderia ajudar a mapear prioridades de investimento na qualidade e a segurança do transito. E isso é apenas uma pequena coisa possível. Outras ideias? Por exemplo, porquê não exigir uma percentagem dos lucros obtidos pela exploração do mercado de mobilidade ativa para custear implantação e conservação de mobiliário urbano para ciclistas e pedestres, sinalização, melhoria das calçadas, campanhas educativas, entre outros?

A mais essa família em luto, me solidarizo.

https://oglobo.globo.com/rio/empresario-morre-atropelado-por-onibus-quando-treinava-de-bicicleta-na-barra-23533396

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O espelho assombra

Minha experiência de vó e de vô me ensinou a certeza de que o amor é maior e mais intenso que a própria vida. Vôs e vós me emocionam.

Perdi um irmão quando ele era pequeno. Por empatia, por memória, me solidarizo ao pesar de Lula, como me solidarizaria a qualquer outro. Imagino que a dor desse momento não tem nem nome.

Ficaria no silêncio em mim. Mas foram tantas colocações insensíveis, inumanas, desastrosas, mesquinhas e feias, que precisei fazer o silêncio falar. Não sei até onde chega. Mas meu silêncio grita assim:

Gostaria de dizer que apesar de você, amanhã será outro dia. Mas agora, só penso que por sua causa os dias tem sido penosos.

Você justificou seu voto injustificável pq era contra a corrupção. Pq era contra bandido de estimação, porque “bandido bom é bandido morto”. Veja você, porém. O filho do seu presidente já leva corrupção inscrita no DNA. O filho do seu presidente deita na cama de miliciano, faz festa, chama de amigo.

Você justificou seu voto injustificável pq estava cansado da ‘velha politica’. Note, entretanto. O seu presidente trabalha em um pacote de maldades, o velho toma lá, dá cá, pra fazer passar a tal Reforma da Previdência.

Você justificou seu voto injustificável pq queria um governo ‘técnico’. Que ironia. Você tem um astrólogo como mentor do seu governo.

Você justificou seu voto injustificável alegando desprezo pelos ‘intelectuais’, sabe lá o que quer dizer com isso. No seu governo, olhe bem, ministros recalcados mentem sobre suas formações acadêmicas. Fosse pouco, os mesmos ministros odeiam aquilo pelo que advogam, não tem qualquer relação com a pasta que lideram, ou, quando tem, se submetem aos achismos de Whatsapp do eleitorado chucro como o próprio presidente que elegeu – um velho mesquinho, franzino, fraco, caprichoso e tirano.

Nada do que você usou pra justificar seu voto injustificável se sustenta. Sua única motivação foi o ódio. O ódio ainda é sua motivação. E você nem sabe o que odeia. Ou sabe e é covarde demais pra dizer. Eu te digo. Você odeia aquilo que vê refletido no espelho. Você não suporta. Então você odeia um outro. Agora você chama esse outro de Lula, de esquerdista, de petista, de intelectual, de analfabeto. Você nem se decide. A única certeza é que você se odeia tanto, e não suporta, que até se autoriza a odiar uma criança de 7 anos, morta.

Você é horrível.

*não soube achar a autoria da foto de Lula com seu neto.