Bom dia, Rio de Janeiro.

Imagem: Fernanda Garrafiel/G1 (8.10.18)

Paes sai eleito no Jardim Botânico. Tarcísio, em Laranjeiras. Witzel vence em todas as demais áreas.

O quanto de milícia e igreja impondo voto de cabresto elegeu esse homem é algo que me pergunto. Mas não foi só isso, embora isso seja relevante.

Já eleito, com a arrogância de sempre, inflacionada pela estrondosa vitoria nas urnas, Witzel confirma o que prometeu em campanha, sofisticando um pouco mais: o abate de quem estiver portando fuzil está liberado, snipers serão disponibilizados. O excludente de ilicitude estará aí pra amparar qualquer ação da polícia.

Pra quem acha que é “só” bandido armado que vai morrer, lembre do homem que levava um guarda chuva e foi alvejado e assassinado. Entenda que não precisa nem mais da desculpa do guarda chuva. Mas você já entende isso.

Pra quem acha que a morte de inocentes é o preço a ser pago pra “limpar” a cidade, não se iluda. A arma é pretexto. O que se caça é gente de pele preta. Mas você já sabe disso.

Se você acha que tá tudo bem, pq a cor da sua pele te salva, pq você mora no asfalto, na outra parte da cidade, lembra que o Rio de Janeiro é um estado cercado de favelas por todos os lados. O asfalto é exceção. A janela do quarto do seu filho olha pra favela. E a favela olha pra ela. O seu caminho pro trabalho, pra escola, pra casa de praia e até pro aeroporto, tudo isso olha pra favela. E a favela olha de volta. Se a polícia tem sniper liberado pra matar dentro da favela, não pense que a criminalidade que se esconde na favela vai pensar duas vezes antes de atirar. E você, no seu caminho pro trabalho, o seu filho na volta da escola, a sua filha no sono de princesa, sua família na fuga pra Portugal, pode ser também alvo. Só que agora, não mais acidental. Mas você vai rezar pra tudo dar certo.

Se a polícia já morria muito em confrontos contra o crime, agora que o abate está liberado, como você pensa que os bandidos armados vão responder? Com mais ou com menos violência? Se na sua família tem policial, ele também vai morrer, provavelmente mais e de forma ainda mais violenta. E não precisa ser só no serviço de combate ao crime armado. Se já era sentença de morte um policial ser surpreendido em um assalto durante um passeio com a família, agora talvez você nem precise apresentar a insígnia nos seus documentos pra virar vítima. Basta que o bandido apenas “ache” que você é PM, assim como bastará a polícia apenas “achar” que você parece bandido, porque você tem a cor da pele “errada”, porque você levava um fuzil. Mas era só um trabalhador. Mas era só um guarda-chuva. Mas era só uma vida. E 2018 ensinou pra gente que uma vida não importa. Que o brasileiro caipirinha e carnaval quer mesmo é morte. Afinal o presidente foi eleito dizendo que o erro da ditadura (que nunca existiu, ele diz) foi torturar sem matar tanto quanto podia, tanto quanto deveria. “Uns 30 mil”. Lembra desse número, por que ele vai ficar curto. Mas é isso o que você quer. É?

(Publicado originalmente em 31.10.2018 na minha página pessoal no facebook).

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Publicado por

Deriva Navegante

Rês desgarrada nessa multidão, boiada caminhando a esmo.

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