Um grupo de memes

Da penumbra barulhenta salta o meu nome. Sorrisos de reconhecimento e, em pouco tempo, estava passando meu telefone adiante. Vou te adicionar ao grupo da escola, disse a mais sorridente.

Com o passar das semanas já tinha até me esquecido do evento. Eis que em uma certa manhã preguiçosa, o aparelho vibra na cômoda ao lado da cama. Estava oficialmente no grupo de mensagens do velho segundo grau.

Fiquei pouco tempo. Nesse tempo, o teor das comunicações foram concentrados em tentar marcar um encontro de fim de tarde e o desfile de memes preconceituosos, carregados de ódio e desprezo ao diferente, mas tudo bem humorado, afinal, é só humor, é só brincadeira.

Os alvos? Mulher. Sim. As mensagens eram machistas e misoginas, mas era só piada…

Tudo o que fugia à heteronormatividade também era alvo – de piada, é claro. E, assim, cheios de graça, compartilhavam piadas homofobicas, lesbofobicas, transfobicas.

Se eu falei algo? Não. Covarde, me calei. Me reduzi a acompanhar, chocada, esperando uma voz dissonante. Me reduzi a apagar cada meme ou comentário ofensivo, como se assim, o fato pudesse ser apagado também.

Eram alvo de desqualificação todo aquele que sofre pela opressão e pelas as injusticas, todo aquele que luta contra a desigualdade. Sim. As mensagens eram de desprezo ao pobre, ao negro, ao nordestino, ao trabalhador comum, ao sem teto, ao sem terra, ao sem trabalho.

Passados alguns dias, eu queria sair do grupo. Não sai. Achei que seria deselegante.

Lembrei do encontro no bar. Lá constatei que a velha classe de crianças vestindo moleton do Mickey, mochila da Cantão e tênis Reebok virou um grupo de velhos conservadores; o tiozão da família, a barbie doll desesperada. Percebi que naquela rede social mais intimista, que é o Whatsapp, aqueles seres brincantes do passado viraram pessoas fanfarronas, detentoras de algum ou muito poder, mas, decadentes na ausência de criatividade, sem desejo de olhar com generosodade para o mundo, sem coragem para reconhecer os proprios privilégios.

Estes privilégios eram ostendados com certa descrição por meio da exibição calculada de símbolos de status. Eles também se expressam, e aí com mais vigor ainda, na forma de ideias reacionárias, com investimento em costumes conservadores.

Os memes de mal gosto pareciam de fonte inesgotável. Entre um meme e outro, alguns poucos comentários com texto autoral ensaiavam alguma crítica social e política. Porém, tal qual o vôo de uma galinha, aterrissavam na própria merda, sem ir muito longe.

Como disse, apagava cada mensagem ou meme degradante recebido. Mas estaria mentindo se dissesse que não me afetava. Lembro, entristecida, que a maioria procriou. Transferência de DNA, de bens, de privilégios e de estupidez. Funciona assim?

Certa manhã, logo cedo, um rapaz de quase 50 anos que já foi um menino tão bonitinho, compartilhou uma notícia com o grupo. A noticia era sobre a retirada de uma rede de fake news ligada ao MBL do ar. O homem estava desolado. Para ele, forças ocultas estavam operando em prol da ditadura bolivariana lulopetista, sob a chancela de Zuckerberg. Isso mesmo que você leu.

Em tom de revolta, questionou: “Zuckerberg deleta todos os perfis do MBL, dos seus líderes e afins em uma tacada só… Censura pura e simples… Como fazer um debate se uma das partes é silenciada??”

Gente, atentem, rede de fake news sai do ar e a homem se sente silenciado.

Não está sozinho. Outros no grupo reverberam.

Não para aí. Como aprendeu a escrever, embora não saiba ler, complementa, “Falam em radicais, fake news e etc. como justificativa, mas nenhum perfil de esquerda foi deletado… voltamos aos tempos da censura”.

Um coleguinha solidário lança seu olhar crítico, desconfiado com o descaramento dos ‘esquerdopatas’, veio apoiar o amigo. Siga as pedras, diz ele. “Um dos caras mais influentes dentro da seleção de conteúdo do FB hoje é militante doente do PT. Não esconde nem no perfil pessoal”.

Tirando a paranoia e a evidente rusga pessoal do comentário, que ficou esclarecida logo em seguida, pensei comigo, caso fosse verdade, que esse tal cara influente devia ser mesmo um descarado. Imagina, a pessoa não esconde aquilo que acredita. Como pode ser transparente?

O moço sentencia: “Foda é a dimensão que o FB tomou…”.

Percebi que já era hora de deixar o grupo. Me sentia em um bueiro. Repare que antes da popularização de redes como Whatsapp, todo esse esgoto estava a céu aberto, em debates públicos nas redes sociais quase democráticas. Era bom, eu acho.

Digo isso, porque ainda que dificilmente estejamos dispostos a mudar de opinião ou mesmo escutar, quando os debates eram abertos, era possível estar exposto à uma argumentação divergente. Sim, existem as bolhas. Mas em redes como o Facebook, elas podem se tocar, quem sabe trocar. Dos pontos de contato e interseções, há possibilidade de conflito e, talvez, de ampliar horizontes. Sou uma otimista.

Agora, os valões de excrementos ideologicos foram privatizados e o rio de sujeira corre subterrâneo, longe dos olhos, dentro de grupos e mentes fechados. É a bolha da bolha flutuando no vácuo.

Cada um fala consigo mesmo. Divergência e confronto já no cabe. Só o eco de si e das próprias certezas. E assim envelhecemos. Fomos tão jovens, pudemos ser criativos. Acabamos assim, plugados à máquinas que simulam um espelho falante e validam nossos delírios.

“Espelho, espelho meu, existe alguém mais certo do que eu?”

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Publicado por

Deriva Navegante

Rês desgarrada nessa multidão, boiada caminhando a esmo.

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