Corre que é cilada, Bino.

Foi uma noite de junho. O aniversário de uma amiga me levou a um desses bares cariocas que dificilmente eu tomaria a iniciativa de ir sozinha. Da penumbra barulhenta salta o meu nome. Em pouco tempo meu telefone estava sendo compartilhado. Vou te adicionar ao grupo da escola, disse a mais sorridente. Pude ouvir a personagem de Fagundes me advertindo: é cilada.

Com certo alivio constatei que passadas algumas semanas ainda não era parte de nenhum grupo novo. Durou pouco. Há décadas venho evitando os encontros de formatura. A tecnologia e o acaso me lançaram dentro do grupo de Whatsapp da turma do segundo grau.

No bar constatei que a velha classe de crianças remelentas mas fofas vestindo moleton do Mickey, mochila da Cantão e tênis Reebok virou uma turba de velhos acabados e princesinhas siliconadas, carregadas de tinta no cabelo e botox nas rugas do rosto. Na rede social mais intimista, que é o Whatsapp, descobri que aqueles seres brincantes viraram velhos de costumes conservadores e ideias reacionárias.

Ao longo destas duas semanas uma profusão de memes de mal gosto, desses que nem o tiozão da família posta. Entre um meme e outro, alguns poucos comentários com texto autoral ensaiam alguma crítica social e política. Porém, tal qual o vôo de uma galinha, aterrissam na própria merda sem ir muito longe.

Eu tenho me dedicado a apagar cada mensagem recebida, cada meme compartilhado. Sei lá. Um pouco na linha de que se não tem registro não aconteceu, como se quisesse preservar meu carinho pela memória dos rostinhos roliços e dos olhos que sonhavam.

Mas estaria mentindo se dissesse que não me afeta. Lembro, entristecida, que a maioria procriou. Transferência de DNA, de bens, de privilégios e de estupidez. Funciona assim?

Quem gosta de mim já sugeriu que eu simplesmente me desligue do grupo, já que não pedi pra participar dele. Ainda não decidi. Demoro a dizer não.

Hoje, logo cedo, uma mulher de quase 50 anos que já foi uma menina tão bonitinha, cabelinho preto cacheado, narizinho atrevido, compartilhou uma notícia com o grupo. A noticia dizia da retirada do ar de rede de fake news ligada ao MBL. Estava desolada, como se forças ocultas estivessem operando em prol da ditadura bolivariana lulopetista, sob a chancela de Zuckerberg. Isso mesmo que você leu.

Em tom de revolta, questiona: “Zuckerberg deleta todos os perfis do MBL, dos seus líderes e afins em uma tacada só… Censura pura e simples… Como fazer um debate se uma das partes é silenciada??”

Gente, atentem, rede de fake news sai do ar e a moça se sente silenciada. Não está sozinha. Outros no grupo reverberam. Gente que tem influência na mídia, gente das (sic) artes, gente que estudou em uma das melhores escolas do país.

Não para aí. Como aprendeu a escrever, embora não saiba ler, complementa, “Falam em radicais, fake news e etc… como justificativa mas nenhum perfil de esquerda foi deletado… voltamos aos tempos da censura”.

O coleguinha solidário lança seu olhar crítico, desconfiado com o descaramento dos esquerdopata tudo, e vem apoiar a amiga. Siga as pedras, diz ele. “Um dos caras mais influentes dentro da seleção de conteúdo do FB hoje é militante doente do PT. Não esconde nem no perfil pessoal”.

Que descaramento, né? A pessoa não esconde a que veio.

A moça sentencia: “Foda é a dimensão que o FB tomou…”.

Eu decido ficar um pouco mais no grupo. Sinto essa necessidade de visitar os bueiros da sociedade. Há pouco tempo atrás todo esse esgoto estava a céu aberto, em debates públicos nas redes sociais mais populares e quase democráticas. Era bom, eu acho.

Veja, ainda que dificilmente estejamos dispostos a mudar de opinião ou mesmo escutar, quando os debates eram abertos, era possível estar exposto à uma argumentação divergente.

É certo que isso acontecia dentro do limite das nossas bolhas pessoais, mas essas bolhas tocavam em outras, e suas fronteiras podiam mutar em interseção. Desses pontos de contato e interseções, o conflito e, talvez, a possibilidade de ampliar horizontes. Sou uma otimista.

Agora, os valões de excrementos ideologicos foram privatizados e o rio de sujeira corre subterrâneo, longe dos olhos, dentro de grupos e mentes fechados. É a bolha da bolha flutuando no vácuo.

Cada um fala consigo mesmo. Divergência e confronto já no cabe. Só o eco de si e das próprias certezas. E assim envelhecemos. Fomos tão jovens, pudemos ser transgressores. Acabamos assim, plugados à máquinas que simulam um espelho falante e validam nossos delírios.

“Espelho, espelho meu, existe alguém mais certo do que eu?”

“Depende. Você ainda tem privilégios e é incapaz de reconhecê-los? Se sim, não. Você ainda é a pessoa mais certa. Continue cega. Continue sendo estúpida e reproduzindo opressão. Nada pode te derrubar. Ainda.”

Eu falei que era otimista.

Publicado por

Deriva Navegante

Rês desgarrada nessa multidão, boiada caminhando a esmo.

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