Aborto: argumentos masculinos e a qualidade da comunicação

Homens a favor e contra o aborto em um tópico de rede social. Em menos de uma hora, eram mais de 250 trocas de mensagens. Me dediquei a ler cada uma.

Algumas curiosidades: até aquele momento apenas homens participavam das trocas, o tom da argumentação era violento e autoritário, a discussão estava concentrada no direito à vida (do feto, futura criança) e na responsabilidade da mulher. Quando a palavra abandono apareceu, dizia respeito a um possível abandono da futura criança pela mulher-mãe, ou de uma mulher-mãe abandonada pelo homem-pai que seria impelida, portanto, a abandonar a criança pela vulnerabilidade de não ter um homem que olhasse por ela e pela criança.

Direito de escolha, saúde pública, planejamento familiar entre outros pontos importantes, até aquele momento passaram ignorados. Também se ignorou a (in)equidade de gênero e a opressão macho-capitalista sobre os corpos, principalmente o corpo produtivo e reprodutivo da mulher.

Na longa troca de mensagens, eu fui capturada pelas escolhas dos argumentos, pelos entendimentos, pelas palavras usadas e pela qualidade da interação.

Sobre a qualidade da interação, a violência e a truculência argumentativa foram os aspectos mais explícitos. Certas abordagens não são apenas desnecessárias. Elas são deteriorantes: de quem enuncia a fala, de quem recepta a fala, e de qualquer possibilidade de diálogo.

Exemplificando. O autor do tópico, dentro das trocas de mensagens, defende seu entendimento à favor do aborto argumentando que o ser em formação dentro do ventre não passa de um parasita. Enquanto tal pode sim ser abortado. Não é vida, não importa. Conclui que ele mesmo já levou uma namorada para abortar e que não sentiu nada.

Que tipo de resposta uma fala com esse teor espera obter?

Ainda dentro da qualidade da comunicação, e falando de estilo de argumentação, a mesma personagem, defende sua visão ‘pró-aborto’ fazendo uso de um argumento de autoridade para afastar argumentos contra. Não possuindo a autoridade necessária, toma emprestada a autoridade de um colega, que assume a propriedade de se multiplicar em coletivo: “os doutores em biologia deste thread são a favor do aborto”. Um caso típico de ‘gozar com o pau dos outros’.

Sendo tópico povoado de homens, pau é o que não faltou. Além de gozar com o do amigo, botou o seu na mesa e categorizou ser tão a favor do aborto que pagaria um aborto por mês e doaria pra sociedade. Ele pode. Já fez as contas e sabe que pode pagar pelo que chamou de “bolsa aborto”.

Além do absurdo e da autoridade (que não tem, mas tomou emprestada), foi lá no poder econômico, mantendo uma circularidade entre violência-absurdo-autoridade e investindo forte na bravata.

Entre os argumentos ‘contrários ao aborto’, um dos participantes entende que descriminalizar seria uma forma de legalizar o assassinato. Faz coro com outras falas e pontua o risco para uma cultura da banalização do procedimento, que estaria está ganhando status de método contraceptivo para corrigir consequências decorrentes da promiscuidade.

Um rapaz, inconformado, pergunta: O homem não pode escolher se a mulher aborta ou não? O que é isso, o homem virou um mero doador de sêmen?

Um outro compelementa: A mulher decide ficar com a barriga e gerar a criança e é o homem quem tem que pagar a pensão depois?

Um outro rapaz considera que “o Brasil é injusto com isso de aborto, porque uma parte (mulher) só tem direitos, e a outra (homem) só tem obrigações”.

Evidentemente, em algum momento veio o embate ciência e religião, cada um na sua fé, mas dentro do mesmo balaio. Nenhum dos dois, argumentadores pela religião ou pela ciência, foi capaz de se descolar da certeza de que sua verdade não era absoluta. Ambos entendiam que as verdades que traziam eram suficientes para ditar, de cima para baixo, cultura, costumes e comportamentos. Em um caso estava escrito na bíblia. No outro, os resultados de pesquisas sérias determinavam com clareza e precisão o instante em que a vida se inaugurava, ignorando que mesmo estes estudos trazem conclusões discordantes e incloclusivas. Seria mesmo esse o caminho do debate?

Sem sair muito do mesmo lugar, surge um homem ponderado. ‘A favor do aborto’, explica: não é sobre maternidade ou direito à vida, é sobre gravidez e abandono.

Não ficou claro o que ele gostaria de dizer com maternidade. O mesmo para direito à vida e gravidez. Sobre abandono, ele estava falando do abandono da criança por essa possível mãe em duas situações caricatas e muito específicas. Para ele, são duas as situações que fazem uma mãe abandonar uma criança.

Mães abandonam crianças porque não tem o apoio de um homem. Sozinhas e sem condições financeiras e/ou emocionais, seriam obrigadas a entregar seus rebentos para a criação de terceiros. Neste caso, o sofrimento seria grande, porque, naturalmente, elas aprenderam a amar aquele feto transformado em bebê ao longo de meses de gestação. É uma naturalização do amor incondicional maternal. As exceções seriam insanidade ou estupro.

Neste caso, de um estupro que gerou uma gestação, toda mulher engravidada sentiria, mais que nada, repulsa pelo feto em desenvolvimento e pela criança nascida. Mais uma visão estereotipada, naturalizada e generalizada que pouco contribui para o debate.

Confuso, um deles arrisca um acerto: nós nunca saberemos o que é estar no corpo de uma mulher.

Não. Não saberão. O que fazer? Escute. Aprenda. Aceite.

Publicado por

Deriva Navegante

Rês desgarrada nessa multidão, boiada caminhando a esmo.

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