Cativeiro e ferocidade são as únicas possibilidades?

Esse texto é um comentário à coluna de Joaquim Ferreira dos Santos para O Globo em 18/06/2018.

O título é ruim. “Perigo! Bicicleta!” aponta para uma série de lugares comuns que povoam a fantasia das pessoas. O título infeliz alimenta o antagonismo entre indivíduos ao invés de tratar do problema real e indicar quem pode e deve agir para resolvê-lo.

O problema real: quase um século de investimento em infraestrutura segundo a lógica da velocidade e centrada na conveniência do motorizado.

O principal responsável e agente de mudança: poder público local, o qual não direi que é omisso para não ser redundante. Droga! Já foi…

A linha fina denuncia a miopia do autor. Nela lemos que “A bicicleta no Rio é o bicho solto. Para ela não existe limite de velocidade, lugar apropriado de transitar ou essas coisinhas miúdas de obedecer mão e contramão”.

Sua visão comprometida faz com que atribua como exclusividade da bicicleta (vamos ler ciclista) aquilo que é, de fato, observado em carros ou motos ou ônibus (vamos ler motoristas).

Faça o exercício. Substitua a palavra bicicleta, na linha fina, por carro, ou moto, ou ônibus, ou van, use a imaginação. Veja se funciona. Funcionou, né?

O colunista acerta, no entanto, quando diz que “A coitada não tem culpa. Caiu numa cidade que já tinha escolhido o carro como objeto de simpatia, principalmente por ser um dos pagadores de suas contas. A bicicleta foi chegando de mansinho num lugar onde não cabia mais nada”. Foi chegando, de mansinho. Invisível e invisibilizada, chegou, como quem chega a uma festa para a qual não foi convidada. Tão logo é percebida, os leões de chácara são acionados para se livrarem dela, como se não fosse nada.

Imagine que a cidade é um bioma complexo. No nosso caso, esse bioma sofreu, e sofre, uma interferência que gerou desequilíbrio entre cada um dos seus elementos essenciais. Como o organismo é vivo, houve adaptação, mas o preço dessa adaptação foi alto. A referência deixou de ser humana. A consequência? Ruas vazias de gente e repletas de motos, carros, ônibus, caminhões; poucas árvores, muito asfalto e concreto; poucas passagens e acessos; longas distâncias e muitas interdições. As interdições aparecem como muros e grades, superfícies espelhadas e repelentes, cancelas e barricadas. Elas também se manifestam como balas perdidas na troca de gentilezas entre traficantes, assaltantes, policiais e milicianos. O risco luminoso de projéteis atravessando o ar desenha limites e impossibilidades para a livre manifestação da vida no espaço público, e essa interdição não pode ser ignorada. Ao  mesmo tempo, se você for mulher, as interdições são tantas que as paredes de concreto, as grades pontudas e afiadas e até as armas de fogo, em alguns lugares tão naturalizadas, não parecem ser mesmo é nada.

O passeio e o estar virou passagem e trânsito de carros. Este, cada vez mais veloz, mais agressivo e mais violento, em pouco tempo virou congestionamento. A infraestrutura para motorizados ocupa quase todo o espaço público e, ainda assim, esse privilégio não lhe é suficiente. Por isso, reivindica mais e mais. Reivindica e toma. O preço é alto, já sabemos. Paga-se com a vida. A vida sensível e delicada, rara e ordinária, matéria fina que se esgarça e morre. Morre no trânsito, vítima das altas velocidades, da pouca qualidade de vida e do descaso dos nossos governantes.

Nesse contexto, andar a pé é um ato de resistência. Andar de bicicleta é um ato de resistência. No contexto da violência no trânsito motorizado, da invisibilidade e da opressão à tudo o que não for rápido e veloz, a estratégia para seguir resistindo é a guerrilha.

Eu gosto disso? Não. Nem um pouco. Mas, se o trânsito não é pacificado, se as infraestruturas não passam de maquiagem ou engodo para alimentar estatísticas superdimensionadas, se o poder público ignora, descuida, abandona, o que fazer? Se submeter a lógica dominante do carro? Ficar em casa deprimido sonhando como é linda a Amsterdã ou Afuá ou Paquetá? Sair kamikaze entre carros que trafegam acima de 70km, ou mais? Se expor à “fina educativa” dos motoristas, que seguem impunes e potentes, certos de sua supremacia e invencibilidade? Afinal, você sabe, a culpa sempre é do pedestre ou do ciclista que não estava no sofá, certo?

Ir para a calçada é a resposta possível de muitos para seguir pedalando, uma vez que estão abandonados à própria sorte.

“Ah, mas a pessoa deve pedalar com prudência, quando na calçada”. Óbvio! Ninguém discorda disso. Diria mais. Deve pedalar com prudência na calçada e fora dela. Pedalar, andar, dirigir, beber, comer, … tudo, né?

A cidade em equilíbrio é espaço de convívio. Não se engane, porém, pensando que isso significa a supressão de todo tipo de conflito. Não. Vai ter conflito sim. Faz parte. Mas eles vão se resolver com negociação e não com imposição de vitória pelo uso da violência do mais forte sobre o mais fraco.

O texto do autor erra dolorosamente ao colocar toda a responsabilidade sobre o indivíduo. É responsabilidade do poder público garantir políticas e investimentos que harmonizem a cidade e a devolvam para as pessoas.

Isso significa acabar com os carros? Não! Significa que todos agora andarão apenas de bicicleta ou a pé? Não!

Significa, apenas, que um modal motorizado será mais um modal entre tantos outros que também tem direito de ocupar as vias. Significa que escolhendo o motorizado, motoristas deverão estar cientes de que estão sujeitos a limitações sim, inclusive de ocupação das vias e de velocidade. Significa que andar de transporte coletivo, que a gente chama de público sem ser, a pé ou de bicicleta, patins, patinete, ou o que for, vai ser uma opção e não um ato de resistência com o qual pode-se pagar com a vida. Significa que as pessoas estarão no centro das decisões políticas e realizações urbanísticas. Significa que as cidades serão humanas.

Mas, mesmo em seus equívocos, a coluna tem seu valor. Vejo muito ganho em ler com atenção a forma caricata com que o autor pinta “o ciclista”. Parece misturar tudo em uma coisa só, como quando a gente viaja pra um país muito diferente do nosso, e tudo parece exatamente igual pela simples ausência de repertório e referência.

E é aqui, que eu volto o olhar para dentro, não enquanto ciclista, mas enquanto cicloativista. O que nós, em nosso ativismo, estamos fazendo ou deixando de fazer para não sermos vistos em nossa diversidade e humanidade? Nós, que também moramos na cidade. Nós, que também somos pedestres, que também usamos o transporte público, que também usamos carro ou motocicleta. Antes de perguntar se o outro nos percebe em nossa diversidade, devolveria a pergunta para dentro: será que nós mesmos somos realmente capazes de nos perceber na nossa diversidade, ou apenas reconhecemos a imagem do espelho e pintamos caricaturas do que não reflete o que esperamos ver?

Para quem dirigimos o nosso discurso, e qual a qualidade do que é dito? Será que estamos nos comunicando? Se sim, essa comunicação fura a nossa bolha, ou reverbera apenas dentro dela? Lembrando que a bolha, de fato, são muitas e variadas bolhas, todas elas são afetadas?

Eu não descarto que tem muito da cultura do motorizado impregnada na percepção e na capacidade de interpretação do autor do texto sobre o papel da bicicleta como transporte na cidade. Mas tem muito de nossa in(habilidade) de comunicação aí. Você não acha?

Entre outras coisas, o que temos feito para alimentar um olhar caricato e reducionista sobre nós, ciclistas ativistas? Isso é responsabilidade nossa. Olhar para os eventos de junho dedicados à bicicleta e que tiveram sede no Rio de Janeiro pode dar uma pista. Olhar para a forma com que o ativismo se percebe e organiza também pode dar uma boa pista. Pensar como essas duas coisas juntas fizeram o nosso junho da bicicleta acontecer como aconteceu também pode ser um bom exercício. Sei que serei antipática por trazer isso, mas acho necessário. Teve alegria, sucesso e superação de adversidade? Teve. Mas, também tem muito material para autorreflexão. Sempre é possível melhorar.

Voltando ao autor, a confusão dele em imputar ao ciclista a responsabilidade por um caos e uma truculência que são típicos da cultura que privilegia o motorizado, não é culpa dele. Arrisco dizer que ele é apenas mais uma vítima. A cultura do motorizado deixa muitas vítimas, de tipos diferentes. Algumas vítimas ficarão esmagadas em poças de sangue no asfalto quente. Quantos já perdemos assim? Outras vítimas serão estas, que como o colunista, repetem felizes que desejam a prisão, acreditando piamente que, de fato, estão defendendo a liberdade.

Enfim. Se você soltar um animal silvestre que passou gerações em cativeiro de volta na natureza, ele vai morrer. A alternativa é se tornar feral. Cativeiro ou ferocidade são os únicos caminhos verdadeiramente possíveis quando o assunto é reintegrar a bicicleta como transporte no contexto da cidade?

Nem uma coisa (cativeiro), nem outra (ferocidade).

Nos soltaram entre hienas famintas, sem nenhum tipo de amparo. Para não sermos predados, predamos. O “novo” modal, que não tem nada de novo, pode até estar sendo incorporado à rotina urbana, mas, diante da omissão e descompromisso do poder público com políticas de incentivo à mobilidade ativa, a lógica da violência nos coloca reproduzindo o mesmo comportamento equivocado da supremacia da velocidade sobre a vida. É salve-se quem puder. A responsabilidade por um novo comportamento, mais humano, pode até ser minha e sua, mas antes, é do poder público, é dos gestores e políticos dessa cidade que tem o dever de criar as condições necessárias para o convívio em detrimento do combate.

Um detalhe cor de laranja

O texto deveria acabar aqui, mas quero compartilhar uma reflexão sobre as estações de bicicletas compartilhadas.

É inegável a contribuição das bicicletas compartilhadas para o redesenho dos hábitos de deslocamento na cidade. A conveniência, a praticidade e a possibilidade de combinar o modal com outros meios de transporte desse tipo de serviço ajudaram a mudar a paisagem urbana, tornando mais comum a presença de ciclistas aos olhos de todos.

No entanto, não basta conceder a licença de operação para a empresa privada explorar comercialmente essa fatia do mercado de transportes.

Sem o diálogo e a comunicação com a sociedade, sem o investimento em campanhas de educação, sem a coragem para desacelerar o trânsito e ceder parte da via de rolamento para a ocupação de bicicletas, o que se vê é a presença de totens com propaganda de banco subtraindo espaço de calçada dos pedestres, muitas vezes já exíguos e precários. Tal escolha, que segue privilegiando o transporte motorizado individual, o que faz é servir a um banco privado ao mesmo tempo em que abandona ciclistas e pedestres à disputa pelo espaço escasseado.

O poder público, sem a coragem de desacelerar o trânsito, quando autoriza ao banco salpicar as calçadas da cidade com estações de compartilhamento de bicicleta, praticamente faz um convite ao usuário do serviço para pedalar sobre as calçadas, por simples falta de alternativa. Qual é o ciclista inexperiente que vai escolher transitar ao lado de máquinas pesadas em alta velocidade?

Sobre a escolha dos locais de instalação, a empresa que mantém o serviço alega que a prefeitura determina o local. A prefeitura… bem, fale com a prefeitura, se tiver sucesso, me avise. No jogo de empurra, motoristas, ciclistas e pedestres, mais uma vez, estão lançados no ambiente hostil do salve-se quem puder, vence o mais forte.

Antes de atacar as vítimas, moradores de uma cidade abandonada à própria sorte pelo poder público, e explorada pela parceria deste com a iniciativa privada, vale ampliar o olhar e reavaliar aonde se encontra a raiz do problema e da solução que quer brotar. O que não dá é para podar a árvore errada.

Violência argumentativa

Consistentemente sente necessidade de afirmar sua “honestidade intelectual”. Faz isso com a mesma frequência com que acusa seus interlocutores discordantes de “desonestidade intelectual”. Desconhece o debate. Prolifera na agressividade e na violência, onde acredita triunfar devido aos aplausos de uma claque adestrada. Composta por personalidades dependentes e ansiosas por agradar aqueles que identificam como detentores de status e poder, a claque se caracteriza pela disposição à submissão. Não desistem da esperança de um dia receber  qualquer migalha lançada do Olimpo inventado, onde habitam os deuses raquíticos que elas mesmas criaram.

Como é típico aos covardes, quando confrontado, nosso herói às avessas procura esconder sua fragilidade sob o manto vil da virilidade, ingrediente essencial de toda forma de opressão. Se um interlocutor aponta um caminho distinto do seu credo, que assume infalível e inquestionável, responde com a desqualificação do mesmo. Outra estratégia frequente é o argumento de autoridade e a ameaça pessoal. Em sua defesa diz que só trabalha com dados e acusa o interlocutor discordante de miopia ideológica. Para ele, esse tipo de interlocutor é “um merda”, adjetivo carinhoso que distribui sem economia.

Como bom crente, deposita toda a sua fé em um deus: o mercado, que parece visitá-lo com sua mão invisível em noites frias e solitárias. Com fé inabalável e devota, insiste na certeza de que o mercado, como entidade sobrenatural, tudo salva, tudo regula e tudo protege, pairando acima do bem e do mal; e o mal, é claro, é o Estado. É como se fosse um bebê ainda, e tivesse nascido depois de 2008.

Evidentemente, para tudo a melhor solução que oferece é sempre privatizar. Tudo. Sempre.

Nem sempre.

“Em países onde os mecanismos de governança estão consolidados, e as instituições são fortes o bastante para inibir e coibir a corrupção, estatais até podem funcionar. Mas no Brasil…” Então a ordem é privatizar. Vender tudo. Não importa para quem. Não importa como. “A solução tem que ser agora!”. É taxativo.

Se você acredita que ele tira essas informações do meio das axilas, bem, talvez você não se engane. O especialista se defende com fatos. As ideias que defende são todas baseadas em pesquisas que ele mesmo fez. Onde publicou? Não, não foi em uma revista científica relevante, sequer passou por revisão de pares. Mas ele desafia: “Eu trouxe dados. E você? Mostre seus dados!”.

Citando a si mesmo como fonte, toda a sua argumentação é inquestionável. Lembra? Se você discordar dele, é por pura “desonestidade intelectual”. Ele não. Tem até a própria claque deslumbrada, ostentando uma inveja mal disfarçada de  admiração.

É que nosso intelectual é um cara que venceu. Com uma história dura de superação de homem branco, hoje afirma seu bom gosto e sofisticação oferecendo generosos banquetes. As garrafas de álcool que enfeitam a mesa, rendem longas conversas despretensiosas sobre o poder aquisitivo que compra e esbanja. O poder é evidente no dinheiro liquefeito em malte que os bêbados seguem entornando goela abaixo.  É o poder de compra que pode ser queimado em cinzas de charutos repousando entre lábios satisfeitos. Tudo liberado. Sem mesquinhez. E, sem mesquinhez, voluntaria o preço disso e daquilo, o que parece atiçar a sede de álcool, a fome de embutidos importados ou a ansiedade por sugar fumaça de tabaco. A claque delira.

Mas, divertido mesmo é ver o autoproclamado liberal de esquerda jogando seu canto de sereia pra quem é surdo à melodia.

— Whisky? — Não bebo álcool. Obrigado. Tem água?

— Um cubano? — Não fumo… Abre a janela? A fumaça tá incomodando.

Como dominar quem não se submete às normas do imaginário que você habita? Não domina. A solução? Hostilizar. Desacreditar. Se tudo falhar, eliminar.

E o liberal de esquerda, convicto da baixeza moral e viciada do Estado, sentencia: “prefiro botar dinheiro na mão do pobre do que pagar salário pra funcionário de estatal”. Continua: “você sabe, o funcionário da estatal ganha acima do valor do mesmo cargo no mercado privado”. Evidências? Não precisa. Ele disse. Ele sabe. Ele sempre sabe.

Alguém arrisca: “mas as responsabilidades são as mesmas? As competências são as mesmas? Os salários que o mercado pratica são justos? Se há discrepância, o correto seria mesmo jogar todos os salários para para baixo, supostamente para o patamar do mercado?”

A besta fera da economia salta: “não importa! O mercado não é justo e nem injusto. O mercado regula! O mercado pune! Você tem que ser competente. O que não pode é sustentar vagabundo”.

É isso. Está dito. Privatiza. Mediocriza o salário de todo mundo. Não trabalha pra fortalecer instituições, democracia, governança. “Não dá tempo”, é o que ele diagnostica. Além do mais, o papel do Brasil é servir. Esqueceu? Somos o celeiro do mundo. O estábulo. O galinheiro. O puteiro. O cercado dos porcos.

A claque? Curtindo, aplaudindo, repetindo, amplificando. “Ain, professor…”. É que a besta fera é professor de instituição privada. E afaga o pupilo obediente: bom padawan, vem aqui, pega mais álcool engarrafado que eu trouxe da Ásia, é caro.

Ah, … como ele é bom.

A luz e a bigorna

Associar iluminação e segurança parece ser solução inquestionável e eficiente para que mulheres se sintam menos ameaçadas no espaço público da rua.

Mas será mesmo que o sentimento de vulnerabilidade que as mulheres carregam como bigornas desaparece com a presença de um poste luminoso?

Se sim, o que é percebido como ameaça não seria real. Não passando de uma sombra mal interpretada, a sensação de insegurança compartilhada por mulheres que insistem ocupar as ruas da cidade seria apenas uma projeção deformada de claros e escuros que a incidência correta de luz teria o poder quase mágico de apagar. Em outras palavras, a experiência de interdição ao espaço público que as mulheres sofrem não passaria de uma fantasia de criança que, tão logo a luz se acende, deixa de ver monstros se deslocando pelo quarto.

Eu suspeito que isso não seja verdade. A sensação de vulnerabilidade, o medo, a interdição, tudo isso é real, porque a ameaça é real e mata. Suspeito, ainda, de que não é a luz que vai afastar esse peso. Pelo menos, não a luz do poste.

Compartilho três experiências que afastam de mim a certeza na crença de que a iluminação pública é o que elimina a ameaça (concreta) de violência contra a mulher.

Em uma das situações, chegava em uma cidade desconhecida, era noite e eu estava próxima a um porto. Sendo carioca, a referência porto não é sinônimo de segurança. Noite tampouco. As ruas próximas de onde eu estava não eram exatamente iluminadas. Já vinha cruzando fronteiras de carro. Chegando no hotel, a primeira medida foi esquecer que o carro existia. Queria explorar a cidade a pé. Apesar do receio (medo mesmo) fui andando pelo caminho indicado na recepção, beirando o cais do porto. Poucos metros à frente, de uma viela ainda mais escura do que a rua aonde eu estava, surgiu uma senhora com um schnauzer na coleira. Perguntei se o meu destino ficava longe. Sorridente e tranquila, indicou que seriam apenas 3 km, talvez um pouco mais, e apontou para uma ladeira. Eu estava no caminho certo. Olhando a ladeira, o escuro e o silêncio à minha volta, perguntei ainda se era seguro. Ela riu, entre surpresa e divertida, com a pergunta. Curiosa, perguntou de onde eu era, para, então, concluir que sim, claro que era seguro. Não muito convencida, segui o caminho ladeira acima. Procurava me distrair com o mar que ondulava lá embaixo, perto o bastante para se fazer ouvir. Vez ou outra, alguém surgia passeando um cão. Grupos de adolescentes falando alto também cruzavam meu caminho. Todas, presenças efêmeras. Nem bem surgiam, já desapareciam.

A certa altura, cheguei em uma praça. Luz? Certamente alguma luz teria. Bem iluminada? Não. Não mesmo. Eu diria até que era uma praça escura, cheia de arbustos e árvores frondosas, o que deixava o lugar ainda mais assustador para os meus olhos. Ali, no meio da praça quase escura e praticamente deserta, uns bancos de cimento e uma mesa, sobre a qual uma adolescente entre 16 ou 17 anos estava sentada. Cabelos longos. Jovem. Mulher. Linda. Sozinha. Eu sentia frio. Ela parecia nem notar. Usava uma microssaia e estava atenta à tela do seu celular: um iPhone que não se preocupava em esconder. Distraída com o aparelho, usava ainda fones nos ouvidos.

Em um outro canto mais afastado da praça uns rapazes ocupavam outra mesa. Caras passaram pela moça. Ninguém olhou para ela. Ninguém falou nada. Ela também não levantou os olhos do celular. Estava relaxada. Nesse instante, me convenci: ah, sim, acho que é seguro.

Será que foi a luz que suspendeu o peso da bigorna de cima da menina? Não. Até porque luz era o que não havia. Então, o que seria? Duas suspeitas:

(1) Talvez aquela sociedade fosse menos desigual economicamente: apesar do escuro quase deserto da praça, a moça se sentia segura com seu iPhone última geração à mostra e fones nos ouvidos.

(2) Talvez aquela sociedade fosse menos desigual com relação ao tratamento de gênero: ser mulher não fazia dela uma vítima; ela estava no lugar certo (praça mal iluminada), com a roupa certa (microssaia) e com a pessoa certa (ela mesma).

Algo assim, aparentemente tão banal, me impressionou tanto que guardei como se fosse uma fotografia na memória.

Alguns anos mais tarde, em uma outra ocasião, eu seguia com uma urbanista que me mostrava a cidade viva e alegre em que morava. Era um verão, quase não fazia frio, e cada canto estava repleto de ciclistas e pedestres ocupando calçadas e ruas que haviam sido devolvidas às pessoas. Ela me falava do processo de requalificação do espaço público pelo qual a cidade vinha passando. Por algum motivo repeti aquilo que nem acredito: uma rua mais iluminada traz mais segurança para mulheres. Ela parou séria: Que bobagem! Se um lugar é seguro, pode estar deserto e escuro, você não terá medo. O que faz ser seguro para as mulheres é os homens não terem comportamento predador. Lembrei do episódio da menina na praça escura e briguei comigo mesma por repetir como verdade crenças perpetuadas em mantras.

Mais recentemente, participei da produção de um documentário tratando sobre mobilidade. O filme acompanhou as histórias de quatro mulheres e suas rotinas de deslocamento entre a casa e o trabalho, usando o trem como modal. Uma das locações era uma estação, cuja linha férrea dividia o bairro em dois. Sem acesso direto da plataforma para a rua, era preciso subir escadas de metal até uma passarela de pedestres. Todo esse percurso estava exposto à ação dos ventos, das chuvas ou do sol, e não contava com alternativas para pessoas com mobilidade reduzida. Do alto da passarela, era possível acessar os dois lados do bairro segmentado pelos trilhos. De um lado, o acesso às residências e comércios era mais direto, até simples, dependendo do clima e das condições físicas do pedestre. Pelo outro lado, porém, para acessar as casas e comércios, era necessário atravessar um longo e claustrofóbico corredor. Sem iluminação ou cobertura, o que formava o corredor eram os altos muros que delimitavam as fronteiras de dois cemitérios. Alguns grafites coloridos humanizavam o ambiente hostil com mensagens religiosas ou críticas sociais. Uma das entrevistadas explicou que “para evitar essa passagem estreita, comprida, deserta e mal iluminada”, as mulheres que queriam chegar à esse lado do bairro desciam pelo lado oposto e tomavam um ônibus para dar a volta por outro bairro. Apenas então poderiam chegar em suas casas. Demorava mais, mas, dependendo do horário de volta do trabalho ou da faculdade, era o mais acertado, disse a moça.

Iluminar esse corredor estreito e deserto mudaria essa sensação de insegurança? Você percorreria erre caminho limitado pela linha do trem e os muros de um cemitério com segurança e confiança, ou apertaria o passo e recorreria a todas as rezas que talvez até desconheça?