Milho Verde

As narinas se expandem em direção à panela destampada. Trocado na mão. “Picado é seis. Na espiga é cinco”. O perfume abraça quem está na fila.

“A sogra quer branquinha. Capricha, amigo”. A espiga, chegando, vai da pinça para o guardanapo de palha verde. Quem prepara é o chefe. Primeiro, passa na bandeja com água e sal. Depois, pinceladas generosas de manteiga derretida. Voilá! O ajudante faz o troco.

A criança, na ponta dos pés, escolhe a espiga gorda e amarela. “Picado”. Em segundos o facão deixa a espiga pelada, os grãos dourados fazem montanha no pratinho de plástico. Olhos grudados no prato que leva entre as mãos, a criança é sorriso guloso correndo pela areia.

As águas do mar, lambendo a areia, fazem as rodas do carrinho de milho afundarem, como se não o quisesse deixar partir. No ar, o aroma do mar se confunde com o que vem da panela. As gotículas da mistura de vapor com maresia pintam um arco-íris.

“Moço, pode ir até ali”? Estica o braço e aponta entre barracas coloridas cheias de gente. O vendedor reconhece a direção. Em pouco tempo está pronto para mudar a cozinha de lugar.

Depois de duas trações, as rodas se libertam da areia. Puxa o carro pelos braços de metal. O ajudante, pernas finas e compridas de adolescente, acompanha atrás do carrinho. Seguem ao sol. Satisfeitos. Pegadas na praia e o rastro das duas rodas indicam o destino. Para trás, o cheiro azedo do suor aos poucos se perde no ar e no mar.

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Publicado por

Deriva Navegante

Rês desgarrada nessa multidão

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