A humilhação do pedestre

Os shoppings centers na Barra da Tijuca são uma presença vulgar, e parte importante da paisagem monótona e hostil de muros e edificações sem personalidade. No bairro, os shoppings são referência de localização e demarcação de território, ganhando status de acidente geográfico, tal qual um rio, um lago ou um morro.

Contra toda a dinâmica proposta para o bairro, eu costumo circular a pé ou de bicicleta por ruas e lugares feitos exclusivamente para serem vistos de longe e de relance através da velocidade impessoal de quem vai de carro. Não é bonito. Não é agradável.

Seguia pela avenida da Américas, no sentido zona sul. O domingo estava perfeito e a rua vazia de gente, a não ser por aquele grupo à minha frente. Eram 4 mulheres acompanhadas de 4 crianças. Uma das mulheres, a mais velha, gesticulava muito. Olhava ao redor e parecia bastante insatisfeita. Irritada. Chegando perto, pude conhecer o motivo do seu (justificado) descontentamento.

O grupo havia chegado de ônibus. Desceram no ponto em frente ao destino final, mas uma cicatriz imensa as separava do seu objetivo, chegar ao Barra Shopping. Eram 12 pistas de alta velocidade dedicadas ao trânsito de automóveis particulares e coletivos, mais duas pistas exclusivas de BRT – sigla do inglês para transporte rápido por ônibus.

Considerando o BRT, são 14 faixas que precisariam ser vencidas para que pudessem ir de um lado ao outro da avenida. Isso corresponde a 92 metros de travessia, conforme o desenho proposto pelos especialistas. Se o pedestre optar pelo caminho mais curto, que é uma reta, são 80 metros de travessia.

Mas não era a extensão da travessia a pé o que causava consternação. Diminuindo meu passo, ouvi a mulher mais velha questionar o planejamento que colocava um ponto de ônibus tão distante de um ponto seguro de travessia. Para ir de onde saltaram até a faixa de pedestres, o grupo precisaria andar aproximadamente 100 metros em uma calçada desabitada. Aí, poderiam esperar o sinal fechar para os carros e atravessar para a outra calçada – o que certamente não seria feito em apenas um tempo de sinal. Quando, finalmente, chegassem ao outro lado, precisariam voltar os mesmos quase 100 metros, até a entrada do shopping.

A mulher desabafou: “é por isso que eu não gosto de vir aqui! Olha isso! Quem planejou isso? Parece que quer dizer assim pra gente: você não é bem-vindo. Não venha aqui a não ser que tenha carro”.

Me solidarizei. Parei ao seu lado para conversar. Concordei com todas as colocações e argumentos e perguntei se ela sabia que um pouco mais perto do ponto de ônibus havia uma travessia subterrânea. Tinha que andar, mas era bem menos.

Ela disse que já trabalhou ali perto e que conhecia a travessia subterrânea, mas que preferia não usar. “Já fui assaltada ali duas vezes. E tive amigas assaltadas também. Não tem segurança. Você não sabe o que pode encontrar lá embaixo. É ruim, mas acaba sendo preferível andar tudo isso a atravessar naquele ‘buraco’. A gente se sente tão insegura que, se estiver cansada mesmo, ou se estiver chovendo, acaba se arriscando entre os carros, só pra não ter que andar tudo isso ou enfrentar a passagem subterrânea. Imagina, eu estou com 4 crianças…”

Ela tinha razão. Assenti. Entendi.

Nesse momento, já estávamos bem perto da travessia de pedestres. Eu ia me despedindo, quando ela falou: “agora é a outra parte da humilhação do pedestre. Tem que correr isso tudo aqui”. E ela riu.  “Se não correr não chega de uma vez, tem que esperar mais um ou dois sinais, dependendo da sua velocidade. E isso, minha filha, que eu quero ir ali naquele shopping pra gastar dinheiro. Eu quero ir lá gastar, e preciso passar por isso tudo. É por isso que não gosto de vir aqui.”

“Vai com Deus”, disse ela. Sorri, me despedindo.

 

Publicado por

Deriva Navegante

Rês desgarrada nessa multidão, boiada caminhando a esmo.

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