46 outubros atrás

Sempre gosto de ver o desfile de crianças deslizando pela telinha do celular. Fui procurar fotos minhas. Pra participar. Achei as várias crianças que eu fui, sempre sendo a mesma. Escolhi essa.

Aqui é a criança suburbana, que aprendeu a andar correndo na rua larga próxima da linha do trem, do lado oposto à fábrica de açúcar.

Esta bebê é carioca. Primeira da família a nascer em terras brasileiras. Contam que não queria sair da Terra do Antes. Chegou por cesariana. Era de muito olhar e quase nunca falar, “tão quietinha que a gente até esquecia”.

Foi neta de imigrantes camponeses que cruzaram um oceano inteiro em busca de paz, trabalho e futuro. É filha de imigrantes — crianças tentando se achar no continente novo entre a tradição familiar campesina e a vida na cidade, jovens adultos, mais jovens que adultos, começando uma família.

O ano desta foto é 1973. Registro de meu pai. Nesta época, plena ditadura militar, ele já estava relativamente bem orientado na direção daquilo que seria a vida dele e que era, como ainda é hoje, fortemente identificada com o trabalho.

Minha mãe, para os meus atuais 46 anos, era uma menina de apenas 21. Recém chegada de terras vizinhas, no Rio era imigrante duas vezes. Sem nenhuma referência que não fosse meu pai e esse bebê, ela se equilibrava entre aprender a viver longe da família, dos amigos e de tudo o que conhecia, aprender uma nova língua, aprender a ser mulher adulta, aprender a ser dona de casa, aprender a ser esposa e aprender a ser mãe. Além da família, deixava no país onde cresceu a estudante de artes plásticas.

Contam que esta bebê não gostava de leite e não comia nada. Mas tinha loucura por passear de carro. O carro era esse Chevette goiaba.

Sobre o tampo do porta malas, a pequena criatura veste um colar de chupeta e fralda de pano. O sorriso sem dentes enfeita a magrelice de toda vida.

Não tenho absolutamente nenhuma memória dessa época. Só aquela que me contaram.

Dois anos e seis meses depois ganharia um irmão gordinho e cheio de dobras.

Olhar estrangeiro

Cadela Rosada
                       [Rio de Janeiro]

Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pelo, pele tão avermelhada…
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela 
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando boias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério: o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a Quarta-Feira, é carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos…
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror…
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô…!
 
Elisabeth Bishop

Não sei como um carioca vê. Eu sou carioca. Mas também não sou. Cresci com o olhar daqui e o olhar do estrangeiro. O olhar da minha mãe me ensinou o estranhamento. Lendo esse poema lembrei desse olhar do qual me alimentei. Por causa dele me acusaram pessimista, de não gostar da minha cidade ou do meu país, de não gostar do samba e nem do carnaval. Não é verdade. Apenas estranho.

Além da moldura. Fora do roteiro.

Esse artigo apareceu para mim nas redes sociais, provavelmente resgatado em resposta à morte de Quino ontem, dia 30 de setembro de 2020, aos 88 anos. Acho importante deixar registrado aqui pra mim.

Uma amiga, pela mesma rede social, me resgatou uma das últimas fotos com meus avós juntos. Vinha como lembrança sugerida. Já tem 8 anos.

Na foto, meus avós estão retratados na cozinha da casa onde fui mais feliz e amada. Estão iluminados pela luz indireta e difusa que passava pela janela. Dessa janela se podia ver quem ia e vinha. Por ela o cheiro que saia das panelas invadia a rua e convidava vizinhos pra uma visita. Sempre tinha visita.

Minha avó, sorrido como de costume, está de pé ao lado de meu avô. Meu avô, já perto de seus últimos dias, tem a aparência surpeendentemente frágil. Seus braços envolvem minha avó. Ele não sorri para a camera. Olha para a amada companheira de vida. Com uma das mãos parece querer trazer o olhar dela para ele, conduzindo o rostinho pequeno com um leve toque no queixo. Lembro que ele costumava dizer: sua avó é a mulher mais linda da minha cidade, sabia que casaria com ela. Ele se foi em fevereiro de 2012. Ela não queria mais ficar.

Esse artigo de Eliane Brum para El País me tocou. Talvez porque já estou na segunda metade da minha vida. Talvez porque esteja convivendo com uma pandemia que ainda não está controlada e que já levou mais de 1 milhão de vidas em todo o mundo. Talvez porque meus pais já sejam grandes. Talvez porque estou tratando desse assunto do tempo, da vida e da morte no consultório remoto. Talvez por tudo isso e muito mais que eu ainda nem sei.

Lembrei que desde criança tinha fascínio por cemitério. Não era morbidez, era curiosidade. Achava que bem menos do que 7 palmos separavam os vivos e os mortos. Perdi um irmão quando ainda era criança. Acho que ali eu entendi que a distância entre a vida e a morte era menor que a fração de um instante. E era imponderável. Ali eu aprendi que junto com o morto a gente enterrava uma porção importante de quem a gente era. Que aquele buraco na terra era bem menor que o pedaço arrancado. Mas percebi que esse pedaço que era morte também chamava vida.

Essa vida era a parte essencial da minha curiosidade com cemitérios. Costumava pensar na infinidade de mundos enterrados, de histórias interrompidas, mas também de histórias realizadas e o que delas ficava. Talvez por isso, quando adolescente, pensava estudar arte e história. Queria pesquisar esses mundos que já não eram mais e buscar o fio que os ligava ao mundo que ainda era. Pensava em trabalhar com teatro, talvez cinema e televisão, ajudando a reconstruir memória, mas também a resgatar sonho com cenários e figurinos. Não deu. Me fiz psicóloga e fotógrafa, e até tentei ser documentarista. Mas isso é outra história, que também é vida e ao mesmo tempo é morte.

Lugar de escuta

* escrito em agosto de 2020

Encorajada pelo artigo “Lugar de Cale-se”, escrito por Maria Rita Kehl, me proponho a um exercício sobre um uso muito específico do conceito “lugar de fala” observado em alguns debates. No caso, é o “lugar de fala” usado como mordaça ao divergente. Sei que corro riscos de errar ao expor meu pensamento. O objetivo é trilhar uma breve reflexão sobre tal uso, jamais desclassificar o instrumento no contexto de lutas e conquistas no campo político e social.

O conceito lugar de fala vem reivindicar o saber da experiência do indivíduo enquanto força e elo na rede das relações sociais e de poder. Djamila Ribeiro o posiciona na dimensão do coletivo. Reconheço e respeito a força do lugar de fala como meio de restituir o protagonismo narrativo daqueles que a estrutura social empurra para as bordas. Nesse sentido, o lugar de fala não apenas redefine a relação centro e periferia, ele também reconfigura a topografia social a partir de múltiplas centralidades. Entretanto, percebo que quando seu uso provoca o silenciamento do outro, ele perde a potência que mobiliza.

Minha inquietação se estabelece na constatação do uso não infrequente do conceito para calar a fala que vem de lugares identificados com algum privilégio, sem que se dedique qualquer tempo na construção de um entendimento. Talvez uma expressão máxima desse comportamento seja o cancelamento e suas consequências. A ironia cruel é que tal atitude leva aquele que sofre o peso da subalternização a reproduzir a dominação de que é vítima. Infelizmente, não para aí, e, provavelmente sem que seja esse o interesse, colabora tanto com o esvaziamento, ou mesmo embotamento, do debate quanto com o enfraquecimento do campo mais progressista.

Das vezes em que testemunhei ou tomei conhecimento desse uso pouco interessante do lugar de fala, a que mais me estarreceu foi a prática de colorismo[1] [2] [3} como forma de esvaziar o próprio lugar de fala. Por empatia, imagino o quão dilacerante seja ter a negritude negada por não corresponder a um padrão estético subjetivo (e colonizador) imposto por terceiros. Imagino o horror de sentir o peso da estrutura que silencia e invisibiliza sendo erguida por aqueles que seriam pares identitários.

Minha hipótese é que esse uso do lugar de fala, distanciado de seu propósito original, tem como fontes a baixa tolerância para a confrontação de ideias, a indisponibilidade à frustração e a negação da provisoriedade das certezas. Nesse sentido, aproximaria ao menos uma parte daqueles que se identificam com o campo progressista com aqueles que se identificam com o campo oposto, do extremo conservadorismo com tendências ao fanatismo. Para ambos a diferença aparece como falha a ser corrigida ou eliminada. Cancelada. Cancela-se a ideia. Cancela-se a pessoa.

Essa hipótese não pretende desqualificar indivíduos, grupos ou ideias, reproduzindo assim a lógica do cancelamento. Ao contrário disso, minha aposta é na possibilidade de restabelecer a preferência pela complexidade das soluções dialogadas em vez da intolerância simplificadora. Acredito que conhecer os mecanismos que fazem aflorar comportamentos autoritários e violentos entre aqueles com quem ainda posso manter algum diálogo, os do campo progressista, permita construir uma estratégia de recuperação do diálogo com os indivíduos do campo oposto.

Sonho com o dia em que seremos capazes de celebrar as diferenças, semeando alianças. Por hora, o que observo é certa tendência ao tensionamento dessas diferenças até o limite da ruptura. A ruptura enfraquece, porque isola as partes de um todo heterogêneo em unidades incompletas, ansiosas pela homogeneidade: as bolhas.

Pode-se argumentar que essa ruptura seria desejável, no sentido de fortalecer o encontro de identidades que se reconhecem na luta, sem o gasto de energia supostamente desnecessário no convencimento daquele que é percebido como estranho a essa identidade e suas lutas. Por outro lado, é falso imaginar que “mulher”, “povo preto”, “homem branco”, “feminista” e outras categorias componham uma unidade homogênea. Sempre haverá a necessidade de acolher o contraditório e negociar a partir dele.

No limite do absurdo, a indisponibilidade para lidar com os desafios do confronto saudável das diferenças – tanto do lugar de cada indivíduo quanto do de grupos – levaria à rupturas atomizadoras. Em bolhas cada vez menores, o caminho tenderia para a particularização, o isolamento, a solidão e a radicalização.

Nesse ponto, a noção de um lugar de fala me faz pensar em um lugar de escuta. A fala demanda a escuta do outro, senão não tem poder, é estéril. Uma fala sem escuta talvez seja apenas o lugar da repetição. Refutando o diálogo nos fechamos à possibilidade de aprendizado e transformação.

Logo, penso não ser possível um lugar de fala sem que haja um lugar de escuta. Pode-se pensar na fala como um movimento de descarga de tensão acumulada. Complementarmente, a escuta seria um movimento de acumulação da tensão descarregada pela fala. Nessa dinâmica, é necessário que em algum momento a fala se torne escuta e a escuta se torne fala, sempre conscientes do lugar que ocupam. A pena para um movimento de fluxo único é a estagnação de energia em um único ponto. As palavras-chave aqui são estagnação, repetição, aprisionamento. O desafio é restabelecer o dinamismo, romper com a repetição, recuperar a liberdade para a transformação.

Nos habituamos a localizar a repulsa ao contraditório, a adesão ao pensamento pronto e a recusa de transformação pelo diálogo junto aos conservadores da direita radical. Descuidando de nossos próprios medos e certezas salvadoras temos a pretensão de irrigar com questionamentos o pensamento fechado à reflexão, evidentemente materializado no comportamento do outro, nunca no nosso.

Talvez, antes de permear as certezas que imunizam o conservadorismo fanático contra a dúvida, devêssemos nos permitir desafiar nossas próprias certezas com potencial de prisão. Esse é um jeito de abrir a escuta.

Escutar a fala que vem desse lugar que não é meu, e que não pode ser meu, é, ao mesmo tempo, reconhecer e celebrar a dignidade da experiência do outro, e aceitar minha ignorância. A despeito dessa ignorância, uma escuta genuína faz ressoar aquilo que do outro há em mim. Sempre há. E pode não ser agradável. A pergunta que se faz é: o que eu faço com isso que ressoa? Acredito que impor o silenciamento, em  mim e no outro, seja a pior das opções.

Por quê o bolsonarista age como age?

Muito se questiona sobre a razão que leva bolsonaristas a continuarem apoiando Bolsonaro. Ricardo Rangel publicou uma reflexão sobre isso com o título “O coração tem razões que a própria razão desconhece” (Veja. 30.06.20). Ele conclui que é fácil entender porque Bolsonaro age como age, mas que é difícil entender porque os bolsonaristas continuam o apoiando depois de serem, segundo seu entendimento, traídos de maneira tão acachapante.

Não me é tão fácil entender porque Bolsonaro age como age. Enxergo sua motivação – cuja ética e moral são questionáveis – para desidratar a Lava Jato e garantir o foro privilegiado à Flávio Bolsonaro. Visa proteger o filho implicado em crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, por exemplo. Quanto à traição que retiraria de Bolsonaro o apoio de bolsonaristas, me parece haver um erro de leitura. Bolsonaro não traiu nada e nem ninguém. Para fazê-lo, seria necessário que tivesse assumido algum compromisso com esse algo ou alguém. Jamais o fez.

Veja, Bolsonaro nunca se comprometeu sequer com o que fala e fica registrado. Sua lealdade, se é que há alguma, é restrita aos seus filhos. Seu descompromisso é tal que fugiu aos debates. Privou o país do direito de ouvir suas propostas e dialogar sobre elas. Bombardeou, e segue bombardeando, a população de dentro e de fora do país com mentiras e distorções da realidade, as chamadas fake news. O descuido proposital com o conteúdo e a forma do material apresentado como plano de governo foi mais uma declaração explícita da sua falta de zelo com a nação, com a democracia e com cada cidadão e cada cidadã, inclusive aquele que era o seu eleitor convicto.

Não faltam evidências muito objetivas que caracterizem o desleixo e a falta de compromisso de Bolsonaro com qualquer pensamento, ação, instituição ou pessoa. Não me detenho nisso que é público e notório. Meu objetivo, foi apenas demonstrar que não se pode acusar Bolsonaro de traição.

Se Bolsonaro não traiu, logicamente ninguém foi traído, nem mesmo o núcleo duro de seu eleitorado – vulgarmente tratado por bolsonaristas. Tampouco creio que se sintam traídos. Do mesmo modo que Bolsonaro, seu eleitor não demonstra compromisso com o país e seu povo. Concordando que bolsonaristas não foram “traídos de maneira tão acachapante”, permanece o problema: por que o bolsonarista age como age? Tenho uma hipótese. Para desenvolvê-la é preciso que se defina o que é um bolsonarista.

O que é um bolsonarista: primeira aproximação

Num primeiro momento, pode parecer simples: um bolsonarista é um seguidor de Bolsonaro. No entanto, essa definição parte de um pressuposto falso: o de que para existir a categoria bolsonarista é preciso que exista Bolsonaro. Defendo que bolsonaristas existem antes e para além de Bolsonaro.

Para essa hipótese, é preciso assumir que Bolsonaro é apenas mais um bolsonarista, não merecendo que se lhe atribua qualquer autoria na construção desse modo de existir. Isso seria lhe conferir uma importância que não possui. Enquanto o tipo de bolsonarista que é, Bolsonaro é insignificante.

Se o modo de existir bolsonarista independe de Bolsonaro, por que o adjetivo nasce de seu nome?

Personalidade como função

A personalidade Bolsonaro ganha função na medida em que ativa o que passarei a chamar de bolsonarista existencial. É necessário e estratégico distinguir entre os dois tipos de bolsonarista que identifico: o existencial e o circunstancial.

A categoria bolsonarista existencial corresponde ao grupo de indivíduos sem disposição ao pensamento reflexivo. Os indivíduos da categoria bolsonarista circunstancial são aqueles que, por alguma circunstância específica, estão com a capacidade de pensar temporariamente embotada. O primeiro é caso perdido. O segundo é possível recuperar.

Esse é o trabalho necessário. Identificar, dentro do que comumente se designa por bolsonarista, quem é caso perdido e quem ainda pode ser resgatado. Não pretendo explicar porque a não disposição para o pensamento reflexivo ocorre. A proposta é distinguir entre os tipos existencial e circunstancial com o fim de dirigir o trabalho para aquilo que pode e deve ser feito: recuperar o bolsonarista circunstancial.

Sob a função Bolsonaro, os tipos bolsonarista existencial e circunstancial passam a orbitar o que parece um movimento organizado: o bolsonarismo. No entanto, ainda que se reconheça um bolsonarismo, e que ele possa ser caracterizado como um movimento, a realidade mostra que não é organizado. Ao contrário, sua expressão é caótica, violenta e perturbada.

O bolsonarista existencial

Esse grupo é caracterizado pelo fanatismo e pela ausência de pensamento reflexivo, sendo a faculdade do pensar o elemento-chave. O pensar de modo reflexivo é próprio do humano. Abrir mão desse pensar genuinamente curioso, que reflete sobre si mesmo e sobre o que está fora de si, é o mesmo que abrir mão da própria humanidade. Isso é muito perigoso e pode ter consequências desastrosas, deixando marcas profundas, duradouras e terríveis não apenas para toda a humanidade, mas também para toda forma de vida existente no planeta.

Partindo da pergunta retirada do texto de Ricardo Rangel, é preciso identificar o que motiva o agir do bolsonarista existencial uma vez que o pensamento está ausente. Se não é instada pelo pensamento, sua ação é pura reação dirigida à sobrevivência do organismo. Diante de uma ameaça, seu repertório de respostas irrefletidas se restringe à fuga, luta ou paralisação (fingir de morto). Sem disposição ou competência para o pensamento, toda complexidade é uma ameaça e, portanto, fonte de sofrimento a ser evitada.

Ao repudiar tudo o que lhe é estranho, o bolsonarista existencial substitui o convite ao diálogo pelo esforço de enquadrar o que lhe escapa dentro dos limites de certezas com as quais está familiarizado. O que foge disso é inimigo a ser subjugado e controlado. No limite, deverá ser eliminado.

Para esse perfil, ansioso pela necessidade de controle, não surpreende a recorrência ao passado como tempo idealizado, livre de complexidades, onde cada pessoa sabia exatamente o seu lugar e, por isso, era feliz. Nesse sentido, muito mais do que conservador, um bolsonarista existencial é retrógrado. Saudoso de um passado inventado, trabalha pela supressão de direitos conquistados no longo percurso da construção de uma sociedade menos desigual.

Em síntese, para o bolsonarista existencial não há razão. Há reação. Não há curiosidade e encantamento. Diante do abismo há apenas medo, talvez pavor. Não há transformação possível, há o esforço violento de conservar e controlar aquilo que, em essência, não é possível conservar estagnado nem controlar: a vida. Talvez, por isso, o ódio seja um afeto tão presente. E, talvez precisamente por isso, a bolsonarista existencial constitua risco potencial de aniquilação da própria vida que deseja conservar livre de mudança.

O bolsonarista circunstancial

Nem todo bolsonaristaé um deserto de sal. Ao contrário do primeiro tipo, o bolsonarista circunstancial não abriu mão de sua humanidade. A disposição para o pensar reflexivo existe, porém está temporariamente embotada. Embora haja o espaço para o diálogo, este perfil se acredita carente dos recursos que permitiriam o relacionamento criativo com uma complexidade transbordante.

Essa crença pode promover o sentimento de desamparo que favorece a adesão a um modelo de mundo simplificado, sem nuances, de fronteiras bem marcadas e impermeáveis. Nesse mundo, o pensamento reflexivo é substituído pelo conforto do discurso pronto, ainda que autoritário. Para esse tipo, empobrecido pelas circunstâncias, podemos nos oferecer como um outro que dialoga e ajuda a recuperar o acesso aos recursos próprios de interação criativa e resiliente com a realidade.

Nosso papel é identificar o bolsonarista circunstancial perdido no que parece ser a massa indiferenciada do bolsonarismo vulgar. Então, devemos nos oferecer como facilitadores da recuperação da potencia do pensar nessas pessoas. É possível que, em resposta ao espetáculo tosco das mentiras, descuidos e desprezo por tudo que não sejam seus próprios interesses, Bolsonaro já tenha mobilizado esse grupo a despertar para o equívoco de apostar no ódio como resposta aos desafios de nossa sociedade.

É junto a essas pessoas que devemos nos posicionar. Não importa, agora, saber porque o bolsonarista existencial age como age. Ele mesmo não sabe, e nem demonstra interesse em saber. O importante é identificar esse que, se percebendo desamparado, aderiu ao discurso pronto, violento e autoritário que tem Bolsonaro como porta voz. Identificar e ajudar a recuperar a coragem de pensar desses sujeitos de diálogo circunstancialmente embotados é fundamental para enfraquecer o projeto de poder da ultradireita neste país.

Esse texto foi escrito em junho de 2020.

Human Race – uma corrida contra quem?

 

Em inglês, “race” significa raça, mas também significa corrida. A expressão “human race” pode ser lida como raça humana ou corrida humana. Se é uma corrida, é uma corrida contra quem ou o quê? O que marca a chegada?

Tomando por referência o desprezo aos alertas de pesquisadores e pesquisadoras de diferentes áreas do conhecimento, a corrida é contra a própria humanidade. A linha de chegada é a destruição de toda natureza. Nesse caso, é preciso que nos perguntemos: é possível existir humanidade sem natureza?

Parece que uma parte de nós está convencida de que sim. Desses, aqueles com mais poder exploram toda expressão de vida reduzida à dimensão de recurso. Fauna? Recurso. Flora? Recurso. Minerais? Recursos. Energia? Recurso. Tudo é recurso.

Cientes da raridade da vida, se apressam no processo de apropriação e exaustão de tudo o que possa ser dominado e transformado em riqueza privada. Talvez essa seja a corrida: Ser o primeiro a erguer a cerca pelo direito de exploração. Parecem apostar que a moeda acumulada ao investir na morte será suficiente para garantir-lhes a existência descolada da vida.

Sob essa perspectiva, gente também é recurso. Recurso humano. Enquanto recurso, o humano é valorado pela sua utilidade ao sistema. A utilidade é medida pela capacidade que um recurso tem de gerar riqueza para alguém. Eficiente, o sistema convence cada humano que é sua responsabilidade e obrigação individual investir (moeda) em si mesmo, de modo a se tornar o mais útil possível para o próprio sistema.

Conforme uma escala de mérito, nem sempre proporcional ao volume de riqueza que cada recurso humano gera para outrem, o sistema premia os recursos com mais ou menos riqueza, agora distribuída na forma de migalhas, mantendo a competitividade sempre acesa.

Como qualquer outro recurso, quando a energia de um recurso humano se exaure, ele deixa de ter utilidade. Para o pensamento neoliberal, aquilo que não gera riqueza, gera custo, e o que gera custo, deve ser descartado. Porém, assim como o lixo que acreditamos “jogar fora” não desaparece, essas pessoas também não deixam de existir. Agora elas são apenas um problema. O recurso humano passa a condição de refugo humano.

O refugo humano não é apenas improdutivo e inútil. Ele disputa os recursos finitos com os humanos que ainda são úteis. Além disso, atrapalha o sistema na acumulação da moeda com obstáculos como programas sociais dedicados a “sustentar vagabundo” – dizem eles.

Dentro dessa lógica, o ideal seria que o refugo humano morresse o mais breve possível. É o princípio que orienta a gestão dos leitos privados de hospital. O contratante dos serviços de saúde complementar somente é útil se saudável e pagante. Em caso de doença, havendo necessidade de internação, que seja breve, do contrário representará apenas prejuízo. Nem que saia morto, é preciso que saia e rápido. Afinal, saúde privada é um negócio, e ele deve enriquecer o empresário.

Acredito que uma parcela significativa de nós, humanos reduzidos a recurso, viva tão esmagada sob a pressão de lutar para apenas sobreviver, que esperar força para uma reação revoltada possa ser fantasioso. Porém, há uma parte importante de nós que assiste passiva, conivente até, o relógio da bomba armada correr. Faz parte da atitude conivente a aposta em estratégias conciliatórias.

Por quanto tempo ainda é possível sustentar a conciliação com o que é inconciliável? Em troca de que ainda se fazem concessões, quando já se está além do limite? Agir assim, não é operar segundo os mesmos mecanismos de negação do colapso ecológico que movimenta aqueles que ativamente erguem cercas, privatizam, controlam e destroem o que enxergam como bem de direito privado?

O mais irônico é que uma das ferramentas mais comuns utilizadas para sustentar esse tipo de negacionismo “racional” é a fé nos milagres da ciência e da tecnologia. Poderosos, ativistas e pessoas comuns ocupadas com o cotidiano de seus trabalhos e famílias, parecem compartilhar da crença otimista de que alguma fórmula matemática, alguma lei da física, algum processo de sintetização da vida será suficiente para manter a saúde de nossos corpos e mentes. É possível até que se almeje prescindir dos corpos, essa estrutura frágil e perecível que ainda ocupa lugar no espaço. Talvez possamos traduzir tudo em informação a ser armazenada em uma nuvem digital. Viveremos eternamente, como fragmentos de um todo indistinto. Seremos Deus.

Somos bichos escrotos

Dizemos que queremos saúde, mas escolhemos o caminho da doença. Vivemos rotinas sedentárias, comemos pela gula e não para nos alimentar, nos expomos a todo tipo de substância tóxica em excesso: do cigarro de nicotina ao monóxido de carbono. Nos separamos da natureza. Ignorantes, degradamos a natureza da qual julgamos não pertencer.

Ontem, distraidamente, fiz a tolice de ir pedalar pela orla do Rio. O lixo! Sem exagero. O lixo era surpreendente. Papel, plástico, garrafas, restos de comida e cigarro, máscara sem gente e gente sem máscara escarrando no chão, mijando no chão. No mesmo chão onde andavam descalços, onde os filhos brincavam.

Vi um homem trôpego, talvez alcoolizado, catando tampinhas de garrafa plástica. Vi quando levantou uma garrafa tampada do chão. Destampou. Recolheu a tampa. Descartou a garrafa novamente no chão.

Olhei pros prédios. Muitas varandas com a bandeira do Brasil pendurada. Já implico. Já desprezo. Olhei pra turba aglomerada desfilando sobre o lixo do calçadão. Não foram raros os que avistei enrolados em cangas representando a bandeira nacional. De um lado e do outro, miséria. O rico e o pobre, miséria.

Patriotas, talvez. É provável que as bandeiras estivessem lá em comemoração ao 7 de setembro. Independência proclamada às margens de um Ipiranga que há muito não passa de um esgoto a céu aberto. Diz muito.

Ao que serve o arrependimento?

Lya Luft e a banalidade do mal no voto entediado, leio no DCM em junho de 2020. Diz que se arrependeu do voto em Bolsonaro. Que não sabia bem o que fazia, porque não o conhecia, apenas precisava liberar o país do… Adivinha? Isso. Precisava liberar o Brasil do PT. (O ser patético não precisa ser inventado. Ele existe e repete coisas como essa daí).

Me causa repulsa a recusa de alguns em reconhecer a própria autoria no capítulo trágico da história democrática desse país. Era sabido que em algum momento o apoio a um sujeito desqualificado e violento seria uma mancha suja demais para seguir ostentando atrás da maquiagem verde amarela, desfigurada de tanto ódio. Em nome desse ódio mal disfarçado, entregaram o Brasil nas garras de quem nunca escondeu o gozo perverso com o sofrimento e até a aniquilação do outro. Agiram de forma consciente, conivente e desejosa do horror que se descortina sem surpresas. Agiram confiantes de que, se necessário, alegariam a mesma ignorância que tantos homens e mulheres “de bem” alegaram por terem apoiado os crimes contra a humanidade durante o nazismo.

Não existe absolutamente nenhuma justificativa que isente de responsabilidade aquele que votou em Bolsonaro. Também não há como isentar de responsabilidade aquele que, ao abrir mão do voto, deixou este governo (fascistoide ou fascista?) se estabelecer no poder.

Não há pedido de desculpas que baste. A escolha foi consciente. Não é possível alegar ignorância. Não é possível alegar desconhecimento. Não há arrependimento. Não venha pedir desculpas tentando salvar sua biografia.

O que eu respeitaria seria se cada um, ou ao menos alguns destes que usaram o título de eleitor como arma para desferir seu ódio, viesse a público admitir sua responsabilidade concreta e motivação real para o quadro atual. Não aceito e não respeito e não acredito em pedidos de desculpas levianos, de quem quer tirar o corpo fora alegando ignorância, desconhecimento ou mesmo boa fé. Que carreguem em si o peso, a dor e o sangue que sua escolha (inclusive a escolha de anular voto em uma eleição atípica como a de 2018) já causou e seguirá causando por muito tempo.

Por que insisto na responsabilização de si mesmo, quer dizer, por que insisto que a pessoa precisa parar de se justificar e de posar arrependinento?

Porque é a única possibilidade de que, talvez, essa pessoa seja capaz de não repetir o mesmo erro. Mais, e talvez isso seja o mais importante, é a única forma de a pessoa se desvencilhar da arrogância, do medo e do fanatismo que a impede de estabelecer qualquer diálogo.

Pra você, que ainda está tentando dialogar com quem não está aberto, segue meu pensamento.

O fanático não dialoga. É terra arrasada. Pisar nela vai te exaurir, te arrasar também. Nada floresce ali. A boa notícia é que esse universo de pessoas propensa ao fanatismo é relativamente baixo. Não havendo tecnologia, por hora, para semear diálogo nesses campos áridos, a forma é desnutrir retirando qualquer oportunidade de plataforma que alimente essa gente.

O que vem se chamando de bolsonarismo é a expressão caoticamente aglutinada da escória de ressentidos quando ganha olofote e ribalta. Não significa que não estivessem lá antes. Apenas, antes, eram os paspalhos do churraso de família, os chucros do bar ou da empresa. Ainda não sabemos como recuperar essas pessoas. Talvez não seja possíve recuperá-las. É que não é falta de instrução o que as define. Também não é uma doença mental, como pode parecer ao serem chamadas, genericamente, de loucas. Se há uma doença, ela é moral e eu não sei como isso se corrige. Então, apenas deixe que definhem e rastejem nas sombras, como sempre fizeram.

Amanheci hashtag

Quem sou eu na fila do pão? Sou uma pessoa comum que está tentando avaliar esse manifesto cheio de assinaturas, identificado como frente ampla pela democracia e contra o fascismo. Me sinto relativamente aliviada em saber que somos 70% — mas somos 70% de quê?

É certo que quando o rolo compressor vem ameaçando nossa existência, é urgente uma ação pela sobrevivência. Mas, quando vamos sair desse modo tão primitivo: agir pelo instinto de sobrevivência, um instinto basal, nem sempre provido de raciocínio? Pra ilustrar o absurdo disso, vi circulando, em um canal obscuro no YouTube, uma web-serie no modo “survivalist“. O canal é atribuído a uma empresa que leva o nome de uma pessoa que se pretende algo como um coach que vai te ensinar a atravessar crises. Claro, a protagonista é um gringo fantasiado de soldadinho. Faz referência à sua experiência como combatente nas tantas guerras que seu país inventa pelo mundo com o pretexto de promover democracia. Compõe a caracterização a ostentação de armamento pesado. Essa caricatura de oportunismo barato é a face do que aceitamos nos tornar.

Pra que serve a história? Estaremos condenados a repetir os mesmos erros de sempre, às custas da covardia e do medo? Não aprendemos nada com slogans vazios de conteúdo?

É preciso união, mas tendo a coragem de construir uma pauta concreta e coerente, capaz de mobilizar transformação. O debate para essa construção já é transformador. Ainda que lá na frente os rentistas usurpadores de sempre nos passem a perna, teremos uma plataforma sobre a qual ficar de pé. O preço dessas frentes amplas sem forma é a deformação de tudo. O grito vazio de “é contra a corrupção” de 2013 vira o grito esvaziado de “é contra o fascismo”. De grito em grito não dizemos e não ouvimos nada. Precisamos de um projeto. É urgente.

 

Estar presente é um presente

Na parte da cidade onde moro tem cobertura de mangue ❤ Agora estamos cumprindo o distanciamento social, evitando a rua, então é tudo paisagem na memória. Mas quando posso estar na rua, gosto de caminhar ou de pedalar para os meus compromissos — depende da distância. Prefiro isso ao carro, porque é um jeito de estar no lugar, e não apenas passar, com pressa e automatismo. Então eu olho pra tudo. E é sempre novo. Um reflexo na água. Um ninho de passarinho. Peixes nadando. Pessoas que passam. Flores ou frutos que não estavam antes. Galhos pelados, galhos esverdeados, galhos amarelados, galhos avermelhados, galhos de muitas cores. De tardinha, as capivaras. De noite, os morcegos. Então, quando vejo o mangue cuidado, as águas limpas, fico feliz. Dói quando está machucado.

E se a cidade pudesse privilegiar a natureza que tem em cada bairro?

E se o seu dia incluísse o olhar e o estar presente nesses espaços, que são públicos, coletivos?

Que mudanças isso traria pro seu dia e pro dia da cidade? Pra sua vida e pra vida na cidade?

Mangue