46 outubros atrás

Ainda dá tempo? Sempre gosto de ver o desfile de crianças deslizando pela telinha do celular. Fui procurar fotos minhas. Pra participar. Achei as várias crianças que eu fui, sempre sendo a mesma. Escolhi essa.

Aqui é a criança suburbana, que aprendeu a andar correndo na rua larga próxima da linha do trem, do lado oposto à fábrica de açúcar.

Esta bebê é carioca. Primeira da família a nascer em terras brasileiras. Contam que não queria sair da Terra do Antes. Chegou por cesariana. Era de muito olhar e quase nunca falar, “tão quietinha que a gente até esquecia”.

Foi neta de imigrantes camponeses que cruzaram um oceano inteiro em busca de paz, trabalho e futuro. É filha de imigrantes — crianças tentando se achar no continente novo entre a tradição familiar campesina e a vida na cidade, jovens adultos, mais jovens que adultos, começando uma família.

O ano desta foto é 1973. Registro de meu pai. Nesta época, plena ditadura militar, ele já estava relativamente bem orientado na direção daquilo que seria a vida dele e que era, como ainda é hoje, fortemente identificada com o trabalho.

Minha mãe, para os meus atuais 46 anos, era uma menina de apenas 21. Recém chegada de terras vizinhas, no Rio era imigrante duas vezes. Sem nenhuma referência que não fosse meu pai e esse bebê, ela se equilibrava entre aprender a viver longe da família, dos amigos e de tudo o que conhecia, aprender uma nova língua, aprender a ser mulher adulta, aprender a ser dona de casa, aprender a ser esposa e aprender a ser mãe. Além da família, deixava no país onde cresceu a estudante de artes plásticas.

Contam que esta bebê não gostava de leite e não comia nada. Mas tinha loucura por passear de carro. O carro era esse Chevette goiaba.

Sobre o tampo do porta malas, a pequena criatura veste um colar de chupeta e fralda de pano. O sorriso sem dentes enfeita a magrelice de toda vida.

Não tenho absolutamente nenhuma memória dessa época. Só aquela que me contaram e também as que eu ouvi por aí.

Dois anos e seis meses depois ganharia um irmão gordinho e cheio de dobras.

Estar presente é um presente

Na parte da cidade onde moro tem cobertura de mangue ❤ Agora estamos cumprindo o distanciamento social, evitando a rua, então é tudo paisagem na memória. Mas quando posso estar na rua, gosto de caminhar ou de pedalar para os meus compromissos — depende da distância. Prefiro isso ao carro, porque é um jeito de estar no lugar, e não apenas passar, com pressa e automatismo. Então eu olho pra tudo. E é sempre novo. Um reflexo na água. Um ninho de passarinho. Peixes nadando. Pessoas que passam. Flores ou frutos que não estavam antes. Galhos pelados, galhos esverdeados, galhos amarelados, galhos avermelhados, galhos de muitas cores. De tardinha, as capivaras. De noite, os morcegos. Então, quando vejo o mangue cuidado, as águas limpas, fico feliz. Dói quando está machucado.

E se a cidade pudesse privilegiar a natureza que tem em cada bairro?

E se o seu dia incluísse o olhar e o estar presente nesses espaços, que são públicos, coletivos?

Que mudanças isso traria pro seu dia e pro dia da cidade? Pra sua vida e pra vida na cidade?

Mangue

Imaginar: a coragem de ser livre

“I can’t breathe!”. Eu não posso respirar! Repetiu George Floyd, assassinado por asfixia pelas forças racistas do Estado, em maio de 2020.

Até a manhã de 31 de maio do mesmo ano, o mundo contabilizava 369.529 mortes humanas, por asfixia em complicações associadas ao Covid-19.

Ailton Krenak, em muitas de suas falas, tem chamado a atenção para o descolamento do homem branco de tudo o que diz respeito à vida. Destaca o absurdo da sua fantasia de superioridade à outras raças, outras espécias, o planeta, e, até, fora dele.

Não é exagero. Ontem, em meio ao caos na terra, uma nave tripulada deixou o planeta com destino a uma estação espacial. Parece um grande feito. Muita gente animada. Os EUA, aparentemente recuperariam sua liderança na exploração do espaço — não fosse suficiente a bagunça que vai-se acumulando aqui embaixo. E, apostam os senhores do capital, voos comerciais tripulados serão rotineiros. Uau, hein…

“I can’t breathe!”, repetiu George Floyd antes de desacordar, sob as botas de um policial branco, até, finalmente, morrer.

“Alguma coisa está fora da ordem”. Te parece?

Uma mudança radical precisa acontecer. Essa mudança precisa ser voluntária e consciente. Krenak alerta não ser adequado pensar nessa suspensão da vida, provocada pela pandemia, como algo temporário, que apenas adia nossos planos, para que retomemos tudo de onde parou. É necessário que se reflita como se chegou até aqui, e o que deve ser feito para que não se repita.

Achille Mbembe faz a mesma prolação em seu artigo ‘O direito universal à respiração’. Reproduzo um trecho.

“Presa em um cerco de injustiça e desigualdade, grande parte da humanidade está ameaçada pela asfixia, e a sensação de que nosso mundo está em suspenso não para de se espalhar.

“Se, nessas condições, ainda houver um dia seguinte, ele não poderá ocorrer às custas de alguns, sempre os mesmos, como na Antiga Economia. Ele dependerá, necessariamente, de todos os habitantes da terra, sem distinção de espécie, raça, gênero, cidadania, religião ou qualquer outro marcador de diferenciação. Em outras palavras, ele só poderá acontecer ao custo de uma ruptura gigantesca, produto de uma imaginação radical.

“Um mero remendo não será suficiente”.

Não é de agora a denúncia sobre essa falta de imaginação humana, que insiste em velhas fórmulas falidas, ou, como diz Mbembe, meros remendos.

A boa notícia é que podemos fazer mais do que remendar. Somos dotados da capacidade de imaginar. E somos em maior número do que aqueles que se encontram embotados dessa capacidade.

Ontem o Brasil foi dormir consciente de que sua porção não necrosada, viva, capaz de imaginar, é a maioria. #Somos70%. Talvez sejamos mais. Não só no Brasil. No mundo. O que falta pra ativar a coragem de imaginar outro jeito de estar no mundo, e de ser com o mundo?

Por outros jeitos, compartilho a determinação e a coragem dessa mulher nigeriana, Sophie Oluwole, que contra a narrativa dominante da opressão que silencia e apaga outros olhares, seres e pensares, teve a coragem de se imaginar em um lugar diverso daquele imposto pelo colozinador. Pela força transformadora de sua coragem de imaginar, resgatou um novo fio narrativo pra história da África no mundo e pra história do mundo como um todo.

Para uma ruptura gigantesca, para a imaginação radical, vamos precisar de todo mundo.

The Love Embrace of the Universe, the Earth (Mexico), Myself, Diego and Señor Xolotl. Frida Khalo, 1943.

Memórias do Cárcere 1 — notas sobre a pandemia

Em três dias completo um mês de isolamento social. Nesse tempo, apenas saí de casa por duas vezes. A primeira, logo no início da crise no Brasil. Meu destino, o mercado de verduras e frutas. A segunda vez foi hoje. Precisei ir ao banco. Entre a primeira e a segunda saída, pelo menos no bairro onde moro, a diferença no fluxo de pessoas nas ruas chamou a atenção.

Há quase um mês atrás, as ruas estavam praticamente desertas de carros, e as calçadas vazias de gente. No mercado, evidentemente, havia pessoas. Mas todos pareciam cuidadosos em manter distância saudável de outro vivente. Hoje foi bem diferente. O fluxo de carros estava alto. Atravessar as ruas foi trabalhoso. Envolveu alguma espera para que os muitos carros pudessem desfilar acelerados, ignorantes de tudo que não fosse o asfalto livre. Senti gastura. O trânsito de pedestres também chamou a atenção. Era muita gente circulando, despreocupada em guardar alguma distância de qualquer outra pessoa.

O bairro onde moro é marcado pela ausência de vida nas ruas. É mesmo só um ir e vir de gente. Ninguém para, até porque não tem onde parar. Não tem uma esquina, não tem um bar, não tem uma praça viva. Tem a praia. Tem os condomínios. Tem os shoppings. Em dias comuns, as pessoas que a gente vê circulando pelas ruas são, em sua maioria, trabalhadores e trabalhadoras destes shoppings e condomínios. Eram essas as pessoas circulando a pé, 4 semanas depois do início do isolamento social. Não eram essas, entretanto, as mesmas que circulavam de carro. Pensei pelo aspecto otimista: quanta gente nessa minha cidade é serviço essencial! Quase bati palmas, mas estava ocupada tentando manter alguma distância dos outros corpos. Senti ansiedade e irritação.

No banco, avistei um atendente, três seguranças e uma cliente. Enquanto esperava minha vez, o que foi rápido, percebi os seguranças conversando entre si. Pareciam contrariados. A mulher dizia que a linha de ônibus que usou para chegar ao trabalho estava amontoada de gente: “um falando dentro da cara do outro”! Um dos homens reclamou do que avaliou como insensibilidade dos que insistem em estar nas ruas sem necessidade: “parece que não estão lendo as notícias, não estão levando a sério, um desrespeito com a gente”. O terceiro disse que não tinha jeito, era confiar no papai. Eu não entendi. Acho que ninguém entendeu, porque ele precisou explicar: “papai! O pai do céu. Só a providência”.

No caminho pra casa parei em uma farmácia. Chorei ao me afastar do caixa. Estranhei as marcações no chão, as fitas criando distância entre as gôndolas e os balcões. O caixa estendendo o braço, com a sacola pendurada na pontinha dos dedos, a embalagem de álcool ao lado da registradora.

Apesar de as lojas estarem fechadas, à exceção das farmácias, bancos e lojas de chocolate, tinha bastante gente circulando dentro do shopping. Também havia uma padaria aberta, com pessoas sentadas às mesas, sem qualquer distância entre si. Não estava proibido consumir dentro dos locais?

Chegando em casa, teve início o ritual de desinfecção, ainda na porta do apartamento. Fui direto pro banho. Achei que um homem tinha espirrado perto demais de mim. Meus cabelos estavam soltos. Lavei os cabelos que estão longos, longuíssimos.

Sentada no sofá, senti um tipo de alívio. Olhei pela varanda. O mar ainda em ressaca. Acostumei a olhar o mar pela janela. Só passou um mês e parece que a vida sempre foi assim.

Brasil: 422 dias sem dignidade

Em pouco mais de um ano atuando como presidente desse país o legado de Bolsonaro é mais negativo do que as análises econômicas podem fazer parecer.


Uso do aparelho judiciário para coibir investigação de corrupção, envolvimento com milícia e desconcertante proximidade com o assassinato da parlamentar carioca Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Está acontecendo.

Alinhamento com lideranças autoritárias de países com histórico político, econômico e social de barbárie. Está acontecendo.

Decisões que comprometem a credibilidade do país perante a comunidade internacional séria e a confiança de invstidores. Está acontecendo.

Ataques diretos à pessoas específicas que ameaçam o castelo de esterco e mentiras erguido para proteger uma família de “parasitas de corpo mole” que tomou o país de assalto (pelas urnas!, como resultado de um golpe midiático institucional alimentado pela Casa Grande que agora se diz escandalizada). Está acontecendo.

Apoio à organizações paramilitares, violência de Estado e manifestações de enfraquecimento e deterioração inconstitucional. Está acontecendo.

Incentivo à formação de um Estado miliciano neopentecostal. Está acontecendo.

Produção despudorada de mentiras, deliberadamente descuidando de qualquer verniz de credibilidade que sequer pudesse mascará-las. Está acontecendo.

Manifestações públicas, de alcance nacional e internacional, de desprezo pelo país, sua cultura, sua biodiversidade e seu povo. Está acontecendo.

Desmonte da educação em todas as esferas, e condenação de indivíduos e da nação ao obscurantismo. Está acontecendo.

Destruição da saúde pública e condenação da população ao abandono e à morte evitável. Está acontecendo.

Incompetência administrativa. Está acontecendo.

Incompetência em propor e buscar soluções econômicas para a crise atual, com o agravamento de estar contribuindo para o endurecimento da crise. Está acontecendo. (E você ainda está feliz e confiante “porque o Paulo Guedes…?”).

Condenação de milhões de brasileiros e brasileiras ao desemprego, humilhação e fome. Está acontecendo. (E você ainda está satisfeito”porque ao menos tirou o PT…?”).

Ataques constantes ao funcionalismo público de carreita que faz o Estado chegar com zelo, eficiência e humanidade aos cidadãos e cidadãs desse país por meio de trabalho sério e comprometido. Está acontecendo.

Ameaças e perseguições políticas. Está acontecendo.

Ameaça à soberania econômica, intelectual, territorial, cultural e alimentar do Brasil. Está acontecendo.

Apoio ao genocídio dos povos da floresta remanescentes. Está acontecendo.

Destruição do patrimônio ambiental e genético de ecossistemas ricos e únicos como a Amazônia e o Cerrado. Está acontecendo.

Convocação covarde e inconstitucional do gado bolsonarista e da manada controlada pela ameaça direta do aparato miliciano neopentecostal para a derrubada do Congresso. Está acontecendo.

Silêncio. Está acontecendo.

Atualização de referências pra gente asquerosa

Witzel não é bobo. Tudo pra ele é palanque.

Em agosto de 2019, um rapaz fez de reféns os passageiros de um ônibus. A operação durou cerca de 4 horas e terminou com o sequestrador sendo baleado e morto por um sniper. Houve controvérsia quanto ao, assim definido, sucesso da operação. Indagações quanto a uma possível inabilidade da no processo de negociação e sobre a real necessário o disparo do sniper são algumas das questões que ficaram mal respondidas. Não vou entrar nesse mérito, porém. O ponto aqui é destacar a inadequação e a inadmissibilidade quanto ao comportamento do governador do estado do Rio de Janeiro.

Eleito na sombra das afinidades de prateleira com o ultradireitista Bolsonaro, servo dos interesses conservadores de falsos moralistas e liberais de mercado, o ilustre desconhecido, hoje governador do Rio, já foi protagonista de atrocidades diversas. Uma das primeiras informações sobre sua biografia foi um vídeo onde ele, ainda juiz, palestra para outros magistrados sobre formas de corrupção a fim de obterem vantagens financeiras manipulando as brechas da lei. A partir daí, fica difícil elencar quais das suas manifestações públicas são mais desprezíveis. Para fins ilustrativos, a fim de expressar a dimensão grotesca do quadro, relembro, com pesar, de alguns eventos.

Cena grotesca 1 com participação mais que especial de Witzel, o asqueroso: desrespeitoso vandalismo com a memória de Marielle Franco, cujo assassinato ainda segue sem respostas.

Nesta ocasião, o mesquinho ex-juiz aparece em palanque de comício com o microfone em mãos. Ao lado dele, os deputados, não menos asquerosos, Daniel Silveira e Rodrigo Amorim eleitos pelo PSL, partido do também eleito presidente Jair Bolsonaro, vandalizam a placa em homenagem à deputada assassinada por milicianos muito próximos ao clã Bolsonaro. O ato é simultâneo à entrega de mais um discurso de ódio e intolerância que incita a violência.

Ao discurso e ao ato, Witzel, o dono do comício, oferece seu apoio. Felizes, os três posam para a foto. Witzel aparece com punho cerrado em direção ao alto, como quem celebra uma vitória e um estúpido sorriso no rosto suado. Ele nega, embora as evidências sejam inquestionáveis e fartas.

Cena grotesca 2 com participação mais que especial de Witzel, o asqueroso: coletiva para comunicar sua política de segurança pública.

Em mais uma demonstração de violência, preconceito e desprezo pela vida, ele declara que a polícia militar, em sua gestão, terá carta branca para matar, atirando primeiro e perguntando depois, porque ele “não tem bandido de estimação”. Em uma linha, sua política se resume, em suas palavras, à seguinte ordem: “é para atirar na cabecinha”.

Em operações desastradas e irresponsáveis, construídas para serem espetaculares, sob esse comando vidas inocentes foram perdidas. Foi o caso “isolado” de Agatha, a menina de 8 anos que morreu nos braços do avô baleada nas costas pela PM; de Rodrigo Alexandre Serrano, de 26 anos, que foi alvejado pela PM por que portava um guarda-chuva para proteger a esposa e o filho da chuva, um guarda-chuva que a polícia achou ser um fuzil; de Marcos Vinícius da Silva, o adolescente de 14 anos, baleado enquanto ia para a escola uniformizado com a camisa da rede pública de ensino, e que, nos braços da mãe ainda teve tempo de perguntar: “mãe, ele não viu que eu estava indo para a escola?”. Eu paro aqui, mas saiba que não é por falta do que relatar, posto que esses casos isolados são uma ficha corrida de crimses de racismo e injustiça social.

Se você chegou até aqui, há de concordar comigo que Witzel não apenas é asqueroso, mas que ele eleva a definição do termo para outro patamar. Como ele é consistente, e o contrario não pode ser dito, suas manifestações grotescas se repetem como a lua sempre segue o sol ao terminar o dia.

Foi assim, demonstrando consistência em ser asqueroso, que no dia 20 de agosto de 2019 ele chegou de helicóptero todo saltitante e socando o ar pra comemorar o assassinato de um rapaz que havia feito de reféns os passageiros de um ônibus sobre a ponte Rio-Niterói. Estava feliz que não cabia em si, o bichinho. Após 4 horas de operação no coração de um cartão postal e todas as lentes da imprensa dirigidas para o local, um sniper atira. É a cereja do bolo. Ou seria a “azeitona” da empadinha? O fato é que era tudo o que o governador precisava para aparecer como o herói justiceiro que vai proteger a população fluminense de GothamRio fazendo uso, não de inteligência, mas de grave demonstração de força militar.

Pegou mal. Como sempre pega. Questionado, mais tarde, ele negou a comemoração. Não estava comemorando uma morte, estava comemorando as vidas salvas, declarou à imprensa. Engole essa empadinha seca e com caroço se você puder. Fosse o que fosse, a atitude é inadequada, especialmente com todos os inevitáveis questionamentos sobre a habilidade na condução da operação.

Pegou mal, mas vida que segue. Tudo na mais pura “normalidade”.

Comemoração asquerosa de Witzel

Governador do Rio comemora morte como resultado de uma operação policial

E como a nova normalidade é o aberrante e o ridículo, Witzel atacou de espetáculo novamente. Dessa vez foi com a Libertadores. Mais uma vez, um acontecimento que tinha garantida a ampla cobertura da imprensa e a atenção popular. Lá foi ele: patético, fez da vitória rubro-negra um evento para jogar holofotes sobre si. O palanque? A capital do estado que o elegeu governador.

Fantasiado no seu caricato sorriso de paspalho, paletó cinza sobre a camisa do Flamengo e um manto da “nação” sobre o pescoço, pisou o gramado e se ajoelhou aos pés do atacante Gabigol. É exagero dizer, por extensāo, que se ajoelhou aos pés do clube que pouco antes fora palco da morte de 10 jovens atletas por negligência deliberada? Um clube cuja diretoria ainda não foi punida pelo crime cometido? Pois ele se ajoelhou em uma atitude asquerosa e populista.

Vi a cena e logo imaginei o toma lá dá cá que se negociou entre o governador, o clube e o jogador para a produção de triste espetáculo.

Ah, mas que mal-humorada. O cara não se ajoelhou para o clube e nem para a diretoria, ele se ajoelhou para o Gabigol, o craque, o jogador. A festa não pode ser punida pelos erros dos cartolas.

Desculpa, amore, que festa? E, convenhamos, é mesmo que você desconsidera a possibilidade de uma conversa, um faz-me-rir com a diretoria e o atleta?

Mas eu nem tive tempo de terminar esse pensamento, e o assunto já era trending topic no Twitter. O ângulo e o instante capturado, faziam o jogador parecer desconfortável em ter o Mr. Potato ajoelhado aos seus pés. Aparentemente, o atacante teria se afastado constrangido ou, talvez, enojado com a cena. E nem duvido que tenha sentido nojo e desprezo. Não duvido mesmo. As imagens em vídeo deixam mais evidentes o constrangimento.

Populismo asqueroso de um invertebrado

Populismo asqueroso de um invertebrado

Mas, aí, de volta para o Twitter não havia espaço para outro assunto. Uma histeria de postagens reproduzindo a imagem com frases como: Gabigol lacrou. Gabigol humilhou. Gabigol desprezou. Gabigol herói.

Fiquei aguardando quanto tempo até o herói dos tolos se desfazer como gelo no sol. Não precisei esperar muito. Algumas poucas horas depois, vestindo medalha e o manto rubro-negro, a imagem asquerosa de Witzel e de Gabigol silenciando os arroubos de heroísmo inexistente na suposta recusa do atleta em receber a deferência do invertebrado que nos governa o estado.

Print da tela da conta oficial de Witzel agarradinho com Gabigol

Print da tela da conta oficial de Witzel que aparece agarradinho com Gabigol

Os passadores de pano de plantão, de todos os matizes sociais, econômicos, políticos e ideológicos se apressaram para: passar pano! — Ah, mas a pressão da imprensa. — Ah, mas a pressão da diretoria.

— Ah, mas a pressão…dos privilégios e vantagens que posso acumular disso — deve ter pensado Gabigol. E a diretoria. E o governador.

Gabigol pode até ter sido forçado a posar de troféu pro tolete humano que o povo fluminense, com seu dedo de Midas invertido, colocou no poder. Mas, precisava posar assim cheio de dente e convicção?

10 flamenguistas não comemoraram

O lugar se chama Ninho do Urubu. Urubu é a mascote do Flamengo. No Ninho do Urubu jovens atletas com futuro promissor são “cuidados” até se tornarem os craques do futuro.

Para o clube, para a indústria do esporte e do futebol, para a imprensa especializada, no Ninho são gestadas as cifras indizíveis de lucro sobre a compra e a venda de craques e ídolos. É bonito, que falando assim faz lembrar a compra e venda de pessoas escravizadas. A diferença é que esses “escravizados” não geram lucro só pra quem vendeu e pra quem comprou. Com sorte e inteligência, eles também podem fazer dinheiro pra si mesmos, e fazer dinheiro pra durar. Vai ser difícil. Corpo de atleta é corpo exigido além do limite. É corpo abusado. É corpo que lesiona muito. É corpo que gasta rápido. Mas, pra muita gente, nesse país de desigualdades muitas, a fama do esporte pode ser o único passaporte acessível para fora da margem. Para muita gente, nesse país que despreza a educação, a ciência, a pesquisa, a força física pode ser a única forma de romper com a roda da fortuna virada sempre de ponta-cabeça. Se tudo der certo, as promessas de craque podem até ajudar as famílias de origem que, quase invariavelmente, são humildes e passam até necessidade. É uma espécie de conto de fada. É muito bonito o que o esporte faz pelas pessoas. O que o Flamengo pode ajudar o menino humilde a conquistar com a exploração adequada de seu talento.

O lugar se chama Ninho do Urubu. Urubu é a mascote do Flamengo. No Ninho do Urubu jovens atletas com futuro promissor são “cuidados” até se tornarem os craques do futuro. Só tem um problema. Eles não foram cuidados. Dormindo em alojamentos condenados pela vistoria técnica, em 2019, 10 meninos morreram em um incêndio por negligência do Flamengo.

O lugar se chama Ninho do Urubu. O quando foi em fevereiro de 2019. O como foi negligência. O quanto foram 10 mortes e 3 feridos.

No Ninho do Urubu, em fevereiro de 2019, foram mortos 10 jovens por negligência. Eram os filhos de 10 famílias. Morreram 10 talentos promissores do esporte nacional. O Ninho do Urubu encurralou e queimou à morte 10 sonhos, ao menos.

Jovens atletas do Ninho do Urubu mortos em incêndio por negligência do clube
Jovens atletas do Ninho do Urubu mortos em incêndio por negligência do clube

As reações? Pessoas declarando à exaustão seus lutos e indignação virtual em rede social. Chocadas com a tragédia, repercutiam o coração rubro negro dilacerado em suas timelines. Manifestavam solidariedade às famílias. E… defendiam o Flamengo.

Foi fascinante acompanhar em tempo real o processo de racionalização insustentável de separar o que não se separa para tirar a responsabilidade das costas e das mãos e da consciência (se é que ela existe) dos autores do crime.

Imprensa, torcedores (do mais variado espectro sociocultural), diretoria do time, jogadores, nenhum deles pareciam ter qualquer dificuldade em separar o que seria o Flamengo “diretoria” do Flamengo produto vendido nas embalagens time, “nação”, emoção, ídolos, craques, objetos, vestimentas, hinos, fofocas, ideal de consumo etc.

A comoção durou um tempo. Afinal era o Flamengo. Sério. Acho que o que mais capturou a atenção e a solidariedade geral não foi a morte de 10 meninos encurralados em um alojamento condenado pela vistoria técnica e negligenciado pelo clube. Acho que o que capturou a atenção e a solidariedade do público foi ser uma tragédia com o Flamengo. COM o Flamengo. Entende? Não eram os meninos.

Assim, passado esse tempo, e cumprido o papel social esperado de indivíduos, grupos e instituições de bem, a imprensa e as redes socais não demoraram a se acalmar. Assim, 10 mortes ficaram para trás sem que a tal diretoria tenha sido punida e sem que nenhuma reparação mais profunda e significativa tivesse sido observada.

O que ficou? O esquecimento. Ou talvez, uma memória sem afeto de uma tragédia espetacular e distante. Mas tudo bem. Em breve o Flamengo vai trazer muitas alegrias pra esse Brazil. Quer apostar? E depois, já tem o Carnaval. E tem o presidente. Já ele fala uma barbaridade e a gente se agarra nela, até que venha a outra.

Torcedores lotam av. Presidente Vargas no Rio
Torcedores lotam av. Presidente Vargas no Rio

Hoje, com o penoso 2019 chegando ao fim, olhando as imagens de uma Presidente Vargas tomada de rubro negro em festa, é difícil não pensar onde estava toda essa gente pressionando o sistema por uma reparação. Se essa multidão tivesse de fato se indignado e usado essa energia para declarar sua repulsa a uma estrutura que se sustenta da exploração da carência econômica e emocional de seres humanos, será que o evento trágico poderia ter iniciado um processo de redefinição das regras de um jogo perverso que naturaliza a exploração da miséria nas suas mais variadas formas?

Porque eu já tô de saco cheio

Alô! Marciano? Aqui quem fala é da Terra. Do Brasil mesmo. Do Rio de Janeiro. É. Eu sou. Do Rio de Janeiro. Sabe, aquele, pele e osso sem recheio, mas se botam a mãe no meio, dá porrada 3×4 sem despentear. Claro, só se alguém botar a mãe no meio, e olhe lá. No mais, não faço força nem pra virar de lado na esteira. Talvez se o Flamengo jogar. Talvez se o Boi Tolo desfilar. Talvez se der praia. Talvez.

O quê? Venderam a Petrobrás pra Petrobrás? Ah… deixa.

O quê? Tão matando lideranças da floresta? Matando criança por lá? Ah… que tragédia, mas quanto foi o jogo mesmo?

O quê? Mais de 1 bilhão de brasileiros estão na miséria e 50% do país sobrevive com 413 reais? Pesado, hein…

Ah, mas não é só isso? Sério mesmo que o ministro da economia disse que o pobre não sabe investir os recursos que tem?! Ah… mas também num é? Pobre é foda, no lugar de guardar dinheiro quer parcelar o… o arroz com feijão na conta do mercado. Mas parcelar com o quê mesmo que não tem credito? Ah… deixa pra lá. Qualquer coisa, eu que votei no 17 e ensinei criança a fazer arminha com as mãos, faço as malas e vou pra Portugal. Sabe, né, Brasil não dá mais… muita gente ignorante de esquerda. O negócio é Estado mínimo, não essas palhaçadas de brasileiro encostado que quer tudo de mão beijada do Estado. E Portugal vai ser ótimo pras crianças. Lá a escola é de qualidade e é pública. Tem saúde… mas eu quero é Estado mínimo! Não pra mim, é claro.

O quê? Censura? Nah… exagero, mimimi dos esquerda. É que esses rap, já ouviram? Já ouviram? É que eles confundem essas putaria com arte. Arte é Monalisa, meu. Arte é aquele quadrinho envidraçado e fetichizado pra tu se acotovelar pra fazer selfie sem flash. Arte é o que tem no Louvre. É os Caravaggio. É os… aqueles clássicos, de antigamente, sabe, quando as pessoas não eram sem vergonha. Eu, hein, arte brasileira, arte popular… Arte é cinema gospel do Edir Macedo financiado pela Rouanet, aí sim. Não essas merda da esquerda. Essas coisas de homem pelado. Performance… Performance meu CU-lto, tá ligado?

O quê? Mais de 600 dias sem resposta pelo assassinato de Marielle? Envolveram o nome do presidente no crime? Ele usou o governo aparelhado pra impedir a investigação? As provas foram parar nas mãos dele e dos filhos? O autor dos disparos é vizinho dele? É da milícia? A milícia, que o filho dele empregava? Que ele homenageou? Ih, gente, vê maldade em tudo. Eu quero é saber do filho do Lula, do pedalinho! Eu quero saber é do PT. E o peteeeee? Isso é o que importa. E, mais, quem é essa tal de Maribelle? Mari-o-quê Ah, essa aí. Tava era metida com coisa errada, senão nem tinha morrido.

O quê? os ministérios da agricultura e do meio ambiente liberaram agrotóxicos condenados e proibidos no mundo todo? Tão dando isenção de imposto pra quem usa veneno no solo, nas plantas? Tão destruindo a agricultura familiar e orgânica? Que bobagem, vocês ficam torcendo contra, aí é que dá câncer mesmo. Entendeu? Eu compro ali, na vendinha orgânica do Leblon, da fazenda do Marcos, sabe? Tô fazendo a minha parte. É que pobre é foda. Tem o orgânico e ele prefere comprar o envenenado… Ih, nem vem que agrotóxico polui o lençol freático. Porra nenhuma. Coisa de esquerdista esse papo ai, talquei!

O quê? A Amazônia ardeu em chamas? O presidente minimizou? O quê? Ele enfraqueceu fiscalização, autorizou ações criminosas? O desmatamento cresceu? Não pode falar desmatamento? É desflorestar? É limpar o mato com fogo pra criar gado? É pra produzir comida que vai vendar na gringa e que a gente nem vai ver por aqui na nossa mesa? Ah… mas, ó, esse negócio do fogo, sabe, essa época do ano sempre pega fogo por lá, e tem mais, coisa de ONG isso, e, e, e … e é isso mesmo, os índios também queimam floresta, tá? Quem disse? Li no WhatsApp. E repassei pra 15 contatos. Se cada um repassar as verdades pra 15 contatos, chega em todo mundo. #ForaGlobolixo, talquei?

O quê? O presidente mentiu no Twitter mais uma vez? Disse que 3 empresas saíram da Argentina pra vir investir no Rio? No Brasil? Era mentira? Ah, para de ver maldade. Vocês, esquerdopatas, são muito sem senso de humor. O presidente, o nosso presi, tava brincando. Vocês também, o cara não pode brincar. E ele já apagou. O Twitter.

O quê? O Brasil de Bolsonaro é alinhado com teocracias monarquistas assassinas? Melhor amigo do Mohammed bin Salman? Nem vem… Cara, todo mundo, especialmente as mulheres, dariam tudo por uma noite com o príncipe. O Bozo que disse. O Bozo deu. Vc tb daria, sério… para de mimimi. Claro que vocês não podiam deixar o Bozinho se divertir com o príncipe assassino. Não. Tinham que subornar o porteiro do Vivendas da Barra pra ele mentir que o assassino da Maristelle, Maribelle, Marielle, ah…. que o cara que matou aquelazinha lá, passou na casa do Bolsonaro. Golpe baixo. Ele teve que sair todo doido pra fazer live da madrugada arrancando cueca pela cabeça. Ele é muito equilibrado, mas vocês também iam ficar putos se quisessem acusar teu filho de envolvimento com miliciano e assassinato de parlamentar. E daí que eles são vizinhos? E daí que o filho do presidente namorou a filha do autor dos disparos? E daí que o Flávio homenageou os envolvidos no crime? E daí que os assassinos e seus familiares foram empregados no gabinete dos filhos de Bolsonaro? Nada a ver…

O quê? Teve um derramamento de óleo na costa brasileira e o governo federal não fez nada por mais de 40 dias e ainda apareceu na live do presidente pra dizer que peixe é esperto e foge de óleo? Ah, mas o óleo é da Venezuela! Navio grego é o escambau. O óleo é comunista. Para de reclamar desse óleo que a única tragédia aqui é o comunismo querendo nos derrubar. E pensa positivo. Faz um thetahealing que passa. Arminha também ajuda.

O quê? O condomínio Milícias da Barra, avenida Lucio Costa 3200, fica ali, na praia? Pertinho dos pontos de ônibus que vem da oeste, norte e sul? Logo ali do BRT e metro? Tem estação de bike compartilhada na porta? Tem patinete?! Facinho de chegar? Na frente, frente mesmo, da praia? Dá até pra ver o Flamengo na LED do quiosque? Ah, espera o Boi Tolo desfilar por lá que a gente vai fazer vigília na porta pra protestar.

O quê? E se a vigília de Curitiba se plantasse no milícias da Barra? Será?