46 outubros atrás

Sempre gosto de ver o desfile de crianças deslizando pela telinha do celular. Fui procurar fotos minhas. Pra participar. Achei as várias crianças que eu fui, sempre sendo a mesma. Escolhi essa.

Aqui é a criança suburbana, que aprendeu a andar correndo na rua larga próxima da linha do trem, do lado oposto à fábrica de açúcar.

Esta bebê é carioca. Primeira da família a nascer em terras brasileiras. Contam que não queria sair da Terra do Antes. Chegou por cesariana. Era de muito olhar e quase nunca falar, “tão quietinha que a gente até esquecia”.

Foi neta de imigrantes camponeses que cruzaram um oceano inteiro em busca de paz, trabalho e futuro. É filha de imigrantes — crianças tentando se achar no continente novo entre a tradição familiar campesina e a vida na cidade, jovens adultos, mais jovens que adultos, começando uma família.

O ano desta foto é 1973. Registro de meu pai. Nesta época, plena ditadura militar, ele já estava relativamente bem orientado na direção daquilo que seria a vida dele e que era, como ainda é hoje, fortemente identificada com o trabalho.

Minha mãe, para os meus atuais 46 anos, era uma menina de apenas 21. Recém chegada de terras vizinhas, no Rio era imigrante duas vezes. Sem nenhuma referência que não fosse meu pai e esse bebê, ela se equilibrava entre aprender a viver longe da família, dos amigos e de tudo o que conhecia, aprender uma nova língua, aprender a ser mulher adulta, aprender a ser dona de casa, aprender a ser esposa e aprender a ser mãe. Além da família, deixava no país onde cresceu a estudante de artes plásticas.

Contam que esta bebê não gostava de leite e não comia nada. Mas tinha loucura por passear de carro. O carro era esse Chevette goiaba.

Sobre o tampo do porta malas, a pequena criatura veste um colar de chupeta e fralda de pano. O sorriso sem dentes enfeita a magrelice de toda vida.

Não tenho absolutamente nenhuma memória dessa época. Só aquela que me contaram.

Dois anos e seis meses depois ganharia um irmão gordinho e cheio de dobras.

Divertida cabeleira ou A juba branca

Eu sempre gostei de brincar com os cabelos. Achava fantástico poder mudar de cor, de corte e de penteado. Cabelo cresce. É brincadeira sem fim.

Das cores que eu queria experimentar estava o branco. Esperei pacientemente. Eles chegaram.

Desde os primeiros fios brancos parei de pintar. Bateu uma ansiedade. Comecei a contar quantos. Eles reluziam, era fácil. Achei que estava demorando pra eles dominarem a cabeça. Mas esperei.

Ainda não cobriu tudo, mas já gosto. Valeu a espera e a paciência. Por hora não sinto vontade mais de mudar, nem a cor e nem o corte. Simples e longo. Mas também é uma novidade, já que me dedicava aos muitos e variados curtinhos e estilizados.

A única chateação é a indústria da moda e do estilo querendo abraçar os brancos femininos pra dizer que nos autorizam. Façam o favor, que sua opinião não nos interessa. Sou porque sou e gosto. Quando quiser, mudo.

Não é exagero comparar

Auschwitz. Maior e mais terrivel campo de concentração e extermínio nazista. Epicentro do holocausto, foram mortos mais de 1 milhão de “inimigos”, entre judeus, homossexuais, ciganos, poloneses e prisioneiros soviéticos.

No auge do Holocausto, em 1944, eram assassinadas seis mil pessoas por dia no local. (Birgit Görtz, DW, 27.01.2021)

Hoje, por negligência do governo Bolsonarista, morreram 4.195 (dados oficiais) ou 4.211 (consórcio de imprensa).

Talvez não seja exagero dizer que o Brasil de Bolsonaro é um imenso campo de extermínio.

Sem assistência financeira do governo, brasileiros e brasileiras mais vulneráveis e vulnerabilizados enfrentam a fome diária. Vítimas de desinformação, campanhas de ódio e negacionismo, muitos de nós têm sido experimentados com drogas ineficazes ao combate da pandemia. Quando inaladas, procedimento indicado por alguns médicos, tais drogas podem levar a óbito. Subjugados à lentidão e desinteresse do governo em adquirir vacinas e aplicar medidas de contenção de contágio, nossa população inteira fica desasistida. Doentes infectados aguardam um leito que não está disponível e tampouco estará. Profissionaos de saúde exaustos de trabalho, abandono, violencia e lutos se veem obrigados à escolhas tão cruéis quanto decidir quem morre e quem tem o direito de tentar viver. Devido ao colapso do sistema, outros atendimentos e tratamentos de saúde ficam prejudicados. É o caso de pacientes diagnosticados com cancer, por exemplo.

Talvez não seja exagero dizer que hoje, o Brasil de Bolsonaro possa ser comparado a um campo de exterminio nazista.

Em 27 de janeiro de 1945 as tropas soviéticas libertaram cerca de 8 mil prisioneiros de Auschwitz. Em 1o de maio desse ano, após o suicídio de Hitler, Goebbels e sua esposa se suicidaram depois de assassinarem seus pais e filhos. O 8 de maio ficou guardado como o dia da Vitória dos Aliados contra o Eixo.

Sei lá. Uma esperança. Maio tá logo ali.

Não vale o que pula pulga.

1964 Foi golpe.

2013 Onda protofascista captura o movimento Passe Livre banindo bandeiras, partidos, sindicatos e batendo continência pra símbolo de opressão. Seu lema, vestidos de verdeamarelo: minha bandeira jamais será vermelha. 🤦🏽‍♀️

2016 Foi golpe. Foi também a misoginia e o machismo sem pudores.

2018 Desdobramento do golpe. Pela urna. Urna. Susbstantivo feminino. (1) receptáculo para recolher votos, etc. (2) recipiente com tampa onde se depositam as cinzas dos mortos. 🤷🏻‍♀️ Agora já são 333 mil mortos. 🤷🏻‍♀️

2021 Auto-golpe em articulação. “Quem poderia imaginar?” 🧐

É fácil (e justo) responsabilizar uma imprensa manipuladora, politicos, setores rentistas pouco escrupulosos, e por aí vai. Mas cada ser humano é dotado da fascinante capacidade de pensar, questionar, refletir, dialogar, projetar futuros, avaliar riscos.

Foi uma escolha. Sempre é uma escolha.

Bolsonaro é um. É insignificante. É inexpressivo. 99,2M é muita gente. 99,2M foram os que deram poder a quem não tem. O poder é seu. Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Aprendi nos quadrinhos. Use seu poder com responsabilidade.

Não tem perdão

Nunca tinha ouvido falar. Ricardo Kertzman. Aprendi que existe porque alguém compartilhou pelas redes sociais uma opinião do sujeito pra Isto É.

Ricardo Kertzman é um imbecil.

Imbecil: aquele que denota inteligência curta ou pouco juízo; idiota; tolo.

Digo isso não apenas porque sua opinião para a Isto É é imbecil, mas porque o imbecil escreve o texto para pedir perdão pelo seu voto em Bolsonaro. Alega, essencialmente, que foi uma aposta equivocada, mas justificada pela “ojeriza ao lulopetismo”.

Exato. Ele cometeu um erro, mas como ele poderia imaginar? E, convenhamos, foi levado a isso. A culpa, é claro, é do outro, é do PT.

Sim, minha gente. O imbecil Ricardo Kertzman se viu obrigado a votar no genocida pela “ojeriza ao lulopetismo”, logo a culpa é do PT e sua, meu caro, que ele considera ser um lulopetista – seja lá o que isso for.

Agora já temos duas informações sobre Ricardo Kertzman. Ele é imbecil e sem vergonha.

Mas ele também é covarde e inconsequente.

Veja, ele deixa transparecer que Bolsonaro era questionável. Não. Afirma que era inaceitável, posto que declara ter votado de olhos fechados. Amigos, ele fechou os olhos e jogou nosso futuro, que é o presente, ao azar.

Mas nem de olhos fechados lhe foi possível apertar 17. Não. Ele sabia o tamanho da merda que estava fazendo, então, qual a solução dele?

Ele fechou os olhos e orientou a filha de 12 anos que apertasse 1 e 7.

Imbecil. Sem vergonha. Covarde. Inconsequente. Eleitor de genocida.

Eu acho essa imagem particularmente marcante: fechou os olhos e orientou a filha a apertar 17.

Lembram-se em 2018 daqueles homens e mulheres de bem? Diziam ser pela familia, pela vida, por deus. Lembram como eles ensinavam seus filhos a fazer arma com os dedos das mãos?

Pois é.

Fechou os olhos e orientou apertar 17.

Crime.

Orientou a filha a cometer o crime que ele mesmo não teve coragem de executar com as próprias mãos. Fez da filha seu capanga. Elegeu, pela filha, um genocida. Ele sabia.

Imbecil. Sem vergonha. Covarde. inconsequente. Eleitor de genocida.

Agora pede perdão. Alega a “ojeriza ao lulopetismo” como atenuante de seu crime.

Não atenua. Não justifica. Não tem perdão.

Ojeriza: sentimento de má vontade, aversão, antipatia gerada pela intuição, por uma percepção, um ressentimento.

Lulopetismo: neologismo que designa o petismo exacerbado com culto à personalidade de Luiz Inácio Lula da Silva. (dicionario informal online)

Não sei se há de fato um lulopetismo, ou, havendo, se ele se compara ao bolsonarismo. Mas eu afirmo — afirmo — nunca ninguém viu ou ouviu de Lula, do PT ou de seus simpatizantes ou partidários incitação à morte, ao cerceamento de liberdades, ao desprezo à dignidade, à difusão da mentira.

Bolsonaro, ao contrário, sempre idolatrou e fez apologia a toda forma de violência mais vil e covarde.

Se era para ter ojeriza a algo, era para ser dirigida ao alvo certo: Bolsonaro

Antipatizar, discordar, rejeitar o PT ou Lula ou o tal do lulopetismo não justifica eleger uma personalidade que idolatra a violência e a morte.

Ricardo Kertzman sabia disso. Fechou os olhos e orientou a filha a apertar 17.

Cada paspalho que anulou, votou branco ou fechou os olhos e apertou 17 também sabia. Todos eleitores de genocida. Todos igualmente imbecis, sem vergonha, covardes e inconsequentes.

Agora perguntam: como chegamos aqui?

Chegamos aqui por sua culpa. Sua culpa. E nós avisamos.

Mas vocês disseram que se ele fizesse merda vocês o tirariam do poder — como acreditam ter feito com Dilma. Imbecis. Inteligência curta.

Se ele fizer merda a gente tira, vocês garantiram. Então, vão lá e tirem. Vão lá. Tirem.

Não fiquem aí pelas redes sociais questionando o que dizem ser “nossa apatia”.

Nós avisamos. Vocês fecharam os olhos. Anularam. Votaram branco. Apertaram 17.

“Ojeriza ao lulopetismo” é sua desculpa maltrapilha.

Não tem perdão pra vocês.

Vocês fecharam os olhos. Agora, o melhor que podemos fazer por vocês, e por nós mesmos, é garantir que abram de fato esses olhos fechados. Abram e vejam bem o que fizeram. Abram seus olhos e vejam bem o que fizeram.

Abram seus olhos. Olhem suas mãos. Vejam.

Sim, elas estão sujas de sangue. Elas estão carregadas das mortes desnecessárias. Rígidas da dor de tantas familias dilaceradas. Suas mãos. Suas digitais.

Não tem perdão. Nada justifica. Menos ainda essa “ojeriza ao lulopetismo”.

Carreguem o peso do crime que ajudaram a cometer e se corrijam. Se corrijam. Evoluam. Virem gente. Desenvolvam inteligência. Construam humanidade.

Esse papelão do Ricardo Kertzman, de confessar que fechou os olhos e orientou a filha a apertar 17 por causa de um tal “lulopetismo” e sua “ojeriza” a ele năo nos é surpresa.

Assim como avisamos que sua covardia era criminosa e imploramos: vote pela vida, tudo menos Bolsonaro; nós também sabiamos que cedo ou tarde vocês viriam a público pedir um perdão enviesado alegando imprevisibilidade, erro de cálculo e se vitimando, porque seu erro foi culpa do PT e do tal lulopetismo.

Lia Luft foi uma das primeiras paspalhas a mandar esse caô. Lembro bem. Até escrevi sobre isso. Ela se enterrou nessa desculpa logo com as primeiras covas, em 2020.

Ricardo Kertzman, Lia Luft e tantos outros, vocês sabiam. Se sua inteligência era curta ou estava encurtada de ressentimento nós trabalhamos muito para te ajudar a não cometer o crime que estavam dispostos a cometer. Mas vocês nos ignoraram.

Não tem perdão.

Ricardo Kertzman, se quase puxa a responsabilidade para si, de covarde que é recua e sustenta a malandragem de dividir o peso com todos.

Repete a frase da carta de Robert Lewis: o que fizemos?

Não. O que você fez. Não seja ridículo. Você. O que você fez. Você e gente como você.

Todos os que apertaram 17, olhos fechados ou não. Todos os que votaram branco. Todos os que anularam.

Você. O que você fez.

No texto, o autor chega a questionar se Bolsonaro é gente. Moço, se você se considera gente  Bolsonaro é gente.

O texto é recheado de baboseiras e desconexões com a realidade. Em dado momento, ele alerta que o Resident Evil ocupando o Alvorada — por causa dele, Ricardo Kertzman, e de gente como ele — tentará golpear a democracia. Caro covarde e imbecil Ricardo Kertzman, ele não tentará. Ele já golpeou a democracia. E você sabe. Você sempre soube. Se não sabia, avisamos.

Qualquer pessoa não criada em uma caverna nos confins da Sibéria sabia exatamente o tipo de inferno que significava abrir as portas para os Bolsonaro e suas milícias. Então, não. Não tem perdão. E nós avisamos. Imploramos.

O covarde eleitor de Bolsonaro, por voto ou omissão, pode enfiar o pedido de perdão bem onde Dudu Bozo acredita que as máscaras devam ser usadas.

Reafirmando seu compromisso com a imbecilidade Ricardo Kertzman propôe uma comparação incomparável entre seu ato delinquente de apertar 17 e o co-piloto do Enola Gay.

Caro eleitor genocida (quem vota em genocida ou deixa genocida se eleger é genocida). Caro eleitor genocida, ao que consta, o dito co-piloto não sabia exatamente o que carregava até ver o resultado de seu lançamento. Você, eleitor de genocida, sabia. Tinha idade para votar? Não passou a vida inteira preso um um bunker debaixo da terra? Então, eleitor de genocida, você sabia a merda que estava fazendo. Você era o agente na missão de guerra que sabia da arma letal que transportava e ainda assim a despejou. Se tem um Robert Lewis aqui nessa história é sua filha, a quem, de olhos fechados, você orientou que apertasse 1 e 7.

Que miserável ser abjeto é você. Não. Não tem perdão. Não tem perdão.

Usar como desculpa sua “ojeriza do lulopetismo” é vergonhoso.

Todos os covardes que fecharam os olhos, o fizeram porque sabiam sim quem era o maldito desgraçado que estavam a ponto de eleger. Sabiam sim que, por maiores críticas ao PT ao Lula ou ao tal lulopetismo, nunca nada se comparou às baixezas dos bolsonaros e suas milícias, já conhecidas e escancaradas durante a campanha eleitoral. Se não sabiam, não faltou quem se oferecesse para iluminar-lhes o óbvio. Bando de ignorante covarde, fecharam os olhos.

Vocês, nesse oco que existe dentro dos seus crânios, fizeram uma conta. Tenho certeza. Consideraram seus privilegios e pensaram, quando der ruim, não vai respingar em mim. “Quando”, porque era certo que daria ruim. Mas vocês erraram a conta.

Provavelmente imaginaram: quando der ruim, morrerão os outros, os que já morrem mesmo, os que não me importam, os que estão distantes — pela pobreza, pela miséria, pela raça, pela geografia, pela desigualdade desumanizadora. Mas aqui, em mim, nos meus, você pensou, a morte trágica não chega. Tenho certeza. Foi assim que você pensou. É assim que você sempre pensou. Pensa. Ainda que não admita nem pra você mesmo.

Mas, sim, você fez a conta, e calculou muito mal. Tem coisas que furam até mesmo a barreira dos privilelégios. Elas podem ser pequenas. Mesmo invisíveis a olho nu. Sabe o que não é invisível a olho nu? Sua mediocridade. Sua imbecilidade. Sua  covardia. Sua sem vergonhice. Sua inconsequencia.

Não. Não tem perdão.

Eu te desejo saúde e vida longa. Desejo memória também.

Que todo dia, até o seu fim distante você se lembre do sangue que optou por derramar ao eleger um genocida. Olhos abertos ou fechados.

Não diga que você não podia imaginar. Nunca mais repita essa mentira estúpida. E melhore. Aprenda. Viva com a sua responsabilidade pelo mal que causou e segue causando e aprenda com essa dor.

Aprenda a pensar. Pensar nos outros, além de você mesmo. Pensar no coletivo.

Aprenda. E se não puder. Aprenda a escutar. Aprenda a escutar. Aprenda a ter humildade e escutar.

Aprenda a prezar a vida. Sempre. Prezar a vida acima de tudo. A vida acima da pátria. A vida até acima de deus, pra quem acredita. Porque se houver um deus, ele certamente haverá de ser pela vida.

Aprenda. E não. Não tem perdão.

https://istoe.com.br/deus-o-que-fizemos-que-erro-terrivel-cometi-com-bolsonaro-perdao/

Amoedo está chateado

Unanimidade no voto do partido NOVO contra a manutenção da prisão de Silveira. Não é a primeira vez que o NOVO se alinha ao mais baixo na política e na moral. É comum que argumentem e julguem em total descolamento com o contexto. Das bandeiras “inofensivas” compartilhadas com a extrema direita ultra liberal no poder consta: administração eficiente do estado. É uma versão da bandeira anticorrupção que nos trouxe aqui.

Interessante que os Novistas sapatênis aqui do meio fio já encontraram a desculpa para absolver seu partido: O Amoedo está chateado. Dizem que o voto contra a manutenção da prisão de Silveira não representa o bochecha rosa e nem o partido. Insistem que tem muito fascistoide disfarçado de liberal dentro do partido.

Fiquei confusa. Não é o NOVO, super “eficiente e racional” na administração, aquele partido-empresa, que faz processo seletivo pra adesão de membros? Tal processo, segundo Amoedo, é justamente para garantir que somente os que tem mérito técnico e moral, possam representar a legenda. É isso não? Tem também a taxa, né? A pessoa tem que ser aprovada no processo seletivo e pagar uma taxa de adesão ao clube dos seletos. Então, eles garantiriam a superioridade ética, moral e técnica de seus afiliados.

Ainda assim, o Amoedo está chateado porque, mais uma vez, os representantes pelo NOVO se alinharam com o pior.

Ou o processo seletivo deles é uma bosta, logo não se pode confiar na capacidade técnica que alegam, ou o CEO do partido, Amoedo Bochecha Rosa, não está nada surpreso.

Política não é administração de empresa.

Sob a sombra do abandono

Essa é uma reflexão importante. Procede priorizar a vacinação de profissionais de saúde que atendem remotamente em detrimento de outros grupos, efetivamente de risco?

Essa questão ganha mais relevância no contexto de escassez de vacinas que o Brasil enfrenta. Resultado do pobre planejamento das autoridades e estrategistas do governo.

Para piorar o cenário, a falta de um calendário nacional de prioridades, deixa que cada município se organize conforme suas próprias lógicas. Isso dificulta ainda mais o mapeamento de quais grupos foram vacinados e a definição de políticas públicas efetivas no controle e solução dos prejuízos causados pela pandemia.

No micro, a tragédia “espalha ramas pelo chão”. Abandonados aos próprios julgamentos, invariavelmente encobertos pela densidade da sombra que os interesses particulares ganham, indivíduos tentam se proteger cavando oportunidades dentro do caos. Profissionais de saúde, nem sempre em atuação e menos na linha de frente tem viajado para outros municípios atrás da desejada dose de vacina. Da perspectiva do indivíduo procede. É questionável, mas procede.

Cadê o Estado para orientar adequadamente os municípios, as populações, as classes profissionais e os indivíduos? Cadê o planejamento?

Há quem declare surpresa pela persistência dos prejuízos causados pela pandemia nas nossas vidas e no funcionamento da sociedade. Que surpresa é essa? Especialmente para nós, brasileiros. Pessoas, elegemos um governo que mata. E ele avisou que mataria.

Impressiona que alguém, livre de ser seguidor da seita b-nazi, carregue alguma fantasia de que o governo trabalha por soluções que visem o interesse coletivo e a vida. De onde nasce nessas pessoas a surpresa de que estamos mergulhando em queda livre infinita pelo menos desde novembro de 2018?

Olhar estrangeiro

Cadela Rosada
                       [Rio de Janeiro]

Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pelo, pele tão avermelhada…
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela 
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando boias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério: o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a Quarta-Feira, é carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos…
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror…
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô…!
 
Elisabeth Bishop

Cresci com o olhar daqui e o olhar do estrangeiro. O olhar da minha mãe me ensinou o estranhamento. Lendo esse poema lembrei desse olhar do qual me alimentei.

Além da moldura. Fora do roteiro.

Esse artigo apareceu para mim nas redes sociais, provavelmente resgatado em resposta à morte de Quino, em 30 de setembro de 2020, aos 88 anos. Acho importante deixar registrado aqui pra mim.

Uma amiga, pela mesma rede social, me resgatou uma das últimas fotos com meus avós juntos. Vinha como lembrança sugerida. Já tem 8 anos.

Na foto, meus avós estão retratados na cozinha da casa onde fui mais feliz e amada. Estão iluminados pela luz indireta e difusa que passava pela janela. Dessa janela se podia ver quem ia e vinha. Por ela o cheiro que saia das panelas invadia a rua e convidava vizinhos pra uma visita. Sempre tinha visita.

Minha avó, sorrido como de costume, está de pé ao lado de meu avô. Meu avô, já perto de seus últimos dias, tem a aparência surpreendentemente frágil. Seus braços envolvem minha avó. Ele não sorri para a câmera. Olha para a amada companheira de vida. Com uma das mãos parece querer trazer o olhar dela para ele, conduzindo o rostinho pequeno com um leve toque no queixo. Lembro que ele costumava dizer: sua avó é a mulher mais linda da minha cidade, sabia que casaria com ela. Ele se foi em fevereiro de 2012. Ela não queria mais ficar.

Esse artigo de Eliane Brum para El País me tocou. Talvez porque já estou na segunda metade da minha vida. Talvez porque esteja convivendo com uma pandemia que ainda não está controlada e que já levou mais de 1 milhão de vidas em todo o mundo. Talvez porque meus pais já sejam grandes. Talvez porque estou tratando desse assunto do tempo, da vida e da morte no consultório remoto. Talvez por tudo isso e muito mais que eu ainda nem sei.

Lembrei que desde criança tinha fascínio por cemitério. Não era morbidez, era curiosidade. Achava que bem menos do que 7 palmos separavam os vivos e os mortos. Perdi um irmão quando ainda era criança. Acho que ali eu entendi que a distância entre a vida e a morte era menor que um grão de areia. Ali eu aprendi que junto com o morto a gente enterrava uma porção importante de quem a gente era. Que aquele buraco na terra era bem menor que o pedaço arrancado. Mas percebi que esse pedaço que era morte também chamava vida.

Essa vida era a parte essencial da minha curiosidade com cemitérios. Costumava pensar na infinidade de mundos enterrados, de histórias interrompidas, mas também de histórias realizadas e o que delas ficava. Talvez por isso, quando adolescente, pensava estudar arte e história. Queria pesquisar esses mundos que já não eram mais e buscar o fio que os ligava ao mundo que ainda era. Pensava em trabalhar com teatro, talvez cinema e televisão, ajudando a reconstruir memória, mas também a resgatar sonho com cenários e figurinos. Não deu. Me fiz psicóloga e fotógrafa, e até tentei ser documentarista. Mas isso é outra história, que também é vida e ao mesmo tempo é morte.

Lugar de escuta

* escrito em agosto de 2020

Encorajada pelo artigo “Lugar de Cale-se”, escrito por Maria Rita Kehl, me proponho a um exercício sobre um uso muito específico do conceito “lugar de fala” observado em alguns debates. No caso, é o “lugar de fala” usado como mordaça ao divergente. Sei que corro riscos de errar ao expor meu pensamento. O objetivo é trilhar uma breve reflexão sobre tal uso, jamais desclassificar o instrumento no contexto de lutas e conquistas no campo político e social.

O conceito lugar de fala vem reivindicar o saber da experiência do indivíduo enquanto força e elo na rede das relações sociais e de poder. Djamila Ribeiro o posiciona na dimensão do coletivo. Reconheço e respeito a força do lugar de fala como meio de restituir o protagonismo narrativo daqueles que a estrutura social empurra para as bordas. Nesse sentido, o lugar de fala não apenas redefine a relação centro e periferia, ele também reconfigura a topografia social a partir de múltiplas centralidades. Entretanto, percebo que quando seu uso provoca o silenciamento do outro, ele perde a potência que mobiliza.

Minha inquietação se estabelece na constatação do uso não infrequente do conceito para calar a fala que vem de lugares identificados com algum privilégio, sem que se dedique qualquer tempo na construção de um entendimento. Talvez uma expressão máxima desse comportamento seja o cancelamento e suas consequências. A ironia cruel é que tal atitude leva aquele que sofre o peso da subalternização a reproduzir a dominação de que é vítima. Infelizmente, não para aí, e, provavelmente sem que seja esse o interesse, colabora tanto com o esvaziamento, ou mesmo embotamento, do debate quanto com o enfraquecimento do campo mais progressista.

Das vezes em que testemunhei ou tomei conhecimento desse uso pouco interessante do lugar de fala, a que mais me estarreceu foi a prática de colorismo[1] [2] [3} como forma de esvaziar o próprio lugar de fala. Por empatia, imagino o quão dilacerante seja ter a negritude negada por não corresponder a um padrão estético subjetivo (e colonizador) imposto por terceiros. Imagino o horror de sentir o peso da estrutura que silencia e invisibiliza sendo erguida por aqueles que seriam pares identitários.

Minha hipótese é que esse uso do lugar de fala, distanciado de seu propósito original, tem como fontes a baixa tolerância para a confrontação de ideias, a indisponibilidade à frustração e a negação da provisoriedade das certezas. Nesse sentido, aproximaria ao menos uma parte daqueles que se identificam com o campo progressista com aqueles que se identificam com o campo oposto, do extremo conservadorismo com tendências ao fanatismo. Para ambos a diferença aparece como falha a ser corrigida ou eliminada. Cancelada. Cancela-se a ideia. Cancela-se a pessoa.

Essa hipótese não pretende desqualificar indivíduos, grupos ou ideias, reproduzindo assim a lógica do cancelamento. Ao contrário disso, minha aposta é na possibilidade de restabelecer a preferência pela complexidade das soluções dialogadas em vez da intolerância simplificadora. Acredito que conhecer os mecanismos que fazem aflorar comportamentos autoritários e violentos entre aqueles com quem ainda posso manter algum diálogo, os do campo progressista, permita construir uma estratégia de recuperação do diálogo com os indivíduos do campo oposto.

Sonho com o dia em que seremos capazes de celebrar as diferenças, semeando alianças. Por hora, o que observo é certa tendência ao tensionamento dessas diferenças até o limite da ruptura. A ruptura enfraquece, porque isola as partes de um todo heterogêneo em unidades incompletas, ansiosas pela homogeneidade: as bolhas.

Pode-se argumentar que essa ruptura seria desejável, no sentido de fortalecer o encontro de identidades que se reconhecem na luta, sem o gasto de energia supostamente desnecessário no convencimento daquele que é percebido como estranho a essa identidade e suas lutas. Por outro lado, é falso imaginar que “mulher”, “povo preto”, “homem branco”, “feminista” e outras categorias componham uma unidade homogênea. Sempre haverá a necessidade de acolher o contraditório e negociar a partir dele.

No limite do absurdo, a indisponibilidade para lidar com os desafios do confronto saudável das diferenças – tanto do lugar de cada indivíduo quanto do de grupos – levaria à rupturas atomizadoras. Em bolhas cada vez menores, o caminho tenderia para a particularização, o isolamento, a solidão e a radicalização.

Nesse ponto, a noção de um lugar de fala me faz pensar em um lugar de escuta. A fala demanda a escuta do outro, senão não tem poder, é estéril. Uma fala sem escuta talvez seja apenas o lugar da repetição. Refutando o diálogo nos fechamos à possibilidade de aprendizado e transformação.

Logo, penso não ser possível um lugar de fala sem que haja um lugar de escuta. É necessário que em algum momento a fala se torne escuta e a escuta se torne fala, sempre conscientes do lugar que ocupam. A pena para um movimento de fluxo único é a estagnação de energia em um único ponto. As palavras-chave aqui são estagnação, repetição, aprisionamento. O desafio é restabelecer o dinamismo, romper com a repetição, recuperar a liberdade para a transformação.

Nos habituamos a localizar a repulsa ao contraditório, a adesão ao pensamento pronto e a recusa de transformação pelo diálogo junto aos conservadores da direita radical. Descuidando de nossos próprios medos e certezas salvadoras temos a pretensão de irrigar com questionamentos o pensamento fechado à reflexão, evidentemente materializado no comportamento do outro, nunca no nosso.

Talvez, antes de permear as certezas que imunizam o conservadorismo fanático contra a dúvida, devêssemos nos permitir desafiar nossas próprias certezas com potencial de prisão. Esse é um jeito de abrir a escuta.

Escutar a fala que vem desse lugar que não é meu, e que não pode ser meu, é, ao mesmo tempo, reconhecer e celebrar a dignidade da experiência do outro, e aceitar minha ignorância. A despeito dessa ignorância, uma escuta genuína faz ressoar aquilo que do outro há em mim. Sempre há. E pode não ser agradável. A pergunta que se faz é: o que eu faço com isso? Acredito que impor o silenciamento, em  mim e no outro, seja a pior das opções.

Por quê o bolsonarista age como age?

Muito se questiona sobre a razão que leva bolsonaristas a continuarem apoiando Bolsonaro. Ricardo Rangel publicou uma reflexão sobre isso com o título “O coração tem razões que a própria razão desconhece” (Veja. 30.06.20). Ele conclui que é fácil entender porque Bolsonaro age como age, mas que é difícil entender porque os bolsonaristas continuam o apoiando depois de serem, segundo seu entendimento, traídos de maneira tão acachapante.

Não me é tão fácil entender porque Bolsonaro age como age. Enxergo sua motivação – cuja ética e moral são questionáveis – para desidratar a Lava Jato e garantir o foro privilegiado à Flávio Bolsonaro. Visa proteger o filho implicado em crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, por exemplo. Quanto à traição que retiraria de Bolsonaro o apoio de bolsonaristas, me parece haver um erro de leitura. Bolsonaro não traiu nada e nem ninguém. Para fazê-lo, seria necessário que tivesse assumido algum compromisso com esse algo ou alguém. Jamais o fez.

Veja, Bolsonaro nunca se comprometeu sequer com o que fala e fica registrado. Sua lealdade, se é que há alguma, é restrita aos seus filhos. Seu descompromisso é tal que fugiu aos debates. Privou o país do direito de ouvir suas propostas e dialogar sobre elas. Bombardeou, e segue bombardeando, a população de dentro e de fora do país com mentiras e distorções da realidade, as chamadas fake news. O descuido proposital com o conteúdo e a forma do material apresentado como plano de governo foi mais uma declaração explícita da sua falta de zelo com a nação, com a democracia e com cada cidadão e cada cidadã, inclusive aquele que era o seu eleitor convicto.

Não faltam evidências muito objetivas que caracterizem o desleixo e a falta de compromisso de Bolsonaro com qualquer pensamento, ação, instituição ou pessoa. Não me detenho nisso que é público e notório. Meu objetivo, foi apenas demonstrar que não se pode acusar Bolsonaro de traição.

Se Bolsonaro não traiu, logicamente ninguém foi traído, nem mesmo o núcleo duro de seu eleitorado – vulgarmente tratado por bolsonaristas. Tampouco creio que se sintam traídos. Do mesmo modo que Bolsonaro, seu eleitor não demonstra compromisso com o país e seu povo. Concordando que bolsonaristas não foram “traídos de maneira tão acachapante”, permanece o problema: por que o bolsonarista age como age? Tenho uma hipótese. Para desenvolvê-la é preciso que se defina o que é um bolsonarista.

O que é um bolsonarista: primeira aproximação

Num primeiro momento, pode parecer simples: um bolsonarista é um seguidor de Bolsonaro. No entanto, essa definição parte de um pressuposto falso: o de que para existir a categoria bolsonarista é preciso que exista Bolsonaro. Defendo que bolsonaristas existem antes e para além de Bolsonaro.

Para essa hipótese, é preciso assumir que Bolsonaro é apenas mais um bolsonarista, não merecendo que se lhe atribua qualquer autoria na construção desse modo de existir. Isso seria lhe conferir uma importância que não possui. Enquanto o tipo de bolsonarista que é, Bolsonaro é insignificante.

Se o modo de existir bolsonarista independe de Bolsonaro, por que o adjetivo nasce de seu nome?

Personalidade como função

A personalidade Bolsonaro ganha função na medida em que ativa o que passarei a chamar de bolsonarista existencial. É necessário e estratégico distinguir entre os dois tipos de bolsonarista que identifico: o existencial e o circunstancial.

A categoria bolsonarista existencial corresponde ao grupo de indivíduos sem disposição ao pensamento reflexivo. Os indivíduos da categoria bolsonarista circunstancial são aqueles que, por alguma circunstância específica, estão com a capacidade de pensar temporariamente embotada. O primeiro é caso perdido. O segundo é possível recuperar.

Esse é o trabalho necessário. Identificar, dentro do que comumente se designa por bolsonarista, quem é caso perdido e quem ainda pode ser resgatado. Não pretendo explicar porque a não disposição para o pensamento reflexivo ocorre. A proposta é distinguir entre os tipos existencial e circunstancial com o fim de dirigir o trabalho para aquilo que pode e deve ser feito: recuperar o bolsonarista circunstancial.

Sob a função Bolsonaro, os tipos bolsonarista existencial e circunstancial passam a orbitar o que parece um movimento organizado: o bolsonarismo. No entanto, ainda que se reconheça um bolsonarismo, e que ele possa ser caracterizado como um movimento, a realidade mostra que não é organizado. Ao contrário, sua expressão é caótica, violenta e perturbada.

O bolsonarista existencial

Esse grupo é caracterizado pelo fanatismo e pela ausência de pensamento reflexivo, sendo a faculdade do pensar o elemento-chave. O pensar de modo reflexivo é próprio do humano. Abrir mão desse pensar genuinamente curioso, que reflete sobre si mesmo e sobre o que está fora de si, é o mesmo que abrir mão da própria humanidade. Isso é muito perigoso e pode ter consequências desastrosas, deixando marcas profundas, duradouras e terríveis não apenas para toda a humanidade, mas também para toda forma de vida existente no planeta.

Partindo da pergunta retirada do texto de Ricardo Rangel, é preciso identificar o que motiva o agir do bolsonarista existencial uma vez que o pensamento está ausente. Se não é instada pelo pensamento, sua ação é pura reação dirigida à sobrevivência do organismo. Diante de uma ameaça, seu repertório de respostas irrefletidas se restringe à fuga, luta ou paralisação (fingir de morto). Sem disposição ou competência para o pensamento, toda complexidade é uma ameaça e, portanto, fonte de sofrimento a ser evitada.

Ao repudiar tudo o que lhe é estranho, o bolsonarista existencial substitui o convite ao diálogo pelo esforço de enquadrar o que lhe escapa dentro dos limites de certezas com as quais está familiarizado. O que foge disso é inimigo a ser subjugado e controlado. No limite, deverá ser eliminado.

Para esse perfil, ansioso pela necessidade de controle, não surpreende a recorrência ao passado como tempo idealizado, livre de complexidades, onde cada pessoa sabia exatamente o seu lugar e, por isso, era feliz. Nesse sentido, muito mais do que conservador, um bolsonarista existencial é retrógrado. Saudoso de um passado inventado, trabalha pela supressão de direitos conquistados no longo percurso da construção de uma sociedade menos desigual.

Em síntese, para o bolsonarista existencial não há razão. Há reação. Não há curiosidade e encantamento. Diante do abismo há apenas medo, talvez pavor. Não há transformação possível, há o esforço violento de conservar e controlar aquilo que, em essência, não é possível conservar estagnado nem controlar: a vida. Talvez, por isso, o ódio seja um afeto tão presente. E, talvez precisamente por isso, a bolsonarista existencial constitua risco potencial de aniquilação da própria vida que deseja conservar livre de mudança.

O bolsonarista circunstancial

Nem todo bolsonaristaé um deserto de sal. Ao contrário do primeiro tipo, o bolsonarista circunstancial não abriu mão de sua humanidade. A disposição para o pensar reflexivo existe, porém está temporariamente embotada. Embora haja o espaço para o diálogo, este perfil se acredita carente dos recursos que permitiriam o relacionamento criativo com uma complexidade transbordante.

Essa crença pode promover o sentimento de desamparo que favorece a adesão a um modelo de mundo simplificado, sem nuances, de fronteiras bem marcadas e impermeáveis. Nesse mundo, o pensamento reflexivo é substituído pelo conforto do discurso pronto, ainda que autoritário. Para esse tipo, empobrecido pelas circunstâncias, podemos nos oferecer como um outro que dialoga e ajuda a recuperar o acesso aos recursos próprios de interação criativa e resiliente com a realidade.

Nosso papel é identificar o bolsonarista circunstancial perdido no que parece ser a massa indiferenciada do bolsonarismo vulgar. Então, devemos nos oferecer como facilitadores da recuperação da potencia do pensar nessas pessoas. É possível que, em resposta ao espetáculo tosco das mentiras, descuidos e desprezo por tudo que não sejam seus próprios interesses, Bolsonaro já tenha mobilizado esse grupo a despertar para o equívoco de apostar no ódio como resposta aos desafios de nossa sociedade.

É junto a essas pessoas que devemos nos posicionar. Não importa, agora, saber porque o bolsonarista existencial age como age. Ele mesmo não sabe, e nem demonstra interesse em saber. O importante é identificar esse que, se percebendo desamparado, aderiu ao discurso pronto, violento e autoritário que tem Bolsonaro como porta voz. Identificar e ajudar a recuperar a coragem de pensar desses sujeitos de diálogo circunstancialmente embotados é fundamental para enfraquecer o projeto de poder da ultradireita neste país.

Esse texto foi escrito em junho de 2020.