A ilusão do romantismo

Em uma conversa sobre mobilidade urbana uma referência no cicloativismo avaliou que o debate sobre os cicloentregadores não deveria passar por questões de segurança como uso de capacetes ou comportamento no trânsito. Entendia que a presença “desses garotos, normalmente das periferias” nas ruas era uma forma revolucionária de ocupação das cidades e que querer regular essa ocupação e determinar como devem se movimentar é tampar os ouvidos para o que podemos aprender e devemos mudar para tornar as cidades mais humanas.

Me pareceu irresponsável e romântico ao mesmo tempo. Os tais garotos de periferia não estão na rua de bicicleta porque é uma causa. Estão pedalando a cidade por necessidade de trabalho, porque “ficar parado” não é uma opção. Muitos vivem 15 ou 30 km distantes de onde o trabalho acontece. Dormem na rua. Dependem de sua força física e saúde. Trabalham até 12h por dia. Ganham a metade do que um motoboy, fazendo mais força, talvez correndo mais riscos. Não é por nada que um dos entregadores entrevistados planeje fazer um ‘upgrade’, sair da bicicleta e ir pra moto. “Agora que já tenho as manhas do trabalho, que já conheço as ruas, só me falta um motor.”

A cicloativista confundiu sua causa com a causa dos entregadores, que parece ser sobrevivência na barbárie.

Ao se auto-promover, trocando a bike pela moto, o cicloentregador espera melhores ganhos, e isso é justo, não é a traição de uma causa que sequer jamais foi a dele. Se não seguiu regras de segurança na bike, não seguirá na motorbike. Com ou sem motor, o certo é que vai continuar em uma relação de trabalho desequilibrada, onde não tem qualquer segurança trabalhista ou dignidade. Mais que isso, vai continuar em um ‘ambiente de trabalho’ que tem a característica de ser violento e que aparece como um dos que mais matam pessoas no mundo: o transito brasileiro.

Esse entregador, se eventualmente não puder trabalhar, ficará sem a remuneração. A tendência é que irá se arriscar. Se sofrer acidente que o invalide temporária ou permanentemente, ficará sem amparo. Se morrer, suas famílias tambem ficarão desamparadas. Sequer vão ligar pra minha mulher, é o que comenta outro rapaz.

Abrir mão do debate por segurança e condições menos canalhas de trabalho não vai contribuir com a pauta da mobilidade em bicicleta. Ao contrario do que imagina, a ativista não verá a humanização do trânsito pela simples presença nas ruas desse exército de precarizados que sonha mesmo é em ter um motor.

Regras são importantes sim. Fiscalizar para que sejam cumpridas também. Exigir condições de trabalho mais dignas é uma questão de humanidade, tanto quanto lutar por um trânsito de mais paz e orientado para a vida.

Além disso, essas empresas de aplicativo devem abrir seus dados, ser mais transparentes. Não é possível que na era da informação, justamente as empresas que trabalham com aplicativos se deem ao luxo de negar acesso ao que é interesse de todos e pode contribuir para um debate aprofundado que resulte em soluções capazes de restabelecer a dignidade das pessoas e melhorar a vida de todos.

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Já que o Maio é Amarelo e o sentido é a vida

Avenida Afonso Arinos (ao lado do Atlântico Sul).

Esse desenho em vermelho é o traçado atual da via. Todo o resto era área verde, hoje derrubada para dar lugar ao novo traçado de via.

Entre a praia e a Avenida das Américas não há nenhum sinal de trânsito, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. A via de velocidades elevadas é testemunha de frequentes acidentes de trânsito provocados pelo excesso de velocidade. Pedestres se arriscam em calçadas exíguas, esburacadas e travessias inexistentes. Ciclistas se arriscam em um trânsito hostil.

Mas a prefeitura está prestes a entregar uma obra de redesenho dessa via. Acompanhe a seguir o projeto.

A via destacada em amarelo era uma via “morta”. Protegida por uma cancela, a rua era quase particular, servindo de acesso ao edifício branco da esquina. Além desse uso, funcionava como estacionamento a céu aberto, depósito de veículos abandonados e fluxo de pessoas a pé ou de bicicleta.

Com a derrubada das árvores no terreno imediatamente à frente, a via “morta” ganha uma continuidade que dará acesso de carros, em uma linha praticamente reta, ao canal de Marapendi.

Esse acesso será uma via de mão dupla.

Não há indicios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade. Se o pedestre não está contemplado no novo desenho, nem vou me dar ao trabalho de falar de patinetes e bicicletas.

Essa em azul é a nova via, antes inexistente, que levará carros do canal de Marapendi para a Ponte Lucio Costa.

Mais uma vez, não há indicios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade.

Por fim, a parte mais bonita.

Em roxinho, que é como fica a pele das pessoas depois de uma pancada, um imenso retão culminando em uma curva pouco suave, com outro imenso retão à frente.

Não há indicios de semáforo, faixa de pedestre ou redutor de velocidade.

Campanhas de conscientização no trânsito são maravilhosas, demonstram resultado e, portanto, são necessárias.

No entanto, amigos e amigas, diante de uma via larga, reta, lisa, sem obstáculos, qual o comportamento que se pode esperar de uma pessoa conduzindo um veículo? Se você respondeu velocidade alta, você acertou.

Velocidades altas e embriaguez são as principais causas de acidentes com morte no trânsito. Então, porque, em uma área urbana, próxima à áreas de lazer e no caminho de um fluxo importante de pedestres (na verdade, o único acessível para pedestres e ciclistas nesse trecho), foi autorizada uma obra dessas, impondo, mais uma vez, um desenho 100% orientado para o transporte individual motorizado?

Cabe destacar que:

1. A obra tem previsão de entrega para esse mesmo maio, o Maio Amarelo.

2. O projeto apresentado pelo engenheiro responsável da obra não previa o acesso de mão dupla entre a praia e o canal, apenas o retão estava no desenho.

3. De acordo com esse projeto, haveria ciclovia, no entanto, ela não existe na obra que está prestes a ser entregue.

4. No projeto apresentado, haveria um trabalho de calçamento da rua que vai da ponte para a praia, em destaque abaixo. Esse trecho não recebeu qualquer beneficiamento.

5. De acordo com o engenheiro responsável pela obra, o restinho de área arborizada, receberia um tratamento paisagístico, transformando a área em parque e recuperando vegetação local. Ainda querendo acreditar.

6. Parte da área que hoje está indevidamente ocupada pelo condomínio Atlântico Sul seria recuperada para o uso público, em uma medida heroica do prefeito Marcelo Crivella. Tô rindo até agora.

7. Todo o trecho entre a praia e a Avenida das Américas tem 1,1km. Esse percurso é precário de calçadas, é recheado de ameaças aos pedestres e ciclistas, contém muitos cruzamentos e acessos para carros vindo de diferentes vias, e não apresenta nenhum sinal de trânsito, faixa de pedestre ou redutor de velocidade.

Conclusão

Uma cidade que ainda se permite tomar área verde para ampliar número de pistas para carros, sem pensar em mobilidade ativa; uma cidade que ainda privatiza espaços (há muitas formas de privatizar) sem pensar no publico; uma cidade que investe em velocidade e abre mão da segurança; essa é uma cidade atrasada, essa é uma cidade destinada a continuar matando no trânsito.

Mas, lembre-se, o sentido é a vida.

Abaixo, uma matéria de 2018 com orientações da OMS para um trânsito orientado à vida.

https://g1.globo.com/carros/noticia/2018/12/07/oms-divulga-relatorio-sobre-mortes-no-transito-e-sugere-reducao-de-velocidade-em-areas-urbanas.ghtml

Passou da hora de construir outra história

Tem duas coisas que o neoliberalismo faz super bem. De um lado, provoca o esfacelamento das políticas públicas e dos sistemas de proteção social. De outro, concentra riqueza. O saldo é o desamparo e a humilhação do maior número de pessoas que, não sendo útil ao sistema econômico monopolista dos bancos e instituições financeiras, é apenas deixado para trás.

Sobrevivemos à duradoura política de não investimento em tecnologia e industrialização. Sobrevivemos à dependência proposital do mercado de importações, comprando caro os bens beneficiados e vendendo barato os insumos brutos. Sobrevivemos aos anos 90 de franco desmonte de qualquer vestígio de força e independencia nacional.

Durante mais de uma década, durante os anos 2000, respondemos ao ataque neolibral com anos de crescimento econômico, melhor distribuição de renda, democratização de bens simbólicos e fortalecimento da autoestima do povo brasileiro.

Os epoliadores não suportaram e voltaram ao centro do poder, sem que nunca tenham de fato se afastado muito. Sequer por um instante que fosse perderam seus privilégios de saquear impunemente. Apenas se viram obrigados a uma ação mais controlada, talvez elaborada. Penalizados por ter que dividir o bolo de forma um pouco menos desigual, iniciaram uma sucessão de golpes que ainda sustentam, como se os contorcionismos legalistas e as narrativas canalhas empurradas pelos grandes monopólios de comunicação sobre nós lhes conferisse alguma legitimidade.

Passou da hora de construir um projeto nacional do povo e para o povo que faça frente a essa histórica dominação de uma elite imoral, que não mede consequências para satisfazer seu desejo infinito de acumulação e privilégio.

O panaca eleito pra tocar essa caravela das elites não se sustenta. Todo dia é uma prova disso. A mais recente foi a ‘desistência’ de atender à cerimonia de homenagem à personalidade do ano da camara do comércio. Tão miserável que é, inviabilizado de pisar em Nova Iorque, e na certeza de que se lá pisasse seria recebido com o achincalhe que merece, lhe restou o acolhimento na velha e também miserável programação de domingo da “família patriótica cristã tradicional” veiculada pelo SBT.

Na minha cabeça, ouço o bordão musicado “o Bolsonaro é coisa nossa!”, quando então um representante do pastelão solta uma piadinha machista ou racista ou homofobica, ou todas elas juntas.

É o presidente dos mais baixos redutos e dos mais baixos princípios e valores. Não se sustenta. Rua com ele, porque o trabalho dele é terminar e selar de vez o desmonte que FFHH não foi capaz de coroar por completo.

Uma horta de bairro ou Nas cidades tem gente

No abalo das tristezas se amontoando de lixo e lama que a chuva fez correr como quisesse despertar nas gentes uma reflexão mais séria, uma ação mais comprometida, uma consciência mais viva sobre as escolhas políticas e prioridades no contexto da cidade e da nossa existência no mundo, acabei deixando de lado um breve encontro que gostaria de compartilhar.

Domingo fui papear com uma amiga lá na horta do bairro. Entre um assunto e outro, fomos regando as mudinhas de hortaliças, temperos e árvores frutíferas que os vizinhos e amigos começaram a semear. Antes mesmo das sementes da terra produzirem frutos e frutas e raízes e folhas, outras sementes já começaram a brotar. Sementes de ideias vindas de diferentes lugares. Ideias que já seguem livre o seu caminho de fazer voar outras ideias que vão chegando longe.

Mas não foi só semente da terra, não foi só ideia, foram vínculos com o lugar e com as pessoas. Duradouros ou efêmeros, cada vínculo traz a possibilidade do olhar, do sorriso e de histórias que podem ensinar.

📸 Cris Portella

Vejo a amiga voltar com a água. Junto dela, um rapaz ajudava a carregar um galão cheio. Jorge Luiz vem sorrindo. Enquanto fazíamos a rega, ele passou a mão sobre uma das folhas, dizendo do contentamento que sente quando vê o verde brotar. “É como se elas estivessem agradecendo pelo carinho da gente.”

Contou que começou a gostar de planta quando ajudava a avó a cuidar do quintal de casa. Lembranças boas de infância. Suas plantas preferidas são a planta da felicidade e a bougainvillea. “Uma parece renda, a outra é cheia de cor”.

Falou que agora está morando na rua e que há muito tempo não passava ali. Voltou recentemente e se encheu de alegria porque ali “onde o mal se enraizava, agora está nascendo o bem”.

Sobre o mal, nos contou dos “playboy” que ocupavam aquele “lugar abandonado antes da horta”. Fez questão de explicar o que queria dizer com playboy, “porque a pessoa não tem culpa de nascer rica, mas ela é responsável pelo que escolhe fazer disso. O playboy é aquele que acha que é melhor, que passa arrogante, que acredita que pode mais e pode tudo, que pensa você não é nada, que nem olha no olho, que bota fogo em morador de rua”.

Passamos parte da manhã ali, conversando e compartilhando nosso cuidado com o espaço que é público e nosso gosto comum pelo verde.

Esse encontro me fez pensar sobre a potência de ações singelas capazes de dar vida a espaços que são tão nossos e que tão fácil a gente esquece.

No seu bairro tambem tem uma praça? Como é a convivencia nesse espaço? Como pode melhorar?

Mais uma morte no trânsito. Até quando?

Toda ação é importante. Mas, o desequilíbrio das forças é absurdo. Embora o poder esteja sim em nossos corpos e na presença mobilizada e coletiva deles nas ruas, parece que nem sempre lembramos disso.

Como mulher, pedestre, ciclista e militante por cidades mais inclusivas, me questiono sobre a honestidade da mensagem quando experimento a inviabilidade planejada, progressiva e expoente do meu corpo desarmado na cidade. Desarmado sim. Ir a pé, ir de bicicleta, é ir sem armadura e sem arma. Os governantes dessa cidade investem em políticas públicas que fazem dela uma cidade que mata pelas intolerâncias, desprezos, descasos e ódios. Os governantes dessa cidade, desse estado, desse país, nos matam em todo lugar. Em toda esquina. De muitas formas. Por nenhum motivo. Mesmo porque, nenhum motivo justifica qualquer morte.

Existem muitos tipos de ciclistas na cidade. Um deles é o atleta. É linda a conquista de Áreas de Proteção ao Ciclista. Que venham mais. Mas, e quando não se está nela, como faz? E quem não é atleta, e quem apenas quer se deslocar pela cidade de forma saudável, eficiente, divertida, humana e barata, como faz?

Domingo, indo de carro para a zona sul, vi dois ciclistas de passeio, uma moça e um rapaz. Eu saia do túnel. No gramado onde pousam asas delta, em frente à calçada compartilhada desmoronada, interditada e saqueada, os ciclistas pareciam querer acessar o asfalto. Dali só havia um caminho: pegar o asfalto na contramão dos carros para atravessar o túnel no sentido da Barra da Tijuca.

Loucura? Imprudência? Resistência?

Cada um especule o que quiser. Fato é que nosso dinheiro foi roubado e mal empregado em uma obra necessária e importante, mas que foi mal pensada, mal executada e superfaturada.

A mobilidade, a liberdade de ir e vir, é um direito e o Estado tem o dever de ofertar opções diversas, sustentáveis e seguras de deslocamento.

Pense que nem todos podem ou querem ter carro. Pense que os transportes coletivos oferecem um serviço muito precário e caro. Pense que há pessoas que moram em lugares que sequer tem calçada para caminhar, para chegar no ponto de ônibus, BRT ou metrô; que dirá passear. Pense que isso nem é na periferia da cidade. São realidades facilmente observáveis na área ‘nobre’ e central. Um dia, deixe seu carro em casa e ande. Você vai entender.

Enfim. O fato é que nosso dinheiro se foi junto com a calçada compartilhada ligando a zona sul à zona oeste pela orla. Pior que isso. Junto com a perda de dinheiro e da via, perdemos vidas. Pessoas morreram por causa desse crime: mau uso do dinheiro público, aprovação de projeto sem respeito ao patrimônio ambiental, projeto e execução precários.

O trecho que resiste dessa obra segue interditado e vem sendo desmontado pelos furtos do material que servia de guarda-corpo. Parece cenário de cidade que passou por guerra ou evento pós-apocalíptico, mas é só o Rio de Janeiro.

No mesmo domingo, já de noite, voltando para a zona oeste vejo mais um ciclista. Um homem sozinho. Não era atleta. Não era cicloturista. Mais uma vez, era apenas uma pessoa indo do ponto A ao ponto B, sem poluir o ar, os olhos ou os ouvidos de ninguém. O homem seguia pelo elevado do Joá, pequeno, frágil mas ágil pela borda da pista. Motoristas passavam apressados, aparentemente irritados com aquela presença que os obrigava desacelerar.

Onde está o erro?

Não está nos motoristas e menos ainda nos ciclistas. Onde, então?

Muitas devem ser as mortes por atropelamento de ciclistas e pedestres que não fazem manchete. Essa morte fez, chegou aos jornais. Não é a primeira vez que, apesar das áreas de proteção ao ciclista, os atletas morrem atropelados, seja indo para o treino, voltando, ou mesmo durante o treino. Pensando além dos atletas, como fica a segurança dos ciclistas urbanos que fazem seus deslocamentos por meio de bicicleta?

De que adianta abarrotar a cidade com estações de bike compartilhada, patinetes elétricos e o que vier de novidade, sem garantir o básico da proteção à vida: um transito desacelerado, ordenado, bem sinalizado e a certeza da fiscalização e da punição para infratores?

Não pense que as empresas privadas que oferecem os serviços de mobilidade alternativa ao carro vão espontaneamente se associar à causa da mobilidade. A mobilidade sequer é pauta para essas empresas e seus gestores. A mobilidade é um negócio. Se o Estado, sem cuidado, permitiu a exploração do serviço, não será a empresa que irá fazer qualquer movimento para reduzir acidentes ou brigar pela melhoria e segurança das vias.

O poder público, sob a gestão dos governantes que a população tem se dedicado a escolher, pouco ou nada faz pela conservação, melhoria, modernização, educação, fiscalização, punição. Neste passo, o quadro é piorar.

Ao eleitor equivocado canta glória deux pra ver se resolve. Depois me conta, tá?

A mais essa família em luto, me solidarizo.

https://oglobo.globo.com/rio/empresario-morre-atropelado-por-onibus-quando-treinava-de-bicicleta-na-barra-23533396

O espelho assombra

Minha experiência de vó e de vô me ensinou a certeza de que o amor é maior e mais intenso que a própria vida. Vôs e vós me emocionam.

Perdi um irmão quando ele era pequeno. Por empatia, por memória, me solidarizo ao pesar de Lula, como me solidarizaria a qualquer outro. Imagino que a dor desse momento não tem nem nome.

Ficaria no silêncio que fala dentro de mim. Mas foram tantas colocações insensíveis, inumanas, desastrosas, mesquinhas e feias, que precisei fazer o silêncio falar pra fora. Não sei até onde chega. Mas meu silêncio grita assim:

Gostaria de dizer que apesar de você, amanhã será outro dia. Mas agora, só penso que por sua causa os dias tem sido penosos.

Você justificou seu voto injustificável pq era contra a corrupção. Pq era contra bandido de estimação, porque “bandido bom é bandido morto”. Veja você, porém. O filho do seu presidente já leva corrupção inscrita no DNA. O filho do seu presidente deita na cama de miliciano, faz festa, chama de amigo.

Você justificou seu voto injustificável pq estava cansado da ‘velha politica’. Note, entretanto. O seu presidente trabalha em um pacote de maldades, o velho toma lá, dá cá, pra fazer passar a tal Reforma da Previdência.

Você justificou seu voto injustificável pq queria um governo ‘técnico’. Que ironia. Você tem um astrólogo como mentor do seu governo.

Você justificou seu voto injustificável alegando desprezo pelos ‘intelectuais’, sabe lá o que quer dizer com isso. No seu governo, olhe bem, ministros recalcados mentem sobre suas formações acadêmicas. Fosse pouco, os mesmos ministros odeiam aquilo pelo que advogam, não tem qualquer relação com a pasta que lideram, ou, quando tem, se submetem aos achismos de Whatsapp do eleitorado chucro como o próprio presidente que elegeu – um velho mesquinho, franzino, fraco, caprichoso e tirano.

Nada do que você usou pra justificar seu voto injustificável se sustenta. Sua única motivação foi o ódio. O ódio ainda é sua motivação. E você nem sabe o que odeia. Ou sabe e é covarde demais pra dizer. Eu te digo. Você odeia aquilo que vê refletido no espelho. Você não suporta. Então você odeia um outro. Agora você chama esse outro de Lula, de esquerdista, de petista, de intelectual, de analfabeto. Você nem se decide. A única certeza é que você se odeia tanto, e não suporta, que até se autoriza a odiar uma criança de 7 anos, morta.

Você é horrível.

*não soube achar a autoria da foto de Lula com seu neto.

Ser normal

É uma pessoa muito boa. No Natal faz caridade. Leva cesta básica pra uns pobres.

É uma pessoa muito engajada. Distribui cobertores pra morador de rua. Dá até prato de comida. Às vezes, nem é resto.

É uma pessoa muito consciente. Não come carne vermelha, evita plástico, faz até mutirão de limpeza do lixo.

É uma pessoa muito ajustada. Joga o jogo, não faz marola. Mas o jogo mata. Até o cidadão de bem sabe disso. Só que quem morre é o outro. “É ele ou eu. Que seja ele”.

De boa vontade em boa vontade, quando dá, o cidadão de bem se exime de pensar nos privilégios que detém. Livre de pensar, não questiona a engrenagem que mata e mata e mata. Finge, assim, que nem percebe que essas mortes garantem seus pequenos (ou grandes) luxos. Iludido (nem sempre), ignora que também está morrendo em nome desses mesmos privilégios. Uma morte diferente, talvez. Ainda assim, não menos morte.

——

Tateia na cômoda, buscando suas bolinhas. Vasculha a geladeira atrás de doces. Se acaba na noite. Vira todas no carnaval. Ah, o carnaval. Vamos sair de laranjal, fazer marchinha contra o racismo, a homofobia, o Capetão. Somos muito críticos, cultos, amamos cinema, andamos de bicicleta. Já falei que não comemos carne?

——

Por temer e evitar a morte, a sua e a dos seus, o cidadão de bem, que sabe o que tem valor, cria seus filhos na escola cara. Na escola cara tem um programa incrível voltado pro desenvolvimento socioemocional da criança rica, essencial pra formar um cidadão de bem, bem ajustado. Afinal, “ninguém quer ser ponta de lança”. Nossas inovações tem essa característica de inovar pra não sair do lugar. É um primor.

A educação inovadora do século 21 precisa pensar, portanto, muito além dos conteúdos tradicionais – esses que Damares, com seus diplomas falsos, diz que os pais “podem aplicar mais” em casa.

A educação do século 21 precisa educar o ser integral, capaz de reconhecer, nomear e fazer bom uso de suas emoções. Não serve só juntar letras e fazer as operações básicas. Isso é claro.

É claro, se você é cidadão de bem.

E, assim, nomeando suas raivas, tristezas e medos, a criança que recebeu sua educação integral se tornará também um cidadão de bem.

Com sorte, porém, não será assim. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que esse jogo não joga mais. Talvez lhe cresça a coragem de não se ajustar à norma de privilégios aprofundados em misérias de toda sorte a serem exploradas. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que é o capitalismo que mata e mata e mata pra que uns possam ir pra escola cara enquanto outros sequer tem o de comer e o de morar. Talvez lhe cresça a coragem de dizer que o capitalismo não é resposta adequada, sem se esconder em desculpas. Se nem isso e nem aquilo serviu, talvez lhe cresça a coragem de ousar outro caminho ainda não percorrido. Talvez. Talvez, até, seja ouvida. Talvez nem a matem. (Marielle Presente, diz a hashtag adesivada no peito).

Deixo o link com matéria (2016) sobre o livro Despejados (Evicted), de Matthew Desmond. Trata-se de um estudo etnográfico sobre inquilinos de baixa renda em uma cidade desindustrializada de médio porte. O estudo, mais uma vez, e ainda, parte dos sempre mesmos questionamentos óbvios.

“E se o discurso dominante sobre a pobreza estiver errado? E se o problema não for a suposta carência moral das pessoas pobres — que elas são preguiçosas, impulsivas e não tem valores familiares — ou ainda sua falta de habilidade e inteligência necessárias para serem bem adaptados à gloriosa economia do século 21? E se o problema da pobreza é que ela gera lucro?”

Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as mulheres. Como sempre no capitalismo, as principais vítimas são as pessoas não brancas. Como sempre no capitalismo, o privilégio se concentra nas mãos do macho branco da espécie. É a norma. É normal.

Dizia o maluco, “deus me livre de ser normal”.

https://www.theguardian.com/books/2016/apr/07/evicted-poverty-and-profit-in-the-american-city-matthew-desmond-review