Cativeiro e ferocidade são as únicas possibilidades?

Esse texto é um comentário à Coluna  de Joaquim Ferreira dos Santos para O Globo em 18/06/2018.

O título é ruim. “Perigo! Bicicleta!” aponta para uma série de lugares comuns que povoam a fantasia das pessoas. O título infeliz alimenta o antagonismo entre indivíduos ao invés de tratar do problema real e indicar quem pode e deve agir para resolvê-lo.

O problema real: quase um século de investimento em infraestrutura segundo a lógica da velocidade centrada na conveniência do motorizado.

O principal responsável e agente de mudança: poder público local, o qual não direi que é omisso para não ser redundante. Droga! Já foi…

A linha fina denúncia a miopia do autor. Nela lemos que “A bicicleta no Rio é o bicho solto. Para ela não existe limite de velocidade, lugar apropriado de transitar ou essas coisinhas miúdas de obedecer mão e contramão”.

Sua visão comprometida faz com que atribua como exclusividade da bicicleta (vamos ler ciclista) aquilo que é, de fato, observado em carros ou motos ou ônibus (vamos ler motoristas).

Faça o exercício. Substitua a palavra bicicleta, na linha fina, por carro, ou moto, ou ônibus, ou van, use a imaginação. Veja se funciona. Funcionou, né?

Ele acerta, no entanto, quando diz que “A coitada não tem culpa. Caiu numa cidade que já tinha escolhido o carro como objeto de simpatia, principalmente por ser um dos pagadores de suas contas. A bicicleta foi chegando de mansinho num lugar onde não cabia mais nada”. Foi chegando, de mansinho. Invisível e invisibilizada. Chegou, como quem chega a uma festa para a qual não foi convidada. Tão logo é percebida, os leões de chácara são acionados para se livrarem dela, como se não fosse nada.

Imagine que a cidade é um bioma complexo. No nosso caso, esse bioma sofreu, e sofre, uma interferência que gerou desequilíbrio entre cada um dos seus essenciais elementos. Como o organismo é vivo, houve adaptação, mas o preço dessa adaptação foi alto. A referência deixou de ser humana, tornando-se inumana. Ruas vazias de gente e repletas de motos, carros, ônibus, caminhões; poucas árvores, muito asfalto e concreto; poucas passagens e acessos, muitas interdições. As interdições aparecem como muros e grades, superfícies inaderentes e espelhadas, cancelas e barricadas. Não se esqueça das balas perdidas da troca de gentilezas entre traficantes, assaltantes, policiais e milicianos. Elas existem, interditam a vida no espaço público e não podem ser ignoradas. E se você for mulher, as interdições são tantas que as paredes de concreto, as grades pontudas e afiadas e até as armas de fogo, em alguns lugares tão naturalizadas, não parecem ser mesmo é nada.

O passeio e o estar virou passagem e trânsito de carros. Este, cada vez mais veloz, mais agressivo e mais violento, em pouco tempo virou congestionamento. A infraestrutura para motorizados ocupa quase todo o espaço público e, ainda assim, esse privilégio não lhe é suficiente. Por isso, reivindica mais e mais. Reivindica e toma. O preço é alto, já sabemos. Paga-se com a vida. A vida sensível e delicada, rara e ordinária, matéria fina que se esgarça e morre. Morre no trânsito, vítima das altas velocidades, da pouca qualidade de vida e do descaso dos nossos governantes.

Nesse contexto, andar a pé é um ato de resistência. Andar de bicicleta é um ato de resistência. No contexto da violência no trânsito motorizado, da invisibilidade e da opressão à tudo o que não for rápido e veloz, a estratégia para seguir resistindo é a guerrilha.

Eu gosto disso? Não. Nem um pouco. Mas, se o trânsito não é apaziguado, se as infraestruturas não passam de maquiagem ou engodo para alimentar estatísticas superdimensionadas, se o poder público ignora, descuida, abandona, o que fazer? Se submeter a lógica dominante do carro? Ficar em casa deprimido sonhando como é linda a Amsterdã ou Afuá ou Paquetá? Sair kamikaze entre carros que trafegam acima de 70km, ou mais? Se expor à “fina educativa” dos motoristas, que seguem impunes e potentes, certos de sua supremacia e invencibilidade? Afinal, você sabe, a culpa sempre é do pedestre ou do ciclista que não estava no sofá, certo?

Ir para a calçada é a resposta possível de muitos para seguir pedalando, uma vez que estão abandonados à própria sorte.

“Ah, mas a pessoa deve pedalar com prudência, quando na calçada”. Óbvio! Ninguém discorda disso. Diria mais. Deve pedalar com prudência na calçada e fora dela. Pedalar, andar, dirigir, beber, comer, … tudo, né?

A cidade em equilíbrio é espaço de convívio. Não se engane, nunca será uma Xanadu, com a Olivia patinando em cima de uma plataforma, em um cenário alvo e luminoso, cercada de gente jovem e sorridente por todos os lados. Não. Vai ter conflito sim, faz parte, mas eles vão se resolver com negociação e não com imposição de vitória pelo uso da  violência do mais forte sobre o mais fraco.

O texto do autor erra, erra feio e erra rude, ao colocar toda a responsabilidade sobre o indivíduo. É responsabilidade do poder público garantir políticas e investimentos que harmonizem a cidade e a devolvam para as pessoas.

Isso significa acabar com os carros? Não! Significa que todos agora andarão apenas de bicicleta ou a pé? Não!

Significa, apenas, que um modal motorizado será mais um modal entre tantos outros que também tem direito de ocupar as vias. Significa que escolhendo o motorizado, motoristas deverão estar cientes de que estão sujeitos a limitações sim, inclusive de ocupação das vias e de velocidade. Significa que andar de transporte coletivo, que a gente chama de público sem ser, a pé ou de bicicleta, patins, patinete, ou o que for, vai ser uma opção e não um ato de resistência com o qual pode-se pagar com a vida. Significa que as pessoas estarão no centro das decisões políticas e realizações urbanísticas. Significa que as cidades serão humanas.

Mas, mesmo em seus equívocos, a coluna tem seu valor. Vejo muito ganho em ler com atenção a forma caricata com que o autor pinta “o ciclista”. Parece misturar tudo em uma coisa só, como quando a gente viaja pra um país muito diferente do nosso, e tudo parece exatamente igual. Não temos referência. Não sabemos diferenciar.

O que estamos fazendo para não sermos vistos em nossa diversidade e humanidade? Nós, que também  moramos na cidade. Nós, que, entre outros meios, usamos a bicicleta, algo que poderia ser adotado por muitas outras pessoas, mas não é percebido como tal. Iria além. Antes de perguntar se o outro nos percebe em nossa diversidade, a nós, os ciclistas, os que adotaram a bicicleta como meio de locomoção na cidade, devolveria a pergunta para dentro: será que nós mesmos somos realmente capazes de nos perceber na nossa diversidade, ou apenas reconhecemos a imagem do espelho e pintamos caricaturas do que não reflete o que esperamos ver?

Para quem dirigimos o nosso discurso, e qual a qualidade do que é dito? Será que estamos nos comunicando? Se sim, essa comunicação fura a nossa bolha, ou reverbera apenas dentro dela? Lembrando que a bolha, de fato, são bolhas, todas elas são afetadas?

Eu não descarto que tem muito da cultura do motorizado impregnada na percepção e capacidade de interpretação do autor do texto sobre o papel da bicicleta como transporte na cidade. Mas tem muito de nossa in(habilidade) de comunicação aí. Você não acha?

Entre outras coisas, o que temos feito para alimentar esse olhar caricato e reducionista sobre nós, ciclistas ativistas? Isso é responsabilidade nossa. Olhar para os eventos de junho no Rio de Janeiro pode dar uma pista. Olhar para a forma com que o ativismo se percebe e organiza também pode dar uma boa pista. Pensar como essas duas coisas juntas fizeram o nosso junho da bicicleta acontecer como aconteceu também pode ser um bom exercício. Sei que serei antipática por trazer isso, mas acho necessário. Teve alegria e sucesso, purpurina e superação de adversidade? Teve. Mas, também tem muito material para autorreflexão. Sempre é possível melhorar.

Voltando ao autor, a confusão dele em imputar ao ciclista a responsabilidade por um caos e uma truculência que são típicos da cultura que privilegia o motorizado, não é culpa dele. Ele é mais uma vítima, arrisco dizer. A cultura do motorizado deixa muitas vítimas, de tipos diferentes. Algumas vítimas ficarão esmagadas em poças de sangue no asfalto quente. Quantos já perdemos assim? Outras vítimas serão estas, que como o autor da coluna, repetem felizes que desejam a prisão, acreditando piamente que, de fato, estão defendendo a liberdade e a ordem, porque, você sbe, sem ordem não há progresso.

Enfim. Se você soltar um animal silvestre, que passou gerações em cativeiro, de volta na natureza, ele vai morrer. A alternativa é se tornar feral. Cativeiro ou ferocidade são os únicos caminhos verdadeiramente possíveis quando o assunto é reintegrar a bicicleta como transporte no contexto da cidade?

Nem uma coisa (cativeiro) nem outra (ferocidade ou morte) para a bicicleta, certo?

Nos soltaram entre hienas famintas, sem nenhum tipo de amparo. Para não sermos predados, predamos. O “novo” modal, que não é novo, sabemos, pode estar até estar sendo incorporado à rotina urbana, mas a lógica da violência, diante do abandono do poder público e da escassez de infraestrutura e medidas educativas, nos coloca reproduzindo o mesmo comportamento equivocado da supremacia da velocidade sobre a vida. É salve-se quem puder. A responsabilidade por um novo comportamento, mais humano, pode até ser minha e sua, mas antes e primeiramente, é do poder público, é dos gestores e políticos dessa cidade que tem o dever de criar as condições necessarias para o convívio em detrimento do combate.

O texto deveria acabar aqui, mas veja, não posso deixar de pontuar a incorporação da bicicleta na rotina da cidade e a reprodução da lógica da violência com o apoio do poder público, sem falar das laranjinhas do Itaú. É claro que bicicletas compartilhadas são bem-vindas e estratégicas para que mais e mais pessoas adotem a bicicleta em trajetos curtos ou combinando com outros meios de transporte. Mas, quando as estações de bicicletas compartilhadas são instaladas sobre as calçadas, preferindo-se subtrair o espaço do pedestre à rever o espaço dos automóveis, está se gerando um conflito entre ciclista e pedestre. Quando as estações são instaladas sobre calçadas que se encontram em avenidas altamente movimentadas e com fluxo de automóveis em velocidades muito superiores a 70km, sem que haja apaziguamento dessas velocidades ou criação de infraestrutura segregada para ciclistas, onde se espera que os ciclistas que alugam essas bicicletas trafeguem? Ou eles voarão, como a bicicletinha que levava o ET (o que não seria nada mal, né, Joaquim dos Santos); ou se arriscarão entre carros velozes e imprudentes tirando finas; ou imporão sua presença sobre as calçadas, nem sempre bem desenhadas ou bem cuidadas. Aqui, o conflito que se estimula é entre todos, pedestres, ciclistas e automotores.

Veja, a empresa que mantém o serviço alega que faz as instalações aonde a prefeitura determina. A prefeitura… bem, fale com a prefeitura. E no jogo de empurra, motoristas, ciclistas e pedestres, mais uma vez, estão lançados no ambiente hostil do salve-se quem puder, vence o mais forte.

Antes de atacar as vítimas, moradores de uma cidade abandonada à própria sorte pelo poder público e explorada pela parceria deste com a iniciativa privada, vale ampliar o olhar e reavaliar aonde se encontra a raiz do problema e da solução que quer brotar. Porque é de onde nasce o problema que vem a solução. O que não dá é para podar a árvore errada.

 

Aborto: argumentos masculinos e a qualidade da comunicação

Homens a favor e contra o aborto em um tópico de rede social. Em menos de uma hora, eram mais de 250 trocas de mensagens. Me dediquei a ler cada uma.

Algumas curiosidades: até aquele momento apenas homens participavam das trocas, o tom da argumentação era violento e autoritário, a discussão estava concentrada no direito à vida (do feto, futura criança) e na responsabilidade da mulher. Quando a palavra abandono apareceu, dizia respeito a um possível abandono da futura criança pela mulher-mãe, ou de uma mulher-mãe abandonada pelo homem-pai que seria impelida, portanto, a abandonar a criança pela vulnerabilidade de não ter um homem que olhasse por ela e pela criança.

Direito de escolha, saúde pública, planejamento familiar entre outros pontos importantes, até aquele momento passaram ignorados. Também se ignorou a (in)equidade de gênero e a opressão macho-capitalista sobre os corpos, principalmente o corpo produtivo e reprodutivo da mulher.

Na longa troca de mensagens, eu fui capturada pelas escolhas dos argumentos, pelos entendimentos, pelas palavras usadas e pela qualidade da interação.

Sobre a qualidade da interação, a violência e a truculência argumentativa foram os aspectos mais explícitos. Certas abordagens não são apenas desnecessárias. Elas são deteriorantes: de quem enuncia a fala, de quem recepta a fala, e de qualquer possibilidade de diálogo.

Exemplificando. O autor do tópico, dentro das trocas de mensagens, defende seu entendimento à favor do aborto argumentando que o ser em formação dentro do ventre não passa de um parasita. Enquanto tal pode sim ser abortado. Não é vida, não importa. Conclui que ele mesmo já levou uma namorada para abortar e que não sentiu nada.

Que tipo de resposta uma fala com esse teor espera obter?

Ainda dentro da qualidade da comunicação, e falando de estilo de argumentação, a mesma personagem, defende sua visão ‘pró-aborto’ fazendo uso de um argumento de autoridade para afastar argumentos contra. Não possuindo a autoridade necessária, toma emprestada a autoridade de um colega, que assume a propriedade de se multiplicar em coletivo: “os doutores em biologia deste thread são a favor do aborto”. Um caso típico de ‘gozar com o pau dos outros’.

Sendo tópico povoado de homens, pau é o que não faltou. Além de gozar com o do amigo, botou o seu na mesa e categorizou ser tão a favor do aborto que pagaria um aborto por mês e doaria pra sociedade. Ele pode. Já fez as contas e sabe que pode pagar pelo que chamou de “bolsa aborto”.

Além do absurdo e da autoridade (que não tem, mas tomou emprestada), foi lá no poder econômico, mantendo uma circularidade entre violência-absurdo-autoridade e investindo forte na bravata.

Entre os argumentos ‘contrários ao aborto’, um dos participantes entende que descriminalizar seria uma forma de legalizar o assassinato. Faz coro com outras falas e pontua o risco para uma cultura da banalização do procedimento, que estaria está ganhando status de método contraceptivo para corrigir consequências decorrentes da promiscuidade.

Um rapaz, inconformado, pergunta: O homem não pode escolher se a mulher aborta ou não? O que é isso, o homem virou um mero doador de sêmen?

Um outro compelementa: A mulher decide ficar com a barriga e gerar a criança e é o homem quem tem que pagar a pensão depois?

Um outro rapaz considera que “o Brasil é injusto com isso de aborto, porque uma parte (mulher) só tem direitos, e a outra (homem) só tem obrigações”.

Evidentemente, em algum momento veio o embate ciência e religião, cada um na sua fé, mas dentro do mesmo balaio. Nenhum dos dois, argumentadores pela religião ou pela ciência, foi capaz de se descolar da certeza de que sua verdade não era absoluta. Ambos entendiam que as verdades que traziam eram suficientes para ditar, de cima para baixo, cultura, costumes e comportamentos. Em um caso estava escrito na bíblia. No outro, os resultados de pesquisas sérias determinavam com clareza e precisão o instante em que a vida se inaugurava, ignorando que mesmo estes estudos trazem conclusões discordantes e incloclusivas. Seria mesmo esse o caminho do debate?

Sem sair muito do mesmo lugar, surge um homem ponderado. ‘A favor do aborto’, explica: não é sobre maternidade ou direito à vida, é sobre gravidez e abandono.

Não ficou claro o que ele gostaria de dizer com maternidade. O mesmo para direito à vida e gravidez. Sobre abandono, ele estava falando do abandono da criança por essa possível mãe em duas situações caricatas e muito específicas. Para ele, são duas as situações que fazem uma mãe abandonar uma criança.

Mães abandonam crianças porque não tem o apoio de um homem. Sozinhas e sem condições financeiras e/ou emocionais, seriam obrigadas a entregar seus rebentos para a criação de terceiros. Neste caso, o sofrimento seria grande, porque, naturalmente, elas aprenderam a amar aquele feto transformado em bebê ao longo de meses de gestação. É uma naturalização do amor incondicional maternal. As exceções seriam insanidade ou estupro.

Neste caso, de um estupro que gerou uma gestação, toda mulher engravidada sentiria, mais que nada, repulsa pelo feto em desenvolvimento e pela criança nascida. Mais uma visão estereotipada, naturalizada e generalizada que pouco contribui para o debate.

Confuso, um deles arrisca um acerto: nós nunca saberemos o que é estar no corpo de uma mulher.

Não. Não saberão. O que fazer? Escute. Aprenda. Aceite.

violência argumentativa – que tipo de pessoa precisa recorrer a isso?

consistentemente sente necessidade de afirmar que é “intelectualmente honesto”. faz isso com a mesma frequência com que acusa seus interlocutores de “desonestidade intelectual”. desconhece o debate. o habitat no qual prolifera é exclusivamente o da discussão agressiva e violenta. apenas aí triunfa, sob os aplausos da claque dos micos de auditório que adestra – os que ao longo dos anos se mostram intelectualmente dependentes, ansiosos por agradar aqueles que reconhecem detentores de status e poder; o tipo interesseiro, que engole toda sorte de sapo com a esperança de um dia receber migalhas do olimpo aonde habitam os deuses raquíticos que elas mesmas inventaram.

como é típico das personalidades com comprometimento egóico e dos covardes, quando confrontado procura esconder sua fragilidade sob o manto vil da virilidade, ingrediente essencial de toda forma de opressão.

se um interlocutor aponta um caminho distinto do seu credo, que assume infalível e inquestionável, responde com a desqualificação do interlocutor. outra estratégia que usa com frequência, e sem vergonha, é o argumento de autoridade em associação a ameaças diretas à pessoa do questionador. em sua defesa, diz que só trabalha com dados e acusa o interlocutor discordante de miopia ideológica. curiosamente, insiste em proclamar que é “esquerda liberal”, mas, veja bem, nada do que fala é atravessado por ideologias: alto lá, vítima da ideologia é você, seu merda.

como bom crente, deposita sua fé no deus mercado, esse punheteiro de mão invisível que o visita nas noites frias e solitárias. parece que não era nascido em 2008. reafirma sem titubeios que o mercado tudo salva, tudo regula, tudo protege. claro! não é manipulável pelas perversões humanas. lembra? em 2008 não era nascido. não tem como ele saber melhor…

evidentemente, a melhor solução é sempre privatizar. tudo. calma. não sempre. em países onde os mecanismos de governança estão consolidados e as instituições são fortes o bastante para inibir e coibir a corrupção, estatais até podem funcionar. mas no brasil… no brasil não. privatiza. vende tudo. não importa para quem. não importa como. a solução que eu preciso é agora! olha os dados que eu trouxe. fonte, recorte, metodologia? para que? olha os dados que eu trouxe. eles são incontestáveis. fui EU quem os compilou e analisou. EU, “ intelectualmente honesto”, não me questiona. mas se questionar, tem que ser intelectualmente honesto como EU, senão não vou aceitar. e quem determina sua honestidade intelectual sou EU, e EU disse que você é um desonesto intelectual! olha os meus micos curtindo o que eu falo. olha como eles me validam. shhhhh é que eu faço regabofe pra otário. boto garrafa de álcool cara na mesa, liberado. boto tabaco na roda, liberado. falo pra todo mundo o quanto custou cada gota de cachaça que estou entornando. falo pra todo mundo quanto custou cada folha do tabaco que eu estou queimando. e tem mais, isso aqui, isso aqui custou tanto! e isso, nem falo, mentira, falo sim! custou TANTO! os micos deliram e sem necessidade de comando já vão abrindo o botão das calças, ajoelhando, baixando a cabeça, ficando de quatro e apertando curtir.

divertido era ver o dito cujo, o liberal de esquerda, jogando seu canto de sereia pra quem é surdo ao encantamento. whisky? não bebo álcool. obrigado. tem água? charutão cubano? não fumo. abre a janela? a fumaça tá incomodando. ah, puxa, parabéns pela sua compra, mas ela não me interessa.

como dominar quem não se submete às mesmas regras medíocres do mundo que você habita? não domina. a solução? hostiliza. tenta desacreditar. faz logo um block.

gente, esse cara é um cara tão legal. “intelectualmente honesto”. só trabalha com dados. não é vítima de ideologias, um liberal de esquerda, apenas.

prefiro botar dinheiro na mão do pobre do que pagar salário pra funcionário de estatal, insiste. eu pensando: nossa, essa frase faz todo sentido. e ele continua: porque, você sabe, o funcionário da estatal ganha acima do valor do mesmo cargo no mercado privado. evidências? ele disse.

acima do mercado ou não, pergunto, mas as responsabilidades são as mesmas? a “accountability” é a mesma? a competência é a mesma? os salários que o mercado pratica são justos? se há discrepância, o correto é mesmo jogar todos os salários para o patamar do mercado, essa criança besta e mimada?

não importa! o mercado não é justo e nem injusto. o mercado regula! você tem que ser bom. o que não pode é sustentar vagabundo. então, privatiza. mediocriza o salário de todo mundo. não trabalha pra fortalecer instituições, democracia, governança. não dá tempo. o papel do brasil é servir. esqueceu? somos o celeiro do mundo. o estábulo. o galinheiro. o puteiro. o cercado dos porcos.

os micos? curtindo, aplaudindo, repetindo, amplificando. o bufo afaga o mico: bom mico padawan, vem aqui, pega mais essa garrafa de álcool caro.

ah, o bufo… como ele é bom.

A luz e a bigorna

Associar iluminação e segurança parece ser solução inquestionável e eficiente para que mulheres sintam menos vulnerabilidade no espaço público da rua.

Mas será mesmo que a vulnerabilidade que as mulheres carregam como bigornas desaparece com a presença de um poste luminoso?

Se sim, ela não é real e não passa de uma sombra deformada que se projeta sobre a parede, e que a luz apaga. Em outras palavras, a experiência de interdição ao espaço público que as mulheres sofrem não passaria de uma fantasia de criança, que tão logo a luz se acende, deixa de ver monstros se deslocando pelas paredes do quarto.

Eu suspeito que isso não seja verdade. A sensação de vulnerabilidade é real. O medo é real. A interdição é real. Tudo isso é real, porque a ameaça é real e mata. Suspeito, ainda, de que não é a luz que vai afastar esse peso. Pelo menos, não a luz elétrica.

Compartilho três experiências que afastam de mim a certeza na crença de que a iluminação pública é o que elimina a ameaça (concreta) de violência contra a mulher.

Em uma das situações, chegava em uma cidade desconhecida, era noite e eu estava próxima a um porto. Sendo carioca, a referência porto não é sinônimo de segurança. Noite tampouco. As ruas próximas de onde eu estava não eram exatamente iluminadas. Já vinha cruzando fronteiras de carro. Chegando no hotel, a primeira medida foi esquecer que o carro existia. Queria explorar a cidade a pé. Apesar do receio (medo mesmo) fui andando pelo caminho indicado na recepção, beirando o cais do porto. Poucos metros à frente, de uma viela ainda mais escura do que a rua aonde eu estava, surge uma senhora com um schnauzer na coleira. Pergunto se o meu destino ficava longe. Sorridente e tranquila, indica que são apenas 3 km, talvez um pouco mais, e aponta uma ladeira. Eu estava no caminho certo. Pergunto ainda se era seguro. Ela ri, entre surpresa e divertida com a pergunta, e, curiosa, quer saber de onde eu sou. Conclui que sim, claro que era seguro. Sigo, ainda desconfiada. Vez ou outra, alguém passeando um cão, ou grupos de adolescentes falando alto. Presenças efêmeras. Nem bem surgem, logo desaparecem.

A certa altura, chego em uma praça. Luz? Certamente alguma luz teria. Bem iluminada? Não. Não mesmo. Eu diria até que era uma praça escura, cheia de arbustos frondosos, o que deixava o lugar ainda mais assustador para os meus olhos. Ali, no meio da praça escura e praticamente deserta, uns bancos de cimento e uma mesa, sobre a qual uma adolescente entre 16 ou 17 anos, estava sentada. Cabelos longos. Jovem. Mulher. Linda. Sozinha. Eu sentia frio. Ela parecia nem notar. Usava uma microssaia. Estava atenta à tela do seu celular, um iPhone que não se preocupava em esconder. Distraída com o aparelho, usava ainda fones nos ouvidos.

Em um outro canto mais afastado da praça uns rapazes ocupavam outra mesa. Caras passaram pela moça. Ninguém olhou para ela. Ninguém falou nada. Ela também não levantou os olhos do celular. Estava relaxada. Nesse instante, me convenci: ah, sim, acho que é seguro.

Será que foi a luz que suspendeu o peso da bigorna de cima da menina? Não. Até porque luz era o que não havia. Então, o que seria? Duas suspeitas:

(1) Talvez alquela sociedade fosse menos desigual economicamente: a moça se sentia segura, no escuro quase deserto da praça, com seu iPhone última geração.

(2) Talvez aquela sociedade fosse menos desigual com relação ao tratamento de gênero: ser mulher, jovem e bonita não fazia dela uma vítima; ela estava no lugar certo – praça escura – e com a roupa certa – microssaia – e com a pessoa certa – ela mesma.

Em outra ocasião, eu seguia com uma urbanista que me mostrava a cidade viva e alegre, cheia de ciclistas e pedestres ocupando calçadas e ruas que foram devolvidas aos pedestres. Por algum motivo repeti o que eu nem acredito, mas que ouço tanto: uma rua mais iluminada traz mais segurança para mulheres. Ela parou séria: Que bobagem! Se um lugar é seguro, pode estar deserto e escuro, você não terá medo. O que faz ser seguro para as mulheres é os homens não terem comportamento predador. Lembrei do episódio da menina na praça escura e briguei comigo mesma por repetir como verdade coisas que ouço serem ditas como verdade.

Além destes dois episódios, outra experiência recente me fez duvidar de que apenas a iluminação faria tanta diferença. Em 2017, junto ao coletivo Facção Feminista Cineclube e de Carol Guimarães, participei da produção de um curta metragem entitulado ‘Sobre dormentes estamos acordadas’. Tratamos da mobilidade sob uma perspectiva de gênero, tomando o trem como modal em análise. Uma das locações era uma estação, cuja linha de trem dividia o bairro em dois. Descendo por um lado, o acesso às residências e comércios era simples. Pelo outro, para acessar as casas e comércios, era necessário atravessar um longo corredor sem iluminação formado pelos muros de dois cemitérios. Para evitar essa passagem estreita, comprida, deserta e mal iluminada, as mulheres que queriam chegar à esse lado do bairro desciam pelo lado oposto e tomavam um ônibus para dar a volta por outro bairro, para então chegar em suas casas. Iluminar esse corredor estreito e deserto mudaria essa sensação de insegurança?

Talvez não seja a iluminação fator suficiente e necessário para acabar com a interdição dos espaços públicos às mulheres. Imagine, a rua é iluminada e está até bastante movimentada, no entanto, a frequência parece intimidadora. Como você se sentiria, segura e confiante ou achatada sob o peso  do medo?

Entusiamo pela Vida

Claro que teve a clássica brincadeira de esconder dela algum objeto. O “sumiço” e recuperação do celular “perdido” aconteceu quando o bolo ia chegando à mesa. Depois do parabéns e de assoprar as velinhas, um amigo fez uma declaração. Foi tão espontânea e certeira que lembro exatamente das palavras dele.  — Eu desejo para cada um de nós esse mesmo entusiasmo que você mostra por comemorar o seu aniversário, mesmo depois de todos esses anos.

Essas palavras ficaram comigo desde então. Não só as palavras, mas a expressão que ele tinha no olhar. Isso me fez prestar atenção em cada uma das pessoas que estava na mesa naquele dia. Isso foi no dia 22 de outubro de 2017.

Depois disso, um monte de coisas aconteceu. Além dessa comemoração vieram outras para celebrar esse mesmo dia. O dia do nascimento. O dia em que para ela se fez a vida. Veio também o diagnóstico .

Esse entusiasmo não era só pelo aniversário. Estava presente diante do simples, nas coisas do cotidiano, na singeleza do ordinário; como a perspectiva de retomada do grupo de RPG em janeiro de 2018.

Amiga, acho que posso te chamar assim, nesse curto período de dois meses foram internações longas e breves altas para passar as festas em casa. Cada um de nós te desejando o melhor e força. No dia 31 de dezembro, nova entrada no hospital. Hoje a notícia da evolução do quadro. Tenho certeza que muitos são os pensamentos voltados pra você, quem sabe até envolvidos na esperança de um milagre. Somos assim.

O milagre é você. O milagre sou eu. O milagre é cada um de nós. E isso merece mesmo ser celebrado. Sempre. Sem pretextos. E é por isso que me aproprio das palavras bem colocadas do amigo para agradecer por essa lição, e renovar os votos para que  cada um de nós possa encontrar em si esse mesmo entusiasmo seu pelo simples e puro de estar e ser no instante presente.

Nota: ao concluir esta minha pequena homenagem a você recebi a notícia da sua partida. Vá em paz. Fica a saudade, o estarrecimento e a gratidão pela lição deixada.

 

 

 

Lembrete de Morte

tudo aquilo que você toca

tudo aquilo que você faz

tudo aquilo que você ama

tudo aquilo que você come

tudo aquilo que você fala

tudo isso se acaba

 

tudo aquilo que você sente

tudo aquilo que você transa

tudo aquilo que você bebe

tudo aquilo que você traga

tudo isso se acaba

 

tudo isso é aquilo

tudo aquilo é isso

 

tudo isso é vida

tudo isso é forte

tudo isso é mais

tudo isso é morte